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CAPÍTULO I FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E MATRIZES POLÍTICAS DA

1.3 LEITURAS E POSSIBILIDADES DA COMPREENSÃO DO PENSAMENTO

Para compreender o pensamento pedagógico-filosófico de Freire na luta por uma educação democrática e humanizadora, optamos por fazer uma leitura analítica e crítica de suas obras, um caminho que nos propomos a trilhar, embora a proposta não constitua uma tarefa fácil. Nesta pesquisa adotamos a concepção freireana de ensino, porque o pensamento pedagógico de Freire sugere que ao homem é possível transcender: ressignificar sua existência corrigindo seu mundo e a si mesmo. De outro ângulo, o pedagogo nordestino sugere a história como possibilidade. Contudo, a possibilidade à qual se refere não é uma radical abertura desprovida de um sentido imanente. Esta possibilidade segue o sentido próprio do desenvolvimento da vida,

[...] é a probabilidade do desenvolver-se enquanto ser mais cabível ao homem à sociedade [...] a noção de história como possibilidade traz consigo a ideia de que o natural movimento de progresso na liberdade – a libertação – só não se realiza quando o impossibilitamos (SILVA, 2012, p. 107-108).

Antes, porém, temos a consciência sempre crítica de que é difícil fazer a interlocução com as obras de alguém cujo ideário pedagógico e político ultrapassou espaço e tempo, visto que Paulo Freire durante sua vida fez denúncias categóricas à educação opressora que de maneira velada contínua sustentando os interesses políticos, econômicos e sociais de uma elite cega às necessidades dos cidadãos.

Não é nenhuma novidade que a elite dominadora fazia da educação um excelente instrumento para conspirar contra as reivindicações legítimas dos oprimidos, porque interessa ao poder opressor “enfraquecer os oprimidos mais do que estão, ilhando-os, criando e aprofundando cisões entre eles, através de uma gama variada de métodos e processos” (FREIRE, 2005, p. 161). Com a educação libertam-se os cidadãos e as cidadãs, mas com ela também é possível oprimi-los. Para ilustrar essa linha de raciocínio, trazemos Rousseau (1995, p. 8), quando afirma que “moldam-se as plantas pela cultura, e os homens pela educação”.

A ausência dos intensos pronunciamentos de Paulo Freire nos debates da educação é prejudicial. No âmbito da educação brasileira é difícil imaginar que as discussões filosóficas e

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pedagógicas não contarão mais com a sua valiosa contribuição, embora devamos reconhecer que sua presença continua imortalizada nos ideais que ao longo dos anos defendeu.

No campo da educação a contribuição de Freire é inegável. Sem cairmos no saudosismo, não há como negarmos que sua ausência tem empobrecido o labor pedagógico e dificulta compreender a educação escolar pautando-se na concepção pedagógica freireana, ainda que suas obras ampliem os nossos horizontes na implantação de uma prática educativa libertadora, um caminho que permite discutir politicamente a educação preconizada por Freire. De acordo com Santos (2013, p. 65-66), todo o pensamento de Freire está dirigido a uma teoria do conhecimento aplicada à educação:

[...] sustentada por uma concepção dialética em que educador e educando aprendem juntos em uma relação dinâmica, na qual prática orientada pela teoria, reorienta essa própria teoria, em um processo constante de aperfeiçoamento.

Para analisar criticamente o pensamento pedagógico de um educador que tanto influenciou o sistema educacional no Brasil e no mundo afora como foi Paulo Freire ante a vulnerabilidade das políticas educacionais não é uma tarefa simples. Porém, a ferrenha luta de Freire por uma educação democrática, humanizadora e cidadã, divorciada de interesses escusos daqueles que reduzem a educação a uma oportunidade para intensificar a escravidão dos oprimidos em todas as dimensões, torna um pouco menos complexo o caminho pela democratização da educação.

A dificuldade de analisar as obras de Paulo Freire é também compartilhada por Nunes (2013, p. 187) nestes termos: “Sei muito da dificuldade que é fazer um texto analítico e contextual de sua obra, quer pela proximidade e empatia histórica e política que nos une, quer pela admiração que o aluno tem por seu mestre insuperável, em tempos tão duros e fugidios como os de nossos dias”.

Apesar das dificuldades que o sistema educacional atual enfrenta, o pensamento pedagógico-filosófico de Freire contagia gerações, pois “há legiões de pessoas espalhadas por diversos países, seguidores do legado deixado pelo educador Paulo Freire, lendo, formando pessoas através do pensamento, da sua filosofia de vida, de visão de mundo e reinventando suas obras” (GARRIDO; GENEZIO, 2013, p. 17). Gomes (2013, p. 134) afirma que o pensamento freireano “congrega, agrega, reúne e disponibiliza as pessoas para a reflexão e o trabalho conjunto”. Nessa linha de pensamento a professora Cavaco (2013) diz que a concepção pedagógica freireana é relevante e atual, podendo constituir-se no objeto de

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constantes estudos e reflexões de todos daqueles que defendem e (ou) lutam por uma educação democrática e cidadã que é contrária a quaisquer formas de dominação ou exploração.

O pensamento freireano, de fato, nos desafia a encarar a educação de maneira diferente, porque, como promotor de uma concepção educativa libertadora, defendia a coerência pedagógica para todos os níveis de escolaridade. Partindo desse princípio, uma liderança revolucionária se compromete com os oprimidos na luta por sua libertação, pois nenhum libertador pode ansiar pela liberdade dos oprimidos estando longe da luta. Os homens são seres da práxis, logo “não há revolução com verbalismos, nem tampouco com ativismo, mas com práxis, portanto, com reflexão e ação indicando sobre as estruturas a serem transformadas” (FREIRE, 2005, p. 142).

Como fora dito anteriormente, o educador e filósofo Paulo Freire, homem não está mais entre nós. Logo não é possível contar mais com a sua valiosa participação nos debates educacionais em favor da educação brasileira. Em contrapartida, seus ideais permanecem vivos na memória de cada educador brasileiro consciente da necessidade de uma educação fundamentada no modelo progressista de ensino, tendo em vista que suas denúncias contra um sistema educacional elitizado abrem o caminho para a implantação de uma prática educativa libertadora ou emancipatória. Daí ser importante educar como prática da liberdade e para a liberdade, como nos esclarece o professor Lima (2013).

Educar é um ato político, portanto deve propiciar aos homens e às mulheres ferramentas necessárias para que o autoentendimento e o entendimento coletivo comprometam politicamente os sujeitos do processo, tornando-os atores sociais capazes de construir a própria história. Em tempos marcados por um afunilamento econômico oriundo da globalização das nações, a velocidade das informações é cada vez mais surpreendente. Tudo muda a cada instante e as pessoas não permanecem iguais o tempo todo. A sociedade é dinâmica, portanto os sujeitos do processo não permanecem os mesmos. Afirma Freire (1996, p. 139) que “o mundo encurta, o tempo se dilui: o ontem vira agora: o amanhã já está feito. Tudo muda rápido”. Não há cultura nem história imóveis. O mundo não é. O mundo está sendo (FREIRE, 2000). O mundo não permanece o mesmo ontem e hoje. Nada do que foi ontem se repetirá nas mesmas condições hoje. Por conta das inesperadas e constantes mudanças impostas pela própria sociedade, a consciência política dos sujeitos é fundamental para transformar a educação como prática da liberdade.

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A nossa luta é por uma educação integral que acaba resultando em uma formação integral dos sujeitos e não a sua redução a um puro treino, atitude fortalecida pela educação autoritária, cujo modelo pedagógico é sujeito de severas críticas, das quais também fomos vítimas. Sendo vítimas das mazelas educacionais procedentes de um processo educativo autoritário, anacrônico, seletista e desumano, buscar na concepção pedagógica freireana constitui a saída para a emancipação do processo educacional que o Brasil almeja.

Uma leitura crítica e coerente das obras de Paulo Freire nos prepara melhor para os enfrentamentos radicais da vida. Partindo do pensamento do filósofo e educador pernambucano, é impossível alcançar a liberdade, sem choques de interesses entre as classes sociais. Freire, de fato, tinha consciência de que a efetivação da liberdade significativa exige, necessariamente, a luta consciente de classes. Por isso, seu argumento fundamentava-se na convicção de que vale a pena lutar por elementos radicais da democracia, sendo a crítica um elemento básico de transformação social, sem que a forma de pensar política ou pedagogicamente se divorcie da forma de entender o mundo que nos cerca. No entanto, uma leitura equivocada dos escritos freireanos pode prejudicar o entendimento de sua perspectiva filosófico-pedagógica.

Às vezes, como pensador Paulo Freire é mal interpretado. Para alguns, ele é visto como o inimigo do rigor científico. Equivocam-se aqueles que assim o interpretam, e para dirimir possíveis dúvidas, o próprio Freire (2006, p. 110) se defende nestes termos: “Não há, nunca houve nem pode haver educação sem conteúdo, a não ser que os seres humanos se transformem de tal modo que os processos que hoje conhecemos como processos de conhecer e de formar percam seu sentido atual”. É evidente que Paulo Freire defende uma educação que adota um conteúdo escolar programático coerente com a realidade dos sujeitos do processo, isto é, que não ignora o rigor da ciência, aliás, a rigorosidade metódica da ciência corrobora para o pensar certo dos sujeitos.

Como educador e cidadão, Freire se posicionava contrariamente à soberba intelectual, por alimentar a ilusão de que um curso coordenado ou uma aula ministrada tenha o poder para transformar o país. Acredita-se que o mínimo que essas ações podem demonstrar é a possibilidade de mudança. É pura ingenuidade pensar que a educação, só ela, decidirá o destino da história de uma nação. Ela é importante, mas sozinha não consegue consolidar as mudanças requeridas (FREIRE, 1996). Logo, é necessária uma postura humilde e consciente para que o educador possa intervir com êxitos no processo pedagógico. Todavia, não se de trata de humildade de fazer favor, de pura tática, uma vez que é fundamental respeitar:

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[...] o princípio de que a dimensão educativa é um processo coletivo, no qual o educador tem de apropriar-se dos mecanismos pedagógicos de expressão e explicação das lutas, das dúvidas, das incertezas, com senso crítico para problematização e transformação da sociedade (LIMA, 2013, p, 168-169).

A resposta para as contradições sociais, políticas e econômicas reside na consciência politizada dos sujeitos do processo. Isto é, a educação como prática da liberdade não é apenas importante, mas necessária. Ela é uma prática política que o docente, como cidadão, de maneira consciente, deve assumir como luta pela salvação da escola como o espaço de diálogo entre os sujeitos e da práxis pedagógica. A luta consciente e coletiva entre educadores e educandos a favor da salvação da escola como espaço democrático de debates políticos- pedagógicos faz-se necessária, porque o mundo só pode se salvar quando houver o esforço conjunto das partes.

Em síntese, a história da educação no Brasil só se explica se analisarmos a história da dominação política portuguesa e da exploração mercantilista empreendida. A economia retardada e exploratória descurava da necessidade de uma escola para todos. Bastava a ilustração para as elites agrárias e as camadas servis de burocratas e serviçais. Com a Monarquia não se alterou o quadro. Se a economia manteve suas bases escravocratas e exploratórias não havia razão para a mudança da educação e a oferta de escolas. Foi a economia anacrônica a explicação e justificativa para o retardo educacional e seu consequente autoritarismo.

Na experiência política vivida pela implantação da República no Brasil, tanto em seu ideário quanto em suas diferentes etapas, muda-se pouco. A matriz da Primeira República é quase a mesma dos períodos coloniais, e a Educação permanece como privilégio de classe no Brasil. Com a industrialização tardia (1930), a educação e a escola passam a assumir um papel estratégico, determinado pela concepção de escola burguesa ou moderna. GV e as diferentes legislações que se estabelecem no século XX assumem paulatinamente a educação e a escola como direitos. Na ditadura militar dos anos 1964 a 1985 a educação brasileira é levada a assumir uma identidade tecnicista, resultando na clivagem de uma escola pública para as camadas populares, marcadas pelo apelo ao trabalho, e a escola particular voltada para a preparação dos quadros que galgariam a universidade pública e os melhores empregos no país. Não foi sem luta esse tempo. O passivo educacional do analfabetismo tomou a consciência dos movimentos educacionais da época. Desses movimentos emergiu a original atuação de Paulo Freire, primeiro como educador de adultos, depois como intelectual orgânico da educação dialógica.

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Paulo Freire é um dos arautos dessa nova concepção e proposta da educação como direito emancipatório e prática de humanização. Seu perfil e sua intervenção na história política e cultural do Brasil e do mundo são inestimáveis – saiu exilado do Brasil, esteve no Chile, na África e na Europa – elevam-no a um dos maiores expoentes da educação mundial. E essa atuação, marcada em livros, cartas e obras, ainda revela um pesquisador original, um militante apaixonado, um ser humano ímpar, um intelectual orgânico decidido. O pensamento de Paulo Freire emerge de condições históricas contraditórias e nos impulsiona a garimpar nele as inspirações para superar as matrizes autoritárias e desumanizadoras que cresceram no transcorrer do século XX, a impulsionar as lutas deste desafiador século XXI e III milênio.

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CAPÍTULO II - POLÍTICA, EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E ESCOLA: O ESTIGMA