• Nenhum resultado encontrado

Leonardo ante os “democráticos” e os “bloquistas”

No documento República e Liberdade (páginas 44-46)

augusto aLVEs Da VEiga E a rEPÚbLiCa

2. Um republicano diletante

2.1. Leonardo ante os “democráticos” e os “bloquistas”

Desde Outubro de 1911, Leonardo Coimbra passou a desempenhar as funções de Director do Colégio do Órfãos de Braga – um prémio do Partido Republicano

Português – ainda que, rapidamente, se tenha incompatibilizado com o provedor

do orfanato, de cuja direcção se demitiu, devido ao pendor pedagógico largamente libertário que pretendeu imprimir à instituição (mandou apear o sino da capela do orfanato, dispensou os alunos das regulares obrigações religiosas, aboliu os castigos escolares e incitou os alunos à liberdade através dum são convívio com a natureza)20. Esta auréola anarquista ainda o nimbava, nos fins de 1912, como

o mostram os receios dos conservadores da Póvoa de Varzim, quando o filósofo portuense foi ali colocado como professor do Liceu (1912-1914)21 e onde,

também, aderirá à Maçonaria – provavelmente, sobre a influência de Santos Graça – iniciando-se na loja local Luz e Caridade com o nome simbólico de Kant22. Todavia, esses receios, rapidamente, se volveram em aplauso entusiasta,

após a conferência proferida pelo filósofo portuense sobre “Os humildes”, em 23 de Novembro de 1912, a pedido do seu amigo Santos Graça e presidida pelo republicano poveiro, dr. Caetano Oliveira23. Mas se Leonardo Coimbra, nas suas

intervenções publicas, deixou claro, ainda que implicitamente, o seu afastamento do anarquismo, não mostrou grande entusiasmo pela governação republicana.

20 Sobre o que Leonardo Coimbra passou no Colégio e as razões que o incompatibilizaram, veja-se a entrevista que

deu ao jornal republicano A Montanha (Porto, 15.XII. 1911), reproduzida na antologia CCDE, p. 44 e Sant´Anna Dionísio, LC/FT., pp. 41-43.

21 Sobre a estadia de Leonardo Coimbra, na Póvoa de Varzim, como professor, veja-se o estudo exaustivo de Pinharanda

Gomes, “Leonardo Coimbra na Póvoa de Varzim, (1912-1914)”, in Póvoa de Varzim. Boletim Cultural, edição da Câmara Municipal, vol. XXVII, nº 1, 1990, pp. 81-152 e, no que aos receios dos poveiros diz respeito, vejam-se as pp. 92-93. Doravante citaremos este artigo pela sigla LCPV/PV.B.C.

22 A.H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, I, Lisboa, Editorial Delta, 1986, cols. 360-61. Leo-

nardo Coimbra transitará, em 1919, para as lojas maçónicas lisboetas Madrugada e Renascença, atingindo o grau 3, nesse mesmo ano, mas foi irradiado da instituição, em 1930, por falta de pagamento das quotas (ibidem). Sobre o papel de Santos Graça na entrada de Leonardo na Maçonaria ver Pinharanda Gomes, LCPV/PV.B.C., pp. 88 e 123.

23 L. Coimbra, in CCDE, p. 52. Veja-se, a este propósito, António Santos Graça, “Leonardo Coimbra, professor do

Recordemos que estavam no poder, desde Setembro de 1911 – e estarão durante todo o ano de 1912 – Ministérios de iniciativa presidencial, onde pre- dominavam os “unionistas” de Brito Camacho, com o apoio da maioria parla- mentar (o “bloco”), governos que não parecem ter tido a simpatia de Leonardo Coimbra, pois referindo-se à situação política, em fins de 1912, lamentava que a República se tivesse divorciado da “alma popular” e tivesse optado pela “política de campanário”, ou seja, por uma política ao serviço de interesses mesquinhos e partidários e não do interesse público24. Este desencanto mantinha-se no início

de 1913, como se pode verificar pelo teor da sua conferência proferida, no dia 31 de Janeiro deste ano, no Centro do Partido Republicano da Póvoa de Varzim, onde Leonardo Coimbra desvalorizou o “sentimento revolucionário” do 5 de

Outubro relativamente ao do 31 de Janeiro, apesar da sua “brilhante apoteose à

República e à Liberdade”25. Por sua vez, conta António Sérgio a Raul Proença –

em cartas enviadas a este, do Brasil, de 21 de Abril de 1913 e Maio do mesmo ano – que Leonardo Coimbra o informara que a República portuguesa – e essa informação aparece associada à opinião de Sérgio sobre Afonso Costa – “ia o pior possível”, ainda que, alguns dias depois, Leonardo tenha dito – sublinha Sérgio – o contrário ao Mundo, ou seja, tenha elogiado e bajulado um regime que considerava “torpe”26. Ora, pelas cartas de Sérgio a Proença, ficamos com

a convicção de que Leonardo Coimbra, quando falou da República, se estava referir, também, a Afonso Costa, elogiando e bajulando, n´O Mundo, um regime que ele, o próprio Coimbra, considerava torpe. Ora estas conclusões estão longe de ser verdadeiras. Cotejando as datas das cartas de Sérgio a Proença, com a entrevista dada por Leonardo a Oldemiro César (publicada pelo Mundo, em 10 de Agosto de 1912), concluiu-se que a opinião de Leonardo Coimbra, sobre a República, foi manifestada a António Sérgio pouco antes de 10 de Agosto de 1912 (data de publicação da entrevista d´ O Mundo a Leonardo). Ora, como nessa ocasião, dirigiam, ainda, os destinos do país os governos do “bloco” (unio- nistas, evolucionistas e grupo de deputados republicanos independentes), quer

24 Idem, “Virtudes públicas”. Conferência proferida no Centro Republicano Português da Póvoa de Varzim, em

30.X.1912 (onde estava na parede, ao lado da bandeira nacional, o retrato de Afonso Costa), reproduzida pel´O Comercio da Povoa de Varzim, ano X, nº 2, 15.XII.1912, p. 2 (in CCDE, p. 54). Veja-se, ainda, Pinharanda Gomes, LCPV/PV.B.C., pp. 99-100.

25 Idem, “A República e a Liberdade”, O Comercio da Povoa de Varzim, ano X, nº 10, 9.II.1910, p.2, in CCDE, p. 57

e Pinharanda Gomes, LCPV/PV.B.C., pp. 110-112.

26 António Sérgio, Correspondência para Raul Proença. Organização e introdução de José Carlos González, com um

isto dizer que não era, de forma alguma, a Afonso Costa que se estava a referir a alegada opinião de Leonardo sobre a República, mas aos “bloquistas”. Por outro lado, na citada entrevista que Leonardo deu a´O Mundo não encontrei as invocadas frases de “elogio bajulador” para com a República e para com a situação política, a que se refere Sérgio. O que Leonardo diz nessa entrevista – dada com o propósito de esclarecer as finalidades da Renascença Portuguesa – é que os republicanos, no seu afã de combaterem o regime monárquico (regime do “roubo”) e de acrisolar a sociedade portuguesa, recorreram a meios (creio que Leonardo estava a pensar em filosofias pró-naturalistas, como o positivismo e o evolucionismo) que não eram os mais adequados à nossa regeneração moral; regeneração que também não se devia esperar de qualquer “igreja política ou literária”, mas sim, primordialmente, das forças “criadoras” do espírito. E mais não disse. Se Leonardo, em Agosto de 1912, qualificou a situação política, em carta a Sérgio, como “torpe”, a entrevista que deu a´O Mundo, nesse mesmo mês, em nada contraria essa opinião (a não ser que também não é – como diz Sérgio – um “elogio bajulador” à República). De qualquer modo creio que se pode afirmar, pelas suas opiniões, manifestadas na citada entrevista d´O Mundo de 1912, e, mais tarde, nas conferências proferidas na Povoa de Varzim, em Novembro desse mesmo ano e, em Janeiro de 1913, que o novo regime, sob a governação dos “bloquistas” o desencantava, sob vários aspectos (mas não ao ponto desse desencanto indiciar qualquer saudosismo pela Monarquia ou por uma qualquer alternativa política hostil ao parlamento e aos partidos políticos, ou desvalorizadora destes).

2.2. Leonardo perante a política de intransigência (Afonso Costa) e de

No documento República e Liberdade (páginas 44-46)