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3 ESTUDOS DO LETRAMENTO

3.1 LETRAMENTOS: DISCUTINDO CONCEITOS

Como ressaltado na seção anterior, as estruturas ideológicas e de po- der participam da formação dos indivíduos como leitores. Por viverem em uma sociedade grafocêntrica, os sujeitos desta pesquisa inseriam-se em diferentes eventos de letramento, mesmo sem saberem ler e escrever ou lendo parcialmente. Celina, antes de estudar na EJA, lia o letreiro do ôni- bus que a conduzia quando precisava ir ao médico, utilizando a estratégia de gravar a primeira letra, atividade que, segundo ela, tornou-se complexa quando criaram os terminais de integração de ônibus em Florianópolis, e ela precisava pegar mais de um ônibus para chegar ao seu destino. Zenir, Celina e Jonatas verificavam se seus filhos haviam feito as tarefas escola- res, auxilindo-os na medida do possível; Zenir utilizava lista de compras para ir ao supermercado, e Aroldo lia as instruções referentes ao tipo e às medidas do mármore que iria cortar na oficina em que trabalhava. Esses são alguns exemplos do uso de leitura feita pelos sujeitos investigados, e todos eles sempre utilizavam estratégias para participar dos eventos de le- tramento das esferas sociais em que se inseriam.

Kleiman (2004) e Tfouni (1988, 2006) asseveram não existir “grau zero” de letramento nas sociedades grafocêntricas, pois todos os

indivíduos, mesmo os não alfabetizados, conhecem estratégias orais le- tradas, interagem com textos e sabem a sua função, ou seja, não há ile- trados na sociedade brasileira atual, mas, sim, sujeitos não alfabetizados.

Como já afirmado, os indivíduos possuíam letramentos antes de en- trarem na Educação de Jovens e Adultos, cada um segundo sua história de vida61. É necessário enfatizar, como destacado anteriormente que, ao

mostrar como os sujeitos não ou pouco escolarizados interagiam na so- ciedade atual centrada na leitura e na escrita, não se está defendendo a não ou a pouca escolarização ou o “relativismo”62, já que tal condição

exclui e segrega. Ao apresentar as estratégias dos sujeitos investigados, pretende-se contribuir para a democratização do acesso à educação e ao mesmo tempo mostrar que, apesar de não participarem do grupo cultural dominante, essas pessoas possuem vários conhecimentos e atribuem va- lores e sentidos à leitura e à escrita, utilizando-as de diferentes maneiras e com distintos objetivos.

Não se nega o importante papel da escola na formação dos adultos que não tiveram garantia do direito à escolarização quando crianças, nem se desvaloriza a necessidade do conhecimento sitematizado, mas urge de- monstrar que a simples transferência de conhecimentos e sua relação com uma gama de caracterísiticas consideradas benignas, pressuposto do le- tramento autômono, como afirma Street (1984), não é suficiente para uma sociedade mais justa e igualitária. As dimensões política e econômica são fundamentais para a transformação social. Embora a escola tenha uma fun- ção muito importante nesse processo, ela sozinha não modifica as relações sociais estabelecidas. Conforme a perspectiva de Freire (2005 e 2006), a educação é um dos caminhos para a libertação via conscientização. É ne- cessário criar possibilidades para que o indivíduo construa conhecimentos e tenha uma posição crítica diante das informações que recebe.

O caráter político e ideológico que envolve os letramentos, tanto os de- senvolvidos na escola como os praticados em outras esferas sociais, leva en- tão os estudiosos do letramento63 a utilizar diferentes conceitos em pesquisas

etnográficas e no processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita.

61 A discussão sobre os eventos de letramento de que os sujeitos participavam será analisada com profundidade no quinto capítulo desta tese.

62 Termo utilizado por Street (2003a).

Iniciando pelo conceito de evento de letramento, que foi fundamen- tal para esta pesquisa. É definido por Heath (1982, p. 50), em uma das primeiras obras em que discute o conceito64, como “[...] ocasiões em que

a língua escrita é parte integrante da natureza das interações dos parti- cipantes, de seus processos interpretativos e de suas estratégias”65 (tra-

dução nossa). Eventos propiciam a análise do uso da escrita dentro do letramento situado, podendo-se identificar as interações cotidianas com a língua escrita. É a parte visível dos letramentos, sendo possível observar o papel da escrita nas diferentes esferas sociais. Os eventos de letramen- to podem ser orais, escritos, com interlocutores presentes ou ausentes, com diferentes tipos de materiais escritos, mas sempre mediados pela escrita. A autora complementa a definição afirmando que, nessas ativi- dades, “[...] participantes seguem regras socialmente estabelecidas para verbalizar o que sabem sobre o material escrito. Cada comunidade tem regras para interagir socialmente e partilhar conhecimentos em even- tos de letramento”66 (HEATH, 1982, p. 50, tradução nossa). Para Street

(2003a), as regras e convenções estabelecidas socialmente não facilmen- te visíveis, sobejam, dão sentido e organizam os eventos de letramento.

Percebeu-se, em todas as interlocuções com os sujeitos, que, mesmo fora da EJA, eles falavam sobre textos e com eles se relacionavam de diferentes formas. Como já afirmado, a instituição escolar é a principal esfera social de promoção dos letramentos, mas não é a única. E exis- tem várias formas de dar sentido aos eventos de letramento. Os textos podem ser utilizados em diferentes contextos, com sentidos e funções distintas, dependendo das intenções do leitor e da finalidade do even- to de letramento de que participa. As possibilidades, formas e manei- ras de utilização da linguagem escrita estão em constante transformação na sociedade. Os eventos de letramento são diversificados e podem fi- car sobrepostos, não sendo possível ver claramente o início e o fim de cada um. A junção desses eventos forma o que Barton e Hamilton (2005)

64 Street (2003b) afirma que os primeiros autores que definiram eventos de letra- mento foram A. B. Anderson, W.H Teale e E. Estrada, em 1980.

65 “[…] occasions in which written language is integral to the nature of participants’ interactions and their interpretive processes and strategies” (HEATH, 1982, p. 50). 66 “[…] participants follow socially established rules for verbalizing what they know from and about the written material. Each community has rules for socially interacting and sharing knowledge in literacy events” (HEATH, 1982, p. 50).

denominam de “evento significativo”, que enseja a análise da interação social vivenciada pelos participantes (BARTON; HAMILTON, 2005).

Já as práticas de letramento67, conceito também utilizado neste estu-

do, constituem um conceito amplo normalmente associado a diferentes esferas sociais. Para os sujeitos acompanhados nesta pesquisa, realizar uma atividade escrita na EJA possuía sentidos diferentes de preencher um livro caça-palavras em casa para lazer e entretenimento e de ler ma- nuais de instrução no local de trabalho. Barton e Hamilton (2005) aler- tam que as práticas são híbridas e sobrepostas e que as pessoas podem utilizar em uma situação o que aprenderam em outras. Por exemplo, nas atividades com caça-palavra em casa, Zenir aprendeu características que o auxiliaram a preencher com mais facilidade as atividades com caça-pa- lavra na EJA. Os sujeitos desta pesquisa foram descobrindo papéis que poderiam desempenhar em diferentes situações.

As práticas culturalmente reconhecidas em esferas sociais específi- cas influenciam nos eventos de letramento de que cada sujeito participa. As práticas associam os eventos de letramento aos padrões culturais e sociais que os cercam, como formas de pensar, agir e dar sentido à lei- tura e à escrita em contextos sociais. Conforme Street (2003a, p. 8), “[...] trazemos para um evento de letramento conceitos, modelos sociais rela- cionados à natureza que o evento possa ter, que o fazem funcionar, e que lhe dão significado”. As práticas de letramento fornecem a base do que acontecerá nos eventos, moldando a forma como eles ocorrem. Constata- se, portanto, que elas vão além das interações sociais observáveis e se relacionam com a ampla padronização social, são formas culturais de uti- lizar a leitura e a escrita na vida cotidiana. Existem práticas dominantes e outras sem a mesma valoração social. Para Barton e Hamilton (2005), é importante perceber as relações de poder envolvidas nos letramentos, já que demonstra e define as relações hierárquicas entre as pessoas. Essas relações discriminam e marginalizam o grupo das pessoas pouco esco- larizadas, foco de análise desta pesquisa. Por fazer parte do letramento situado, as práticas são construídas social e historicamente a partir de ou- tras já existentes. Barton e Hamilton (2005) comentam que os eventos de

67 Segundo Street (2003b), o conceito práticas de letramento foi desenvolvido por ele em 1988 na obra: Street, B. “Literacy practices and literacy myths.” In R. Saljo (Ed.) The Written Word: Studies in Literate Thought and Action, Springer- Verlag Press, 59-72, 1988.

letramento são dinâmicos e formados pelos processos interativos entre as pessoas, pois podem ter finalidades sociais ou individuais e múltiplos e conflitantes interesses.

Estudos visando conhecer as práticas de leitura dos indivíduos, como os desta pesquisa, fundamentam-se no aprofundamento do convívio e das falas dos participantes nas entrevistas. Em uma análise superficial das práticas de leitura de Zenir, expressas na epígrafe citada no início deste capítulo, dir-se-ia que ele não lê nada. Poder-se-ia enquadrá-lo, ro- tulá-lo como analfabeto funcional ou como analfabeto, pois para ele os vários eventos de letramento dos quais participava não eram conside- rados atividades de leitura. Como já dito, o significado dos eventos de letramento é próprio de cada cultura, o que torna impossível defini-lo sem conhecer a cultura ou estabelecer um olhar etnográfico como pro- põem os Novos Estudos do Letramento. Como ressalta Street (2003a, p. 8), “[...] práticas de letramento referem-se a esse conceito cultural mais amplo das formas específicas de pensar e de fazer a leitura e a escrita dentro dos contextos culturais”. Ao observar os eventos de letramento, pode-se conhecer as práticas culturais da comunidade. Essa discussão torna-se relevante para a educação escolar, pois como afirmam Barton e Hamilton (2000), a forma como as pessoas compreendem os letramentos é importante para o seu aprendizado e as suas teorias servem como base para suas ações em diferentes esferas sociais.

Ao se definirem os conceitos de práticas e eventos de letramento, neste texto, foi utilizada várias vezes a palavra cultura ou termos dela derivados. Para melhor compreensão do que se quer dizer ao falar de práticas culturais e diferentes culturas, é necessário explicitar de que lu- gar se está falando ao utilizar esse conceito. Corroboram-se as afirma- ções de Street (2008) quando cita seu artigo escrito em 1993 e comenta que o importante não é definir cultura, mas dizer o que ela faz. Segundo ele, vive-se a partir de definições, conceitos e concepções criados pela cultura. Ao estudá-la, não se busca aceitar as definições, mas investigar o motivo de elas existirem. Para o autor, “cultura é um processo ativo de construção de significados e disputas sobre a definição, incluindo a sua própria definição. Isto, então, é o que quero dizer, argumentando

que Cultura é um verbo”68 (STREET, 1993, apud STREET, 2008, p. 3,

tradução nossa). Como a cultura é um processo, uma ação, um espaço de transformação e disputas, é modificada conforme o contexto históri- co. Acrescenta-se à definição de Street (2008) a perspectiva de Canclini (2008). Este autor defende que a cultura é organizada de forma peculiar e sofre modificações pelo contato com outras culturas de forma individual ou coletiva, ocorrendo o processo de hibridização. Segundo ele, devido à complexidade contemporânea, essa relação se intensificou, minimizando as fronteiras entre as culturas, resultando em cruzamentos socioculturais intensos e frequentes. Para o autor, hibridização cultural é o processo complexo de intercâmbio e fusão de culturas, ou seja, maneiras de mes- clar práticas sociais.

As ideias de Bakhtin (2006) poderiam complementar essa discussão ao afirmar que a cultura está arraigada ao próprio indivíduo e só é com- preendida em profundidade aos olhos de outra. A relação dialógica, a interação com o outro, permite a proposição de questões antes naturali- zadas. Nas palavras de Bakhtin (2006, p. 366), “nesse encontro dialógico de duas culturas elas não se fundem nem se confundem; cada uma man- tém a sua unidade e a sua integridade aberta, mas elas se enriquecem mutuamente”. As questões centrais para este estudo quanto à definição de cultura são sua constante transformação, combinação e recombinação com outras culturas. Para se conhecer uma cultura não é possível analisá- -la com definições prontas, pois cada uma tem características e modos próprios de significar suas práticas. Ao realizarem práticas letradas, os sujeitos desta pesquisa participaram de diferentes grupos culturais que marcaram as suas formas de ler. Para compreender a complexidade das leituras realizadas pelos sujeitos, conforme as perspectivas adotadas, não se pode ignorar as interações culturais que marcam a subjetividade de cada sujeito, os quais não estão limitados a uma única forma de conceber a leitura. As práticas de leitura não são puras, mas plurais, mescladas, misturadas e recombinadas constantemente.

Torna-se importante destacar que se concorda com Lahire (2002, p. 170) quando afirma que “[...] nenhuma prática, nenhuma ação, nenhuma forma de vida social existe fora das práticas linguageiras [...] que tomam

68 “culture is an active process of meaning making and contest over definition, including its own definition. This, then, is what I mean by arguing that Culture is a verb” (STREET, 1993, apud STREET, 2008, p. 3).

formas variadas [...] cujas funções sociais são múltiplas”. Os enuncia- dos são novos e diferentes elos na cadeia discursiva, estando diretamen- te relacionados com as interações cotidianas. Pelas questões expostas, tornou-se fundamental aprofundar nesta pesquisa a discussão sobre a concepção dialógica de linguagem.