7. Diagnóstico Ambiental das Cavidades da ADA
7.2 Diagnóstico do Meio Biótico das Cavidades na ADA
7.2.3 Levantamento Qualitativo e Quantitativo da Fauna Cavernícola e Caracterização do
São discutidos a seguir os resultados obtidos na primeira campanha de campo dos estudos de bioespeleologia. Nesta etapa do trabalho (campanha de campo realizada entre os dias 9 e 15 de abril/2009) foram feitos registros e coletas sistemáticas de invertebrados e vertebrados nas seguintes cavidades: Abrigos Sismógrafo/Tatu, Abrigo da Gravura, Gruta do China, Caverna Kararaô, Abrigo do Abutre, Abrigos Assurini, Abrigo do Paratizão e Abrigo Kararaô.
As observações sobre os ambientes cavernícolas, juntamente com algumas considerações sobre o entorno imediato das cavidades, são apresentadas no QUADRO 7-2.
QUADRO 7-2
Observações do ambiente cavernícola e entorno imediato Abrigo /
Caverna
Data da
Inspeção Observações do Ambiente Cavernícola
Descrição Sucinta do Entorno Imediato
Abrigos Sismógrafo /
Tatu
09/04/2009
Abrigos pequenos, Zonas de Entrada e Penumbra, muito úmido (gotejamentos). Musgos nas paredes. Acúmulo de guano com larvas de Díptera. Pouco acúmulo de folhiço. Em um dos abrigos foram avistados cerca de 50 morcegos. Substratos: inconsolidado (areia) e paredes.
Localizado na margem esquerda do rio Xingu, em cota superior àquela prevista para o reservatório, a montante de Altamira, estes abrigos está circundado por áreas de pastagens e Floresta Ombrófila Aberta.
Abrigo da
Gravura 09/04/2009 Inundada, sem possibilidade de coletas.
Este abrigo situado a jusante do Abrigo do Sismógrafo e a montante de Altamira, também na margem esquerda do rio Xingu, sendo inundado periodicamente devido a dinâmica sazonal deste rio.
Gruta do
China 10/04/2009
Entrada em teto baixo, substrato formado por sedimento inconsolidado e paredes (FIGURA 7-1). Gotejamento de água por toda a caverna, muita umidade.
Localizada próxima à Transamazônica e a Vila de Santo Antônio, também próxima à Caverna e Abrigo Kararaô.
Caverna
Kararaô 10/04/2009
Caverna com pequeno riacho e várias entradas (FIGURA 7-2). Presença de interação ecológica interessante: serpente Boidae da espécie Corallus hortolanus predando morcegos. População extremamente numerosa de baratas (enterrando-se no substrato). A caverna aparentemente funciona como um ótimo abrigo para várias espécies de vertebrados. Ecologicamente relevante. Presença de Zonas de Entrada, Penumbra e Afótica.
Em área bastante alterada em remanescente de Floresta Ombrófila Aberta, com pastagem.
Abrigo do
Abutre 11/04/2009
Abrigo pequeno com raízes. Na margem do Rio Xingu, passível de inundação (FIGURA 7-3). Muitos musgos nas paredes. Apenas Zona de Entrada.
Situado na margem direita do rio Xingu, em frente à cidade de Altamira, numa área bastante alterada, próximos aos Abrigos Assurini e a estrada Transassurini.
Abrigos
Assurini 11/04/2009
Aparentemente utilizados por moradores para recreação (FIGURA 7-4). Apenas zonas de Entrada e Penumbra.
Situados na margem direita do rio Xingu, em frente à cidade de Altamira, numa área bastante alterada (área de entorno desmatada), próximos a estrada Transassurini.
Abrigo do
Paratizão 12/04/2009
Zonas de Entrada (FIGURA 7-5) e Penumbra. Pegadas de aves e substratos inconsolidado e paredes.
Situado a jusante de Altamira, na margem esquerda do rio Xingu, próximo às margens deste rio, porém em cota superior àquela prevista para o reservatório (FIGURA 7-6). Todo o entorno desmatado.
Abrigo totalmente iluminado, com paredes repletas de musgos e liquens e
Em área bastante alterada, em remanescente de Floresta
FIGURA 7-1 - Coleta de invertebrados
terrestres na Gruta do China (detalhe de substrato – paredes)
FIGURA 7-2 – Entrada da Caverna do
Kararaô, Zona de Entrada, com pequeno riacho correndo em substrato rochoso e arenoso.
FIGURA 7-3 – Entorno do Abrigo do Abutre,
às margens do Rio Xingu, com várias árvores e raízes.
FIGURA 7-4 – Entrada de um dos abrigos
na região do Assurini, com indícios de utilização para recreação (restos de fogueira).
FIGURA 7-6 – Vista da Gruta do Paratizão
(coleta manual de morcegos), com Rio Xingu ao fundo. Zona de Entrada.
O Anexo 5 apresenta uma lista sistemática de espécies registradas e identificadas até o momento. No total, foram registradas 50 espécies. Os quantitativos por cavidade são apresentados a seguir:
− Abrigos da região do Sismógrafo – 26 espécies; − Abrigos da região do Assurini – 25 espécies; − Caverna Kararaô e Abrigo Kararaô – 23 espécies; − Gruta do China – 21 espécies;
− Abrigo do Abutre – 18 espécies; − Abrigo do Paratizão – 16 espécies.
Ressalta-se que a lista apresentada no Anexo 5 é parcial e a identificação das espécies preliminar. Pois além da dificuldade de identificação do material coletado, espécies observadas de vertebrados e que possuem hábitos estritamente cavernícolas também estão sob revisão taxonômica, como é o caso do gênero Natalus. O levantamento de quirópteros realizado anteriormente observou esta espécie (identificada no estudo como Natalus
stramineus) em quatro cavidades da região, uma delas na ADA e três na AID. Devido as
pendências taxonômicas e filogeográficas, estudos filogenéticos e de dinâmica populacional foram recomendados nos relatórios que compuseram o diagnóstico do EIA.
Considerando ainda o que foi solicitado no TR, uma melhor caracterização das interações ecológicas da fauna cavernícola, como também a identificação de espécies migratórias, ameaçadas, raras, endêmicas e nocivas ao ser humano, será possível após a identificação do material coletado e a realização da segunda campanha, quando o conjunto de dados será analisado e consolidada a integração.
Entretanto, cabe ressaltar que boa parte da fauna provavelmente configura-se como acidental (e.g., formigas, cupins, alguns coleópteros, caranguejos braquiúros, aranhas caranguejeiras). Os trogloxenos típicos também foram registrados como as espécies de morcegos e de opiliões. Outras espécies são troglófilos registrados amplamente em cavernas de outras regiões brasileiras (percevejos da família Reduviidae, aranhas das famílias Pholcidae e Theridiosomatidae, amblipígeos da família Heterophrynidae). Entretanto, algumas considerações ecológicas relevantes já podem ser apresentadas:
− Registrou-se apenas uma espécie de amblipígeo (a se confirmar uma segunda espécie), mas, esta se mostrou amplamente distribuída nas cavernas da área de influência (FIGURA 7-7).
realizava várias tentativas de captura destes (Caverna Kararaô). Sendo uma espécie arborícola, esta espécie de serpente alimenta-se de roedores, morcegos e aves, apresentando grande variação no padrão de coloração. Com ampla distribuição geográfica, habita ambientes florestais úmidos, como as florestas amazônica e atlântica. Foi registrada nos estudos da herpetofauna conduzidos no âmbito do diagnóstico do EIA nos levantamentos realizados em 2000/2001 e em 2007/2008.
− Foi observada uma população numerosa de baratas da família Blaberidae (FIGURA 7-
10), muitas delas enterradas em substrato inconsolidado. Tal substrato encontrava-se em
perfeito estado de preservação, sem sinais de pisoteamento ou qualquer outro impacto. Claramente trata-se de uma população relevante, uma vez que no Brasil não há registros recorrentes de grandes populações de baratas desta família (Abrigo Kararaô);
− A única espécie de planária registrada (verme platelminto) também foi feita no Abrigo Kararaô, apresentando uma população abundante. Fato relativamente raro para cavernas brasileiras.
Preliminarmente, pode-se considerar que a Caverna Kararaô representa singularidade para a fauna cavernícola, uma vez que foram observadas maior diversidade de vertebrados utilizando este ambiente, como anteriormente citado: Bufo sp., serpente (Corallus hortulanus) e duas espécies de morcego (Anoura sp. e Tadarida brasiliensis).
FIGURA 7-7 – Amblipígeo Heterophrynus longicornis – registrado na maioria das
cavernas.
FIGURA 7-8 – Sapo Bufo sp. registrado
FIGURA 7-9 – Serpente Corallus hortolanus utilizando abrigo e se alimentando de morcegos (obs. pess.) na Caverna do Kararaô.
FIGURA 7-10 – Blattaria (Blaberidae sp. 1).