I. LEXICOLOGIA
1.4. Lexicologia e lexicografia: relações complementares
Através dos estudos de Quemada (1987: 230-232), constata-se que a designação de lexicografia, formada a partir de lexicologia, não se relacionava com a feitura de dicionários. O termo lexicografia remetia para a disciplina que estudava a grafia das palavras, disciplina complementar da lexicologia que se dedicava ao estudo das palavras na sua elocução.
Na obra Méthode en lexicologie, de Georges Matoré, publicada em 1953, segundo Tamba-Mecz (1998: 22), surge pela primeira vez a distinção entre as duas disciplinas, embora tenha sido Saussure o pioneiro no uso do termo lexicologia:
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«Saussure est le premier à employer le terme lexicologie, dans le sens d`etude des “rapports syntagmatiques et associatifs entre les mots” (CLG, p. 187-188), mais cèst Georges Matoré qui consacrera le terme en le différenciant de lexicographie et sémantique».
A lexicologia possui como projeto o estudo polidimensional das palavras de uma língua. Contudo, como salienta Vilela (1994a: 10), a lexicologia não tem como função inventariar todo o material armazenado ou incluído no léxico, mas sim fornecer os pressupostos teóricos e traçar as grandes linhas que organizam o léxico de uma língua. Nesse sentido, Vilela considera que a função da lexicologia consiste em «apresentar as informações acerca das unidades lexicais necessárias à produção do discurso e caracterizar a estrutura interna do léxico, tanto no aspeto conteúdo, como no aspeto forma» (Vilela 1994a: 10).
Atendendo ao facto de a lexicografia se apresentar como o estudo da descrição da língua realizada pelos dicionários, efetuando uma aplicação dos dados fornecidos pela lexicologia, verifica-se a complementaridade entre as duas disciplinas e, por vezes, uma determinada indefinição relativamente aos limites dos respetivos campos de atuação. A lexicologia enquanto disciplina que abarca os domínios como a formação de palavras, a etimologia, a criação e importação de palavras, a estatística lexical, e que relaciona necessariamente com a fonologia, a morfologia, a sintaxe e em particular com a semântica, tem uma importância fulcral para os estudos do lexicógrafo19, autor de dicionários, que necessita de ter um conhecimento cabal do fenómeno lexical. Devido à estreita relação estabelecida entre o lexicógrafo e o lexicólogo, a lexicografia foi perspetivada como um ramo da lexicologia aplicada e a lexicologia como uma vertente teórica da lexicografia. No Dicionário de Termos Linguísticos20, acedemos à seguinte definição de lexicografia, reveladora da dificuldade de estabelecer a fronteira entre uma e outra ciência:
Ramo da lexicologia que se ocupa da realização de dicionários e léxicos. O termo pode ser também utilizado para designar o estudo teórico e a análise dos dicionários, da sua elaboração (metodologia) e da sua estrutura (lexicografia teórica). A lexicografia pode não implicar a realização de um dicionário mas apenas o recenseamento e a análise das formas e das significações das unidades lexicais observados do ponto de vista das suas combinatórias de funções.
19 Segundo Quemada (1987), a designação lexicografia, como arte do lexicógrafo, entra no dicionário apenas no século XIX. 20
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A aceção de lexicografia anteriormente apresentada vai ao encontro da oposição teoria vs. técnica correspondente, defendida por Mitterand: «comme en beaucoup d`autres domaines, la science s`est ici constituée bien longtemps après la technique correspondante» (Mitterand 1986: 103).
Analisando a problemática da fronteira entre as duas disciplinas, Pereira (2003: 44), evidencia o facto de «[…] o lexicógrafo ser também um lexicólogo e, inversamente, o facto do lexicólogo poder lançar-se na prática dicionarística faz que, no quadro de um projeto específico, a estabilidade das fronteiras entre as duas disciplinas pareça relativa ou até ténue».
Para a linguística teórica, a lexicologia estuda as unidades lexicais dentro dos limites da língua (langue) e a lexicografia ultrapassa as fronteiras do sistema para se debruçar também sobre as dimensões da fala (parole), isto é, das variantes de sentido ou significados da fala (Coseriu 1979a: 18-20; 1987: 211-215).
Mel`cuk (1995: 28), em conformidade com a teoria Sentido-Texto, apresenta uma conceção da língua como um sistema de módulos autónomos que estabelecem as respetivas correspondências entre as representações linguísticas de dois níveis adjacentes no sistema adotado dos quatro níveis principais de representação linguística: semântico, sintático, morfológico e fonológico. Deste modo, cada módulo garante a correspondência entre cada uma das representações linguísticas.
Mel`cuk et al. (1995: 28-29) consideram que a lexicologia, contrariamente à semântica, à sintaxe, à morfologia e à fonologia, não possui um módulo linguístico correspondente:
[…] la lexicologie n`a pas de module linguistique correspondant et n`est pas liée à une transition particulière entre deux niveaux donnés de représentation. Par contre, la lexicologie prend en charge l`unité centrale de tous ces niveaux – la lexie. Elle analyse et décrit le comportement des lexies à travers tous leurs «avatars» d`un niveau à l`autre; elle munit chaque lexie des informations nécessaires pour que cette lexie puisse être proprement traitée par la sémantique, la syntaxe, la morphologie et la phonologie. Pour ce faire, la lexicologie doit prendre en considération, et cela dans tous les détails, les traitements effectués par les quatre modules sous-jacents aux quatre disciplines linguistiques de base. Ainsi, s`élabore une boucle de rétroaction entre sémantique, la syntaxe, la morphologie et la phonologie, d`une part, et la lexicologie, d`autre part. En se fondant sur cette rétroaction, la lexicologie théorique détermine le contenu et la forme des informations à assigner aux lexies.
Realçando o pendor específico da lexicologia e o importante papel que desempenha no âmbito da lexicografia,Mel`cuk prossegue a sua reflexão:
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Une lexie munie de toutes ces données, organisées de façon systématique et cohérente, n`est pas autre chose qu`un ARTICLE DE DICTIONNAIRE. Le regroupement des lexies ainsi décrites constitue bien évidemment un dictionnaire. On voit donc que le dictionnaire est infailliblement l`objet d`etude, l`instrument de recherche et le produit final de la lexicologie (Mel`cuk 1995: 29).
Em oposição à gramática, o léxico encontra-se intimamente associado ao conhecimento do mundo, por isso, o seu estudo, numa perspetiva exclusivamente imanentista ou linguística no sentido restrito do termo, isto é, sintática, não é exequível. Enquanto no domínio sintático as estruturas linguísticas são imanentes (Morris 1985: 31-32; 43-54), a descrição do universo lexical carece dos conhecimentos de outras disciplinas, apresentando-se a lexicologia, em particular, e o estudo das estruturas linguísticas do significado, em geral, como estudos pluridisciplinares (Corbin 1980: 55 e 118).
Para a lexicologia, o léxico configura o objeto empírico sobre o qual, enquanto ciência modelada metodologicamente pela linguística, projeta um modelo teórico e coerente. Em contrapartida, a lexicografia apresenta uma visão do léxico que ultrapassa a dimensão meramente lexical, projetando, em simultâneo uma visão da língua ou das línguas descritas. Como Rey defende: «En effet on s`en doute le dictionnaire ne parle pas que de lexique; toute une langue s`y disloque et s`y reconstruit selon les contraintes transformationnelles qui en font un objet nouveau» (Rey 1977: 94).
Em suma, a lexicologia e a lexicografia estabelecem relações complementares entre as faces distintas do mesmo objeto, relacionando-se ambas com objetivos também distintos, embora complementares.