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3. O DIREITO E ECONOMIA COMO INSTRUMENTO DE ANÁLISE DA

3.3. TRIBUTAÇÃO, FINANÇAS PÚBLICAS E ANÁLISE ECONÔMICA DO

3.3.2. Estado, mercado e a Curva de Laffer

3.3.3.1. Liberdade

A liberdade é, incontestavelmente, um dos direitos individuais básicos em todos os regimes democráticos. A queda do absolutismo e advento do Estado de Direito permitiu que o direito à liberdade fosse alçado a verdadeiro direito fundamental dos indivíduos. Num primeiro momento, sobretudo durante o Liberalismo, a liberdade era discutida apenas em sua acepção “negativa”, que corresponde à limitação da atuação do Estado e de terceiros sobre a esfera individual (essa visão representa o conceito de liberdade adotado pelos contratualistas clássicos, como Thomas Hobbes). Com o advento do Welfarismo, surge a discussão acerca das liberdades “positivas”, que representam a liberdade dos indivíduos participarem da vida em sociedade, através dos direitos econômicos e sociais, como educação, previdência, normas trabalhistas etc.

Contemporaneamente, essa classificação entre liberdades negativas e positivas foi incorporada aos diversos ordenamentos jurídicos, inclusive pela Constituição Brasileira de 1988. Em seu artigo 5º, a Constituição de 1988, ao disciplinar os direitos individuais, prevê diversas das liberdades negativas, começando pelo caput193 e passando pela liberdade de pensamento (inciso IV), religiosa (inciso VI), de expressão (inciso IX), profissional (inciso XIII) etc. Por outro lado, as liberdades positivas foram contempladas em normas como as relativas aos direitos sociais (artigo 6º ao 9º) e as que compõem a chamada Ordem Social (artigo 193 ao 232), em particular as normas relacionadas à seguridade social e à educação.

Mas a garantia do direito de liberdade, seja em qual acepção for, não é algo que deriva do Estado pura e simplesmente. O direito de liberdade custa caro. Um dos méritos da Ciência Econômica é enxergar os custos das escolhas sociais que fazemos, algo que muitas vezes passa despercebido da análise jurídica. O custo da liberdade, sobretudo das liberdades negativas, representa uma dessas situações onde, normalmente, a Ciência Jurídica preocupa-se apenas em garantir o direito, sem refletir sobre o custo necessário para tal iniciativa.

193 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantido-se aos brasileiros e aos

estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...] (grifo acrescido).

É nesse ponto que se insere a tributação. É ela que permite ao Estado garantir a manutenção do direito de liberdade, sejam as liberdades positivas ou negativas. Os custos vinculados às liberdades positivas normalmente são os de mais fácil constatação, já que se relacionam às diferentes políticas públicas estatais. Bens públicos como educação e saúde são discutidos constantemente pelo Estado, já que a dimensão do impacto orçamentário que eles causam é anualmente estimada através das diversas leis orçamentárias.

Já as liberdades negativas padecem exatamente do que poderíamos denominar de “ilusão do custo zero”. A sociedade normalmente não atenta para o fato de que a garantia do seu direito de ir e vir depende de uma atuação estatal no sentido de inibir a ação de terceiros (inclusive do próprio Estado) que eventualmente busquem cercear o referido direito individual. Essa atuação do Estado se materializa na criação de normas jurídicas sancionadoras, na existência de um aparato policial, na manutenção do Poder Judiciário etc. Todas essas instituições garantidoras do direito de liberdade (que, de resto, também representam bens públicos) impõem custos ao Estado, arcados por meio dos tributos. Daí se afirmar que a liberdade (e a concretização dos direitos de maneira geral) depende dos tributos194.

Do ponto de vista econômico, o direito à liberdade corresponde ao princípio da livre iniciativa, considerado, segundo a Constituição de 1988, tanto um dos fundamentos da República195 quanto da Ordem Econômica196. A livre iniciativa, apesar de não se limitar unicamente à acepção econômica, já que uma de suas facetas é exatamente a liberdade de trabalho197, tem como principal derivação a liberdade econômica, i.e., a liberdade que os indivíduos possuem de empreender, de exercerem atividade econômica198. Nesse sentido, a

194 Aqui fazemos referência à obra homônima de Stephen Holmes e Cass R. Sustein, The cost of rights: why liberty depends on taxes. Na doutrina tributária brasileira, o principal nome de referência no estudo da relação

entre tributação e liberdade é Ricardo Lobo Torres, que adota a expressão da tributação como “o preço da liberdade”. Cf. TORRES, Ricardo Lobo. A ideia de liberdade no estado patrimonial e no estado fiscal. Rio de Janeiro: Renovar, 1991, p. 3. Apresentando um panorama geral sobre a relação entre tributação e liberdade, cf. SCHOUERI, Luís Eduardo. Tributação e liberdade. In: PIRES, Adilson Rodrigues; TÔRRES, Heleno Taveira (orgs.). Princípios de direito financeiro e tributário – Estudos em homenagem ao Professor Ricardo Lobo

Torres. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 431-471.

195 Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do

Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [...] IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; [...].

196 Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim

assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social [...].

197 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo:

Malheiros, 2007, p. 213.

198 O dispositivo constitucional que contempla a liberdade econômica está expressamente previsto no artigo 170,

parágrafo único: “É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei.”

liberdade econômica corresponde tanto à liberdade de acesso ao mercado quanto à liberdade de permanência e saída do mercado.

Em que pese a interferência que os tributos exercem na liberdade econômica, onerando as atividades econômicas realizadas pelos particulares, é preciso reconhecer que sem a tributação sequer é possível pensar em livre iniciativa. Novamente, é a atuação estatal, através de suas instituições, que permite a manutenção de um ambiente de trocas no mercado, garantido o livre exercício da atividade econômica.

Por outro lado (e o raciocínio também é válido para o conceito de liberdade em sentido amplo), a tributação em si não é o responsável pela limitação ao exercício da livre iniciativa, mas sim o seu exagero. Dessa forma, os tributos devem se limitar até o ponto em que a receita arrecadada é suficiente para atender às finalidades públicas. Ultrapassado esse limite, no momento em que a carga tributária onera a atividade econômica ao ponto de inviabilizá-la, surgem os efeitos nocivos da tributação e a violação do direito à liberdade e do princípio da livre iniciativa. Nesse sentido, cabe recordar a reflexão proposta anteriormente, a respeito da relação entre o Estado, o mercado e a Curva de Laffer: sem mercado, não há Estado, já que não haverá de onde arrecadar tributos para o seu financiamento.

3.3.3.2. Propriedade

Assim como a liberdade, o direito de propriedade é uma das conquistas fundamentais resultantes do constitucionalismo moderno. O surgimento do Estado de Direito limitou, através das normas jurídicas, a intervenção estatal sobre a propriedade privada. Dessa forma, somente em determinados casos previamente estipulados no ordenamento jurídico, a exemplo da tributação, é que se permite ao Estado intervir ou expropriar a propriedade dos indivíduos (e aqui adotamos a expressão “propriedade” em sentido lato, representado toda e qualquer manifestação de riqueza individual, seja em termos físicos ou não), em particular quando essa intervenção é essencial à própria manutenção do governo e da vida em sociedade.

Conforme prevê a Constituição de 1988, a garantia da propriedade é tratada tanto como direito fundamental199 quanto como princípio da Ordem Econômica200. Enquanto direito

199 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos

estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à

propriedade, nos termos seguintes: [...]