CAPÍTULO 2 - A INTERNET E AS DIRETRIZES ÉTICAS PARA OS PRINCIPAIS
2.4 Colisões de princípios na Internet e a Ética como base de solução
2.4.1 Limites éticos ao exercício do direito à liberdade na rede
É possível afirmar que todos os conflitos na rede mundial de computadores, ao menos sob algum aspecto, derivam do exercício abusivo de alguma das facetas do direito à liberdade, notadamente da liberdade de expressão ou da liberdade de informação. Por isso, é tão delicado compreender os limites éticos que cercam o exercício deste direito, fazendo cair por terra a teoria de que o ciberespaço seria uma terra sem lei na qual tudo é permitido.
A instantânea quantidade de informações em comunicação de massa criou a falsa impressão de que o ciberespaço é uma terra sem fronteiras onde as pessoas do mundo podem estar interconectadas como se vivessem juntas numa pequena cidade, sem limites de ação, conceito que tem sido refutado decisivamente nas ações propostas ao redor do mundo (ABELSON; LEDEEN; LEWIS, 2008, p. 13).
Silva (2006, p. 231) explica que "o homem se torna cada vez mais livre na medida em que amplia seu domínio sobre a natureza", ou seja, com a evolução da sociedade, a tendência é que o círculo que delimita a esfera da liberdade se amplie. Entretanto, o direito à liberdade nunca foi assegurado de forma irrestrita, internacional ou constitucionalmente, assim como nunca se defendeu no campo da Moral que alguém pudesse exercê-lo sem limites.
Nos termos do artigo XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos, "todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras" (ONU, 2012a).
Especificadamente no tocante ao direito de ser informado e ter acesso à vida cultural da comunidade, estabelece o artigo XXVII da Declaração Universal dos Direitos Humanos que "todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios" (ONU, 2012a).
No âmbito do artigo 5° da Constituição Federal, colacionam-se os seguintes incisos quanto às dimensões da liberdade usualmente exercitadas no ciberespaço:
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
[...]
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
[...]
XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional; [...] (BRASIL, 2012a).
Em termos de sua disciplina no âmbito global e no nacional, considerado o tratamento dentro da rede mundial de computadores, o direito à liberdade pode ser visto como liberdade de pensamento, liberdade de expressão e liberdade de informação: primeiro, a garantia de se poder pensar qualquer coisa, depois a de poder expressar o que se pensa e, finalmente, o de buscar todas as informações que pretenda conhecer - aspecto negativo do direito à liberdade. No entanto, o exercício do direito à liberdade, em todas suas facetas, se limita pelos demais direitos fundamentais. Logo, se a liberdade é um direito fundamental, também é um dever fundamental que ela seja exercida de modo a preservar os demais direitos da mesma natureza.
Na esfera filosófica, percebe-se que o direito à liberdade é inerente ao homem, possibilitando o seu desenvolvimento enquanto pessoa humana. Vale lembrar que agir conforme a virtude não é algo que possa ser forçado, de forma que ninguém será de fato ético se não respeitar espontaneamente, de forma livre, os postulados morais - embora a lei seja um instrumento para punir aqueles que violem certos ditames éticos. É preciso garantir espaço para se deliberar a respeito do fim correto, vedando-se abusos, que nem ao menos ocorrerão se o homem seguir estritamente sua racionalidade. Aliás, a filosofia kantiana toma a liberdade como base das leis morais, somente podendo ser verdadeiramente exercida com o respeito à lei fundamental da razão pura prática - é a autonomia da vontade, que se difere da heteronomia do livre-arbítrio.
Silva (2006, p. 241) aponta que a liberdade de pensamento, que também pode ser chamada de liberdade de opinião, é considerada pela doutrina como a liberdade primária, eis que é ponto de partida de todas as outras, e deve ser entendida como a liberdade da pessoa adotar determinada atitude intelectual ou não, de tomar a opinião pública que crê verdadeira.
Na verdade, o ser humano, através dos processos internos de reflexão, formula juízos de valor. Estes exteriorizam nada mais do que a opinião de seu emitente. Assim, a regra constitucional, ao consagrar a livre manifestação do pensamento, imprime a existência jurídica ao chamado direito de opinião. (ARAÚJO; NUNES JÚNIOR, 2006, p. 140).
Por sua vez, conforme Silva (2006, p. 243), a liberdade de expressão pode ser vista sob diversos enfoques, como o da liberdade de comunicação, ou liberdade de informação, que consiste em um conjunto de direitos, formas, processos e veículos que viabilizam a coordenação livre da criação, expressão e difusão da informação e do pensamento. Contudo, a manifestação do pensamento não pode ocorrer de forma ilimitada:
a manifestação do pensamento é livre e garantida em nível constitucional, não aludindo a censura prévia em diversões e espetáculos públicos. Os abusos porventura ocorridos no exercício indevido da manifestação do pensamento são passíveis de exame e apreciação pelo Poder Judiciário com a consequente responsabilidade civil e penal de seus autores, decorrentes inclusive de publicações injuriosas na imprensa, que deve exercer vigilância e controle da matéria que divulga. (BONAVIDES, 2011, p. 39).
Afinal, os direitos humanos fundamentais "não podem ser utilizados como um verdadeiro escudo protetivo da prática de atividades ilícitas, tampouco como argumento para afastamento ou diminuição da responsabilidade civil ou penal por atos criminosos"
(BONAVIDES, 2011, p. 27).
É preciso destacar o papel dos meios de comunicação no que se refere à liberdade de expressão, porque estes influenciam na forma de exteriorização do pensamento e difusão de informações (SILVA, 2006, p. 245). Neste ponto se evidencia a influência do surgimento de novas mídias na evolução do direito à liberdade.
Silva (2006, p. 260) explica que, em face deste aspecto, deve ser destacado o direito à informação, dimensão coletiva da própria liberdade de comunicação:
o direito de informar, como aspecto da liberdade de manifestação de pensamento, revela-se um direito individual, mas já contaminado de sentido coletivo, em virtude das transformações dos meios de comunicação, de sorte que a caracterização mais moderna do direito de comunicação, que especialmente se concretiza pelos meios de comunicação social ou de massa, envolve a transmutação do antigo direito de imprensa e de manifestação do pensamento, por esses meios, em direitos de feição coletiva.
A marca da obra de Orwell consiste na defesa de que a liberdade deve ser garantida na vida social, sob pena de se acabar com o indivíduo. Perturbado, o protagonista de Orwell (2009, p. 101) define liberdade: "liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. Se isso for admitido, tudo o mais é decorrência".
Era tão consolidada a questão da perda de liberdade que os cidadãos eram incitados a odiar aqueles que um dia a defenderam. Gerando histeria nos presentes, o vídeo dos dois minutos de ódio, reunião diária obrigatória na qual todos odiavam um inimigo invisível contrário ao Partido, as falas deste favoráveis à liberdade são motivo de revolta:
Goldstein atacava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata celebração da paz com a Eurásia, defendia a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída (ORWELL, 2009, p. 23).
Poucos, ou quase nenhum, percebiam que o medo era a marca desta nova sociedade, não o medo de agir contra o Partido manifestando sua revolta, mas o simples medo de pensar
contra a massa. Quando Winston começa a escrever um diário criticando o Partido, já sabe que será morto em pouco tempo, apenas por pensar de maneira diferente dos demais:
não fazia a menor diferença levar o diário adiante ou não. de toda maneira, a Polícia das Ideias haveria de apanhá-lo. Cometera - e teria cometido, mesmo que jamais houvesse aproximado a pena do papel - o crime essencial que englobava todos os outros. Pensamento-crime, eles o chamavam.
(ORWELL, 2009, p. 29).
Liberdade é mais do que apenas se expressar, liberdade é ser. Para alguém se dizer uma pessoa, deve ter liberdade para pensar como quiser, algo essencial até mesmo para a manutenção da sanidade mental. Sabendo disso, Winston escreveu em seu diário:
não era fazendo-se ouvir, mas mantendo a sanidade mental que a pessoa transmitia sua herança humana. Voltou para a mesa, molhou a pena da caneta e escreveu: "ao futuro ou ao passado, a um tempo em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós - a um tempo em que a verdade exista e em que o que for feito não possa ser desfeito: Da era de uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensamento - saudações!" (ORWELL, 2009, p. 39-40).
A liberdade de pensamento proporciona a construção da individualidade, da autonomia pessoal. O desejo de ser indivíduo deve fazer parte do ideário humano, de modo que o corpo social nunca seja superior à pessoa humana, mas apenas sustentáculo ao seu desenvolvimento livre. Em Huxley (1998, p. 86), Bernard expressa o desejo incomum de ser mais indivíduo e menos parte do todo:
mas eu quero [...] Isso me dá a sensação [...] de ser mais eu, se é que você compreende o que quero dizer. De agir mais por mim mesmo, e não tão completamente como parte de alguma outra coisa. De não ser simplesmente uma célula do corpo social. Você não tem a mesma sensação, Lenina?
Ao ser questionado por Lenina sobre esta vontade de não ser parte do corpo social, Bernard continua fazendo um complexo questionamento sobre o condicionamento social, pensando como seria se ele não estivesse escravizado pelo que o Estado incutiu nele. Trata-se de clara defesa da liberdade de pensamento, sem a qual não há autonomia ou individualidade:
"como posso? Não, o verdadeiro problema é este: como é que não posso, ou antes - porque eu sei perfeitamente por que é que não posso - o que sentiria eu se pudesse, se fosse livre, se não estivesse escravizado pelo meu condicionamento?" (HUXLEY, 1998, p. 86).
A liberdade de informação também desempenhava relevante papel neste contexto, manipulando o tipo de conteúdo que seria lido por cada uma das castas. Assim, o acesso às informações também era condicionado pela divisão dos jornais em castas: Rádio Horário, para castas superiores; Gazeta dos Gamas e Espelho dos Deltas (HUXLEY, 1998, p. 64-65).
Na rede, diversos são os recursos para o exercício da liberdade de expressão, postando conteúdos, e da liberdade de informação, buscando algum tópico de interesse, ambas decorrentes da liberdade de pensamento. A princípio, como reforçam Mateucci e Pignatari (2005, p. 32), quando surgiu o ciberespaço a impressão era a de que se tratava de um território sem dono, onde tudo poderia ser feito sem consequências, mas esta posição foi perdendo forças, dando lugar às discussões sobre a necessidade ou não de criação de normas específicas limitadoras. Com efeito, despontou uma segunda corrente, mais coerente e que prevalece no estudo da liberdade na rede hoje em dia, que parte do pressuposto que "toda liberdade, por mais ampla que seja, encontra limites, que servem para garantir o desenvolvimento ordenado da sociedade e dos direitos fundamentais de qualquer sujeito, e este princípio se aplica também ao direito à liberdade de informação" (PAESANI, 2006, p. 24). Não que a Internet deva ser exaustivamente regulamentada, o que poderia retirar o seu caráter dinâmico e liberalista, mas nunca se deve perder de vista que a cada liberdade corresponde um dever.
Entre os casos pontuais de limites ao exercício do direito de liberdade podem ser apontados: a defesa do direito ao anonimato, a vedação da censura, a proibição de flaming e a garantia da expressão e do acesso à informação.
Como visto neste tópico, talvez tudo parta dos direitos de expressar o pensamento e buscar informações, os quais se encontram assegurados eticamente - pelo Direito, na qualidade de direito fundamental; pela Moral, enquanto instrumento de construção das individualidades. Então, a princípio, é uma diretriz ética permitir que todos manifestem seu pensamento e busquem informações que lhes sejam úteis, salvo em caso de colisão com outras leis éticas que também merecerão respeito.
Quanto ao direito ao anonimato, tem-se que a Internet propicia uma impressão de que se é invisível, de que é possível não se identificar, criando identidades paralelas. Trata-se de uma falsa impressão, posto que salvo se utilizadas técnicas específicas de redirecionamento do IP é fácil identificar quem postou ou acessou certo conteúdo. Este direito ao anonimato não é assegurado constitucionalmente, assim como sob o aspecto moral não pode ser admitido esconder a sua própria personalidade para prejudicar outrem.
Muitas pessoas, por razões legais e válidas, gostariam de proteger sua identidade, talvez por serem dissidentes ou visando coibir injustiças. Contudo, é questionável se a tecnologia permite algum anonimato em prol da liberdade de expressão. As novas possibilidades de vigilância têm sido usadas cada vez mais como armas. Aliás, estas tecnologias deixam inúmeros rastros, chegando a ser possível afirmar a morte do anonimato.
(ABELSON; LEDEEN; LEWIS, 2008, p. 30).
Para Paesani (2006, p. 54), na rede é possível assumir uma identidade livre de condicionamentos, o que evidencia a sua liberdade total e peculiar, sendo que as tentativas de limitar a possibilidade de anonimato violam esta característica fundamental. Neste ponto, o entendimento da autora não deixa claro o que é o anonimato admissível na rede: uma coisa é esconder totalmente a sua identidade por mecanismos de redirecionamento de IP ou então praticar falsidade ideológica contra terceiros de boa-fé, outra coisa é criar uma identidade paralela como um pseudônimo sem impedir que a sua verdadeira identidade possa ser identificada em caso de ilícitos. O primeiro anonimato que é o vedado, por colocar em risco a justiça social e os direitos de terceiros, abrindo espaço para um exercício irrestrito do direito de liberdade. Moralmente, as qualidades da honestidade e da sinceridade impedem que o anonimato seja utilizado para prejudicar a outrem, como um modo de esquiva para a prática de atos contrários à ética.
A respeito da censura prévia, tem-se não cabe impedir a divulgação e o acesso a informações como modo de controle do poder. A censura somente é cabível quando necessária ao interesse público numa ordem democrática, por exemplo, censurar a publicação de um conteúdo de exploração sexual infanto-juvenil é adequado sob o aspecto ético.
Contudo, não pode ser aceita a censura política, que seleciona as informações que chegarão ao internauta.
Considera o Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais (2007, p. 20):
"apoiamos de forma vigorosa a liberdade de expressão e o livre intercâmbio de idéias [sic]. A liberdade de procurar e de conhecer a verdade é um direito humano fundamental, e a liberdade de expressão constitui uma pedra angular da democracia".
Não é todo conteúdo que pode ser censurado, aliás, poucos são os que aceitam a censura sem que se tenha uma violação da ordem democrática. Mesmo um conteúdo de mau-gosto ou deturpado que não viole outras esferas da dignidade inerente ao homem não pode ser censurado. O flaming pode tanto refletir mensagens antijurídicas quanto informações que simplesmente sejam desagradáveis - sendo assim imorais por nada contribuírem para o bom desenvolvimento da rede, mas não antijurídicas porque o Direito não pode ser aplicado a todas as situações do cotidiano que causem desconforto. Aliás, é chamado de flaming:
[...] o ato de publicar mensagens deliberadamente ofensivas e/ou com a intenção de provocar reações hostis dentro do contexto de uma discussão (normalmente na Internet). Tais mensagens são chamadas de flames [...] e na maioria dos casos são publicadas em respostas a mensagens de conteúdo considerado provocante e/ou ofensivo para aquele que publicou o flame.
Praticantes de flaming são chamados de flamers ou trolls. (WIKIPÉDIA, 2012a)24.
Logo, sob o aspecto moral a produção de flaming nunca é aceita, uma atitude considerada correta por ser educada e escorreita; mas sob o aspecto do valor do justo, a mensagem de flame somente não é aceita se implicar na violação de alguma esfera inerente à dignidade da pessoa humana, como a privacidade ou a personalidade.
Em resumo, são limites éticos ao exercício da liberdade na rede: a) garantia de divulgação e acesso a informações sempre que isso não exceder os limites das demais leis éticas; b) proibição do anonimato, a não ser no sentido de pseudônimo, sem ofensa à boa-fé de terceiros; c) vedação da censura, salvo nos casos em que esta se mostrar necessária para a garantia da ordem social de uma sociedade democrática; d) impedimento da produção do flaming, principalmente se a mensagem ofensiva atingir alguma esfera da dignidade humana.