CAPÍTULO 3 - AUTODISCIPLINA MORAL NA INTERNET
3.3 Validade de um autorregramento na rede
A autodisciplina na Internet é uma realidade devido à estrutura por ela proporcionada, o que não impede uma discussão a respeito do que a valida sob o aspecto do benefício para a sociedade. São dois os argumentos que despontam como favoráveis ao predomínio do autorregramento no ciberespaço: de um lado, a conferência de novos rumos à autonomia individual pela retomada de consciência pessoal; de outro lado, a maior democratização possível numa sociedade em que o Estado somente interfira quando estritamente necessário.
a) A retomada da consciência individual pelo reforço da autonomia pessoal, tantas vezes deixada de lado, é benéfica para a sociedade, permitindo que todos participem de forma ativa na construção do bem comum: com o passar do tempo, a ideia de que cada homem era responsável sozinho por suas ações foi perdendo forças, até que se consolidou um pensamento de que todas as regras de justa conduta são impostas aos indivíduos por um ente supremo estatal ou então elaboradas por pessoas com um notável conhecimento específico;
mas a Internet permitiu que o ser humano voltasse os olhos para sua individualidade, passando a acreditar em seu poder de influenciar nas decisões sociais.
51 No original: "Since the value of freedom rests on the opportunities it provides for unforeseen and unpredictable actions, we will rarely know what we lose through a particular restriction of freedom. Any such restriction, any coercion other than the enforcement of general rules, will aim at the achievement of some foreseeable particular result, but what is prevented by it will usually not be known".
Tratando das diversas individualidades humanas que permitem a evolução social, Russel (2005, p. 37) descreve:
mas, como os homens crescem mais civilizados, esta vem a ser uma diferença crescente entre a atividade de um homem e de outro, e uma comunidade precisa, se é para prosperar, de um certo número de indivíduos não totalmente conformes com o tipo geral. Praticamente todo o progresso, artístico, moral e intelectual, tem dependido de tais indivíduos, que têm sido um fator decisivo na transmissão da barbárie à civilização. (tradução nossa)52.
Sem autonomia não é possível que as personalidades dos indivíduos se formem e, sem esta formação, nada de novo é criado. Para que a sociedade da informação presencie uma real mudança de perspectivas, vendo novas criações surgirem juntamente com uma diferente postura social individual que seja mais humanista e preocupada com o bem da coletividade, é preciso confiar na capacidade de cada um criar um mundo melhor. Logo, o indivíduo deve ter o máximo de espaço livre possível para se desenvolver sem amarras e reaprender a ver a sociedade em que vive. Afinal, não procede a afirmação de que o elemento inerente à racionalidade humana, que tantas vezes não permite a expressão taxativa do que é correto mas cria o sentimento comum e difuso neste sentido, é falho, conforme Hayek (1998, p. 11):
simplesmente não é verdade que nossas ações devem sua eficácia exclusivamente ou principalmente ao conhecimento que podemos afirmar em palavras e que pode portanto constituir as explícitas premissas de um silogismo. Muitas das instituições da sociedade que são condições indispensáveis para o exercício bem sucedido de nossos objetivos conscientes são na verdade o resultado de costumes, hábitos ou práticas que foram nem inventados nem são observados com qualquer desses efeitos em vista. Vivemos em uma sociedade na qual podemos nos orientar com sucesso, e em que nossas ações têm uma boa chance de alcançar os seus objetivos, não só porque nossos companheiros são regidos por objetivos conhecidos ou conexões conhecidas entre meios e fins, mas porque eles também são confinados por regras cuja finalidade ou origem, muitas vezes, não sabem e de cuja existência não temos muitas vezes consciência.
(tradução nossa)53.
52 No original: "But as men grow more civilised there comes to be an increasing difference between one man’s activities and another’s, and a community needs, if it is to prosper, a certain number of individuals who do not wholly conform to the general type. Practically all progress, artistic, moral, and intellectual, has depended upon such individuals, who have been a decisive factor in the transition from barbarism to civilisation".
53 No original: "It is simply not true that our actions owe their effectiveness solely or chiefly to knowledge which we can state in words and which can therefore constitute the explicit premises of a syllogism. Many of the institutions of society which are indispensable conditions for the successful pursuit of our conscious aims are in fact the result of customs, habits or practices which have been neither invented nor are observed with any such purpose in view. We live in a society in which we can successfully orientate ourselves, and in which our actions have a good chance of achieving their aims, not only because our fellows are governed by known aims or known connections between means and ends, but because they are also confined by rules whose purpose or origin we often do not know and of whose very existence we are often not aware".
O cumprimento das regras justas de conduta, ao contrário do que tem sido defendido desde que o Estado surgiu como força social dominante, não depende tanto quando se imagina da disciplina jurídica, isto é, a razão humana permite que cada qual saiba - ainda que sem descrever expressa ou taxativamente - qual o agir ético esperado. Assim, como afirma Reale (2002, p. 677), "não resta dúvida que não são motivos estritamente jurídicos que levam os homens a agir em conformidade com o Direito". A autonomia individual também é responsável pela não violação dos preceitos éticos, mostrando-se válido um cenário na qual ela figure como agente impulsionador. Não obstante, há a sensação de que algo está errado na democracia que se consubstancia predominantemente na forma indireta:
entre as coisas que estão em perigo de serem desnecessariamente sacrificadas para a igualdade democrática, talvez a mais importante seja o respeito próprio. Pelo respeito próprio eu denoto a boa parcela de orgulho - que é chamada "orgulho próprio". A parcela ruim é o senso de superioridade.
Respeito próprio irá salvar um homem de ser abjeto quando ele está em poder de inimigos, e irá capacitá-lo a sentir-se que ele pode ter razão quando o mundo está contra ele. Se um homem não tem esta qualidade, ele irá sentir que a opinião majoritária, ou opinião governamental, é para ser tratada como infalível, e tal modo de sentimento, se é geral, torna tanto o progresso intelectual quanto o moral impossíveis. (tradução nossa)54 (RUSSEL, 2005, p. 59).
Se a pessoa humana é o centro da estrutura social, nada mais razoável do que permitir que ela seja um agente direto na produção das regras aplicáveis numa ordem social, principalmente quando ela for dotada de considerável autonomia, a exemplo do ciberespaço.
Para Reale (2002, p. 228), a evolução histórica demonstra o domínio de um valor sobre o outro, ou seja, a existência de uma ordem gradativa entre os valores; mas existem os valores fundamentais e os secundários, sendo que o valor fonte é o da pessoa humana. Nesse sentido, são os dizeres de Reale (2002, p. 220):
partimos dessa idéia [sic], a nosso ver básica, de que a pessoa humana é o valor-fonte de todos os valores. O homem, como ser natural biopsíquico, é apenas um indivíduo entre outros indivíduos, um ente animal entre os demais da mesma espécie. O homem, considerado na sua objetividade espiritual, enquanto ser que só realiza no sentido de seu dever ser, é o que chamamos de pessoa. Só o homem possui a dignidade originária de ser enquanto deve ser, pondo-se essencialmente como razão determinante do processo histórico.
54 No original: "Among the things which are in danger of being unnecessarily sacrificed to democratic equality, perhaps the most important is self-respect. By self-respect I mean the good half of pride - what is called ‘proper pride’. The bad half is a sense of superiority. Self-respect will keep a man from being abject when he is in the power of enemies, and will enable him to feel that he may be in the right when the world is against him. If a man has not this quality, he will feel that majority opinion, or governmental opinion, is to be treated as infallible, and such a way of feeling, if it is general, makes both moral and intellectual progress impossible".
Há séculos atrás, outros podem até ter sonhado que a tecnologia atingiria o estágio atual, em fantasias utópicas ou pesadelos. Contudo, hoje as mudanças estão acontecendo a vista de toda a sociedade. Os caminhos a que estas mudanças levarão ainda não estão claros.
No momento, governos e outras instituições da sociedade estão decidindo como usar as novas possibilidades, e é direito de todos saber e participar desta tomada de decisões. (ABELSON;
LEDEEN; LEWIS, 2008, p. XII).
Esta tomada de decisões implicará numa reinvenção da ética, sem o desrespeito de seus preceitos consolidados através da história. No entendimento de Dupas (2000, p. 16), a sociedade pode e deve se submeter a uma ética, que deverá ser libertadora e visar o bem-estar da sociedade, nas gerações presentes e futuras, sem priorizar os interesses de uma minoria.
Assim, os indivíduos devem assumir a responsabilidade pela própria proteção, pois cada homem é responsável sozinho por suas ações e omissões, embora o Direito deva fornecer armas para a proteção da privacidade na era tecnológica. (ABELSON; LEDEEN; LEWIS, 2008, p. 63). "Pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção, não apenas um elemento decisivo no sistema produtivo" (CASTELLS, 2006, p. 69). Em determinados contextos de fato surgirá a necessidade de intervenção estatal, algo que será estudado em detalhes no capítulo seguinte, mas a autonomia individual deve ser a regra, a qual somente se consubstancia pela autodisciplina.
b) O Estado não é a solução de todos os males e deve ocupar o mínimo de espaço na vida social para garantir a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática: o segundo argumento que convalida a autodisciplina na Internet é uma consequência do primeiro, no sentido de que por existir a autonomia individual que permite que o homem tome consciência de si mesmo e elabore a si regras de justa conduta, evidencia-se que o Estado talvez não seja o ente supremo que ao longo dos últimos tempos propôs ser.
Sobre as origens da coesão social, Russel (2005, p. 14):
uma das coisas que causa estresse e tensão na vida social humana é que é possível, até certo ponto, tomar conhecimento de fundamentos racionais para um comportamento não solicitado por instinto natural. Mas quando tal comportamento força o instinto natural muito severamente a natureza leva sua vingança seja produzindo apatia ou destrutividade, seja porque pode levar uma estrutura inspirada na razão a quebrar.
Coesão social, que começou com lealdade a um grupo reforçada pelo medo dos inimigos, cresceu por processos parcialmente naturais e parcialmente deliberados até chegar aos conglomerados vastos que hoje conhecemos como nações. (tradução nossa)55.
55 No original: "One of the things that cause stress and strain in human social life is that it is possible, up to a point, to become aware of rational grounds for a behaviour not prompted by natural instinct. But when such
A coesão social surgiu como algo inerente à necessidade de que uma instituição central comandasse a sociedade para impedir que ela caísse no caos, clamando para si a autotutela. No entanto, a formação de uma estrutura social nestes moldes tem suas consequências negativas, principalmente se a busca pelo poder for maior do que o interesse de proteger a sociedade, algo infelizmente comum. O bom Estado não quer que os indivíduos sejam massa e deve intervir somente quando de fato necessário, mas por política governamental, o que se tem visto é um constante paternalismo. Sobre as funções estatais, expõe Russel (2005, p. 30):
governo, desde os tempos antigos em que existe, tem tido duas funções, uma negativa e uma positiva. Sua função negativa tem sido prevenir violência privada, proteger a vida e a propriedade, pronunciar a lei penal e assegurar seu cumprimento. Mas em adição a isso ele tem um propósito positivo, nomeadamente, facilitar a realização de desejos considerados comuns para a grande maioria dos cidadãos. As funções positivas do governo na maioria das vezes tem sido sobretudo restrita à guerra: se um inimigo pode ser conquistado e seu território adquirido, todos na nação vitoriosa lucram em um grau maior ou menos. Mas agora as funções positivas do governo estão enormemente enlarguescidas. (tradução nossa)56.
Não seria possível garantir que esta estrutura com aspecto quase supremo tomasse espaço sem que fossem lançadas bases a respeito da incapacidade do ser humano de decidir por si e da necessidade de que apenas um legislador supremo decidisse o que seria o agir correto em sociedade, as quais têm perdido força.
Em relação de duas premissas, aliás, surgiu a concepção de que somente a legislação seria um recurso para a boa convivência social: a primeira é a crença de que é preciso um legislador supremo cujo poder é ilimitável porque se houvesse limitação sempre seria possível um legislador mais forte com menos limites e assim por diante, a segunda é a de que somente o que o legislador prevê pode ser lei (HAYEK, 1998, p. 91). A legislação, por sua vez, é limitadora da liberdade individual, sujeitando-se assim a atividade de sua elaboração a limites.
Na rede, parece que se firma uma rediscussão da primeira dimensão de direitos fundamentais, recriando o conceito de direitos de liberdade. De início, os direitos de liberdade
behaviour strains natural instinct too severely nature takes her revenge by producing either listlessness or destructiveness, either of which may cause a structure inspired by reason to break down.
Social cohesion, which started with loyalty to a group reinforced by the fear of enemies, grew by processes partly natural and partly deliberate until it reached the vast conglomerations that we now know as nations".
56 No original: "Government, from the earliest times at which it existed, has had two functions, one negative and one positive. Its negative function has been to prevent private violence, to protect life and property, to enact criminal law and secure its enforcement. But in addition to this it has had a positive purpose, namely, to facilitate the realisation of desires deemed to be common to the great majority of citizens. The positive functions of government at most times have been mainly confined to war: if an enemy could be conquered and his territory acquired, everybody in the victorious nation profited in a greater or less degree. But now the positive functions of government are enormously enlarged".
surgiram para impedir que o Estado se ingerisse indevidamente na vida do cidadão, mas a perspectiva dos direitos sociais gerou a necessidade de constante interferência, a ponto de praticamente não mais se falar na liberdade individual - para igualar os cidadãos, o governo deveria praticar cada vez mais ações afirmativas.
Assim, se perderia em liberdade, mas se ganharia em tutela estatal direta, seja pelas ações positivas na área da saúde e educação, seja pelo exercício intenso do poder de polícia. A perda de liberdade, notadamente quando os recursos tecnológicos somente tendem a avançar, implica na criação de uma sociedade da vigilância.
Sobre este processo, Russel (2005, p. 34) entende:
existe, no entanto, outro perigo, talvez mais provável de ser realizado.
Técnicas modernas tornaram possível uma nova intensidade de controle governamental, e esta possibilidade tem sido explorada muito plenamente nos Estados totalitários. Pode ser que sobre o estresse da guerra, ou do medo da guerra, ou como um resultado da conquista totalitarista, as partes do mundo onde algum grau de liberdade individual sobrevive podem crescer menos, e mesmo nelas a liberdade pode tornar a ser mais e mais restrita.
(tradução nossa)57.
Sob o aspecto dos direitos políticos, que também se inserem nesta primeira dimensão, a briga inicial pelo direito ao voto livre e secreto foi vencida, mas não com os resultados esperados. A cada dia o sentimento de distanciamento que a população tem com relação aos seus representantes no governo democrático parece aumentar, não sendo demais discutir sobre o mito da representação democrática. Afinal, é mínimo o real poder que o cidadão exerce na democracia representativa, como explica Russel (2005, p. 29):
mesmo quando existe nominalmente democracia, a parte em que um cidadão pode obter em controle político é usualmente infinitésima. [...] Como resultado apenas do tamanho, governo torna-se cada vez mais remoto do que o governado e tende, mesmo numa democracia, a ter uma vida própria independente. Eu não professo saber como curar este mal completamente, mas eu penso que é importante reconhecer sua existência e procurar por modos de diminuição de sua magnitude. (tradução nossa)58.
Não se pretende dizer que a atuação estatal é um mal, muito menos dispensável, mas apenas que ela deve coexistir de forma crescente com a autonomia individual, de forma que a
57 No original: "There is, however, another danger, perhaps more likely to be realised. Modern techniques have made possible a new intensity of governmental control, and this possibility has been exploited very fully in totalitarian States. It may be that under the stress of war, or the fear of war, or as a result of totalitarian conquest, the parts of the world where some degree of individual liberty survives may grow fewer, and even in them liberty may come to be more and more restricted".
58 No original: "Even where there is nominally democracy, the part which one citizen can obtain in controlling policy is usually infinitesimal. [...] As a result of mere size, government becomes increasingly remote from the governed and tends, even in a democracy, to have an independent life of its own. I do not profess to know how to cure this evil completely, but I think it is important to recognise its existence and to search for ways of diminishing its magnitude."
sociedade não seja massa e sim um conjunto de individualidades contribuindo para a construção do bem comum. Na Internet tem-se um espaço todo configurado para que o exercício do autorregramento, que consolida a força da pessoa humana considerada como parte de um todo, seja possível. Contudo, as regras de justa conduta estabelecidas nesta ordem social autônoma devem coexistir o máximo com as previstas na legislação, permitindo um equilíbrio entre intervenção estatal e atuação individual. As regras de conduta postas numa ordem social autônoma serão seguidas pela maioria, como expõe Hayek (1998, p. 45):
mas o fato de que a maioria das pessoas irá seguir estas regras ainda deixará o caráter da ordem resultante muito indeterminado, e por si mesma certamente não seria suficiente para dar uma caráter benéfico. Para a ordem resultante ser benéfica as pessoas devem também observar algumas regras convencionais, isto é, regras que não simplesmente acompanham os seus desejos e a sua introspecção em relações de causa e efeito, mas que são normativas e dizem a eles o que devem fazer ou não fazer. (tradução nossa)59.
Logo, a autodisciplina moral na Internet é uma tendência que deve prevalecer porque a retomada da consciência individual tem sido benéfica para que a evolução técnica continue aproximando todas as pessoas, por mais diferentes que sejam, além do que se ela ocorre não é preciso que o Estado tome uma postura tão interventiva quanto a que tem assumido desde que se tornou a força central das sociedades.