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LIMITES OBJETIVOS E SUBJETIVOS DA COISA JULGADA

De todas as partes da sentença, somente o dispositivo, que contém o comando emitido pelo juiz, fica revestido da autoridade da coisa julgada. Os motivos e fundamentos não se tornam imutáveis, e podem ser rediscutidos em outro processo, por mais importante que tenham sido para a formação da convicção do julgador.

No mesmo sentido, Liebman afirma que "é só o comando pronunciado pelo juiz que se torna imutável, não a atividade lógica exercida pelo juiz para preparar e justificar a decisão".52

A qualidade da coisa julgada reveste tão somente a parte dispositiva da sentença, a resposta à pretensão do autor. O juiz decide única e exclusivamente o pedido, a pretensão deduzida pelo autor em juízo. É sobre o pedido deduzido pela parte e apreciado pelo órgão jurisdicional, portanto, que se circunscrevem os limites objetivos da coisa julgada.

Com base no artigo 469, I, II e III53 do CPC, nem as razões da decisão (causa de pedir e causa da resistir), nem os fundamentos que as relacionam com a decisão proferida, nem os fatos simples são compreendidos nos limites objetivos da coisa julgada.

51

GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Novo Curso de Direito Processual Civil, Volume 2: processo de conhecimento (2ª parte) e procedimentos especiais, p. 21.

52

LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficácia e Autoridade da Sentença. Trad. Alfredo Buzald e Benvindo Aires; trad. textos posteriores à edição de 1945 e notas relativas ao direito brasileiro vigente, Ada Pellegrino Grinover, p. 55.

Marinoni leciona que a questão prejudicial, decidida incidentemente no processo, não faz coisa julgada (art. 469, III, CPC). A resolução da questão prejudicial pode vir a ser abarcada pela coisa julgada se e quando houver sido proposta, no curso do processo, ação declaratória incidental (arts. 5º, 325 e 470, CPC).54

Nesse sentido, ensina Alvim:

Vale dizer, a coisa julgada reveste de imutabilidade apenas a parte dispositiva da sentença (art. 458, III, do CPC). São esses os limites objetivos da coisa julgada no regime do Código de Processo Civil, salvo, como dito, se se propuser ação declaratória incidental, versando questão prejudicial, nos termos dos arts. 5º e 470.55

É este o entendimento para o CPC ora em vigor. Contudo, o Novo Código de Processo Civil, sancionado pela Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, publicado no DOU de 17 de março de 2015 e com vigência a partir de 17 de março de 2016 inovou nesse ponto. O Novo CPC, no § 1º do artigo 50356, estendeu a coisa julgada sobre as questões prejudiciais resolvidas incidentalmente pelo juiz na fundamentação da sentença se (i) dessa resolução depender o julgamento do mérito; (ii) a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de revelia; e (iii) o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como questão principal.

Da leitura desse dispositivo, que entrará em vigor tão somente em 17 de março de 2016, pode-se inferir que o incidente de constitucionalidade não fará coisa julgada, quando proferida por juiz ou tribunal, tendo em vista que a competência é exclusiva do STF, no controle concentrado de constitucionalidade.

A respeito do inciso III do artigo 503 do Novo CPC, Medina sustenta que a questão prejudicial deve ter idoneidade para, em tese, figurar como questão principal, no sentido de o

53 Art. 469. Não fazem coisa julgada:

I - os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; Il - a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença;

III - a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no processo.

54

MARINONI, Luiz Guilherme. Coisa Julgada Inconstitucional: a retroatividade da decisão de (in)constitucionalidade do STF sobre a coisa julgada : a questão da relativização da coisa julgada, p. 73.

55

ALVIM, Eduardo Arruda. Direito Processual Civil. 5. ed. rev., atual. e ampl., p. 692.

56 Art. 503. A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida.

§ 1o O disposto no caput aplica-se à resolução de questão prejudicial, decidida expressa e incidentemente no processo, se:

I - dessa resolução depender o julgamento do mérito;

II - a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de revelia; III - o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como questão principal.

juiz ter competência absoluta para dispor sobre a questão, caso veiculada como principal. Deve-se, então, indagar, por exemplo, sobre a possibilidade de fazer pedido de decisão declaratória sobre a questão; caso negativa a resposta, a questão prejudicial não será alcançada pela coisa julgada.57

Como limites subjetivos da coisa julgada, há de se entender que a imutabilidade repercute apenas para as partes, no sentido de que só elas puderam fazer ouvir e valer as suas razões no processo que se finalizou com o julgado, do que justifica a conformidade das partes com o resultado alcançado no processo.

Acerca desses limites subjetivos, Gonçalves explica que o artigo 472 do CPC estabelece que a sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando nem prejudicando terceiros. Essa é a regra fundamental a respeito dos limites subjetivos. São atingidos, portanto, os autores, os réus, os denunciados, os chamados ao processo, os opoentes e os nomeados que tenham sido admitidos. Não o são os terceiros que não participaram do processo e, por isso, não tiveram oportunidade de manifestar-se, de defender-se ou de expor suas razões. Se fossem atingidos pela coisa julgada, haveria ofensa à garantia constitucional do contraditório e do devido processo legal. Ademais, se alguém não participou do processo, é porque a pretensão posta em juízo não lhe dizia respeito. Como a coisa julgada é uma qualidade dos efeitos da sentença proferida a respeito da pretensão, o terceiro não poderia mesmo ser atingido.58

Contudo, Tucci menciona casos em que terceiros podem ser afetados pela decisão, dada sua eficácia natural: a) fiador que é afetado pela procedência de ação entre credor e devedor na qual se declara a inexistência da obrigação principal59; e b) credor hipotecário, quando é julgada procedente ação reivindicatória contra o réu que constituiu o ônus real. Se o réu vencido na reivindicatória não era proprietário quando constituiu o ônus real, o terceiro perderá a posição jurídica de que era titular (credor hipotecário).60

Situações como essas são excepcionais, mormente no Direito Tributário, quando a relação jurídica se perfaz exatamente entre o ente tributante e o contribuinte definido na norma de regência da espécie tributária.

57 MEDINA, José Miguel Garcia. Novo Código de Processo Civil Comentado: com remissão e notas comparativas ao CPC/1973, p. 774.

58 GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Novo Curso de Direito Processual Civil, Volume 2: processo de

conhecimento (2ª parte) e procedimentos especiais, p. 25.

59 TUCCI, José Rogério Cruz e. Limites Subjetivos da Eficácia da Sentença e da Coisa Julgada, p. 195.