• Nenhum resultado encontrado

CAPITULO 2 O FALAR DA CRIANÇA

2.2 Linguagem de uma dança feliz

“Eu sou um menino muito inteligente, mas eu sou muito legal, mas tem vezes que sou chato” (Hiago Bruno - 7 anos);

“Adoro andar de bicicleta, skate e de carro e também assistir televisão e meu programa preferido é o Tom e Jerry” (Augusto – 9 anos);

“Gosto muito de brincar e estudar”. (João Victor – 9 anos);

“Eu sou meio bagunceiro e arteiro, eu brinco com a turma da escola”. (Natanael – 10 anos);

“Eu sou assim e não gosto de levantar cedo”. (Pedro Henrique – 8 anos);

“Gosto de zerar jogos do vídeo-game e gosto de brincar de dia e de noite. Eu sou muito feliz com minha família”. (Gabriel Rosada – 11 anos);

“Eu gosto de escrever muito, para minha mãe ficar orgulhosa de mim, porque eu amo a minha mãe e não quero vê-la desapontada comigo.” (Jéssica – 9 anos);

Esse falar da criança retrata a sua singularidade especial. As entranhas de seus raciocínios, seus argumentos mais promissores, suas atividades mais brilhantes e seu transrelacionamento com os desafios mais incríveis que envolvem sua vida. Em muito de seus momentos é a inquietude própria de todo o seu organismo em transformação que rege o temperamento de suas intenções.

Intenções que funcionam pela circulação de milhares de curiosidades e todas bem transparentes e participadoras de suas espertezas e do brincar com a vida. Essa mesma vida que os meninos e meninas torcem que lhes confere o sucesso e os elogios nos seus feitos vitoriosos.

A criança enxerga uma vida de vitórias, de vencedora, de alguém que é espelho de uma multidão. Sabe revigorar ousadas tentativas estimulantes para ampliação de seu fascínio de curtir o possível e o impossível, o pertinente e o impertinente. Ela é uma construtora de expectativas que freqüentemente surpreende os adultos cansados dos desafios e da complexidade. A criança é por natureza inovadora e participante de uma multiplicidade de aventuras desafiantes. Elas não têm motivos para o medo de arriscar, pois são cheias de vontade, criadoras de novos valores, empenhadas por inteiro naquilo que se propõem em realizar. É uma tecelagem da experiência humana num emaranhado progresso do desempenho humano.

A linguagem desdobra, aprende, cria, consente, consome, pede, oferece, relaciona, constituindo o tecido da criação surpreendente. É na linguagem que as meninas e meninos se tornam os maiores audazes de um enfrentamento nas coisas do dia-a-dia, com a língua sempre afiadíssima e aí o confronto com o adulto despreparado para o novo, o risco, o diverso, as variadas e complexas alternativas que são próprias desse falar infantil e adolescente, que tem sua dimensão no jogo que é a arte de seu ofício através de jogadas inusitadas, como o movimento de dunas.

É uma linguagem de saberes, habilidades e eficácia, pertinência e impertinência aprimoradora de valores e atitudes, buscadora de informações e criadora de idéias, por onde se processa uma nova cara de ser no mundo,

adquirindo a maneira cidadã, plena de ansiedade, sem nenhum constrangimento e pela autonomia. É através dessa linguagem que se implementa a postura reflexiva de inovar, de perceber a necessidade de modificar a relação desse saber com o aprendizado dos vários saberes, que a imaginação e a curiosidade apontam por esses falares; que são observadores, são ágeis e seu tempo não é o convencional, mas, o tempo do sentimento, da alegria, do prazer , da paz.

A linguagem dessas crianças oferece o tom da vida que elas praticam e uma infinidade de horizontes para se ir além. Nesse emaranhado de situações diferentes, o desejo é a tonalidade desses meninos e meninas, que genuinamente potencializam e distribuem por todas atividades que pesquisam. Essa linguagem transparece o que ela é e as coisas que vão sendo no mistério do falar-fazer, acertando e errando em uma porção de coisas. Linguagem composta de uma dança feliz, que se entretém com as gostosuras das brincadeiras, com as descobertas, com as novidades, com as admirações, com as curiosidades, com as eroticidades, com os sabores. Linguagem do inesperado. Ela brilha, explode e se organiza na sua destruição. Não é um paradigma paralisado, engessado, mas uma linguagem que se estende, espalhando por lugares que exigirão dessas meninas e meninos novas dimensionalidades no enfrentamento de desafios diferentes, que cobrarão do espírito de criatividade e de mentes preparadas para as complexidades que não param de aumentar. Estão sempre rearmadas para participarem da destruição/construção deste tecido humanitário.

Linguagem da quebra de fronteiras, da fecundidade, dos jeitos mais felizes e afetivos de marcarem o modo de vida, por um olhar novo com perspectiva multi- focalizadora de vitalidade, energizadora de ousadas e fascinantes expectativas.

Linguagem de um movimento constante de mudanças ligadas aos desejos indispensáveis à prática de ser vivo e ser solidário.

A linguagem da criança é forjada na sagacidade das muitas e diferentes intersecções feitas no relacionamento da intersolidariedade na escola, nas diversões, na família, na religião, no cinema, nos parques, nas praças. Daí origina a alternativa para uma vivência futura genuína e garantidora das melhorias com outras novas crianças. Linguagem que precisa revestir a escola por inteira e garantir o funcionamento por completo em todos os departamentos da escola. De modo que a escola se tornará a expressão verbal das crianças.

A estrutura da escola será a “cara” das meninas e meninos, uma realidade linda, contagiante. O lugar em que a criança se refletirá nas relações umas com as outras e na reconstrução de seus passos, suas buscas, suas alegrias. Lugar em que encontrarão os mediadores significantes, os professores e as professoras que necessitam de uma grande e corajosa conversa entre eles e as crianças, a fim de servirem-nas com graça.

Essa linguagem precisa ser exposta em um outdoor escolar para comunicar sua força e sentido transformador de um ambiente paralisado para uma interdinamicidade das coisas que interessam à vida, que transmitem gozo, satisfação, divertimento, risos, peraltices. E desse jeito a escola será jubilosamente o espaço do interesse pela felicidade e do atendimento pelo apelo da vida, da carícia que explode em grandes desejos e encantos maravilhosos. A escola seria a manifestação ativa do procedimento da criança, envolvida completamente com essa garra tão explícita. A escola assumiria essa garra com coragem e se tornaria gostosa e uma verdadeira diversidade dos sonhos das crianças.

isso a escola precisa desempenhar a energia da integridade, da honestidade, da compreensão. Precisa tornar cada vez mais a viabilidade de uma circulação de afazeres que vão expandir a relação humana dos professores e professoras para um conteúdo humano integrador e encarar as meninas e meninos de coração escancarado. E assim, seremos portadores de sentidos, de desafio, de perspectiva.

Nesse sentido a escola deixa de ser um lugar de ensinar e vai se tornar um espaço da diversidade, da complexidade, das iniciações radiantes, harmonizadora. Um lugar de dar e receber amor. Para isso ir acontecendo é preciso providenciar, alertar o coração. Essa nova situação não é percebida só pela cabeça, necessita de coração, da paixão, da sensibilidade. Esses valores encontramos produzidos pela inter-relação e sentidos à flor da pele das crianças felizes e encantadas pela possibilidade de expor o melhor de suas vidas num ambiente de aprendizagem reflexiva. Sendo o principal reflexo, o da criança com todas suas estripulias, suas invenções.

Essa é uma escola balbuciante, sem uma linguagem pronta e acabada e é, também, uma escola que gagueja.