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CAPITULO 2 O FALAR DA CRIANÇA

2.4 Tudo tem seu aspecto e seu complexo

Pedro Demo, sociólogo diz, em entrevista na revista Nova Escola:

Eu costumo brincar que enquanto o primeiro mundo pesquisa, o terceiro mundo dá aulas.” (...) “a escola vai sobreviver, mas precisará se adaptar à aprendizagem desses novos tempos e abandonar sua feição de quartel disciplinar.” ( 2001, p.50)

Escancarar as portas da sala de aula, pela exposição no pátio de recreio com tudo que é produzido lá dentro na carteira escolar e de todas as visitas educacionais em museus, feiras, livros, cinemas, teatros, estádios esportivos, shows musicais, gincanas, desfiles cívicos, ambientes ecológicos sobre o ar, a água, as florestas, os rios, a terra. Tudo isso e outras coisas mais que acontecem, devem ir para o pátio de recreio, expor esse vasto e complexo conteúdo.

A necessidade de fórum de debates com alunos de várias séries misturados proporcionará o aquecimento da curiosidade e serão desvendados mistérios maravilhosos por essa aprendizagem da conversa aberta e alicerçada pela exposição no pátio. Essa escola conquistará as crianças e adolescentes, pois ver- se-ão refletidos nos programas dela e certamente vibrariam na participação e apresentação de suas pesquisas. E ficariam ansiosos para buscar novas idéias, no fórum de debates dos alunos, para que no fórum seguinte pudessem ser mais inovadores e completos naquilo que apresentassem na exposição, no pátio de recreio.

A escola ganharia em vida e a sala de aula se transformaria em um laboratório de idéias e as crianças e adolescentes não se sentiriam presas às carteiras e fixos no quadro, na lousa, mas se moveriam entre os círculos de idéias para construírem algo de melhor a partir das informações diversificadas de cada um. Nesse sentido um novo mundo poderia ser construído e melhor pensado. Um mundo em que a novidade seria procurada fundamentalmente, por ser a criança o sujeito criador desse modo de estudar. O professor e a professora seriam adultos significativos e seres pedagógicos revestidos da humanidade que as crianças mais almejam e adoram.

A criança precisa falar na escola, pois isso é um dado comum na sua maneira de viver. E a escola pode envolvê-la pelas suas múltiplas formas de linguagens. E sempre, fazendo assim, vai atingir alguns pela linguagem literária, outros na física, outros na geografia, permitindo que essas linguagens funcionem por um fio condutor que professoras e professores usariam como um método, construindo assim a exposição e o fórum de debates. Para que esse falar seja de aprendizagem não dogmática, mas dialético. Sempre passível de novos e novos diálogos, para

novas sínteses de idéias que se transformam em boas possibilidades, para um consenso possível no momento.

Envolvê-las nessa diversidade de aprendizagem será uma disposição sem meia medida, e a facilidade daqueles que nunca desistem por aquilo que vibram e toca seus corações, intenções e idéias. E são capacitados de auto-desafio que engendra uma coragem magnífica, implicando em superação de si mesmos, para um convívio mais rico em solidariedade e paz. Essa disposição gratuita merece respeito e um espaço escolar que cause contentamento em praticar essas grandiosas idéias e projetos. O arco-íris, que cruza o céu, é a luz, são as cores, é a cobiça do belo pelo encantamento, assim imagino as crianças circundando o espaço escolar e cobiçando a sabedoria colorida pelo seu sangue e suor e isso se constituirá como estigma e símbolo da luz que atravessa e destrói a escuridão do engessamento escolar.

A largueza do falar das meninas e meninos mostra o que se tem a fazer e a que eles estão dispostos a levar adiante, cabendo nessa largueza a paciência alegre daqueles que querem curtir as experiências significativas que vêm ao seu encontro, de crianças que não gostam de ficar paradas, de castigo pelas indecisões interesseiras de adultos que faz tempo que estão parados e desistentes.

As crianças e adolescentes são dialéticos nas abordagens de suas atividades, por mais simples que possam ser, mesmo que por uma brincadeira debaixo da sombra de uma árvore. Tudo tem seu aspecto e seu complexo. É o construído e o destruído. É a dinamicidade de fazer e desfazer sem desistir de fazer um novo, o velho soma-se, não se repete. Criança não agüenta dar sustentação ao insuportável. Criança provoca tomada de postura para frente, para o diferente, para o novo.

Os sujeitos da nossa pesquisa, os meninos e as meninas, estão incluídos em uma situação geográfica, econômica e social de exclusão da dignidade que o ser humano precisa como cidadão, mas nosso objeto de estudo não era esse tipo de problematização e sim as categorias: paz, gostosura, alegria, valor e prazer, as quais em nossa pesquisa foram explicitadas pelos sujeitos, pois testemunhamos isso tudo com nossa presença junto à Escola Aymar durante três anos na observação e na admiração de ver crianças tão sacrificadas pela vida, inclusive com o tráfico de drogas usando as crianças, e muitos assassinatos delas no início da juventude e, mesmo assim, manifestarem uma sobrevida no mundo escolar e até na rua. Por isso, nossa preocupação foi garimpar essa realidade que deparamos na pesquisa de entrevista e observação. Realidade que transparece na fala corajosa, pura e cheia de encantamento, apontando para a sabedoria, a busca de uma vida melhor. Assim, dedicamos com todo cuidado sobre esse falar justo das crianças da escola.

Construímos essa postura levando em conta primordialmente o dado preferencial pela fala das meninas e meninos, tendo uma visão reflexivamente crítica sobre o não deixarmos escapar a análise para outros objetos, senão aquele que já citamos e nos interessava desvendar, seguindo “a condução e a direção da alma de alguém segundo o desejo daquele que fala... pela arte de tecer... É o espanto cheio de admiração”. (CHAUI, M. 2002, p.176. 328).

Para compreendermos o que ocorre com crianças e adolescentes, vamos utilizar a análise feita pelo psicólogo suíço (e também filósofo) Jean Piaget (1896- 1980), que desenvolveu uma teoria conhecida como Psicologia Genética, base para o desenvolvimento de fecundas práticas pedagógicas. É o que veremos no próximo capítulo.