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LISTA DE COMPRAS DE FRANCISCO RAIMUNDO DOS SANTOS

A MULHER DE JUAZEIRO

LISTA DE COMPRAS DE FRANCISCO RAIMUNDO DOS SANTOS

Fonte: APEB. Seção Judiciária – Juazeiro – Inventário 08 / 3502/14.

Durante o processo de inventário, o filho fez a cobrança das dívidas e o montante foi de 3:572$272 (três contos, quinhentos e setenta e dois mil, duzentos e setenta e dois réis), o que revela os hábitos de consumo daquela família. Neste momento, analisaremos apenas os objetos e tecidos usados em situação de luto: dois xales para luto no valor de um conto de réis cada, chita para luto (item que aparece diversas vezes na lista), duas mantilhas pretas, um chapéu de feltro preto, um chapéu preto enfeitado com véu, argolas pretas, um corte de lã escura.182

No inventário de Antônio da Cunha Barbosa também há grande lista de compras e nela vêem também artigos usados em ocasiões de luto como três pares de argolas pretas, três xales pretos, um milheiro de taxas pretas.183

181 APEB. Seção Judiciária – Inventário – Juazeiro - 08/ 3502/14. 182

APEB. Seção Judiciária – Inventário – Juazeiro - 07/2871/04.

183 APEB. Seção Judiciária – Inventário – Juazeiro - 08/ 3502/14. ALGRANTI, Leila Mezan. Op. cit. p. 84-

No inventário do Capitão Manoel Lins Teixeira, sua viúva, cabeça do casal e tutora dos filhos, Maria Madalena do Sacramento, recebeu intimação para prestar contas ao Juiz de Órfãos do espólio das filhas, uma de três e outra de dois anos, e pediu-lhe também que arrematasse os animais que couberam à filha para o valor ser depositado em favor desta. Maria Madalena foi a julgamento por não ter arrematado o gado e por ter auferido lucro sobre os bens das filhas e foi obrigada a recolher aos cofres “o imposto do burro morto que pertencia à órfã Carolina”. A viúva também teve que recolher aos cofres cento e oitenta mil, setecentos e vinte e cinco réis, lançados como quinhão da órfã Carolina, e oitenta e seis mil, duzentos e vinte e cinco réis que pertenciam ao quinhão da filha Maria.184

Observou-se que as mulheres que ficavam viúvas com filhos muito pequenos não demoravam a contrair novas núpcias. Os encargos de conduzir a família à luz de uma sociedade conservadora, que exigia da viúva um comportamento “exemplar” e recluso, a manutenção da casa, as despesas, levaram as mulheres a aceitar o novo casamento como forma de minorar os problemas domésticos e criar os filhos. Cabe aqui um questionamento: qual a idade do marido no momento em que esta viúva contrai novas núpcias? É muito mais velho que ela? Os inventários não nos forneceram estes dados, mas é possível inferir que o segundo casamento ocorreu por causa do patrimônio a ser “preservado” e talvez por isso a escolha do novo marido recaísse sobre um parente.

Para exemplificar a questão, cito o inventário de Manoel Gonçalves Ferreira. Nele Ana Francisca do Espírito Santo, viúva, inventariante e cabeça de casal, ficou com sete filhos para criar, cujas idades eram treze anos, onze anos, cinco anos, quatro anos, três anos, dois anos, e cinco meses. O inventário prosseguiu e Ana nomeou um procurador. A viúva não ficou desamparada, pois possuía seis escravos com idades entre trinta e quatro anos, cento e oitenta cabeças de gado, trinta cabeças de cabra, dentre outros bens, mas ao final do inventário vê-se uma petição de João Ferreira da Silva, que assumiu a condição de tutor dos órfãos e os citou como sendo seus enteados. Portanto, Ana Francisca casou-se novamente e seu marido recebeu por lei o direito de administrar seus bens, fato comum para a época. É possível perceber neste caso o peso que uma viúva “carregava” em seus ombros. Não devia ser fácil ser sozinha numa sociedade onde o poder masculino era forte e determinava todo um código de conduta. O amor, nem sempre tinha lugar num momento onde o que contava era ser respeitada e pertencer àquela sociedade.185

184 APEB. Seção Judiciária – Inventário – Juazeiro - 07/3268/11; 04/146217/1931 A/ 08 185 APEB. Seção Judiciária – Inventário – Juazeiro - 08/3370/03.

A morte é descrita nos inventários não somente nas listas de assento ou cadernos de despesas. Trata-se de um momento de ajustes de contas e as despesas com sepultamento também se fazem presentes. No inventário de José Luiz Ferreira constam as despesas: “para o enterro quarenta vellas, trinta cadernos de papel,186

dois mil réis em espermacete de baleia (usado nas lamparinas), gravata, quarenta e cinco cartas convite, “sendo todos eles objectos para o funeral de seu mano o capitão José Luiz Ferreira”. Consta ainda o recibo de armação da casa, que quase sempre se referia a flores e outros arranjos domésticos onde se realizavam os velórios: “Recebi nove mil réis pela armação da caza para o funeral de seo mano o capitão José Luiz Ferreira, inclusive a cuberta por mim feita na cova, onde fora sepultado o cadáver do mesmo”.187

No inventário de Antônio de Souza Benevides há o traslado de seu testamento: “Declaro que falecendo nesta freguesia, quero ser sepultado no Cemitério desta cidade,

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sendo a minha sepultura junto a sepultura onde se acha o cadáver de meu falecido pai, ficando a disposição do meu testamenteiro a decência do meu enterro”.189

No testamento de Vitorino Máximo dos Santos, ex-liberto, analisado aqui em outros momentos, também há referência ao seu sepultamento: “Declaro que meu corpo será sepultado na Igreja Matriz de Nossa Senhora das Grotas de Juazeiro, de onde sou freguês e deixo já determinada uma oitava de missas para o Senhor do Bonfim.190 O fato do liberto ser freguês da Igreja denota que o mesmo alcançou um patamar financeiro considerável, pois deveria contribuir sempre com a irmandade a qual pertencia a Igreja. João José Reis na obra A morte é uma festa afirma que as irmandades estabeleciam a condição social ou racial exigida dos sócios, seus direitos e deveres. Entre os deveres estavam o bom comportamento, a devoção católica, o pagamento das anuidades, participação nas cerimônias civis e religiosas da irmandade. Em troca os irmãos tinham direito a assistência médica, jurídica, socorro em momento de crise financeira, em alguns casos ajuda para compra da carta de alforria e, muito especialmente, direito a enterro decente para si e membros da família, com acompanhamento de irmãos e irmãs de confraria e sepultado na capela da irmandade. Portanto, é possível inferir que se tratava de

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Não foi encontrada na literatura estudada nenhuma referência a utilidade destes cadernos ou de folhas de papel que aparecem em anotações de pagamentos de enterros e velórios.

187 APEB. Seção Judiciária - Inventário – Juazeiro - 2/ 741/1206 A/2.

188 O inventário nos mostra a mudanças nos costumes, que transfere os sepultamentos de dentro das igrejas

para o cemitério da cidade.

189 APEB. Seção Judiciária - Inventário – Juazeiro - 07/3138/07. 190 APEB. Seção Judiciária - Inventário – Juazeiro - 02/546/992 A/01.

um liberto que provavelmente alcançou uma posição de destaque naquela comunidade sertaneja. 191

Analisar o nível de riqueza e a influência que os bens tiveram na vida das famílias e principalmente na vida das mulheres é importante para que se possa inferir sobre o nível de participação das pessoas naquela sociedade. Como este estudo trata de mulheres viúvas cabe agora analisarmos o nível de riqueza das viúvas em Juazeiro.

191 REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São

CAPÍTULO III