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LITERACIA, ESCOLA E CIDADANIA

No documento ELO 18 A (páginas 196-200)

 

Adelina Paula Mendes Pinto  Coordenadora Interconcelhia da Rede de Bibliotecas Escolares 

  1. A LITERACIA 

  Uma das grandes preocupações do século XXI é o conceito de literacia e a forma como desenvolvemos  estas mesmas competências. Na era da Sociedade da Informação e do Conhecimento, na era da avalanche de  informação que nos “ataca” diariamente, do acesso à informação em tempo real, as competências de literacia  estão fortemente ligadas ao conceito de aprendizagem e principalmente ao conceito de aprendizagem ao  longo da vida. 

Como tudo num mundo em mudança, também o conceito de literacia tem vindo a actualizar‐se. 

Inicialmente incluía apenas a capacidade de ler latim. Como os meios de escrita eram escassos, o escrever não  era considerado neste conceito. Hoje entendemos as literacias numa óptica mais abrangente. 

 

“(...) ser capaz de ler não define literacia no complexo mundo de hoje.  conceito de literacia inclui a literacia informática, a literacia do consumidor, a  literacia da informação literacia visual. Por outras palavras, os adultos  letrados devem ser capazes de obter perceber informação em diferentes  suportes. Além do mais, compreender é a chave. Literacia significa ser capaz  de perceber bem ideias novas para as usar quando necessárias. Literacia  significa saber como aprender". (Stripling, 1992)11 

 

A necessidade de formar cidadãos competentes na literacia da informação é uma preocupação das  sociedades modernas que necessitam de cidadãos críticos, construtivos e participativos. Esta necessidade vem  agudizar‐se com o advento da Internet, do digital, da informação em tempo real. Então o que é ser competente  na literacia da informação? Podemos defini‐la como a competência do jovem ou adulto para identificar um        

11  Stripling, B. (1992). http://www.ctap4.org/infolit/. Obtido em 10 de 05 de 2011, de http://www.ctap4.org/infolit/ 

problema, procurar informação necessária, saber seleccioná‐la, analisá‐la, interpretá‐la e ainda sintetizar e  comunicar essa informação.  

Da literacia da informação passamos rapidamente a um conceito polissémico que abarca outras  formas de literacia como a literacia visual, a literacia digital, a literacia tecnológica, a literacia científica, a  literacia estatística, entre outras.  

Numa abordagem mais genérica, a literacia, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Priberam 12  consiste na capacidade de saber ler e escrever mas também na capacidade para perceber e interpretar aquilo  que é lido. É esta assumpção que nos interessa no presente artigo, a forma como podemos trabalhar  competências de literacia nos alunos, envolvê‐los para que eles consigam resolver os seus problemas através  da leitura e interpretação de informação em vários suportes. Em nosso entender é este o caminho para a  escola do século XXI, uma escola atenta ao presente, virada para o futuro, preparando novas gerações para os  desafios sociais, económicos, culturais, emocionais que se adivinham. 

 

2. A ESCOLA E AS BIBLIOTECAS 

A Escola do século XXI deve ser centrada nas necessidades e nas lógicas do novo século. Um século  que se tem vindo a caracterizar por um paradigma digital, por alunos que são já nativos digitais, por um  conhecimento em constante mudança e evolução, por uma sociedade cada vez mais global e mais globalizante  onde os jovens são cada vez mais cidadãos do mundo. Um mundo caracterizado por uma imensa flexibilidade  laboral,  por  um  aumento  da  escolaridade  e  da  formação  dos  nossos  jovens,  um  mundo  social  e  economicamente mais exigente. Que desafios se colocam então à escola? 

A Escola do século XXI deve ser necessariamente diferente daquela que caracterizou o século XX. Esta  tem o principal desafio de desenvolver nos alunos competências ao nível das várias literacias, de desenvolver  competências digitais e tecnológicas ao nível das tecnologias de informação e comunicação, uma nova  percepção e entendimento do mundo. Mas como adequar a escola a estas novas exigências? Como passar do        

12  Literacia",  in  Dicionário  Priberam  da  Língua  Portuguesa  [em  linha],  2010,  http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx?pal=literacia [consultado em 11‐05‐2011]. 

currículo estipulado centralmente, espartilhado e compartimentado, para os interesses e necessidades dos  nossos jovens? Como podem os nossos alunos entender a mudança, estar preparados para um mundo que é  cada dia diferente, se a escola continua centrada em saberes adquiridos, numa organização dominada pelo  professor enquanto detentor do conhecimento? 

É neste contexto que surgem as Bibliotecas Escolares, centros de recursos, que disponibilizam meios físicos e  humanos que possam ajudar os jovens a construir o seu próprio conhecimento. O Relatório “Lançar a Rede de  Bibliotecas Escolares”, em 1996, referia: 

 

“(…) as bibliotecas escolares, sobre as quais nos propomos reflectir, surgem  como recursos básicos do processo educativo, sendo‐lhes atribuído papel  central em domínios tão importantes como: (i) a aprendizagem da leitura; (ii) o  domínio dessa competência (literacia); (iii) criação o desenvolvimento do  prazer de ler aquisição de hábitos de leitura; (iv) capacidade de  seleccionar  informação  actuar  criticamente  perante  quantidade  diversidade de fundos suportes que hoje são postos à disposição das  pessoas; (v) desenvolvimento de métodos de estudo, de investigação  autónoma; (vi) aprofundamento da cultura cívica, científica, tecnológica  artística.”13 

 

Assim, o conceito de literacia aparece, desde o seu início, fortemente ligado aos objectivos das  Bibliotecas Escolares. Estas pretendem, em conjunto com os professores promover actividades e projectos que  ajudem os alunos a desenvolver competências em literacia, nas várias literacias, mas com particular ênfase na  literacia da informação.  

 

“Está comprovado que quando os bibliotecários os professores trabalham  em conjunto, os alunos atingem níveis mais elevados de literacia, de leitura, de  aprendizagem, de resolução de problemas competências no domínio das  tecnologias de informação e comunicação.” (in Manifesto da Biblioteca Escolar  da IFLA/UNESCO) 

 

A biblioteca escolar proporciona informação e ideias fundamentais que contribuem para a formação  plena do aluno, para que seja um adulto bem sucedido na sociedade actual, baseada na informação e no  conhecimento. A biblioteca escolar desenvolve nos alunos competências para a aprendizagem ao longo da vida  e estimula a imaginação, permitindo‐lhes tornarem‐se cidadãos responsáveis. Parte do pressuposto que a  aprendizagem deve assentar numa lógica construtivista, o aluno no centro do processo ensino‐aprendizagem, o  aluno na construção do seu próprio conhecimento. Só assim o podemos preparar para a evolução do  conhecimento e para o desafio maior de transformar a informação (múltipla, variada, muitas vezes pouco  credível) em conhecimento. 

Há uma tendência actual, mesmo entre alguns professores, de pensar que os alunos, só porque são  nativos digitais e têm uma grande facilidade no domínio das tecnologias, têm competências de literacia. Mas  isso não é verdade, a literacia tem ser entendida como uma competência que depende fortemente do percurso  escolar do aluno, do meio social em que se insere mas também da forma como é sujeito a práticas sustentadas  e prolongadas que o levam a desenvolver essas competências.  

A literacia tem de estar ligada ao currículo, as competências de literacia são aprendidas e exercitadas  nos contextos disciplinares, não no vazio. Exige um planeamento e uma sistematização. A ligação à Biblioteca  Escolar deve ser consubstanciada e sustentada em projectos regulares e sistemáticos e não em actividades  ocasionais e vazias de sentidos e de oportunidades. 

A literacia tem de ser deliberada e conscientemente trabalhada com os alunos e devidamente  integrada nos currículos. Este trabalho é feito pelo professor da turma e o professor bibliotecário assumindo‐se  este como o especialista em informação e bem como nos múltiplos recursos existentes no espaço físico da  Biblioteca ou em linha no espaço digital. 

A literacia crítica tem vindo a desenvolver‐se nos últimos tempos, também ligada à necessidade de  preparar melhor os alunos para a Sociedade da Informação. 

  

      

13 Portugal, Ministério da Educação. Gabinete da Rede Bibliotecas Escolares. Portal RBE: Lançar Rede de Bibliotecas  Escolares  [Em  linha].  Lisboa:  RBE,  actual.  31‐01‐2011.  [Consult.  15‐05‐2011]  Disponível  em  WWW:  <URL: 

“… o conceito de literacia crítica refere‐se àquelas práticas sociais em que os  leitores  e/ou  ouvintes  vão  além  da  mera  utilização  dos  textos  para  construírem  significado,  realizando  deliberadamente    uma  análise  questionadora dos significados aí presentes  da  influência    que essas  representações têm sobre si próprios nos contextos sociais, bem assim como  mobilizando essa informação para denunciar subverter publicamente  presença desse poder social oculto.” (Pereira, 2009) 

 

Há assim um conjunto de razões pedagógicas e sociais que apontam e comprovam a necessidade de  desenvolver nos alunos competências de literacia enquanto manual de sobrevivência no mundo actual. 

 

3. A LITERACIA ECONÓMICA E A CIDADANIA  

Estudos actuais comprovam que a literacia e em especial a literacia da informação é fundamental para  o indivíduo mas também para a economia e para a sociedade (Calixto).   

Um estudo encomendado pelo Plano Nacional da Leitura “A Dimensão Económica da Literacia em  Portugal: Uma Análise” tenta apresentar uma perspectiva do valor económico da literacia em Portugal. Este  estudo parte do pressuposto que a “(…) literacia é um elemento chave e determinante tanto do capital humano  como do capital social.” (Incorporated, 2009). Este estudo mostra que Portugal apresenta os níveis mais baixos  de competências de literacia de entre todos os países onde se realizaram inquéritos até à data. Revela ainda  que os  ambientes pobres  em  literacia (como  é  o caso  de  Portugal) influenciam de forma  adversa  o  desempenho das instituições sociais e económicas, como é o caso das escolas, das empresas, dos hospitais,  entre outras. Por outro lado, mostra que melhores níveis de literacia na população adulta significa melhores  desempenhos ao nível económico e social. Este estudo termina aconselhando os governantes a uma maior  preocupação com a economia da literacia, já que a literacia influencia a capacidade da economia para gerar  riquezas (uma razão muito válida no actual contexto político e económico). 

     

      

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