Adelina Paula Mendes Pinto Coordenadora Interconcelhia da Rede de Bibliotecas Escolares
1. A LITERACIA
Uma das grandes preocupações do século XXI é o conceito de literacia e a forma como desenvolvemos estas mesmas competências. Na era da Sociedade da Informação e do Conhecimento, na era da avalanche de informação que nos “ataca” diariamente, do acesso à informação em tempo real, as competências de literacia estão fortemente ligadas ao conceito de aprendizagem e principalmente ao conceito de aprendizagem ao longo da vida.
Como tudo num mundo em mudança, também o conceito de literacia tem vindo a actualizar‐se.
Inicialmente incluía apenas a capacidade de ler latim. Como os meios de escrita eram escassos, o escrever não era considerado neste conceito. Hoje entendemos as literacias numa óptica mais abrangente.
“(...) ser capaz de ler não define a literacia no complexo mundo de hoje. O conceito de literacia inclui a literacia informática, a literacia do consumidor, a literacia da informação e a literacia visual. Por outras palavras, os adultos letrados devem ser capazes de obter e perceber a informação em diferentes suportes. Além do mais, compreender é a chave. Literacia significa ser capaz de perceber bem ideias novas para as usar quando necessárias. Literacia significa saber como aprender". (Stripling, 1992)11
A necessidade de formar cidadãos competentes na literacia da informação é uma preocupação das sociedades modernas que necessitam de cidadãos críticos, construtivos e participativos. Esta necessidade vem agudizar‐se com o advento da Internet, do digital, da informação em tempo real. Então o que é ser competente na literacia da informação? Podemos defini‐la como a competência do jovem ou adulto para identificar um
11 Stripling, B. (1992). http://www.ctap4.org/infolit/. Obtido em 10 de 05 de 2011, de http://www.ctap4.org/infolit/
problema, procurar informação necessária, saber seleccioná‐la, analisá‐la, interpretá‐la e ainda sintetizar e comunicar essa informação.
Da literacia da informação passamos rapidamente a um conceito polissémico que abarca outras formas de literacia como a literacia visual, a literacia digital, a literacia tecnológica, a literacia científica, a literacia estatística, entre outras.
Numa abordagem mais genérica, a literacia, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Priberam 12 consiste na capacidade de saber ler e escrever mas também na capacidade para perceber e interpretar aquilo que é lido. É esta assumpção que nos interessa no presente artigo, a forma como podemos trabalhar competências de literacia nos alunos, envolvê‐los para que eles consigam resolver os seus problemas através da leitura e interpretação de informação em vários suportes. Em nosso entender é este o caminho para a escola do século XXI, uma escola atenta ao presente, virada para o futuro, preparando novas gerações para os desafios sociais, económicos, culturais, emocionais que se adivinham.
2. A ESCOLA E AS BIBLIOTECAS
A Escola do século XXI deve ser centrada nas necessidades e nas lógicas do novo século. Um século que se tem vindo a caracterizar por um paradigma digital, por alunos que são já nativos digitais, por um conhecimento em constante mudança e evolução, por uma sociedade cada vez mais global e mais globalizante onde os jovens são cada vez mais cidadãos do mundo. Um mundo caracterizado por uma imensa flexibilidade laboral, por um aumento da escolaridade e da formação dos nossos jovens, um mundo social e economicamente mais exigente. Que desafios se colocam então à escola?
A Escola do século XXI deve ser necessariamente diferente daquela que caracterizou o século XX. Esta tem o principal desafio de desenvolver nos alunos competências ao nível das várias literacias, de desenvolver competências digitais e tecnológicas ao nível das tecnologias de informação e comunicação, uma nova percepção e entendimento do mundo. Mas como adequar a escola a estas novas exigências? Como passar do
12 Literacia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2010, http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx?pal=literacia [consultado em 11‐05‐2011].
currículo estipulado centralmente, espartilhado e compartimentado, para os interesses e necessidades dos nossos jovens? Como podem os nossos alunos entender a mudança, estar preparados para um mundo que é cada dia diferente, se a escola continua centrada em saberes adquiridos, numa organização dominada pelo professor enquanto detentor do conhecimento?
É neste contexto que surgem as Bibliotecas Escolares, centros de recursos, que disponibilizam meios físicos e humanos que possam ajudar os jovens a construir o seu próprio conhecimento. O Relatório “Lançar a Rede de Bibliotecas Escolares”, em 1996, referia:
“(…) as bibliotecas escolares, sobre as quais nos propomos reflectir, surgem como recursos básicos do processo educativo, sendo‐lhes atribuído papel central em domínios tão importantes como: (i) a aprendizagem da leitura; (ii) o domínio dessa competência (literacia); (iii) a criação e o desenvolvimento do prazer de ler e a aquisição de hábitos de leitura; (iv) a capacidade de seleccionar informação e actuar criticamente perante a quantidade e diversidade de fundos e suportes que hoje são postos à disposição das pessoas; (v) o desenvolvimento de métodos de estudo, de investigação autónoma; (vi) o aprofundamento da cultura cívica, científica, tecnológica e artística.”13
Assim, o conceito de literacia aparece, desde o seu início, fortemente ligado aos objectivos das Bibliotecas Escolares. Estas pretendem, em conjunto com os professores promover actividades e projectos que ajudem os alunos a desenvolver competências em literacia, nas várias literacias, mas com particular ênfase na literacia da informação.
“Está comprovado que quando os bibliotecários e os professores trabalham em conjunto, os alunos atingem níveis mais elevados de literacia, de leitura, de aprendizagem, de resolução de problemas e competências no domínio das tecnologias de informação e comunicação.” (in Manifesto da Biblioteca Escolar da IFLA/UNESCO)
A biblioteca escolar proporciona informação e ideias fundamentais que contribuem para a formação plena do aluno, para que seja um adulto bem sucedido na sociedade actual, baseada na informação e no conhecimento. A biblioteca escolar desenvolve nos alunos competências para a aprendizagem ao longo da vida e estimula a imaginação, permitindo‐lhes tornarem‐se cidadãos responsáveis. Parte do pressuposto que a aprendizagem deve assentar numa lógica construtivista, o aluno no centro do processo ensino‐aprendizagem, o aluno na construção do seu próprio conhecimento. Só assim o podemos preparar para a evolução do conhecimento e para o desafio maior de transformar a informação (múltipla, variada, muitas vezes pouco credível) em conhecimento.
Há uma tendência actual, mesmo entre alguns professores, de pensar que os alunos, só porque são nativos digitais e têm uma grande facilidade no domínio das tecnologias, têm competências de literacia. Mas isso não é verdade, a literacia tem ser entendida como uma competência que depende fortemente do percurso escolar do aluno, do meio social em que se insere mas também da forma como é sujeito a práticas sustentadas e prolongadas que o levam a desenvolver essas competências.
A literacia tem de estar ligada ao currículo, as competências de literacia são aprendidas e exercitadas nos contextos disciplinares, não no vazio. Exige um planeamento e uma sistematização. A ligação à Biblioteca Escolar deve ser consubstanciada e sustentada em projectos regulares e sistemáticos e não em actividades ocasionais e vazias de sentidos e de oportunidades.
A literacia tem de ser deliberada e conscientemente trabalhada com os alunos e devidamente integrada nos currículos. Este trabalho é feito pelo professor da turma e o professor bibliotecário assumindo‐se este como o especialista em informação e bem como nos múltiplos recursos existentes no espaço físico da Biblioteca ou em linha no espaço digital.
A literacia crítica tem vindo a desenvolver‐se nos últimos tempos, também ligada à necessidade de preparar melhor os alunos para a Sociedade da Informação.
13 Portugal, Ministério da Educação. Gabinete da Rede Bibliotecas Escolares. Portal RBE: Lançar a Rede de Bibliotecas Escolares [Em linha]. Lisboa: RBE, actual. 31‐01‐2011. [Consult. 15‐05‐2011] Disponível em WWW: <URL:
“… o conceito de literacia crítica refere‐se àquelas práticas sociais em que os leitores e/ou ouvintes vão além da mera utilização dos textos para construírem significado, realizando deliberadamente uma análise questionadora dos significados aí presentes e da influência que essas representações têm sobre si próprios nos contextos sociais, bem assim como mobilizando essa informação para denunciar e subverter publicamente a presença desse poder social oculto.” (Pereira, 2009)
Há assim um conjunto de razões pedagógicas e sociais que apontam e comprovam a necessidade de desenvolver nos alunos competências de literacia enquanto manual de sobrevivência no mundo actual.
3. A LITERACIA ECONÓMICA E A CIDADANIA
Estudos actuais comprovam que a literacia e em especial a literacia da informação é fundamental para o indivíduo mas também para a economia e para a sociedade (Calixto).
Um estudo encomendado pelo Plano Nacional da Leitura “A Dimensão Económica da Literacia em Portugal: Uma Análise” tenta apresentar uma perspectiva do valor económico da literacia em Portugal. Este estudo parte do pressuposto que a “(…) literacia é um elemento chave e determinante tanto do capital humano como do capital social.” (Incorporated, 2009). Este estudo mostra que Portugal apresenta os níveis mais baixos de competências de literacia de entre todos os países onde se realizaram inquéritos até à data. Revela ainda que os ambientes pobres em literacia (como é o caso de Portugal) influenciam de forma adversa o desempenho das instituições sociais e económicas, como é o caso das escolas, das empresas, dos hospitais, entre outras. Por outro lado, mostra que melhores níveis de literacia na população adulta significa melhores desempenhos ao nível económico e social. Este estudo termina aconselhando os governantes a uma maior preocupação com a economia da literacia, já que a literacia influencia a capacidade da economia para gerar riquezas (uma razão muito válida no actual contexto político e económico).