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O PAPEL DA ESCOLA NUM CONTEXTO MULTICULTURAL E INTERCULTURAL

No documento ELO 18 A (páginas 146-152)

 

José Pinto Pinheiro  Director do Agrupamento de Escolas Fernando Távora   

As sociedades europeias e, consequentemente, as escolas contemporâneas, debatem‐se, hoje, com  problemas sociais que preocupam de forma crescente os poderes políticos e os cidadãos em geral, destacando‐

se  a  pobreza,  as  minorias  étnico‐culturais e  o  desemprego  como  as  formas  de  exclusão  social  mais  generalizadas. 

Na década de noventa, a Comissão Europeia, por razões políticas, introduziu a expressão “exclusão  social” no discurso comunitário europeu que pretendia que a expressão substituísse o termo e a noção de 

“pobreza” e o próprio processo de “marginalização”. Robert Castel, (1990) define “exclusão social” como a fase  extrema do processo de “marginalização”, entendido este como um percurso “descendente”, ao longo do qual  se verificam sucessivas rupturas na relação do indivíduo com a sociedade. A fase extrema é caracterizada não  só pela ruptura com o mercado de trabalho, mas por rupturas familiares, afectivas e de amizade. 

Estes contextos de vida afectam as pessoas em aspectos da sua vida pessoal, social e cultural. Com a  alteração dos hábitos, emergem novos comportamentos, subvertem‐se os valores, transforma‐se a cultura,  instala‐se conformismo e com ele o baixo nível de aspirações, a capacidade de iniciativa, a auto‐confiança, a  rede de relações que se modifica, perdendo‐se a identidade social e por vezes, a identidade pessoal. 

A pobreza é, certamente, a forma de exclusão social mais generalizada entre nós mas o problema das  minorias  étnico‐culturais  coloca, actualmente,  um  dos problemas  mais  complexos  que  se  deparam  às  sociedades europeias. 

O espaço cultural europeu foi sempre um espaço multicultural, mas, curiosamente, foi também a  construção de um bloco económico e político – União Europeia – que fez emergir a questão da diversidade  étnica, cultural, linguística e religiosa do continente europeu. As preocupações com a unidade e coesão deste  espaço, ao nível do discurso político, culminaram num forte movimento de sentido contrário, preocupado, 

quer com as culturas nacionais, regionais e minorias tradicionais, quer com as novas populações emigrantes e  refugiados que têm acentuado a heterogeneidade da Europa. 

A “integração” destas minorias, de facto, não aconteceu de forma regular em todos os países europeus  ao longo das últimas décadas pois dependeu de factores diversos, tais como a proveniência, o número de  pessoas,  a  motivação para se deslocarem  ou  o  contexto  temporal:  presentemente,  num  contexto de  desemprego em larga escala que afecta quer nacionais quer imigrantes, estes passam a ser vistos como  indesejáveis,  com  a  agravante  de  que  por  vezes  aceitam  salários  inferiores  aos  mínimos  nacionais,  enfraquecendo o poder reivindicativo dos trabalhadores nacionais. São razões que têm contribuído para o  crescimento de reacções marcadas por ultra‐nacionalismos, isolacionismo, xenofobia ou racismo (Costa, 1998). 

Tal como noutros países europeus, a diversidade cultural no Portugal contemporâneo é prova evidente  da existência de um passado colonial: “País de emigração até finais da década de 60, Portugal é, desde os  primeiros anos da década de 70, mas sobretudo após a descolonização que se seguiu à Revolução de Abril de  1974, também um país de imigração” (Costa, 1998, 67). As ex‐colónias não são, no entanto, a única razão da  existência de uma diversidade cultural crescente no nosso país, uma vez que, tal como toda a Europa, Portugal  tem vindo a acolher imigrantes provenientes sobretudo da Europa de Leste e de outros continentes. 

  No caso português, uma proporção considerável dessas minorias sofre de variados tipos de exclusão: 

pobreza por falta de recursos, concentração em bairros da população imigrante e exclusão cultural que dá  origem a relevantes problemas de integração. A convivência entre culturas continua um problema real na  Europa, facto que a boa vontade não pode por si só resolver. O desafio que o nosso tempo nos coloca é o de  sabermos valorizar a diferença e reconhecermos que a diferença distingue mas enriquece. 

O fenómeno da integração coloca novos desafios aos professores em termos de mudanças das suas  práticas pedagógicas de modo a torná‐las inclusivas da diversidade sócio‐cultural dos seus alunos. Esta  diversidade sócio‐cultural arrasta consigo sérios problemas de adaptação ou ajustamento para os profissionais  do ensino já que se vêem envolvidos em situações em que são obrigados a interagir com uma população  escolar que, em certos casos, se afasta manifestamente dos seus padrões. 

Parece‐nos, assim, claro que um grande desafio se coloca à escola: conciliar igualdades com diferenças,  conciliar uma base cultural comum e dominante com expressões de pluralidade social e cultural. Não podemos  nem devemos ignorar esta questão, contudo, as medidas tomadas no sentido de alargar o nosso sistema  educativo às minorias existentes, não têm surtido efeitos práticos. 

O multiculturalismo na pedagogia é uma expressão que deve desempenhar um papel significante na  construção  das  políticas  educativas: deve  induzir  para  a  transformação  de  professores  e  educadores,  provocando uma reflexão sobre e como actuar no campo da educação. A lei de Bases do Sistema Educativo  Português consagra o princípio de igualdade de oportunidades, o que constitui a primeira garantia do  reconhecimento da multiculturalidade. A sensibilização dos professores para esta vertente implícita do referido  diploma, constituiu a condição fundamental para fazer da multiculturalidade uma constante das suas práticas  pedagógicas. 

O verdadeiro desafio cultural para a Europa do futuro parece estar na escolha entre uma sociedade  multicultural, em que as diferentes culturas convivem no mútuo respeito e na solidariedade, e uma sociedade  intercultural, em que as culturas se não limitam a uma convivência pacífica, mas interactuam umas nas outras,  através do diálogo, do conhecimento mútuo, da abertura ao universal, sem prejuízo da originalidade própria. 

A educação intercultural é a grande aposta dos nossos tempos e pode ser definida como um modelo  capaz de dar conta da diversidade humana e de favorecer o desenvolvimento da personalidade e dos grupos de  acordo com as identidades étnicas, sexuais, religiosas, de classe, entre outras. Esta procura a articulação dos  processos de ensino/aprendizagem tentando o afastamento da educação dita “tradicional”, em que este  processo era interpretado à luz de uma “alta“ cultura, etnocêntrica e eurocêntrica, feita à medida do homem  europeu, branco e de classe média. A necessidade intercultural na educação surge num momento histórico em  que a comunicação entre pessoas e grupos de diferentes origens e tradições culturais, resulta de movimentos  migratórios  mediáticos,  assim  como  da  consciencialização  para  uma  nova  sensibilidade  acerca  das  particularidades dos diferentes grupos em presença. 

A escola pública não deve ignorar a diversidade da sua população discente e tem de aprender a gerir  as  diferenças individuais, aproximando‐se  assim do conceito de  “Escola Inclusiva”, que  de forma mais 

abrangente, diz respeito a uma escola capaz de desenvolver programas educativos diferenciados, susceptíveis  de promover uma formação bem sucedida para todas as crianças que a frequentam, independentemente das  suas competências físicas, cognitivas, afectivo‐emocionais e relacionais ou da sua proveniência sócio‐cultural  (Trindade, 1996). 

A aceitação e valorização da diversidade não podem continuar a ser defendidas como princípios  fundamentais de escola democrática, ignorando a adopção de novas metodologias, currículos e processos de  avaliação que promovam a criação de ambientes educativos adequados a todos os alunos e métodos e  estratégias de ensino que possibilitem a mesma oportunidade de adquirir saberes, competências e atitudes. 

As inúmeras reflexões da sociologia da educação comprovam estes factos, obrigando a que cada  profissional da educação faça uma análise crítica do seu trabalho e deixe de invocar interpretações naturalistas,  individualistas ou etnocêntricas para justificar a persistência de um padrão na relação entre a instituição  escolar e as desigualdades sociais. O que as mais recentes teorias sociológicas mostraram foi o facto de o  insucesso escolar ser também o insucesso da escola em lidar com as diferenças sociais e culturais dos seus  alunos, pese embora o esforço das recentes medidas de política educativa no sentido de adequar os currículos,  programas, clima relacional, formação de professores, relação escola‐famílias e avaliação às expectativas dos  alunos, das suas famílias e da sociedade contemporânea, que vêem na escola o único meio de proporcionar  melhores condições de integração social e a única resposta para as emergentes e vertiginosas mudanças  tecnológicas, económicas, sociais e culturais ou para problemas tão complexos como a violência urbana, a  xenofobia, o desemprego ou a exclusão social. 

Por isso, esta convicção de que a escola desempenha um papel insubstituível na promoção cultural e  social obriga‐nos, quotidianamente, a transmitir aos alunos conhecimentos académicos e científicos válidos,  mas  igualmente  a  proporcionar‐lhes  o acesso  a  valores culturais  eruditos  e universais  que,  longe de  desrespeitar as suas especificidades culturais e sociais, abrem caminho a mundos que necessariamente  estranham, mas a que não serão, no futuro, indiferentes. 

Temos que reconhecer que a escola das sociedades contemporâneas erradicou quase completamente  o analfabetismo e aumentou os níveis de escolaridade obrigatória, contribuindo, assim, para universalizar e 

democratizar o acesso a saberes, competências e oportunidades, esforço de que resultou a correcção de  algumas desigualdades por permitir uma efectiva mobilidade ascendente que seria difícil por outra via. No  entanto, estudos realizados em diferentes países industrializados, incluindo Portugal, mostraram que a escola  continua a actuar de forma socialmente selectiva pelo menos em três aspectos distintos: no sucesso escolar,  nas taxas e tempos de abandono do sistema de ensino e no acesso às instituições universitárias (Almeida,  1994). 

Os casos de minorias étnicas desfavorecidas ou portadoras de características culturais contrastantes  conduzem normalmente a padrões de insucesso semelhantes, permitindo concluir que o sucesso escolar não  se distribui de forma aleatória mas acompanha as linhas de desigualdade social, contribuindo ao mesmo tempo  para as reforçar e reproduzir de uma geração para outra. Quanto ao abandono escolar, a situação não difere  muito, uma vez que são os alunos de meios sociais com menos recursos económicos e culturais os que  abandonam mais cedo o sistema de ensino, muitas vezes sem mesmo completar a escolaridade obrigatória. 

Temos, por isso, consciência das dificuldades de percurso que teremos que defrontar, se considerarmos  que a educação deve continuar propondo modelos de cidadãos e de sociedade, sem se limitar a adaptar às  condições políticas do momento e a todas as propostas tecnológicas mais desafiantes. Antes, deveremos  defender uma determinada atitude comprometida com um projecto democraticamente elaborado, que sirva a  um modelo flexível de indivíduo e de sociedade. 

Como professores, temos consciência de que a escola do futuro será tanto mais eficaz quanto for capaz  de combinar, de forma equilibrada, a urgência das mudanças tecnológicas com o humanismo fundador e matriz  cultural das sociedades justas, solidárias e democráticas. Está, acima de tudo, nas nossas mãos a capacidade de  encontrar um ponto de equilíbrio que permita à escola continuar a ser um espaço de socialização e de  igualdade de oportunidades, de transmissão de valores e de formação de cidadãos produtivos numa sociedade  democrática. 

     

BIBLIOGRAFIA 

ALMEIDA, J. Ferreira, MACHADO, Fernando, CAPUCHA, Luís e TORRES, A, 1994, Introdução à Sociologia,  Lisboa, Universidade Aberta. 

CASTEL, Robert, 1999, As Metamorfoses da questão social, Petrópolis, editora Vozes. 

COSTA, António Firmino da, 1992, Sociologia, Lisboa, Difusão Cultural. 

TRINDADE, Rui, 1996, “Ensino Básico integrado e promoção do Sucesso Educativo”, in Pires, Eurico  Lemos (org.), Educação Básica: Reflexões e Propostas, Porto, Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação. 

                         

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