3.1 LITISCONSÓRCIO
3.1.2 Litisconsórcio Unitário e Comum
Finalmente, outro critério de classificação fixa-se no resultado propagado pelo processo, de modo que, quando o resultado final tiver que ser o mesmo para todos os litisconsortes, haverá o litisconsórcio unitário, ao passo que, se não houver essa imposição, terá espaço o litisconsórcio comum ou simples (EID, 2016, p. 37).
A positivação do litisconsórcio unitário está exposta no artigo 116 do CPC, ao que dispõe: “O litisconsórcio será unitário quando pela natureza da relação jurídica, o juiz tiver de decidir o mérito de modo uniforme para todos os litisconsortes” (BRASIL, 2015), de sorte que o conceito de litisconsórcio simples se faz a contrário senso.
A rigor, o litisconsórcio unitário é aquele em que o destino que tiver um dos litisconsortes haverá de ser consentâneo com o que será dado aos demais. Dessa forma, os atos e omissões que beneficiarem a um, hão de beneficiar a todos na mesma medida, de modo a não se permitir que se criem situações desfavoráveis a um dos litisconsortes, sem que sejam desfavoráveis a todos eles (DINAMARCO, 1973, p. 68).
Moreira (1972, p. 129), em festejada obra enfrentando a miúde as questões atinentes ao litisconsórcio unitário assinala que tudo isso deve ocorrer na perspectiva do particular efeito que o desfecho do processo há de produzir sobre a situação jurídica substancial. Se por tal
prisma são idênticas e interligadas as posições jurídicas individuais de dois ou mais sujeitos, então a regra concreta deve necessariamente os atingir com igual eficácia (MOREIRA, 1972, p. 143).
Portanto, para verificar se deve ser forçadamente uniforme o tratamento conferido aos litisconsortes na sentença definitiva, tem-se de atentar na estrutura da situação jurídica substancial e no efeito que sobre ela se visa produzir a demanda (MOREIRA, 1972, p. 145).
O eixo de referência é o resultado prático a que tende o processo, à vista do pedido e da causa de pedir, se esse resultado for de tal maneira que haja de incidir sobre ponto de inserção homogêneo dos vários coautores ou corréus na situação jurídica substancial, será litisconsórcio unitário (MOREIRA, 1972, p. 146).
De modo geral, durante a vigência do CPC/73, muitos autores consideravam a unitariedade como espécie de litisconsórcio necessário, sendo gênero. Espécies, portanto, seriam o litisconsórcio simples e unitário. Isso se dava por força da confusão conceitual provocada pela redação do artigo 47 do CPC/73 (BRASIL, 1973), que trazia em seu bojo aspectos concernentes ao litisconsórcio necessário e ao unitário (ALVIM, 2017, p. 462).
Fazendo distinção entre as espécies de litisconsórcios, Miranda (1997, p. 19) esclarece “a unitariedade não faz surgir necessariedade, razão por que pode haver litisconsórcio voluntário que seja unitário. Portanto, há litisconsórcio necessário sem que seja unitário, como há litisconsórcio unitário sem ser necessário” (MIRANDA, 1997, p. 19).
A sua vez, Marques (1998, p. 434) complementa, ao dizer que não se confunde o litisconsórcio necessário com o unitário. Aquele promana da exigência de participação de todas as partes no processo, visto que a decisão vinculará todos os que estão integrados na relação jurídica a que se prende o conflito a ser composto. Já o unitário, diz respeito ao modo pelo qual se regerão as relações dos litisconsórcios entre si e com a parte contrária, a situação jurídica submetida à apreciação judicial tem de receber disciplina uniforme, não se concebendo que a decisão da demanda seja diferenciada entre os litigantes.
Os conceitos não coincidem, nem na compreensão, nem na extensão. Basta observar a estrutura inteligível das figuras, enquanto o litisconsórcio unitário tem como nota típica a obrigatoriedade da decisão uniforme de mérito, o necessário, por outro lado, preza pela
indispensabilidade da presença simultânea de duas ou mais pessoas no polo ativo ou passivo (MOREIRA, 1972, p. 130).12
Ademais, assinala Moreira (1972, p. 139) que aos olhos do legislador, as posições jurídicas de B e de C, em ralação à res in iudicium deducta, são de tal sorte ligas à de A, que guardam com esta tão perfeita unidade, tornando-se impossível, praticamente, admitir a cristalização quanto a A de determinada regra jurídica a respeito da matéria submetida à cognição judicial, sem que mesma regra seja aplicada a B e a C. Como as três posições têm de ser iguais, se se discute em juízo acerca de uma delas, a solução valerá necessariamente para todas.
Assim, para que se caracterize como unitário, o litisconsórcio dependerá da natureza da relação jurídica controvertida, havendo unitariedade quando o mérito envolver uma relação jurídica indivisível. Dois são os pressupostos para a sua caracterização, investigados nessa ordem: primus, os litisconsortes discutem uma única relação jurídica, e; secundus, essa relação jurídica é indivisível (DIDIER JUNIOR, 2015, p. 541).
A sua vez, o litisconsórcio comum, é aquele em que a decisão judicial pode ser diferente para os consorciados. A mera possibilidade de decisão diferenciada já torna comum o litisconsórcio, ocorrendo quando se discute uma pluralidade de relações jurídicas ou quando discutem relações cindíveis (como se dá normalmente nos casos de solidariedade). Dessa forma, cada um dos litisconsortes é tratado de forma autônoma (DIDIER JUNIOR, 2015, p. 542.)
É, então, marcado pela regra da (relativa) independência dos colitigantes, de forma que os atos e omissões de cada um são em princípio indiferentes para os demais, o que está albergado pelo artigo 117 do CPC (BRASIL, 2015). Constitui, portanto, direito comum em sede litisconsorcial, permitindo que a solução final do processo venha a oferecer, eventualmente, resultados diferentes para os diversos litisconsortes. Daí o porquê a classificação como litisconsórcio comum é mais adequada do que litisconsórcio simples, tendo em vista que se trata de hipóteses em que, existindo situações jurídicas processuais diferenciadas, o processo mais se complica no tratamento diferente dado a cada um (DINAMARCO, 1997, p. 68).
Superada a abordagem conceitual, é justamente por essa questão de unitariedade da relação jurídica processual e oportunidade de extensão dos efeitos, conjugada com a desnecessidade de formação do litisconsortes, que alguns autores, como Cintra (2017, p. 252)
12 Exemplificando, menciona-se a possibilidade de litisconsórcio necessário simples, caso v.g., de um processo de usucapião. De outro lado, pode ser o litisconsórcio facultativo unitário, como no caso em que alguns acionistas movem demanda para anular deliberação de assembleia geral (MARQUES, 1998, p. 434).
e Didier Junior (2015, p. 528), defendem uma interpretação extensiva do sistema, a partir de critério de adequação, para que se permita em determinados casos, conferir ao juiz o poder de determinar a integração do contraditório com esses sujeitos.
Em uma questão de ordem pragmática, a lume da codificação processual vigente, já é possível a ordem do juiz para que as partes promovam a citação do litisconsortes necessários passivo, ao que debatem alguns autores para alargar o espectro de abrangência da ordem, abarcando as situações em que se tratem de litisconsórcios unitários passivos e litisconsórcios unitários/necessários ativos.