1. Um impulso de mudança inédito na História do país
1.4. Litoral e Interior: distância e assimetria
A diversidade regional do país assenta, fundamentalmente, numa irregular distribuição da indústria e da população. Ao longo da década de 60 verificou-se um aumento da percentagem da população com actividade profissional ligada à indústria, no conjunto da população activa total. Já por demais aqui foi referido o notável impulso industrial ocorrido neste período. Sucede que a repartição regional das indústrias manifestava uma aglomeração muito desigual no grupo dos distritos portugueses, o que se repercutiu num avolumar das assimetrias no crescimento da população industrial. Esta, concentrou-se na orla marítima – mais industrializada e, consequentemente, mais densamente povoada –, com destacada incidência nos distritos de Aveiro, Braga, Porto, Lisboa e Setúbal. As regiões do Interior, que mantiveram o seu carácter essencialmente rural e agrícola, assistiram à fuga de muitos dos seus efectivos atraídos quer pela emigração para outros países, quer pela migração interna direccionada para as áreas industrializadas dos centros urbanos do litoral.
As tentativas de reformismo agrário já muito anteriormente ensaiadas em Portugal viram os seus esforços gorados, e as regiões predominantemente agrícolas acusavam
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uma incapacidade de resposta à satisfação das necessidades básicas dos seus activos. Com efeito, apesar da tentativa de uma adequada redistribuição das explorações pela via do parcelamento e/ou emparcelamento e subsequente modernização da agricultura, a mesma apresentava ainda as clássicas assimetrias das estruturas das propriedades – minifundiárias no norte e latifundiárias no sul –, o que dificultava a mecanização e mesmo, em alguns casos, a irrigação das empresas rurais. Da mesma forma resultaram infrutíferas as incumbências atribuídas à Junta de Colonização Interna que, entre outros encargos, deveria zelar pela instalação de casais agrícolas nos terrenos que a Junta Autónoma das Obras de Hidráulica Agrícola lhe fosse entregando mediante uma prévia expropriação de proprietários alentejanos. Obviamente que, dada a não concordância dos visados agricultores com a supracitada ordenação, a concretização do parcelamento e posterior colonização revelou-se irrealizável.
Também no norte o emparcelamento das explorações agrícolas acusou uma sensível ineficácia e as mesmas permaneceram estruturalmente fragmentadas e isoladas, reflectindo-se estas deficiências na impossibilidade da aspirada progressiva mecanização e na limitação do rendimento da agricultura. Consequentemente, e tal como refere Miriam Halpern Pereira, uma profunda estagnação agrícola acompanhou o
impulso industrial (…) e este teve uma repercussão pouco sensível no mundo rural, que permaneceu pouco permeável às inovações33. Nesta conformidade, dada a escassez da
produção agrícola e decorrente inércia da economia rural, o regime não apostara no progresso das infra-estruturas, nomeadamente no domínio das comunicações e transportes, o que dificultava o acesso às regiões do Interior mais profundo e a deslocação dos seus habitantes aos centros urbanos superiormente desenvolvidos. Consequência inevitável do esquecimento das zonas afastadas do litoral foi o acentuar das distâncias em relação às áreas industrializadas e o isolamento das populações que constituem os núcleos rurais do Interior.
A fuga dos campos para os aglomerados industriais da costa marítima provocou acentuados contrastes no povoamento do território português: quanto maior a distância do litoral e dos dois principais centros urbanos (Lisboa e Porto), maior também o agravamento da vastidão dos espaços sem gente, o que determinou marcados desequilíbrios de povoamento. Com base nas afirmações de Maria João Valente Rosa, apesar de, entre 1960 e 1991, o total da população residente no continente haver
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assinalado um acréscimo global de 13%, alguns concelhos registaram perdas populacionais iguais ou superiores a 50%34. São esses valores de níveis de crescimento demográfico negativo que poderemos observar no quadro número 10.
Quadro 10
Variação do crescimento demográfico nos concelhos com maiores perdas populacionais entre 1960 e 1991 (%) Concelhos Crescimento (%) Mértola………. Miranda do Corvo.………….. Monchique………... Montalegre………... Montemor-o-Novo………….. Oleiros……….. Ourique……… Pampilhosa da Serra………. Penamacor……….. Sabugal……… Vila de Rei………... Vimioso……… Vinhais………. - 62% - 54% - 51% - 53% - 50% - 50% - 56% - 57% - 51% - 56% - 51% - 51% - 52%
Fonte: ROSA, Maria João Valente: 856.
Ao fenómeno migratório das zonas rurais de Interior sucedeu-se uma redução no número de jovens aí residentes e o efeito desta diminuição foi o envelhecimento da população nestes espaços. O Alentejo, o Norte e o Centro Interiores constituem as
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regiões mais afectadas por este tipo de envelhecimento e, naturalmente, as que observaram uma descida no volume da população activa.
Actualmente, a tendência da população para a fixação nas regiões de litoral não acusou ainda a eficiência de meios dissuasores apesar do, embora fraco, progressivo desenvolvimento das vias de circulação interna e das débeis tentativas de industrialização de alguns pólos do Interior. Nesta conformidade, tal como João Ferreira de Almeida, somos levados a afirmar que com poucas excepções, o Interior,
desvitalizado já pela hemorragia migratória dos anos 60, não encontrou ainda modo de contrariar totalmente a permanência dos factores de repulsão, de efeito cumulativo, que estiveram na origem desses fluxos emigratórios de outrora35.
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O município é destinado a produzir (…) dois distinctos phenomenos. Como unidade administrativa deve elle conciliar, promover e dirigir os interesses de todos os cidadãos que habitarem o seu território. Como fragmento político, cumpre-lhe acompanhar o movimento progressivo de todo o paiz; executar a lei commum; dar e receber auxílio nas suas relações com o estado; e, finalmente, inspirar e engrandecer, pelo amor às próprias coisas, o alto amor às coisas da pátria, sob cujo influxo as primeiras se produziram. O município não legisla, mas concorre para a confecção das leis, por via dos seus representantes. Faz sim os regulamentos adaptados à localidade, e delibera desassombrado no limite das suas atribuições. Tem os braços livres, completamente livres para o bem; mas encontra obstáculos se attentar contra a harmonia dos interesses geraes.
J. Félix Henriques Nogueira (1856)
SEGUNDA PARTE
O concelho de Marco de Canaveses: principais linhas de evolução desde a sua fundação ao despertar de uma nova era na década de 1960.