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Livro escolar: de mídia de massa a objeto cultural complexo

O ENSINO RELIGIOSO VISTO A PARTIR DOS LIVROS ESCOLARES

3.1 Livro escolar: de mídia de massa a objeto cultural complexo

A bibliografia sobre a influência do livro escolar – termo usado neste capítulo como equivalente de livro didático ou manual escolar – no quadro do sistema educativo formal é extensa e diversificada. Existem inúmeras contribuições sobre seus usos (e abusos), que procuram conceituar e distingui-lo de outros gêneros bibliográficos, pois são classificados como obras de referência destinadas ao processo de difusão da escolarização em massa que acompanhou a formação das consciências nacionais (ROCHA; SOMOZA, 2012). Para a especialista Circe Bittencourt (2008, p. 299), ele é um “objeto cultural de difícil definição, mas, pela familiaridade de uso, é possível identificá-lo, diferenciando-o de outros livros”.

81 A expressão “cultura escolar” designa o “conjunto de teorías, ideas, principios, normas, pautas,

rituales, inercias, hábitos y prácticas (formas de hacer y de pensar, mentalidades y comportamientos) sedimentadas a lo largo del tiempo en forma de tradiciones, regularidades y reglas de juego no puestas en entredicho, y compartidas por sus actores, en el seno de las instituciones educativas” (VIÑAO apud AZEVEDO, 2011, p. 106). Ela “propicia aos indivíduos um corpo comum de categorias de pensamento que tornam possível a comunicação”, escreve Pierre Bourdieu (2007, p. 205) em sua reflexão sobre o papel de integração cultural assumido pela escola.

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Ainda hoje se pergunta por que a reformulação do artigo 33 da citada lei federal fez desaparecer o conectivo “e”, transformando a diversidade cultural e religiosa em “diversidade cultural religiosa” (FISCHMANN, 2008, p. 213).

A priori, define-se o livro didático por oposição ao paradidático83 em razão da sua linguagem não ficcional, com objetivo pedagógico delimitado, que apresenta e abrange os conteúdos de uma determinada área do conhecimento. Trata-se de um objeto comunicacional, com propósito formativo, segundo valores que se deseja perpetuar. Livros didáticos são transmissores de “conteúdos reveladores de estratégias representacionais, que permitem ao pesquisador refletir sobre os projetos hegemônicos de formação social” (NASCIMENTO, 2011, p. 153).

Enquanto recurso didático integrado ao universo escolar, não se pode negar o papel que o livro didático exerce nas sociedades atuais, ou letradas, constituindo-se como uma das mais complexas “mídias de massa”, segundo definição de Brigitte Morand (2012, p. 69). É justamente por cumprir uma função relevante na formação de jovens e crianças que vários autores, ao analisar os discursos e narrativas visuais presentes em livros didáticos, “acabaram por perceber e denunciar os graves problemas que acompanham este tipo de texto” (MEKSENAS, 2010, p. 31). Mesmo estruturados com certo rigor científico, eles podem assumir um papel explicitamente ideológico, apresentar estereótipos84 e regionalismos, reducionismos, lacunas teóricas ou ausência de determinados temas85, informações errôneas, fatos e conceitos formulados incorretamente e manipulados de forma preconceituosa.

Desse modo, os princípios éticos e os critérios de avaliação determinados pelo PNLD86 recomendam que os livros didáticos devam retratar, adequadamente, a diversidade e pluralidade social e cultural do país. Assim, deve-se evitar a difusão de estereótipos de condição socioeconômica, origem regional, étnico-racial, orientação

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O livro paradidático costuma ser adotado de forma paralela e complementar aos livros convencionais – daí o sentido do “para” (MENEZES; SANTOS; 2001). É um recurso lúdico e conceitual, que apresenta uma linguagem ficcional e “o imaginário como suporte ou manipulação do conceitual” (COELHO; SANTANA apud BAPTISTA, 2008, p. 11).

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Estereótipos "(...) não flutuam sobre o nada. Razão pela qual eles podem nos informar de maneira bastante útil sobre as realidades concretas e afetivas que eles deformam sempre, camuflam quase sempre e, finalmente, revelam" (JEANNENEY apud MORAND, 2012, p. 85).

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Para Azevedo as lacunas teóricas e de conteúdo de um livro didático são compreensíveis. Os autores deste gênero bibliográfico realizam suas escolhas seguindo critérios editoriais ou que julgarem mais relevantes. Alguns temas podem ser mais privilegiados que outros; “isso é plenamente aceitável, uma vez que os autores têm autonomia para proporem o que deve ser discutido” (AZEVEDO, 2005, nota 14, p. 116).

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Ver GUIA DE LIVROS DIDÁTICOS PNLD 2012: História. Disponível em: <http://www.fnde.gov.br/index.php/pnld-guia-do-livro-didatico>. Acesso em 26 fev. 2012.

sexual87, idade, entre outras formas de discriminação e violação de direitos, bem como respeitar a autonomia e a laicidade do ensino público.

O livro escolar constitui-se um “veículo poderoso de transmissão do patrimônio cultural socialmente partilhado” e “instrumento privilegiado de socialização” (NUNES, 2008, p. 104), pois contribui para a apropriação das representações dominantes numa dada sociedade. Enquanto item comunicacional, ele desempenha o papel de mediador entre a realidade e o público-leitor. Reúne, portanto, múltiplos discursos situados em diferentes níveis de percepção e configurados por dois códigos: o linguístico e iconográfico, que se enquadram e se articulam, “com maior ou menor convergência e/ou coerência, com outros discursos – educativos, institucionais (curriculares e programáticos) e científicos” (NUNES, 2008, p. 105).

Livros didáticos não são simples suportes pedagógicos, acima disso, eles se constituem como objetos culturais que devem ser considerados em sua complexidade. O conjunto dos elementos textuais e visuais neles veiculados como fontes não se limitam à maneira como explicam ou apresentam um determinado fato, mas também remete às representações sociais nele contidas.88 Como nada é “neutro, politicamente falando, em educação” (CRUZ, 1997, p. 102), logo, não é impossível localizar, ao longo de suas páginas, algum aspecto ou tratamento conceitual do qual se possa discordar.

A riqueza iconográfica presente nos livros escolares transformou-os em verdadeiros “livros de imagens”. Neles, as fotografias, mapas, cartazes, etc.,

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A partir de uma pesquisa baseada na análise de quatro coleções de ER, Diniz afirma que o “estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala de aula são uma constante nas publicações”. Cf. “Ensino religioso no Brasil estimula o preconceito e a intolerância”, Secom UnB (Secretaria de Comunicação da UnB), 21 de junho de 2010. Disponível em: <http://www.unbciencia.unb.br/index.php?option=com_content&view=article&id=552%3Aensino- religioso-no-brasil-estimula-o-preconceito-e-a-intolerancia&catid=57%3Alivros&Itemid=1>. Acessos: 2015; 2016.

88 Representações são “sistemas de interpretações sociais que regem nossa relação com o mundo

e com os outros, que orientam e organizam as condutas e as comunicações sociais” (JODELET, 2001, p. 22). Por "representações sociais queremos indicar, escreve Serge Moscovici, um conjunto de conceitos, explicações e afirmações interindividuais”, que equivalem, “em nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; poder-se-ia dizer que são a versão contemporânea do senso comum" (MOSCOVICI apud COSTA; ALMEIDA, 1999). Artigo originalmente publicado em periódico acadêmico, disponibilizado em online livre sem a devida paginação. Ver: <http://www.ufmt.br/revista/arquivo/rev13/as_teorias_das_repres.html>. Acesso em. nov. set. 2015.

“funcionam em rede, respondem-se mutuamente e participam da elaboração de uma ‘visão de mundo’ dessa vez em seu sentido figurado (...)” (MORAND, 2012, p. 69). Essa visão de mundo, acrescenta a pesquisadora francesa, aproxima-se muito mais de uma narrativa mítica do que histórico-cientifica e “os manuais escolares, pelo seu funcionamento interno, se tornaram, nos dias de hoje, uma mídia de massa” (MORAND, 2012, p. 69).89

Objeto interlocutor entre o professor e o aluno, o livro didático é uma “mercadoria” sujeita às influências sociais, econômicas, políticas e culturais sofridas por qualquer item comercial que percorra o passo a passo da produção, distribuição e consumo (PAVÃO, 2006). Sua “elaboração se dá no cruzamento de lógicas institucionais, científicas, didáticas e editoriais” (MORAND, 2012, p. 67). Trata-se de um item sujeito às demandas institucionais – nacionais ou provinda de uma estrutura mais descentralizada – e diretrizes editoriais ou educativas à qual uma determinada coleção se encontra vinculada. Além disso, pode refletir as concepções de autores ou organizadores (publicações que envolvem autorias coletivas) sobre um determinado universo temático. Essas situações podem interferir e modelar os textos didáticos a partir de “considerações ideológicas, tradições didáticas ou, ainda, pela memória individual dos autores, memória essa que guia a seleção e a interpretação dos acontecimentos” (MORAND, 2012, p. 70).

Consequentemente, o processo de produção e consumo deste “dispositivo de ensino” (ROJO, 2006, p. 49), mobiliza a participação de sujeitos que não podem ser compreendidos isoladamente no decorrer deste processo: os autores, organizadores, trabalhadores técnicos e, em especial, os professores e alunos, consumidores finais que vivem a experiência da sala de aula. Cada qual atribui significados variados ao livro escolar, que pode vir a ser, inclusive, uma marca de distinção social, ou “referência de status”, principalmente para a população estudantil economicamente desfavorecida.90

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Essa observação poderia ser estendida aos livros escolares de história do Brasil, onde fatos reais são narrados de forma mítica, como se fossem grandes sagas ou epopeias heroicas.

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Oliveira (2006, p. 40) reporta-se, em nota explicativa, ao estudo realizado por Circe Bittencourt. Em pesquisa realizada em escolas de São Paulo, Bittencourt comenta que para os estudantes de baixa renda, a posse individual do livro didático conferia um status social e até mesmo garantia de segurança em caso de “batidas” policiais ocorridas fora dos perímetros das escolas.

O valor do livro didático incorpora, portanto, algo a mais que a expectativa pedagógica, aparentemente a mais óbvia deste que é um dos principais meios para a aquisição do conhecimento. Sua produção engloba aspectos econômicos, políticos, técnicos e culturais, que uma vez observados, podem abrir novas possibilidades de pesquisa, que ultrapassem a ênfase limitada à “denúncia” das faltas, erros ou ideologias do livro escolar. No entanto, as pesquisas que privilegiam unicamente a “externalidade” da sala de aula, não dialogam com a empiria vivida nos ambientes escolares (OLIVEIRA, 2006). Neste trabalho buscamos olhar de forma multidimensional para a questão do ensino e das práticas escolares referentes ao ER. Esta abordagem está construída em uma trajetória que compreende o material jurídico, passando pelos livros escolares de ER, até alcançar o universo empírico da sala de aula.

3.2 Livro didático em escolas do Brasil: discursos autoritários e apreensão do