2 GETÚLIO VARGAS E O RÁDIO (1930-1945)
2.5 LOURIVAL FONTES, O POLÍTICO DE BASTIDORES DE VARGAS
O político de bastidores de Vargas foi o jornalista Lourival Fontes. Ele foi também o primeiro diretor-geral nomeado para cuidar do DIP e já tinha dirigido o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural, criado em 1934, e o Departamento Nacional de Propaganda, entre 1937 e 1939. Foi o homem de confiança de Vargas, nas fases democráticas e de ditadura, e se identificava com o autoritarismo.
Fontes também foi o chefe da Casa Civil da Presidência da República e, por isso, desempenhou uma função típica de político de bastidores. Mas, ao final do governo, mesmo tendo sido eleito senador, não conseguiu sobreviver politicamente. Seus últimos anos de vida foram de ostracismo. Fontes tentou consolidar a sua imagem como um liberal progressista, mas tentou em vão. Sua carreira encerrou com o estigma de um homem autoritário e como o censor do Estado Novo.
A trajetória dessa personalidade foi descrita por Lopes no livro Lourival Fontes: as duas faces do poder, resultado de sua dissertação de mestrado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E é essa autora que se traz agora para construir o perfil de uma das figuras políticas mais importantes do governo de Vargas.
Fontes era natural de Aracaju (Sergipe) e chegou ao Rio de Janeiro na década de 1920, em plena efervescência intelectual. Assim como muito jovens, ele tinha consciência de que estar na capital brasileira e trabalhar num jornal significava fazer parte de um circulo social e estar em contato com pessoas das esferas da política. O jornalismo era um veículo importante e que contribuía para formar a opinião. “Portanto, escrever em jornais e revistas revelava-se uma estratégia eficaz para qualquer um que tivesse aspirações a uma ascensão intelectual e, talvez, política380”.
Fontes estudou numa das escolas mais prestigiadas, o Atheneu Sergipano e foi aluno de Luiz Figueiredo, pai de Jackson Figueiredo, e do poeta Garcia Rosa. Ainda jovem, leu autores como Darwin, Proudhon e Kropotkin e considerava-se um materialista e socialista. E com 13 anos, já escrevia para o jornal proletário Águia
380 LOPES, Sônia de Castro. Lourival Fontes: as duas faces do poder. São Paulo: Litteris Editora, 1999. p. 59
de Sergipe, onde aproveitava para incitar os trabalhadores à greve e comícios na porta das fábricas.
Segundo Lopes, a formação intelectual de Fontes
foi sedimentada em função do elitismo próprio das instituições educacionais da época, que conferiam legitimidade aos intelectuais justamente por serem eles os detentores de um saber sobre o social que era reconhecido e valorizado pela sociedade381.
Tratava-se do ensino de tradição positivista que negava a cultura do povo e negava que o povo tivesse a essa cultura que eles consideravam superior. Quando Fontes chegou ao Rio de Janeiro, o mundo estava vivendo mudanças por causa da 1ª Guerra Mundial, Revolução Russa, o capitalismo estava entrando em crise e o fascismo estava se organizando em alguns países da Europa. Quando se formou em Direito na Faculdade de Direito da capital brasileira, em 1922, ele já escrevia em alguns jornais e também trabalhava na agência de notícias Havas. E por meio do conterrâneo Jackson de Figueiredo, ele se aproximou de um grupo de intelectuais, conservadores e católicos, ligados à revista “A Ordem, criada em 1921 e ao Centro Dom Vital (1922). Esses dois órgãos tinham por finalidade congregar o núcleo de intelectuais leigos que passariam a atuar como porta-vozes dos interesses da Igreja382”.
De acordo com Lopes, é justamente quando acontece a Revolução de 1930 que a Igreja Católica torna-se indispensável para o novo momento político. E o responsável pela aproximação da Igreja com o Estado foi o cardeal Sebastião Leme, cardeal-arcebispo do Rio há 15 anos. “A Igreja apoiou Getúlio Vargas não só por causa dos privilégios que pretendia conseguir, mas também por uma questão de afinidade política383”. De acordo com Lopes, havia uma coincidência de postura
política entre a Igreja e o regime ditatorial de Vargas. Ambas defendiam a ordem, o nacionalismo e eram anticomunistas. Foi neste momento que, também Fontes, que era um jornalista sem grande reconhecimento, percebeu que podia alcançar os meios intelectuais e chegar ao poder. Para isso, ele se converteu ao catolicismo, depois da morte trágica do amigo Figueiredo, e começou a apoiar a Aliança Liberal, um movimento que nasceu em 1929, nos estados do Rio Grande do Sul, Paraíba e
381 Op. Cit. LOPES, Sônia de Castro. p. 59 382 Idem. pp. 60-61
de Minas Gerais e que sustentavam a candidatura de Vargas à presidência da República.
A trajetória política de Fontes iniciou em 1931, quando é indicado para ser o chefe de gabinete do interventor Pedro Ernesto, no Distrito Federal. Nesse ano, ele ainda dirigia a revista de estudos políticos Hierarchia384. Devoto da Igreja Católica,
Fontes deixou de lado o seu gosto pelo socialismo, tornou-se mais nacionalista e começou a defender o fascismo italiano. E não escondia que era um admirador de Mussolini e o considerava um dos grandes estadistas do século 20. Também se declarava como um conhecedor da doutrina comunista e considerava que as teorias marxistas estavam defasadas e precisavam ser revisadas. “Dessa maneira, tornou-se um dos maiores teóricos do fascismo na América Latina, a ponto de escrever para revistas italianas sobre problemas doutrinários do regime385”.
De acordo com Lopes, nos anos 1930, o fascismo empolgou muitos intelectuais porque despontava como uma saída para resolver as crises provocadas por causa do sistema liberal. Assim, o autoritarismo fascista surgia como uma alternativa viável para barrar, por exemplo, o capitalismo selvagem a da ditadura do proletariado. Para muitos, o “discurso fascista atacava de frente o problema dos trabalhadores, sem se descuidar das camadas médias e principalmente da burguesia que temia os avanços do Comunismo386”. E assim,
essas experiências européias acabaram atraindo os intelectuais dessa época. Foi também em 1931 que Fontes conheceu oficialmente Vargas. Talvez, como afirma Lopes, o ponto convergente foi o “aspecto ideológico da doutrina fascista: o dirigismo econômico, o esvaziamento das lutas de classe, harmonização de interesses e conciliação de capital e trabalho visando o bem comum387”. Ambos
tinham um amigo em comum. Luís Aranha, membro do Governo Provisório, pediu a Fontes um parecer sobre um órgão que pretendia criar: o Departamento de Difusão Cultural, instituído em 1934. Fontes fez o relatório e recebeu, com surpresa, o convite para dirigir o novo órgão, cujo cargo tinha sido rejeitado por Monteiro Lobato e Ronald de Carvalho, cogitados para o mesmo.
384 A Revista Hierarchia circulou por menos de um ano e propunha o debate sobre os principais problemas políticos nacionais e internacionais, com espaço para pensadores autoritários e liberais. E o periódico também discutia algumas interpretações do fascismo.
385 Op. Cit. LOPES, Sônia de Castro. p. 65 386 Idem. p. 65
Figura 4: Reprodução de foto de Monica Mangia, que mostra Getúlio Vargas e Lourival Fontes.
Fonte: Capa do livro Lourival Fontes: as duas faces do Poder, de Sonia de Castro Lopes
Segundo Lopes, em 1932, Fontes já tinha prestígio junto ao governo e foi convidado a fazer parte da Comissão que regulamentou a jornada de oito horas de trabalho para os operários, na gestão de Salgado Filho no Ministério do Trabalho. Após a Revolução Constitucionalista de São Paulo, em outubro, ele é nomeado chefe de gabinete do prefeito do Distrito Federal e ainda ocupa a Procuradoria da Fazenda. A rápida ascensão dele foi mal vista pelos integrantes do Clube 3 de Outubro que exigiram de Vargas a sua demissão.
Mas, dois anos depois, em 10 de julho de 1934, Vargas criou o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC), com base no projeto de Fontes. O novo órgão era vinculado ao ministério da Justiça e tinha como meta estudar e orientar os meios de comunicação ligados ao processo de difusão cultural, como a imprensa, o rádio e o cinema. Esses meios seriam, portanto, utilizados na propaganda governamental.
Uma entrevista realizada com Fontes, quando ainda era diretor do DPDC, intitulada Ouvindo Lourival Fontes, publicada na revista A Voz do Rádio, em 10 de
fevereiro de 1936, revelava a sua opinião sobre as funções políticas do rádio e sua importância como um instrumento de ação político-social:
Dos países de grande extensão territorial, o Brasil é o único que não tem uma estação de rádio oficial. Todos os demais têm estações que cobrem todo o seu território. Essas estações atuam como elemento de unidade nacional. Uma estação de grande potência torna o receptor barato [...]388
Para Fontes, esse veículo de comunicação era generalista e deveria ser utilizado para a propaganda ideológica
Não podemos desestimar a obra de propaganda e de cultura realizada pelo rádio e, principalmente, a sua ação extra-escolar, basta dizer que o rádio chega até onde não chegam a escola e a imprensa, isto é, aos pontos mais longínquos do país e, até, à compreensão do analfabeto389.
Em 10 de novembro de 1937, quando o Estado Novo foi implantado no país e o Congresso Nacional dissolvido, o DPDC foi instalado nas dependências da Câmara dos Deputados, no Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro. Fontes, é lógico, apoiou o golpe porque era necessário restaurar a ordem e recuperar o nacionalismo por causa da ameaça comunista. Um ano depois, o DPNC mudou de nome e passa a se chamar Departamento Nacional de Propaganda (DNP). Somente em dezembro de 1939, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), subordinado diretamente à presidência. Rebatizado, o organismo é utilizado para centralizar e divulgar a ideologia do novo regime e ficou responsável pela censura aos meios de comunicação, ao teatro e demais diversos públicas.
É neste contexto que Fontes se ajustou e passou a colaborar com Vargas, principalmente porque também era anticomunista. Por causa do prestígio de jornalista e por ser um intelectual, foi muitas vezes comparado a Goebbels que na Alemanha cuidava da propaganda política de Hitler e da censura dentro do regime nazista. No Brasil ditatorial, Fontes chegou a ser chamado de o nosso Goebbels ou Goebbels caboclo porque “incorporou às práticas autoritárias da tradição brasileira,
388 Op. Cit. SAROLDI, Luiz Carlos; MOREIRA, Sônia Virgínia. p. 21 389 Idem. p. 21
outras mais modernas, que tornavam-se através da propaganda e da educação instrumentos de adaptação do homem à nova realidade social390”.
E foi a frente do DIP que Fontes se tornou um dos homens mais poderosos do Estado Novo, entre 1939 e 1942. Enquanto esteve nesse cargo, defendeu o programa radiofônico Hora do Brasil, um dos mais emblemáticos e que funcionou como o porta-voz do regime estadonovista. De 1942 a 1945, por exemplo, eram transmitidas palestras que iniciavam com uma abertura de “Boa noite, trabalhadores do Brasil” e que faziam a comunicação entre o governo e a população, “intensificando a propaganda e angariando o respaldo dessa categoria para que o governo parecesse mais democrático391”.
Após 1942, o DIP continuou com a função de órgão censor e responsável pela propaganda política, mas passou a ser dirigido por militares como o ministro da Guerra, general Dutra. Em 17 de julho de 1942, quando o mundo já vivia a 2ª Guerra Mundial e no Brasil havia uma pressão da sociedade para que se posicionasse com os países Aliados, como os Estados Unidos, Vargas aceita que ministros e assessores identificados com a direita e os países totalitários peçam exoneração. Além de Filinto Müller e Francisco Campos está Lourival Fontes.
Entre 1942 e o final do Estado Novo, o então diretor-geral do DIP teve que interromper a sua carreira no país porque o contexto mundial refletia ares mais democráticos e a sua imagem estava associada ao período de repressão e à ditadura, que não era conveniente ser mostrada no Brasil e perante o mundo.
De julho de 1943 e novembro de 1944, ele fica em Nova Iorque de onde envia vários relatórios sobre “os acontecimentos ocorridos no interior dos altos círculos governamentais e diplomáticos norte-americanos, bem como de seus aliados durante a guerra392”. No último relatório enviado em novembro de 1944,
Fontes fez uma avaliação sobre a reeleição de Roosevelt e de seu desejo de internacionalizar a política de seu país, deixando de lado, assim, a política isolacionista e imperialista. E seu discurso começou a demonstrar uma “total sintonia com as novas tendências políticas internacionais. Como homem inteligente e político perspicaz, tende a se adaptar às novas circunstâncias de maneira lúcida
390 Op. Cit. LOPES, Sônia de Castro. p. 70 391 Idem. p. 83
e oportuna393”. Na verdade, ele percebeu que o mundo ficaria polarizado
ideologicamente, entraria na era da Guerra Fria e o Brasil deveria se alinhar à posição dos Estados Unidos.
Em janeiro de 1945, Vargas o nomeia embaixador do Brasil no México e, no exterior, trabalhou como um observador político nos Estados Unidos, chefiou a delegação brasileira à Conferência de Alimentação e Agricultura em Quebec, no Canadá, e representou o Brasil na Conferência das Municipalidades, em Lyon, na França.
Quando Vargas é deposto pelas Forças Armadas, em 29 de outubro de 1945, ele é obrigado a exonerar-se do cargo e, assim, voltou a dedicar-se ao jornalismo e sobreviveu apenas com o salário de Procurador da República. Mas, nesse período, sempre manteve contatos políticos que possibilitaram ele voltar ao poder em 1950, quando Vargas é eleito para presidente da República. Lopes salienta que o exílio de Fontes foi, na verdade, uma estratégia do governo para retirar do cenário político nacional algumas pessoas inconvenientes e que pudessem comprometer o regime ou até dificultar a instalação de um novo projeto nacional.
É também em 1950 que Fontes lançou o livro Homens e Multidões, que reúne os seus melhores artigos escritos entre 1946 e 1949 para O Jornal. A obra, que tem o mesmo nome de um livro escrito por António Ferro, diretor do SPN em Portugal, em 1941, é o primeiro de uma série de outras publicações com textos de análise política.
Figura 5: Getúlio Vargas com Lourival Fontes. Fonte: Internet (sem identificação de data)
Com Vargas novamente no poder, Fontes foi escolhido para ser o Chefe do Gabinete Civil, função onde permaneceu até o fim do governo em 1954. Em 1955, lançou Discurso aos Surdos; em 1957, Uma Política de preconceitos; em 1958, Política, Petróleo e População; em 1961, Missão ou Demissão; e em 1966, A Face final de Vargas, escrito com Glauco Carneiro.
Segundo Lopes, ele exerceu uma função de político de bastidores e manteve seu prestígio junto ao presidente, como por exemplo, evitando os arroubos populistas quando ensaiava aproximações com sindicatos radicais. Fontes costumava citar uma frase de um ex-secretário de Roosevelt de que a maior qualidade para alguém exercer um cargo como o dele era manter-se no anonimato. Tanto que, na prática, ele não fazia nenhuma questão de estar ligado a partidos políticos, como o Partido Trabalhista Brasileiro, ao qual era filiado. Para ele, os partidos eram instrumentos que favoreciam o respaldo popular. Foi eleito senador por Sergipe por causa uma aliança que reuniu o PTB, a UDN, o PSD, o PR e o PSP. Assim, Fontes retornou ao cenário político brasileiro que durou até 1963 quando encerrou sua carreira política e a tentativa de se desvincular da sua relação e identificação com o DIP, anticomunista e defensor do discurso trabalhista e nacionalista de Vargas.
Lopes resume que Fontes era um político autoritário, conservador, elitista e paternalista. Em 1964, quando ocorreu o Golpe Militar, Fontes caiu definitivamente no ostracismo. E, antes de morrer, em 6 de março 1967, por causa de um edema agudo do pulmão, costumava lamentar a solidão e o esquecimento em que se encontrava.