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5 A LUTA DAS CASA E OS ARRANJOS ECONÔMICOS NA FAMÍLIA DE DONA

5.3 A GRANDE FAMÍLIA E A REDE DE PARENTESCO

5.3.1 A mãe e a rede de parentesco

Na narrativa da rotina da casa de Dona Selene, emergem questões sobre o papel da mulher na família, desencadeando conceitos já trabalhados na literatura sociológica, tais

como “dona de casa” e “mãe de família”, bem como as distinções entre “casa” e “família”,

revelando a divisão de papéis sociais na unidade doméstica. A narrativa da cena do almoço no início do capítulo conduz à analise dessa rotina numa condição de vida, de família e de mulher a partir de um contexto de pobreza acentuada, num bairro popular de Fortaleza.

A “dona de casa” tem como responsabilidade a manutenção do padrão mínimo

almoço ao meio dia. Desde o raiar do dia, sua meta é prover alimentos à família: Negoço de alimentação é comigo.

O almoço é a refeição que representa o acolhimento de todos na casa, sejam filhos moradores, filhos vizinhos, filhos trabalhadores, que, mesmo não residindo na casa da mãe, fazem a refeição do meio dia em sua casa. As netas Suyane e Suzy13 moram próximo, mas almoçam na casa da avó. O almoço é a refeição que une a família numa panela só.

Foto do quintal da casa de Selene e as panelas.

Foto: Edmar Oliveira Jr

A única panela é compartilhada por todos e, apoiada nessa atitude, Selene acentua

Quem chegar aqui come. Essa sua fala se realiza na refeição central do trabalhador

nordestino: o almoço. Ao oferecer o almoço aos seus, a matriarca cumpre seu papel de “dona de casa”, pois representa a manutenção mínima do padrão alimentar, e de mãe, no sentido de

garantir a unidade da família. A relação objetivada consiste numa “panela só”. Dona Selene,

13 Emília é irmã de Sulany e Suyane; ela mora numa rua paralela e vive uma união conjugal homossexual com

uma moça que foi namorada de Sulany. As irmãs estão magoadas, principalmente Sulany, que foi preterida por Emília e acusa a irmã de “roubar” sua amada. As três irmãs, juntamente com Severo e Suri, foram criadas na casa da avó com os pais e ocupavam o quarto que hoje é usado pela família de Sara. Essas relações não chegam a gerar conflitos diretos com a matriarca, mas ela não concorda com a opção homossexual e disse: “Isso é horrive”. Suyane morava com Sulany e recentemente voltou para a casa da avó.

que é divorciada, ainda assume a função de chefe de família, são papéis sociais, no sentido de algo que se espera de uma dona de casa, chefe de família e mãe, centralizados na pessoa de Selene e simbolizados pelo almoço na panela coletiva.

A panela coletiva é para todos, mas não de todos. Há um dito popular que expressa a máxima de que “panela que dois mexem, ou saí cru ou sem sal”. Na casa de Selene a panela é dela, da mãe, da dona da casa. Ela acompanha a panela durante toda a manhã e ao chegar a hora do almoço, com a generosidade e a firmeza da mãe de família, distribui o alimento entre os filhos. Seu olhar calcula e mensura quantidades e necessidades de cada um; essas medidas são praticadas no dia a dia e planejadas na vivência e no conhecimento da família para ensejar a todos o almoço.

Os filhos, netos e agregados sabem que podem chegar à casa da “mãe” na hora do almoço e vão ser recebidos com a oferta da refeição. Este alimento é patrocinado pela mãe, então, é para todos. Na casa de Dona Selene, não há café da manhã para todos. Segundo ela, somente às vezes compra pão, porém os filhos de Sara tomam café e comem pão pela manhã, antes de ir para a escola. Na cozinha de Selene, a filha Sara faz café para todos, mas só compra pão para seus filhos e Simone, filha de sua irmã que mora desacompanhada da mãe biológica na casa da avó e vai para a escola com as filhas de Sara. Quando Selene, porém, compra pão, todos têm direito de comer. O que pertence à mãe é patrimônio de todos os que compartilham da panela. Somente a mãe tem “obrigação” com a alimentação de todos, sendo a colaboração dos demais somente ajuda.

O desafio cotidiano começa logo que o resultado do esforço do dia é alcançado. Assim, finalizado o almoço, se inicia o novo desafio: o almoço do próximo dia. Para tal, a tarde é fundamental na venda de tapiocas, biscoitos e balas para os vizinhos e principalmente para os netos. Este comércio doméstico se transforma no dia seguinte em dádiva de mãe: almoço.

Apesar da continuidade do desafio, o dever cumprido representa a realização da

mãe, como emerge em sua fala de ser a “mãe” de todos os filhos, netos e bisnetos ou

simplesmente, meus, “os meus” como chama ela sua prole. No tocante à responsabilidade com escola, alimentação e vestuário, ela separa os netos menores que são criados sob sua responsabilidade, pois vivem na sua casa desacompanhados das mães. Atualmente, somente Simone está sob sua responsabilidade, e Selene recebe a ajuda de Sara na atenção com a

menina. Há outro neto, porém, sob seus cuidados: Suri, de 12 anos14, filho de Silvana 15, alcoólatra, que saiu da casa da mãe para viver uma conjugalidade com uma companheira, deixando o menino (o menor dos seus cinco filhos) na casa da avó.

A organização dos meios e a confecção do almoço rotineiro pode ser uma tarefa simples para muitas mães, mas para Selene, aposentada com um salário mínimo e uma família de 25 pessoas, cada dia, o almoço é um esforço significativo, que ouso aqui chamar de desafio. Afinal, ela cumpre o papel de mãe ao organizar o arranjo econômico da família em torno do almoço que, na sua condição de pauperismo, o cumprimento representa o êxito no seu papel e consolida sua condição de autoridade16 e referência na família.

A mulher tem um lugar de relevância para a unidade da família, seja por ser dona de casa, chefe de família, seja por ser simplesmente mãe. Ela une todos em torno dos laços de sangue e também pelos de afeto. Nas famílias pobres, desprovidas de condições satisfatórias de vida, os familiares são importantes. Credite-se isso ao costume de chamar a família de “os

meus”, denotando proximidade, identidade e apoio na crença de reciprocidade.

Esse apoio tem nome e atende pelo apelido de mãe. É certo que não se pode generalizar nem considerar uma universalidade, mas também não se pode negar a figura

simbólica da “mãe”.

Cotidianamente, as pessoas podem se magoar ou se ofender na rua por diversos

motivos, mas se chamar “pela mãe” as ofensas e mágoas tomam enormes proporções e podem

causar agressões físicas que são liberadas por atingir algo que reside no plano do “sagrado” para a maioria das pessoas.

Na trilha de entender essa situação, podemos recorrer ao argumento de alguns familiares que responderam que família era mãe, ter nascido da mãe e ser irmã dos meus irmãos (Vilani, 2008). Essa fala corrobora a explicação de que se trata de uma questão de identidade com a mulher e com a família por ela representada, haja vista que frequentemente

14

Certa tarde, o menino havia sido o assunto da cozinha, pois chegou um aviso da escola de que ele estava pichando as paredes da escola e só poderia retornar acompanhado dos pais e com uma lata de tinta para nova pintura.

15 Silvana é mãe de Suzy, Sulany, Suyane, Suriel e Suri. Foi casada com Silvino por muitos anos e viveu a maior

parte desses anos na casa da mãe com a família. Os filhos cresceram, e ela se separou do marido para viver uma nova conjugalidade numa neolocalidade. Recentemente voltou à casa da mãe, no entanto sua permanência não é certa, enquanto que o filho é contado como morador fixo da casa.

16Sobre autoridade e poder, Romanelli (2000) explica que ambas se referem a comando e obediência, mas “A

autoridade reporta-se a experiências comuns vividas no passado e seu exercício visa preservar posições hierárquicas já estabelecidas e que fazem parte da tradição de comando no interior de um grupo ou associação”. (p. 80).

também não se aceita falar da família fora de casa, por terceiros, mesmo considerando-se a validade das acusações. Em muitos casos, certas acusações só são aceitas em casa, não se

permitindo que terceiros falem mal dos ”nossos” familiares na rua. Toda essa situação de

identidade se personifica na figura da mãe, sendo ela um calcanhar de aquiles para as pessoas. As mães são as protagonistas da maioria dos palavrões ofensivos no cotidiano brasileiro.

Nesta perspectiva de centralidade do parentesco, Margarida Hitta (2002) assinala que o parentesco se faz desde a linhagem da mãe, estando nela, mãe, o cerne do parentesco.

No setor popular o parentesco entre dois indivíduos passa principalmente pelas mulheres, pelo ventre materno. O cordão umbilical é o símbolo que une os iguais, que constrói o outro com o irmão através da mãe. É pela mãe que o parentesco entra no mundo e é pela mãe que dele sairá o novo indivíduo. A mãe é a junção entre a casa e as redes de parentesco que ao redor dela se constroem. Reconhecer a centralidade da mãe e das redes de parentesco produzidas através dela não significa, entretanto, afirmar que as famílias como as aqui estudadas se produza uma falta de homens e abundância de mães. (HITTA, 2002, p.3).

A mãe recebe os filhos que não têm um lugar pra morar. Essa mesma prática acolhedora se reproduz na mesa, ou melhor, na panela, da qual todos têm o direito de partilhar o alimento.

Apesar dessa potencialidade de unidade centrada na mãe de família, especialmente nas redes, há mães, como dito, que abandonam os filhos à sorte, no entanto observo que, algumas mães, confiam essa tarefa às suas próprias mães, nesse caso, biologicamente, às avós17.

Segundo dados do Cadastro Único, no Pirambu, das 6.997 crianças cadastradas entre 0-14 anos, somente 2.276 moravam com o pai. Este número é bem próximo do de crianças que moram com o pai e a mãe biológicos, que é de 2.148 crianças, significando que apenas 128 crianças moram somente com o pai, enquanto 6.376 moravam com a mãe desacompanhadas do pai. Das crianças criadas pelas avós, há registros de 336 crianças que não moram nem com a mãe nem com o pai.

17 Observo mais casos de crianças com as avós, mas há circulação de crianças nas casas de parentes e não-

parentes. Em uma vila portoalegrense, Fonseca (1987) constatou que 50% das mulheres de mais de 20 anos tinham colocado pelo menos um filho num lar substituto. Na periferia de Fortaleza, no bairro Bom Jardim, foi realizado um estudo com 104 jovens sobre Juventude, pobreza e trabalho e sobre as famílias. A autora constatou que “31% das famílias são chefiadas por mulheres e 21/% por parentes, com destaque para a figura das avós.” (BRITO, 2006, p.117, grifo meu)

Esta é uma situação recorrente nas casas de Dona Selene, Dona Rita Dona Telma, mas não são critérios de vida familiar somente entre os pobres. A antropologia da família tem reservado boas discussões à questão da circulação das crianças (FONSECA, 2006) nas camadas populares e médias18. Essas mudanças, em parte, são ocasionadas pela conjugalidade cada vez menos restrita a padrões tradicionais de casamento e aberta a novas configurações e valorização do individualismo e suas liberdades de escolhas. Isso, consequentemente, gerou uma rotação de parceiros e formas de configurações dos relacionamentos. Divulga-se, então, a liberdade de escolha dos cônjuges em torno do afeto que é vivenciado e produz frutos: filhos, estes, porém, após o fim dos relacionamentos, em alguns casos, são preteridos por novos projetos de amor pelas mães que, em algumas situações, deixam os filhos com as avós, suas mães. No caso dos homens, a pesquisa empírica denota que, comumente, a paternidade é determinada pelo tempo de duração da conjugalidade com a mãe da criança.

A matrifocalidade e a circulação de crianças

A matrifocalidade é um fenômeno recorrente nas famílias pobres. Comumente os filhos ficam com a mãe ou na rede de parentesco matrilinear após o fim dos relacionamentos conjugais e suas recomposições.

Crianças são resultantes de uniões conjugais, nas quais a linhagem da família se renova e dá continuidade a um grupo familiar. A neta Suyane, aos 16 anos, foi para uma cidade do interior do Estado viver uma nupcialidade. Passou dois anos e voltou; está sempre namorando. Assim, em minhas pesquisas no Pirambu, noto que os jovens fazem e refazem suas vidas amorosas com rapidez. Não raro, vejo jovens que viveram dois ou três relacionamentos conjugais19 antes dos 30 anos.

Os relacionamentos em si não são problemas sociais, pois vivemos numa

sociedade de grande valorização do “eu”, onde as pessoas buscam constantemente sua “felicidade” e em nome dela se ligam a um par quando “encontram o amor”, em todas as

camadas sociais. O problema entre os pobres reside na precariedade das condições materiais que acentua as consequências para as crianças que são frutos desses relacionamentos e preteridas quando há uma separação e recomposição das famílias. Nessa situação estão muitos

18 Ver sobre a circulação de crianças em camadas populares em (SARTI, 2005b; FONSECA, 2006) e em

camadas médias ( MOTTA-MAUÈS, 2004)

19 O termo cônjuge é utilizado para expressar uma relação entre um casal e por terem filhos como consequência

netos de Selene, os dois filhos de Silmara: Salomão e Severo, Suri, filho de Silvana, e Simone filha de Soraya. Alguns desses netos, como Salomão, Sólon, Simone e Sansão [falecido] foram criados desde a primeira infância na casa de Selene como se fossem seus filhos, diferentemente do neto Suri, que sempre teve a mãe por perto, mas, diante das suas impossibilidades de cuidados com uso de álcool e agora drogas, o menino acabou ficando a cargo da avó.

A expressão complexidade familiar que foi utilizada para denotar a diversidade das formas de organização das unidades domésticas desde as unipessoais ou não-família, com única pessoa morando no domicilio, às unidades extensas. O grande número de crianças nas casas é a principal recorrência que observo nas famílias complexas estendidas do Pirambu, Como acontece na casa de Selene, é comum encontrar mulheres com mais de um filho, muitas solteiras ou em um novo relacionamento e, algumas vezes, grávidas do “novo amor”, sem um local de moradia para um novo núcleo; mas há também modalidades nucleares vivendo no núcleo extenso.

Como nos casos citados na família de Dona Selene, muitos casais nas camadas populares vivem suas relações amorosas e geram filhos, mas as condições de ser da paternidade e maternidade não são fluidas, como os relacionamentos. As crianças são preteridas pelas mães na situação de novo amor e, em muitos casos, “esquecidas” pelos pais ao término dos relacionamentos. O ideal de amor é consumido como direito, no entanto, o casamento não é mais uma consequência desse amor nem a constituição da família, apesar da vinda de filhos.

A questão dos filhos afastados dos pais nas famílias pobres tem sua fonte no individualismo e na liberdade sexual que se realizam em detrimento da atenção à reprodução biológica. Não raro, os jovens se tornam pais muito cedo, e os filhos dessa união se agregam à casa das avós das crianças20.

Essas uniões são os novos habitantes que chegam às casas por meio da gravidez das jovens sem uma união, cujos filhos irão somar-se à já extensa família em que vivem. Em geral, na matrilocalidade. Daí o elevado número de crianças e adolescentes sem os pais na casa de Dona Selene.

20 Em alguns casos de novas uniões conjugais, a mulher opta pelo novo cônjuge em detrimento dos filhos que

são dados para criar geralmente para rede consanguínea da mãe (SARTI, 2005, FONSECA,1987). Nas minhas pesquisas, observo frequentemente as avós maternas cuidando dos netos, como ocorre com as famílias de referência da tese.

Em outubro de 2001, conversei com uma moradora da rua da Paz, uma das ruelas do Pirambu, sobre sua família, e ela relatou que na sua casa moravam dez pessoas: ela, o marido, os cinco filhos do casal e três netos. Nessa casa, um dos netos era de um filho varão, e a criança estava separada da mãe — é mesmo que não ter mãe — revelando que as mães

também abandonam os filhos21. A moradora falou ainda dos relacionamentos das filhas, não casa, se junta, arranja uns cabra que não presta e arranja meninos e apontou um neto esse aqui o pai nem conhece; depois apontou o outro neto e disse: aquele ali o pai ainda deu dois anos, referindo-se ao apoio financeiro.

Em junho de 2005, foi divulgada22 uma pesquisa encaminhada pelo Banco Mundial em três bairros da periferia de Fortaleza, a qual avalia a situação designada de risco na periferia. Esta constatou que, entre os jovens, apenas 7% são criados com o pai biológico. Trata-se de um número elevado e denota a precariedade da condição de paternidade nos bairros populares.

Os relacionamentos se fazem como parte de um projeto de individualidade e de escolhas livres, pressuposto no amor, hoje acrescido da transitoriedade, da descrença na eternidade dessas uniões e numa maior participação nas decisões do relacionamento, ou seja, são projetos de realização do eu que se contrapõe ao nós da família. A família e a casa não se sustentam em valores individuais, mas coletivos.

A rede de proteção que ampara e oferece um lugar de identidade se faz com trocas de dádivas que carregam consigo a obrigação da retribuição. É justamente a retribuição que enseja uma nova dívida, porém na forma de retribuir é que percebi o conflito. Observei durante anos uma situação interessante entre três gerações – avó, filha e neta. A filha mais nova de Sara, então com dois anos, ainda aprendendo a falar, foi ensinada pela mãe biológica a chamá-la de mãe, no entanto a situação desagradava à avó, que era dona da casa onde a filha estava vivendo com a neta, e queria ser chamada de mãe pela criança, como faziam todos os outros netos que viviam em sua residência, com ou sem a presença dos pais. Dona Selene, proporcionava uma moradia e uma família a todos os seus filhos e netos, sentia-se no direito de ser mãe, apesar da presença da mãe biológica da criança, que deveria, como suas outras filhas, ser chamada por seus filhos pelo nome ou apelido. Hoje a menina com onze anos chama a avó e a genitora de “mãe”.

21 Esse foi o segundo caso que vi de netos na casa paterna. No outro, a avó explicou que a criança lhe tinha sido

entregue pela avó materna, pois a mãe não tinha responsabilidade. Para as mulheres que se afastam dos filhos, as críticas são mais intensas do que para os homens.

Para complementar, é importante destacar que, apesar da ausência física do pai, ele é mencionado nos relatos, sendo assim, uma figura presente. As mulheres consideram importante saber quem é o pai e onde ele está, apesar de negarem essa presença, dizendo que

nem vê e nem sabe, mas, quando interrogadas se ele sumiu, rapidamente respondem que não e oferecem informações precisas sobre os genitores dos filhos ele mora bem ali, na outra rua, na casa da mãe dele. O pai não assume a paternidade como a expectativa criada em torno do papel de pai, mas a figura moral paterna não é ausente e quando necessária pode ser assumida por um dos tios da criança.

5.4 A GERÊNCIA DA MÃE NA ECONOMIA DA CASA E O COMÉRCIO NA COZINHA

Na porta da casa da Dona Selene, há uma placa onde se lê: suco – 0,50 centavos tapioca – 0,50 centavos, café – 0,50 centavos, paulistinha (pão de milho) – 0,50 centavos. Na placa não há o preço do ovo que é vendido junto com o paulistinha quando o cliente solicita, mas costumeiramente é comercializado somente dentro da casa com os filhos, netos e agregados.

Foto da placa de venda na porta da casa de Selene.

Foto: Edmar Oliveira Jr

A cozinha de Selene é lugar de trocas comerciais na família. Ela oferece o almoço a todos como dádiva de mãe, mas vende lanches e guloseimas para os filhos e netos. A maioria dos produtos comercializados na cozinha é direcionada ao consumo familiar e, pelas minhas observações, cerca de vinte por cento destinam-se ao comércio exterior à família.

São lanches de tapiocas com margarina, pão com ovo, paulistinhas com margarina e paulistinhas com ovo e guloseimas, como balas, pirulitos, tijolinhos e biscoitos; os principais consumidores são as crianças. Na cozinha não há balcões ou caixas registradoras para o dinheiro chegar à mão da avó, mas há a consciência dos filhos e netos em efetuar o pagamento, há cobrança da avó e os olhos vigilantes das irmãs que monitoram os pagamentos.