Uma das principais ferramentas de comunicação criadas após e por meio da evolução da internet foram as redes sociais. Ainda que outras ferramentas de comunicação já existissem à época, como os ambientes na web para bate-papo e os programas para comunicação instantânea entre usuários online, nenhum destes programas tomava como base de representação os vínculos sociais do mundo off-line. Assim, as redes sociais, ao mesmo tempo que disponibilizavam meios para que pessoas se comunicassem, representavam ou replicavam no mundo virtual as relações pré-existentes no mundo real.
Criada em 2004 nos EUA e extinto em 2014, o Orkut foi uma das primeiras redes sociais cujo uso difundiu-se por vários países e que primeiro figurou na lista dos endereços mais acessados da internet. O Orkut era uma rede social que conectava pessoas através da ligação virtual entre seus perfis ou páginas pessoais. Cada perfil de usuário no Orkut era organizado em três dimensões: perfil social, que reunia as informações básicas pessoais do usuário; perfil profissional, com informações sobre escolaridade, profissão e interesses; e perfil pessoal, com informações sobre cor do cabelo, cor dos olhos, tipo físico etc. (FRAGOSO, 2006). Os usuários do Orkut dispunham também de recursos para troca de informações, como a página ou mural de recados, onde outros usuários poderiam deixar mensagens ao dono do perfil, além das páginas de comunidades, que eram fóruns que reuniam pessoas com mesmos interesses, para debate e/ou troca de informações.
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No Orkut, a conexão entre os perfis dos usuários correspondiam a uma ligação entre pessoas ou a representação de um vínculo social. “Amigos” no Orkut eram os perfis que aceitavam estabelecer este vínculo na rede social e que, a partir de então, passavam a ter acesso às informações mais sensíveis dos perfis um do outro, pois um usuário podia configurar que tipo de informações eram públicas e acessíveis a todos na rede e que informações eram protegidas e acessíveis somente a seus amigos virtuais ou ainda aos amigos destes amigos (FRAGOSO, 2006). A partir de seu lançamento, em janeiro de 2004, o Orkut passou a ser utilizado principalmente por usuários residentes nos EUA. Um mês após seu lançamento, 60% dos usuários do Orkut eram americanos. Dois meses depois, os brasileiros representavam 7,2% dos usuários do serviço e, ao final de junho do mesmo ano, o número de usuários brasileiros havia ultrapassado o de usuários americanos e o percentual de brasileiros no Orkut continuou a crescer a partir de então (Idem, p. 6).
Ainda em 2004, no início do processo de crescimento no número de usuários brasileiros no Orkut, algumas comunidades foram criadas por usuários norte-americanos para a discussão sobre o crescente número de brasileiros na rede, algumas com conteúdo de protesto a este fenômeno. Como resposta a este movimento, outros fóruns foram criados por brasileiros para fazer oposição a estes conteúdos, subindo o tom dos discursos e conclamando outros usuários brasileiros a “tomarem” o Orkut dos americanos (FRAGOSO, 2006). À medida que os debates se intensificavam, muitos brasileiros aumentavam o números de convites a outras pessoas, para que o número de compatriotas aumentasse em percentual. Este comportamento destoava do que muitos usuários americanos consideravam uma característica importante do Orkut de ser um “clube privativo”, uma rede social restrita ao real círculo de amizades de cada usuário. Mas a “generosidade” dos brasileiros em convidar para seu círculo social pessoas meramente conhecidas ou mesmo desconhecidas levou a uma escalada no uso desta rede social no Brasil (Idem, p. 10).
Esta primeira mobilização virtual já ilustrava os argumentos contra e a favor dos potenciais democráticos da internet: ao mesmo tempo em que promoveu mobilização de pessoas em torno de uma causa comum, viabilizou discursos de ódio entre diferentes grupos online. Também ilustrou a estrutura de conexões que podem ser criadas dentro da grande rede de conexões, fazendo emergir, de forma espontânea e não direcionada, redes de interesses e proximidade dentro de outras estruturas mais amplas.
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que brasileiros e não outra nacionalidade – se haveria alguma característica própria do povo brasileiro que o possibilitou acessar e permear a rede social Orkut mais rapidamente que qualquer outro povo ou se seriam as supostas características positivas de amabilidade e alegria dos brasileiros o motivo do rápido crescimento no uso desta mídia social no Brasil. Ao analisar estas questões, a autora afirma que “[...] muitas comunidades, tópicos e mensagens criadas por uma parcela significativa de usuários brasileiros no Orkut testemunham por um alto grau de intransigência, sobretudo (mas não apenas) para com os estrangeiros, notadamente os estadunidenses” (Idem, p. 12).
Para Fragoso, o comportamento agressivo dos brasileiros observado no Orkut neste período pode ser interpretado a partir da visão antropológica de Roberto Da Matta, para quem o brasileiro é capaz de viver “[...] não apenas entre duas lógicas, mas para aderir a ambas e a cada uma delas ao mesmo tempo”, ou seja, ao mesmo tempo em que busca igualdade, perpetua um “[...] sistema institucional divorciado da prática cotidiana” (2006, p. 17-18). No exemplo do Orkut, a mobilização dos brasileiros em resposta aos usuários americanos apenas reproduzia esta lógica.
Dois anos após a criação do Orkut, é lançado o Twitter como serviço de microblogging para atualizações de situações cotidianas, porém tornando-se depois um meio de comunicação para todo e qualquer tópico de discussão, como notícias jornalísticas ou políticas, frases e citações curtas, atalhos para outros websites, mensagens para outros usuários e, em tempos de eleições, especificamente para as discussões políticas que dominam os principais tópicos desta rede (TUMASJAN et al., 2010, p. 178). O Twitter, enquanto serviço de microblogging, é uma ferramenta de comunicação que possibilita a seus usuários a descrição de sua atual situação ou status através de mensagens curtas publicadas por suas contas ou perfis através de aplicativos para aparelhos celulares, por programas de mensagens instantâneas, e-mail ou pela World Wide Web (JAVA et al., 2007). Esta foi a característica que distinguiu e ainda distingue o Twitter de outras mídias sociais – a limitação do tamanho do conteúdo a ser compartilhado em 140 caracteres de texto.
Em um estudo realizado no Twitter três anos após sua criação, Java e outros (2007) descreveram o uso desta nova ferramenta de comunicação como sendo um mini-diário para que usuários postassem suas atividades diárias e para que procurassem ou compartilhassem informações. Ao analisar os motivos pelos quais usuários adotaram o uso de uma plataforma de microblogging, Java e outros (2007) concluem que há três principais grupos de usuários no
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Twitter: (1) aqueles que têm um elevado número de seguidores e provêm informações de forma regular; (2) o grupo dos usuários que seguem um número considerável de contas, têm poucos seguidores e cujo uso se caracteriza pela busca de informação na rede; e há ainda (3) o grupo de usuários que usa o microblogging para a conexão com amigos, família ou rede de relacionamentos profissionais (Idem, p. 63). O primeiro grupo corresponde às celebridades virtuais, que nem sempre correspondem a pessoas famosas ou influentes no mundo off-line, mas que é dominado por astros e estrelas de cinema e televisão, esportistas famosos, políticos influentes etc. O segundo grupo, bem mais heterogêneo, é composto por usuários comuns (talvez o menor subgrupo deste grupo), profissionais de diversos setores em busca de informações sobre o primeiro grupo, militantes políticos e formadores de opinião. E o terceiro grupo era, a princípio, o público alvo dos idealizadores do serviço do Twitter.
Java e outros (2007, p. 60) encontraram uma alta correlação entre o número de perfis seguidos pelos primeiros adeptos ao serviço do Twitter e o número de perfis seguidores destas contas. Ao considerar estas contas e seus seguidores como comunidades cuja densidade de conexão era maior entre si do que o restante do universo de contas no Twitter, os autores puderam identificar diferentes grupos de usuários e as diferentes formas pelas quais estes grupos se conectavam na rede. Os autores concluem que os usuários tendem a participar e compartilhar informações em grupos de contas que partilham dos mesmos interesses que os seus (JAVA et al., 2007, p. 61-63). Este padrão de conexão de interesses ou formação de redes de interesses não parece ser intencionalmente buscado, dadas as formas como os perfis se conectam no Twitter, ou seja, o movimento de aproximação social aqui vai no sentido dos interesses dos usuários e menos no sentido de adesão formal a uma causa ou filiação a um grupo.
O Twitter se caracteriza por sua natureza de imediatismo, ao viabilizar o compartilhamento de informação em tempo real e, dependendo do uso, pode ser uma mídia relativamente interativa (PANAGIOTOPOULOS; SAMS, 2012, p. 2). Enquanto a possibilidade de se mencionar os nomes de outros usuários através do uso do código ‘@’ permite o diálogo e interação entre usuários do Twitter independente da existência ou não de vínculos entre seus perfis, as hashtags, identificadas pelo uso do código ‘#’ precedendo palavras-chaves, permitem convergir as mensagens de diversos usuários para assuntos específicos ligados às palavras- chave utilizadas, criando assim grupos instantâneos e heterogêneos para o debate dos mais diversos temas, desde comentários sobre um espetáculo em curso, até o compartilhamento de informações sobre tragédias ocorridas ou os mais diversos tópicos políticos. E um terceiro recurso da plataforma compreende a possibilidade que têm os usuários de republicar para seus
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seguidores mensagens de qualquer outra conta no Twitter, com o uso do ‘RT’, o que pode ser feito por diversos motivos: para mostrar acordo ou desacordo com o que foi compartilhado, para subscrever uma causa ou movimento, para dar visibilidade a uma informação importante ou mesmo para atrair para si status pessoal (Idem, p. 3).
Estes três recursos da plataforma possibilitam análises sobre a quantidade de vezes em que um perfil é espontaneamente lembrado por outros usuário, a quantidade de vezes e a forma de propagação que sua fala obtém no ambiente virtual, além das análises sobre formação espontânea de grupos em torno de temas ou fatos ocorridos em tempo real. Acrescente-se a isto as conexões de interesses representadas pelos vínculos de entrada e saída dos perfis, a popularidade obtida pelos diferentes perfis e o cruzamento entre todos estes dados. O Twitter representa assim ambiente único para a observação sobre os vínculos e a dinâmica social e política dos usuários da internet.