Essa foi outra dimensão que se abriu principalmente a partir da demonstração técnica do espetáculo “Alphonsus” criado e apresentada por Raquel 60 Scotti Hirson. Mímesis da Palavra coloca o texto como uma outra camada geradora de imagens propulsoras das ações. O trabalho acaba tendo um sentido parecido com aquele que se realiza a partir de fotos, porém, as imagens não são figuras que se apresentam aos olhos, são imagens produzidas internamente, imagens-afetos. A partir da apresentação de Raquel ficou clara a riqueza de possibilidades geradas pela presença de se trabalhar a partir de um texto oculto, ou seja, um texto não dito capaz de gerar essa outra camada de relações potencializadoras do espaço de ação. Assim, o espaço sobre o qual o ator trabalha se enriquece e ganha inúmeros sentidos poéticos.
Não se trata em absoluto de representar a poesia e sim de recriá-la, em um fazer teatral não-representativo. Desta forma adentro em uma questão diferencial da mímesis corpórea: a mímesis da palavra. A palavra em ação pode conter todas as dimensões das conexões de imagens que detona e ainda as dimensões do corpo, jogando com espaço e tempo. A palavra poetizada sugere sons, tensões, ações que tomam outras formas e sugerem novas poesias quando corporificadas. Um emaranhado de recriações que afeta a mim como leitora, que afeta e gera reatualizações de dimensões poéticas, afeta o observador, que por sua vez recria sua poesia. (HIRSON, 2012, p. 20)
“Quando os subtextos são textos”, demonstração criada e apresentada Por Raquel 60
Apresentada como mais uma camada poética possível de ser produzida no trabalho com a Mímesis Corpórea, a Mímesis da Palavra foi introduzida por Raquel em seu curso a partir de um exercício pontual. Além de imagens fotográficas referentes a nossa pesquisa, Raquel havia pedido que trouxéssemos textos de nosso interesse para o trabalho. Assim foi proposta a entrada no vazio do espaço cênico, tendo apenas como referência o texto lido por um dos participantes. Esse foi um importante trabalho de abertura para um estado de presença conduzido pelos sentidos e imagens produzidas pelas palavras que, ao longo do exercício passaram a contaminar as ações. Obviamente que a relação anterior com o texto específico vinha a tona, bem como todo o contexto de pesquisa e das próprias atividades desenvolvidas até ali dentro do curso, fatos que enriqueceram e ampliaram ainda mais o campo de ação do corpo.
Pelo contato com esse profundo universo, o trabalho com a Mímesis da Palavra acabou surgindo durante meu processo criativo e constituiu um dos exercícios cênicos que tem se mantido como parte dos materiais que compõem a montagem de “O Bom da Roda”. Se trata de um texto oculto, um subtexto que internamente me conduz para a entrada na qualidade física que leva ao momento em que a roda é habitada pela Sambadeira, uma segunda figura que habita o espetáculo. Há uma transição de qualidades de Cícero para a Sambadeira, ela convida os participantes a formarem a roda.
Nesse momento de passagem reverbera internamente um texto de Isabel Alliende retirado do romance “A Ilha Sob o Mar”. Essa obra apresenta uma ficção a partir da revolução que gerou a independência e fim da escravidão no Haiti e dialoga com o universo do Samba de Roda trazido ao espetáculo pela Sambadeira. Para esse momento deixo as palavras-imagens me conduzirem:
Minha primeira lembrança de felicidade, quando era uma pirralha magrela e desgrenhada, é a de me mexer ao som dos tambores... A música é um vento levado pelos anos, pelas lembranças e pelo temor, esse animal preso
que carrego dentro de mim. Com os tambores desaparece a Zarité de todos os dias e volto a ser a menina que dançava
quando mal começava a andar. Bato no chão com as solas dos pés, e a vida sobe pelas minhas pernas, percorre meus ossos, apodera-se de mim, acaba com a minha tristeza e adoça a minha memória.
O mundo estremece. O ritmo nasce de uma ilha sob o mar, sacode a terra, atravessa-me como um relâmpago e segue em direção ao céu, levando as minhas aflições...
“Dance, dance, Zarité, porque escravo que dança é livre... enquanto dança.” Eu sempre dancei.
Mais do que palavras com significados, o texto contamina meu corpo com imagens que perpassam a lenta transição entre Cícero e a Sambadeira. A imagem da menina magrela e desgrenhada que dançava quando mal começava a andar, gera novos impulsos internos. Batidas com a sola dos pés no chão me levam em direção ao céu, a vida sobe pelas pernas, percorre a coluna até o topo da cabeça, meu corpo abandona a fisicidade de Cícero, deixo suas tensões, retrações e projeções para habitar e ser habitado pelo corpo ereto e fluido da sambadeira. O ritmo traz um balanço para o quadril que contamina a coluna em ondas. A lembrança de felicidade conduz seu olhar que se lança de cima para baixo. Por sobre os ombros vai trocando olhares com a audiência. Uma dança interna se estabelece e aos poucos vai ganhando o espaço, seu deslocamento no espaço culmina no samba dançado e tocado pela própria Sambadeira com seu prato e
faca. A partir daí, suas memórias compartilhadas e seu modo de tocar o prato e faca
conduzem o público para a formação da roda, território de seu domínio onde ela sempre dançou, ali ela se sente viva, livre - labareda a rodopiar sua chama.