Uma primeira rota de encontros vem sendo traçada ao longo dos últimos 17 anos de trabalho artístico e musical com o Núcleo Cultural Cupinzeiro. Navegar por esse percurso tem me levado a vivências com as práticas coletivas da roda
de samba, manifestação caudalosa, híbrida, regida por encontros permeados por sons,
ritmos, textos poéticos cancionais, estados afetivos, movimentos, gestos, sabores e memórias. O balanço de todas essas ondas têm me levado a estabelecer uma atuação que se expande para a busca da composição com outras matérias de expressão que, na roda,
se somam às musicais e nesse território de encontros se potencializam mutuamente. Antes de prosseguirmos, proponho um primeiro esclarecimento sobre como abordarei o termo roda de samba, ou mesmo com quais sentidos opero quando separo os termos: samba e roda. Ou seja, é preciso mais uma vez compreender com que chaves entramos no território da pesquisa.
Ao tratar da roda de samba ou utilizar o termo roda estarei me referindo à manifestação coletiva, acontecimento formado quando comunidades ou grupos específicos se organizam e se reúnem em torno do gênero musical samba para o desenvolvimento de seu fazer cultural. Isso envolve desde a organização do espaço- tempo, onde e quando se realiza o acontecimento, quanto tempo dura, o que se come e bebe, passando pelo repertório cultural comum. Por isso, para essa pesquisa, as dinâmicas de relação para a construção desse comum nos levam ao centro de forças expressivas que movem a roda. Elas abarcam o cantar, tocar, dançar, celebrar, criar, recriar e partilhar a memória. Além disso, ao longo da atual pesquisa procurei compreender como a experiência da roda, embora realizada coletivamente, se singulariza pela experiência pessoal de seus participantes. Portanto, nosso foco acaba sendo a relação entre a roda, os elementos expressivos que a compõem e seus participantes. Olhar para a trajetória dos participantes, seus modos de expressar a relação com a roda foram uma das bases para as construções poéticas dos exercícios cênicos e criativos que levaram ao “Bom da Roda”. Como minha trajetória também está integrada aos momentos de criação, alguns dados referentes ao meu encontro com a roda de samba se fazem presentes na narrativa que se segue.
Numa relação direta com a dança, o termo samba deriva etimologicamente de semba que no quimbundo significa umbigada, sendo que samba seria uma corruptela formada no Brasil. Além disso, a palavra samba também pode ser encontrada na língua umbundo significando, “estar animado, estar excitado”, no luba e em outras línguas bantas, com o sentido de “pular, saltar com alegria”.Ainda a esse respeito o sambista, compositor e pesquisador da cultura afro-brasileira, Nei Lopesnos traz:
Samba, entre os quiocos (chokwe) de Angola, é verbo que significa cabriolar, brincar, divertir-se como cabrito. Entre os bacongos
angolanos e congueses, o vocábulo designa uma espécie de dança em que um dançarino bate contra o peito do outro. E essas duas formas se originam da raiz multilinguística semba – rejeitar, separar, que deu origem ao quimbundo di-semba, umbigada – elemento coreográfico fundamental do samba rural, em seu amplo leque de variantes, que inclui, entre outras formas, as danças conhecidas como batuque baiano, coco, calango, lundu, jongo etc... (LOPES, 2003. p.14)
Com isso ao usar o termo samba, trato do universo cultural, histórico e social mais amplo que envolve o processo de formação e permanência, tanto do gênero cancional samba quanto do próprio leque de manifestações praticadas em torno da roda. Samba, portanto, é música e dança, mas é também o elemento condensador de vivências com desdobramentos sociais, históricos, políticos e culturais de grande interesse para os processos de composição artística que a pesquisa foi engendrando.
Gosto de pensar no samba como elemento que habita o centro da roda. O samba é força em torno da qual pessoas, corpos, histórias, memórias orbitam. Assim, a roda se forma na união de suas partes materiais e imateriais, extensivas e intensivas para a produção do sensível e do comum.
Já o termo Samba de Roda remete a uma manifestação específica do Recôncavo da Bahia. Foi tombada como patrimônio histórico e imaterial brasileiro e é considerado pela historiografia do gênero samba como uma de suas matrizes fundadoras. O Samba de Roda tem um forte vínculo com as tradições e com a religiosidade afro- brasileiras. Nessa manifestação os participantes formam a roda dentro da qual as
sambadoras e sambadores se revezam dançando ao centro da roda segundo uma lógica
regida pela forma musical das Chulas, Corridos, Sambas Amarrados ou Barra Ventos executados no decorrer da manifestação. Os dançarinos se revezam ao centro da roda numa comunicação que se dá entre os corpos tendo na umbigada o impulso fundamental para a dança. Os integrantes são divididos basicamente entre: mestre cantador (aquele que conduz a manifestação pelo domínio do repertório, em muitos casos também é o compositor das músicas que traz para a roda) tocadores (percussionistas, violeiros, cavaquinistas, violonistas); sambadores (que envolvem a todos que, ao conhecerem os princípios da roda, dançam ao centro); coristas (conjunto de todos os participantes que cantam coletivamente os refrões e relativos acompanhando o ritmo com a palma de mão).
O Samba de Roda surge como uma das aberturas importantes para o aprofundamento do processo criativo. Durante a pesquisa acessei muitos materiais audiovisuais contendo músicas, imagens, depoimentos sobre o Samba de Roda. A partir dos afetos gerados nessa relação, esses materiais começaram a permear o processo criativo. Como que movido por um certo magnetismo, decidi fazer uma incursão ao Recôncavo Baiano. Esse movimento se deu em busca de aprofundar experiências com a roda por meio do contato com essa forma de samba historicamente legitimada como aquela que mantém profundas ligações com as tradições comunitárias afro-brasileiras. No encontro com essa fonte - local e temporal, - o Samba de Roda se apresentou como um campo afetivo fundamental, campo de forças produtor de deslocamentos de percepção e novas relações com o universo poético e expressivo da roda.
Essa passagem pelo Recôncavo se deu entre os dias 13 e 17 de agosto de 2016. Nessa imersão sobre a qual aprofundarei mais adiante, realizei o contato com pessoas diversas, mestres sambadores, sambadoras, presenciei a manifestação, deixei-me afetar por tais encontros e nessa reação pude observar corporeidades, ações e qualidades físicas-vocais, maneiras de cantar de contar histórias, além do que pude dançar, cantar e tocar como acolhimento dos mestres e oferecimento de mim a esse profundo modo de vida chamado Samba de Roda. A partir de imagens coletadas, gravações de áudio e dos registros em diário de campo pude, juntamente com outros registros audiovisuais públicos, ter um conjunto de materiais para uma parte do desenvolvimento do trabalho técnico e criativo. Desse conjunto de materiais em processo com a Mímesis Corpórea emergiu a dramaturgia que resultou na culminância que passei a chamar de “O Bom da Roda”.