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MADEIRA UTILIZADA COMO COMBUSTÍVEL

4 ESTUDO DE CASO

4.1 MADEIRA UTILIZADA COMO COMBUSTÍVEL

A madeira foi usada intensamente durante a operação da Leste Brasileiro como principal fonte de combustível para abastecer as locomotivas a vapor. Diante da intensa exploração da madeira e sem a adoção efetiva de medidas visando repor as essências extraídas, reforçaram-se ao longo dos anos a gravidade da situação dos combustíveis no quadro da Leste.

Eram constantes as medidas implantadas pela empresa para diminuir os elevados consumos de lenha entre elas tinha-se a realização de melhorias na eficiência das locomotivas que produziam resultados satisfatórios, mas não sanavam o problema.

Perpetuava-se um ciclo cuja solução apresentada pela administração no Relatório de 1935 dependeria da ação em dotar a Leste Brasileiro de locomotivas a vapor auxiliado pelo combustível a óleo para as pequenas distâncias ou a adaptação aos poucos no tráfego à tração Diesel-Elétrica e Diesel-Pneumática, diante de um referido estudo.

Essa solução representaria o agravamento do aumento de importação do petróleo estrangeiro, embora pudesse ser aceita porque a Bahia dispunha de jazidas

de turfa2 em Marahú3 (na época correspondia à cerca de 30% do petróleo que era

extraído), Camamú4, e de petróleo em Lobato5  capaz de fornecer o combustível necessário à tração.

Com a adoção dessa medida além das despesas com o transporte na época (1935) de 80.000 toneladas de lenha que desapareceriam com a tração Diesel, haveria a disponibilidade de vagões e locomotivas utilizados no transporte da madeira e que prejudicavam o tráfego remunerado.

O consumo de lenha em 1935 atingiu cerca de 419.499 m3 enquanto o

estoque baixou 14.469 m3. Resultando em aumento dos custos médios da lenha, dos dormentes e das madeiras em geral, como conseqüência da crescente escassez ao longo das linhas de madeira, associado a um consumo sem os necessários cuidados de proteção e conservação das áreas exploradas.

Os técnicos da época afirmavam que seria de 2,5 a 3,0 m3  a extração de lenha para cada hectare de floresta, anualmente, sem que fosse comprometida a

2 Turfa: Material de solo não consolidado, constituído em grande parte por matéria orgânica (resíduos

de carbono) não decomposta ou em ligeiro estado de decomposição sob condições de umidade excessiva. Disponível em: <www.jardineiro.net/br/geral/dicionario.php.pt.wikipedia.org/wiki/Turfa>. Acesso em: 05 jan. 2009.

3 Marahú: Pequena vila da província da Bahia, na comarca de Ilhéus. Está assentada nas margens do

rio de que toma o nome Marahú. Disponível em: <books.google.com.br>. Acesso em: 05 jan. 2009.

4 Camamú: O Município de Camamu localiza-se na Costa do Dendê, litoral sul do estado da Bahia, à

margem da rodovia BA-001. Disponvel em: <www.bahiaemfoco.com/Camamu-13k>. Acesso em 05  jan. 2009.

5 Lobato: Bairro de Salvador, capital da Bahia. No Lobato foi descoberta a primeira jazida brasileira de

vida florestal, desde que não fosse esquecido o reflorestamento à proporção da exploração, ou seja, da região a cargo da própria estrada.

Mas, esse índice não foi respeitado durante a operação da Leste Brasileiro e nem as medidas de reflorestamento foram adotadas a proporção da exploração. Como conseqüência se acentuava ao longo dos anos a devastação ao longo e próximo das linhas, essa situação associada à escassez de chuva, em boa parte do ano, agravava a situação do povo nordestino.

O consumo de lenha durante 1936 atingiu cerca de 473.853 m3ao tempo que

o estoque apresentava 20.552 m3  (revelando acréscimo com relação ao ano

anterior). Neste ano, foi empregado em uma das locomotivas da Calçada o óleo cru, a título de experiência, mas os custos se elevaram (por trem-km) comparativamente à lenha, o que para a empresa evidenciava a incompatibilidade da medida e reforçava o uso da madeira para esse fim. A figura 15 ilustra um dos vagões movidos a óleo cru.

Figura 15 - Um dos Vagões a Óleo Cru, nos Serviços do Subúrbio da Capital (Salvador) -1936 Fonte: Viação Férrea Federal Leste Brasileiro. Relatório do Exercício de 1936.

As despesas de combustível, e notadamente de lenha, só elevavam ao longo dos anos, uma vez que, as matas se apresentavam em seu limite máximo de aproveitamento em virtude da política adotada de exploração há mais de 60 anos das matas de pouca densidade e até 1939 sem qualquer reflorestamento.

Era gritante a necessidade de se proceder de forma urgente ao replantio das essências da região e de outras adaptáveis ao território nordestino (levando em consideração as condições, por exemplo, de clima, solo).

O consumo de lenha em 1937 atingiu cerca de 521.300 m ao tempo que o estoque apresentava 36.907 m3(valor, portanto, inferior às necessidades do consumo médio verificado em um mês de 43.441 m3). Objetivando reduzir esse consumo foram realizadas a eletrificação das oficinas de São Félix e Periperi e a aquisição de três locomotivas diesel-elétricas (pelo crédito especial de 16.000 contos, cedido à empresa). (FREITAS, 1937)

Com as medidas haveria uma economia (estimada em 20.000 m3anuais) no

tocante ao consumo de lenha em oficinas e bombas, além de vantagens decorrentes da própria economia geral do custeio.

Em 1938 o consumo de lenha (525.636 m3) aumentou de 1% quando comparado ao ano anterior, justificável quando o aumento geral da tração foi de 4%. O estoque de lenha foi de 70.229 m3, representando as necessidades de pouco mais de um mês. Não assegurando, por exemplo, as crises do inverno e nem a secagem da lenha. (FREITAS, 1939)

Dessa forma caminhava-se lentamente para outros combustíveis como o óleo mineral nacional, repousando grandes esperanças na Bahia, além do carvão de pedra (apresentava impossibilidade de uso pelo alto custo de aquisição), pelo menos até que se pudesse contar de novo e mais racionalmente com a possibilidade de exploração das matas a esse tempo já refeitas.

O consumo de lenha foi descrevendo uma curva ascensional ao longo dos

anos passando de 345.916m3 em 1933 para 563.216m3em 1939. Seu aumento foi

decorrente da má qualidade da lenha empregada e da inexistência de estoques, que obrigou o emprego de lenha verde e saturada de água.

O consumo em 1940 foi de 646.441m3apresentando um aumento em relação

ao ano de 1939 de aproximadamente 563.216m3, o qual consequentemente

apresentou em relação ao ano anterior um aumento de consumo equivalente a 37.580 m3, justificável diante o fato da maior tração produzida (com as melhorias implantadas).

O estoque apresentado neste ano (1940) baixou muito, atingindo com as

sobras a 36.137 m3não atingindo o necessário a satisfazer o consumo de um mês

(50.870 m3), enquanto o que se visava era atender a três meses de consumo. (FREITAS, 1940)

A empresa entrou no exercício de 1941 com um estoque para um pouco mais de quinze dias de consumo, o que preocupava a administração, que lutava com um tráfego congestionado por insuficiência de material rodante.

Em 1948, consumiu-se em todos os serviços da rede 755.621,522 m3de lenha, havendo um acréscimo de consumo da ordem de 11.555,472 m3 em relação ao ano 1947 (consumo estimado foi de 744.066,050 m3). Tal fato foi motivado pelo aumento do tráfego e do custo médio unitário da lenha (o que vinha acontecendo em todos os anos).

No mesmo ano (1948) pode-se reforçar o constante aumento do consumo específico do combustível lenha com custo cada vez mais elevado, havendo um consumo por 100 locos - km de 17,264 m3enquanto que em 1947 foi de 17,901 m3 e 1946 de 19,521 m3. (FREITAS, 1948)

A questão do uso da madeira como combustível para as locomotivas a vapor evidenciava que medidas reais necessitavam serem implantadas, em benefício da estrada e da própria região as margens e próximo as linhas. Eram necessárias providências para acabar com o uso de matas nativas para abastecer as fornalhas das locomotivas e difundir a adoção de outros combustíveis.

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