1.3 PODER ECONÔMICO X ELEIÇÕES
1.3.2 Mandato Político e Financiamento Eleitoral
O que todo político almeja depois de ter feito investimentos materiais e imateriais numa campanha eleitoral, v.g.: tempo a disposição da campanha e dos eleitores, reuniões partidárias, gravações de programas eleitorais e principalmente dinheiro, é chegar a tão sonhada vitória, ser um dos eleitos, seja em disputa majoritária ou mesmo se tiver participado do certame pelo sistema proporcional. Isso é inegável, o exercício do mandato político é sonho de consumo de todo e qualquer político, desde aqueles com menor expressividade até aquelas celebridades da política.
Portanto, ao referir-se ao mandato político representativo, deve-se conceituá-lo como sendo de caráter geral, livre e, a princípio, irrevogável, não permitindo confirmação dos atos do mandatário.144 É geral porque se relaciona a todos os integrantes de uma
determinada circunscrição eleitoral (Município, Estado, Distrito Federal e União) e não apenas à parcela do eleitorado efetivamente. E se traduz como sendo livre porque o agente político, detentor da representação popular não está adstrito aos seus eleitores, isto quer dizer que o mandatário não está obrigado a atender as orientações de quem quer que seja. Juridicamente, sequer tem obrigatoriedade de prestar contas dos seus atos, todavia, recomenda-se que, levando em conta o status de representante de um determinado povo, que ele o faça, exatamente com vistas a justificar sua eleição, e por que não dizer, o próprio exercício do mandato político.
Para José Afonso da Silva, é na figura do mandato político que se consubstanciam os princípios da representação e da autoridade legítima:
A eleição gera, em favor do eleito, o mandato político representativo, que constitui o elemento básico da democracia representativa. Nesse se consubstanciam os princípios da representação e da autoridade legítima. O primeiro significa que o poder, que reside no povo, é exercido em seu nome, por seus representantes periodicamente eleitos, pois uma das características do mandato é ser temporário. O segundo consiste em que o mandato realiza a técnica constitucional por meio da qual o Estado, que carece de vontade real e própria adquire condições de manifestar-se e decidir, pois é pelo mandato que se constituem os órgãos governamentais, dotando-os de titulares e, pois, de vontade humana, mediante os quais a vontade do Estado é formulada, expressada e realizada, ou, por outras palavras, o poder se impõe.145
144 AZAMBUJA, Darcy. Introdução à ciência política. 2. ed. São Paulo: Globo, 2011, p. 139.
145 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 39. Ed. rev e atual. São Paulo:
A democracia representativa tem como aspectos relevantes o exercício regular dos mandatos eletivos e o funcionamento das agremiações partidárias, tornando-se questões que passam pelo tema do financiamento eleitoral. O franco funcionamento das organizações partidárias e a mecânica da representação popular terminam por serem influenciados pela forma como se dá o acesso aos mandatos representativos, conservando estreita analogia com a forma de como as campanhas eleitorais são bancadas, até porque um questionamento sempre fica no ar: quem paga o preço da democracia? Dentre as possíveis respostas estão o povo, a quem os mandatários devem representar, os grandes grupos econômicos ou no Brasil, de 2015 em diante (consoante se verá pela força vinculante da ADI 4650), os empresários pessoas físicas, a quem, no mais das vezes os mesmos mandatários eleitos devem favores que podem ser entendidos/traduzidos como valores financeiros.
A tocar neste ponto, um dos direcionamentos do financiamento eleitoral e consequentemente do mandato eletivo é justamente a proximidade de políticos em geral e parlamentares ao núcleo de poder, ou mesmo com o posicionamento ideológico, é a denominada taxa de sucesso, capital eleitoral apresentado pelo candidato que pode ser vislumbrado pela retrospectiva das eleições ganhas e pela relevância dos cargos assumidos, consistindo nas reais possibilidades de o candidato vencer o pleito eleitoral. Quanto maior for essa taxa, maiores as oportunidades de financiamento político porque maiores serão as probabilidades de o candidato vencer as eleições e seus financiadores terem mais acesso ao poder. Esse sentido empregado no financiamento eleitoral difere do conceito utilizado no mercado de capitais, o conhecido success fee146, compreendido como uma forma de remuneração em um negócio ou prestação de serviço, no qual o investimento é bem sucedido, apresentando um resultado acima do esperado.147
Ademais, os dados do financiamento eleitoral divulgados a cada nova eleição pelo TSE148 mostram ser muito estreita a relação entre o sucesso na disputa eleitoral e o acesso a grandes somas de valores monetários, induzindo muitas vezes à influência indevida do
146 Traduzido como “taxa de sucesso”. Disponível em: https://www.linguee.com.br/portugues-
ingles/search?source=ingles&query=success+fee. Acesso em: 06 dez. 2019.
147 CAVALCANTE, Francisco; MISUMI, Jorge; YOSHIO; RUDGE. Luiz Fernando. Mercado de
Capitais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, p. 153.
148 TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Repositório de dados. Disponível em:
poder econômico no resultado das urnas e consequentemente da representação do mandato eletivo.
O constituinte não lançou na Carta Magna regra esvaziada, é exatamente com esse propósito que no ordenamento se protege as eleições da influência do poder econômico149, de forma a impedir que o resultado das mesmas seja orientado pelo nexo das cifras monetárias, pois, a depender de quem esteja a financiar de fato a democracia no Brasil, a qualidade da representação popular poderá ser impactada de forma positiva ou negativa, afinal, no exercício do mandato eletivo, que pressupõe a representação livre e geral do povo, estará o representante vinculado aos interesses do povo que o elegeu ou ao capital que potencializou sua campanha eleitoral e foi decisivo para a vitória nas eleições?
1.3.3 O voto na Constituição Federal de 1988: consolidação do sufrágio e o