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2 FINANCIAMENTO ELEITORAL COMO AFIRMAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO

2.4 FORMAS DE FINANCIAMENTO ELEITORAL

2.4.4 Modelo Misto

O modelo de financiamento eleitoral exclusivamente público é raro e a maioria dos países se constitui como sistemas mistos em que os partidos contam tanto com recursos públicos como com doações privadas – contribuições de filiados, doações de pessoas físicas e de pessoas jurídicas (o que é proibido no Brasil). Reconhece-se que o financiamento dessa natureza não apenas é necessário, inclusive para desonerar o poder público, como legítimo, pois incentiva os partidos a construírem pontes com suas bases de apoio na sociedade e também a melhorarem a eficiência na gestão de seus orçamentos. O que mais se questiona em relação ao modelo de financiamento misto das campanhas é a possibilidade de que grandes corporações econômicas, de forma direta ou indireta, apliquem recursos nas campanhas eleitorais, acentuando a dependência do poder econômico e dificultando a representatividade dos eleitores.

237 BOURDOUKAN, Adla Youssef. O bolso e a urna: financiamento político em perspectiva comparada.

2009. Tese (Doutorado). Departamento de Ciência Política. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. 2009, p. 38.

O financiamento misto, por sua vez, tem a vantagem de alimentar a aproximação da militância, filiados, simpatizantes e da própria sociedade aos partidos, razão pela qual a maioria das democracias modernas adota este modelo. Por outro lado, em relação aos aspectos negativos, adequam-se aqui as mesmas críticas realizadas de forma isolada para cada de tipo de financiamento, público ou privado.

Caminhando nesse sentido, pode-se aduzir que o formato misto de financiamento dos partidos seja o que melhor responde às necessidades apresentadas pela doutrina.238 Contudo, o exame sobre os regimes de financiamento de campanhas adotadas por vários países democráticos pelo mundo mostra não ser possível identificar um padrão legislativo que sirva como paradigma abstrato quanto ao desenvolvimento da matéria, portanto, o que se observa é uma variedade normativa, obviamente, com as especificidades de cada sistema político do país que se analisa, neste ponto, inclusive, uma das principais características das normas sobre financiamento eleitoral, muito bem destacado por Bruno Lorencini:

Se por um lado tal característica prejudica o trabalho do legislador na escolha do modelo de financiamento eleitoral, já que não há um padrão a ser considerado, por outro ressalta o papel do especialista na análise do direito comparado, verificando as diferentes técnicas utilizadas pelos Estados, em busca de identificar quais os principais sucessos e fracassos de cada modelo.239 O modelo misto é exatamente o modal de financiamento utilizado neste momento no Brasil, no qual as campanhas eleitorais são financiadas com dinheiro de origem pública (fundo partidário e fundo especial de financiamento de campanha) e doações de pessoas físicas, no caso nacional, com o limite de 10% (dez por cento) de seu rendimento bruto informado à Receita Federal no ano anterior à eleição, conforme §1º do artigo 23 da Lei 9504/97.240

Tem como pontos positivos: a maior dependência dos políticos do eleitor que poderia aproximar ambos. Até porque se supõe que para a pessoa conseguir conquistar

238 PRESNO LINERA, M.A. Los Partidos y las Distorsiones Jurídicas de la Democracia. Barcelona:

Ariel, 2000. p. 92.

239 LORENCINI, Bruno César. O Regime Jurídico do Financiamento Eleitoral Brasileiro e seu

Controle por via da Transparência: Um Estudo Comparado. 2008. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Direito Político e Econômico. Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. 2008.

240 § 1º As doações e contribuições de que trata este artigo ficam limitadas a 10% (dez por cento) dos

rendimentos brutos auferidos pelo doador no ano anterior à eleição. (Redação dada pela Lei nº 13.165, de 2015)

o dinheiro de alguém, ela precisaria ser muito convincente. Por certo, alguém só doa dinheiro, principalmente em tempos de recessão, somente para quem ela acreditar.

Como ponto negativo, se não houvesse no Brasil tais modalidades (mas já há) e que poderia ser anotado que um dos principais problemas é a falta de um limite (teto nominal) para as doações, pessoas físicas mais abastadas, dentre elas os próprios políticos mais ricos, podem financiar a campanha de terceiros correligionários e porque não dizer, suas próprias campanhas, com dinheiro do próprio bolso. Sem dúvida isso gera uma desigualdade entre os candidatos concorrentes e pode levar partidos a escolher pessoas que tenham maior poder financeiro, tanto próprio, quanto de captação.

A respeito dos prós e contras, o advogado ex-presidente da Comissão Eleitoral da Seccional de São Paulo, da Ordem dos Advogados do Brasil, Luís Salata241, já ponderou:

Se for feito um exame superficial, a medida de manter apenas pessoas físicas não trouxe uma solução na questão do caixa dois ou do recurso não contabilizando, permanecendo abuso do poder econômico. Não houve um recebimento adequado de pessoas físicas e alguns candidatos efetivamente tiveram uma disponibilidade financeira maior.

Abordar-se-á no capítulo seguinte o modelo de financiamento eleitoral em quatro países no mundo: Estados Unidos, Alemanha, Itália e Chile, alguns com sistema democrático bem definido e outros que sofrerão grandes mudanças em sua legislação eleitoral. Pretende-se informar sinteticamente como funciona o mecanismo de financiamento eleitoral em cada um desses países, no que diferem ou convergem em relação ao sistema de financiamento eleitoral nacional.

241 MOREIRA, Larissa. Os prós e os contras de 4 tipos de doações de campanha eleitoral. Revista Exame

On Line. 31 Nov. 2016. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/os-pros-e-os-contras-de-4-tipos- de-doacoes-de-campanha-eleitoral/. Acesso em: 29 fev. 2020.

3 DAS FORMAS DE FINANCIAMENTO EM ALGUNS PAÍSES NO MUNDO

3.1 AS MODALIDADES INTERNACIONAIS DE FINANCIAMENTO DE