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2 FINANCIAMENTO ELEITORAL COMO AFIRMAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO

2.4 FORMAS DE FINANCIAMENTO ELEITORAL

2.4.2 Modelo Privado

O modelo de financiamento privado, de todos os modelos existentes de arrecadação de numerários para campanhas, é o que se conhece como o mais antigo. Essa forma consiste basicamente na contribuição dos filiados, doações de pessoas físicas ou jurídicas (quando permitido), e, ainda, recursos do próprio candidato à sua campanha eleitoral, atualmente conhecido como autofinanciamento eleitoral. Visando apurar esse modelo, os países estabelecem regras que melhor respondam aos desafios de seu contexto. Em geral, as regulamentações nesse campo versam sobre quem tem direito de contribuir

227 ZOVATTO, Daniel. Financiamento de Partidos e Campanhas Eleitorais na América Latina: Uma

Análise Comparada. Opinião Pública, Campinas, v. 11, n. 2, out., 2005, p. 299-300. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/op/v11n2/26417.pdf>. Acesso: 30 out. 2019.

228 RUBIO, Delia Ferreira. Financiamento de partidos e campanhas: Fundos públicos versus fundos

privados. Novos Estudos CEBRAP, n. 73, nov. 2005.

229 KANAAN, Alice. Financiamento público, privado e misto frente à reforma política eleitoral que propõe

o financiamento público exclusivo. In: RAMOS, André de Carvalho (coord.). Temas de direito eleitoral no século XXI. Brasília: Escola Superior do Ministério Público, 2012, p. 271-313.

e quais os tipos de doações que ficam proibidas, buscando coibir determinadas influências sobre o processo democrático.

Essa modalidade lembra argumentos aderentes ao seu funcionamento no que se refere à própria natureza dos partidos políticos como associações de cunho privado e de participação voluntária. Dessa forma, os filiados de determinada agremiação, bem como seus simpatizantes (para doar valores ao partido ou a um filiado candidato), não precisam necessariamente ser membros da grei, não teriam apenas a solidariedade para o levantamento de recursos, mas também o dever ético de fomentar o partido seja no campo ideológico, seja com o auxílio na manutenção do partido.

Considerando que a Constituição Federal designou que os partidos políticos adquiram personalidade jurídica na forma da lei civil, sujeitando-se às normas de direito privado aplicável à matéria. Assim, os partidos políticos adquiriram personalidade jurídica de direito privado e tornaram-se associações privadas com a função de expressar a vontade política de seus correligionários. Ostentando para Marcus Vinícius Furtado Coelho230, a finalidade precípua da natureza jurídica de direito privado visando garantir a liberdade política e impedir que a Justiça Eleitoral cause ingerências durante o processo de criação, organização de funcionamento das agremiações partidárias. Dessa forma, a Constituição Federal garantiu aos partidos políticos a autonomia partidária para dispor sobre sua regulação interna corporis.

Há quem relate problemas neste modelo de financiamento eleitoral, como Délia Rubio, para quem seria a verdadeira natureza mista dos partidos, de forma quase pública, visto que os partidos assumem posição para assegurar os assuntos da sociedade deixando de ser questão exclusivamente dos integrantes partidários e passando a ser questão estatal.231

Deve-se relatar que há pontos positivos que poderiam ser dados a este modelo de financiamento. Ele tem caráter liberal e maior abertura para alcance de todos, pois, se pessoas aplicassem mais dinheiro nos partidos certamente as decisões não ficariam simplesmente nas mãos da cúpula partidária: as pessoas (sejam filiados ou a sociedade

230 COELHO, Marcus Vinicíus Furtado. Democracia e Partidos Políticos. In: FUX, Luiz, PEREIRA, Luiz

Fernando Casagrande, AGRA, Walber de Moura (Coord.); PECCININ, Luiz Eduardo (Org.). Direito Partidário. Tratado de Direito Eleitoral. Tomo 2. Belo Horizonte: Fórum, 2018. p.204.

231 RUBIO, Delia Ferreira. Financiamento de partidos e campanhas: Fundos públicos versus fundos

em geral) teriam mais vez e voz, já que se houvesse sua participação através de doação se veriam no direito de participar mais das decisões do partido.

Diga-se que poderia participar do processo de doação para campanhas eleitorais quem assim optasse, fossem pessoas externas aos partidos, filiados, simpatizantes e, inclusive, empresários, desde que o fizessem como pessoas físicas (na atual quadra da legislação).

Por derradeiro, vale salientar que essa modalidade é por demais simplória, haja vista que qualquer doação poderia vir de todas as fontes possíveis autorizadas por lei, até o limite que a lei autorizar e que o doador particular puder fazer. Com essa possiblidade, os valores públicos não precisariam ser buscados.

Sem dúvida que no sistema privado, conforme ponderaram Tatiana Afonso e Marcelo Apolinário, a “mão invisível” do mercado agiria sozinha numa relação puramente liberalista” 232, desde que a pessoa jurídica pudesse voltar a doar dentro do

ordenamento jurídico brasileiro, já que como dito e repetido neste trabalho várias vezes, a pessoa jurídica por força da decisão do Supremo Tribunal Federal está proibida de fazê- lo.

Sem dúvida que no sistema de financiamento privado não há críticas relativas a aportes de recursos públicos, os quais deveriam ser utilizados em serviços essenciais (saúde, educação, segurança, etc.), aliás, como a crítica que se está a presenciar neste momento de pandemia do novo Coronavírus em relação a aplicação do Fundo Especial de Financiamento de Campanha que será destinado aos partidos políticos e candidatos nas eleições deste ano, quando para alguns, esses valores deveriam ser investidos no combate à COVID-19.233

232 OLIVEIRA, Tatiana Afonso. APOLINÁRIO, Marcelo Nunes. O financiamento de campanhas

eleitorais no Brasil: histórico, atualidade e a questão na suprema corte. XII Seminário Internacional de Demandas Sociais e Políticas Públicas na Sociedade Contemporânea. 2015. Disponível em: https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/sidspp/article/viewFile/13097/2229. Acesso em: 09 abr. 2020.

233 REVISTA EXAME. Deputados querem dinheiro do fundo eleitoral no combate ao Coronavírus. 20 mar.

2020. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/deputados-querem-dinheiro-do-fundo-eleitoral-no- combate-ao-coronavirus/. Acesso em: 29 abr. 2020.