2.3 REVISÃO DE LITERATURA
2.3.2 Aspectos Conceituais Relativos à Textura
2.3.2.2 Perspectivas Normativas
2.3.2.2.4 Manuais de Composição
Trouxemos neste momento cinco obras voltadas à composição musical em geral: Brindle (1966), Kostka (2006), com primeira edição de 1990, Cope (1997), Landy (2007) e Schoenberg (2012). Desses, alguns são mais abrangentes, abordando assuntos da área de composição com enfoque nas técnicas de a partir do século XX. Já Brindle (1966) se restringe à técnica de composição serial. Oportunamente, três dos autores fornecem uma definição para textura musical. Inicialmente, Brindle esboça a definição de textura musical em três situações:
Textura, em um sentido, pode ser definida como estrutura, ou o ‘arranjo de partes constituintes’. [...]. A definição alternativa de ‘grão, teia, superfície ou trançado’ é mais próxima da marca. Ela define o ‘sentido’ de fora da música, em vez de sua estrutura interna. [...] Textura musical é um sutil amálgama de vários elementos — instrumental, cor, densidade, altura, movimento, configuração rítmica etc. (1966, p. 136)138
De suas três colocações, Brindle traz ao menos duas concepções distintas de textura. A primeira apresentada pelo autor é mais interna, sinônimo de estrutura; já a segunda é externa e se assemelha à sensação dada pela “superfície” sonora, metaforicamente semelhante à sensação do toque sobre uma superfície material. Quanto à terceira definição dada por Brindle, pode-se interpretá-la como sendo válida tanto para a “textura interna” quanto para a “textura externa”, uma vez que busca investigar os elementos que constituem uma e/ou outra.
A partir da definição de Brindle, pode-se tecer comparações com as de Kostka:
Pode-se dizer que textura se refere à relação entre as partes (ou vozes) em qualquer momento em uma composição; ela diz respeito especialmente às relações entre ritmos e contornos, mas ela também diz respeito a aspectos tais como espaçamento e dinâmica. Não é raro que a linha entre timbre e textura não seja clara, especialmente quando um grande conjunto está envolvido. (2006, p. 222)
A definição de Kostka (2006) se assemelha à primeira dada por Brindle (1966). Kostka, porém, propõe outros elementos definidores de textura, embora alguns sejam comuns aos de Brindle. Um ponto de muito interesse, porém, está na relação entre timbre e textura, situação essa que será muito visitada por outros autores, e parece ser um ponto de grande questionamento na literatura.
Aos dois autores, somam-se as definições de textura dadas por Cope (1997). Uma delas
138 No original: “Texture, in one sense, can be defined as structure, or the ‘arrangement of constituent parts’. [...].
The alternative definition of texture as ‘grain, web, surface, or nap’ is nearer the mark. It defines the outside ‘feel’ of the music, rather than the inner structure. [...] Musical texture is a subtle amalgam of various elements — instrumental, colour, density, pitch, movement, rhythmic configuration, etc.”
é bastante direta e específica, e se refere ao espaçamento de notas em um acorde. Nas palavras do autor, “Textura — o espaçamento entre as notas constituintes de um acorde ou as vozes em contraponto — é um aspecto integral de harmonia.” (COPE, 1997, p. 39).139 Essa definição não parece se relacionar diretamente àquelas dadas por Brindle (1966) ou Kostka (2006), mas parece ser uma aplicação de textura especificamente no contexto da harmonia. Ainda, pode se tratar do emprego de um mesmo termo para se referir a outro conceito distinto, porém com o qual a textura musical compartilharia algumas similaridades.
Contudo, Cope ainda traz posteriormente uma definição não apenas mais extensa de textura musical, como também mais próxima das propostas por Brindle e Kostka:
Textura resulta de uma combinação de altura, timbre e duração e é geralmente medida em termos de densidade. Textura pode ser tão fina como uma nota, ou tão espessa quanto um grande agregado de notas. Antes do século XX, texturas eram concebidas em termos de uma a oito (raramente mais) notas diferentes simultâneas se movendo em um padrão métrico bastante regular com timbres geralmente estáticos. Compositores contemporâneos têm expandido esses conceitos para incluir um vocabulário maior de texturas, de simples notas a espessas densidades. (1997, p. 99)140 Cope também faz sua própria sugestão acerca dos possíveis elementos que constituem a textura — ou elementos dos quais a textura resulta. O autor ainda inclui um componente histórico, a partir do qual se pode observar uma divisão (ao menos do ponto de vista do compositor) entre a concepção de textura antes e depois do século XX. Essa divisa pode ser explicitada ainda por Kostka (2006), quando este faz um apanhado de categorias de textura tradicional e outras categorias posteriores, conforme se pode observar sucintamente na Figura 7 e na Figura 8.
Figura 7 – Categorias de textura tradicional
Fonte: Adaptado de Kostka (2006, p. 236).
139 No original: “Texture — the spacing between the constituent notes in a chord or the voices in counterpoint —
is an integral aspect of harmony.”
140 No original: “Texture results from a combination of pitch, timbre, and duration and is generally measured in
terms of density. Texture can be as thin as one pitch or as thick as a large aggregate of pitches. Previous to the twentieth century, textures were conceived in terms of from one to eight (rarely more) simultaneous different pitches moving in a fairly regular metric pattern with generally static timbres. Contemporary composers have expanded these concepts to include a larger vocabulary of textures, from single notes to thick densities”.
Textura
Monofônica Homofônica
Melodia com acompanhamento Textura cordal
Contrapontística
Imitativa Livre
A dissecação dos tipos de textura de Kostka (2006) ecoa os sete tipos de textura de Piston (1969) e a divisão arborescente de Adler (2002). Na verdade, os mapas da textura são ampliados em Kostka pelo acréscimo de técnicas características dos séculos XX e XXI. Veremos que divisões desse tipo são bastante úteis para a composição, pois explicita as possibilidades para uso prático, e que talvez por isso não se façam tão presentes em escritos voltados à textura com fins mais teóricos. Esse contraste será melhor sentido após a transição para a seção seguinte, onde abordaremos outros textos sobre textura.
Figura 8 – Outras categorias de textura
Fonte: Elaborado a partir de Kostka (2006, p. 236-239).
Outro livro de grande interesse é Understanding the Art of Sound Organization (LANDY, 2007), no qual se considera a composição de música eletroacústica. Embora a obra trate de orientações gerais à composição, sua estrutura difere bastante dos tratados mencionados nesta seção, em que sua abordagem é menos normativa, isto é, há menos colocação de regras ou diretrizes. Em vez disso, o autor opta por instruções mais informativas quanto às possibilidades de ferramentas e estratégias desenvolvidas até então.
Acerca da distribuição de texturas em obras eletroacústicas, Landy nos coloca que:
Aqueles que tiveram uma quantidade razoável de experiência em termos de ouvir música baseada no som terão notado que muitos trabalhos parecem evoluir através do uso de diferentes camadas de (classes de) texturas. Essa abordagem horizontal da estruturação pode ser vista como um equivalente moderno do contraponto. O que é relevante aqui é que a transparência pode ser alcançada através do uso consistente de um número relativamente modesto de níveis de textura ao mesmo tempo, combinado com o reaparecimento de material sonoro. [...] Em contraste, trabalhos nos quais o novo material é introduzido regularmente, normalmente precisam ser escutados várias vezes antes que tal familiaridade possa ser desenvolvida. Porém quantas pessoas terão a oferta ou opção de ter a chance de ouvir tais obras mais de uma vez, dado o atual estado da arte? (2007, p. 31)141
141 No original: “Those who have had a reasonable amount of experience in terms of listening to sound-based
music will have noticed that many works seem to evolve through the use of layering different (classes of) textures. This horizontal approach to structuring might be seen as a modern equivalent of counterpoint. What is relevant
•textura em que linhas melódicas são harmonizadas individualmente
Texturas compostas
•exibe pausas e grandes saltos, tratando grupos de sons de forma isolada dos demais Pontilhismo
•justaposição de texturas musicais constrastantes
Estratificação
•acorde cujo conteúdo de alturas não é relevante, e sim o impacto do som em si Massa sonora
Notemos que o direcionamento de Landy reside não em impor normas quanto à restrição de quantidade de texturas diferentes, mas em sugestões baseadas no estudo e na experiência de outros compositores.142 A essa concepção de sons em várias camadas, utiliza-se o termo polissônico (BODIN, 1997, p. 223 apud LANDY, 2007, p. 30). Esse aspecto é ainda reforçado por Landy em sua colocação quanto à busca por homogeneidade de texturas em obras eletroacústicas, ponto este que contribuiria na construção da unidade da obra musical (2007, p. 29).
Um último caso de textura abordada em manuais de composição é observado no
Fundamentos da Composição Musical, de Schoenberg (2012). Nele, o autor trata de diversas
questões morfológicas, enfatizando a perspectiva clássica de composição musical, partindo de estruturas como motivo, frase, período e tema, por exemplo. Porém, ao considerar as possibilidades de acompanhamento para essas unidades estruturais, Schoenberg menciona o quase-contraponto e o semicontraponto. Ao primeiro, define-se que “nada mais é, em geral, que um modo de ornamentar, melodizar e vitalizar, de uma maneira diferente, as vozes secundárias da harmonia.” (SCHOENBERG, 2012, p. 85). Por sua vez, o semicontraponto:
possui implicações temáticas e também motívicas. [...]. O semicontraponto não se baseia sobre combinações tais como o contraponto múltiplo, as imitações canônicas etc., mas apenas sobre o movimento melódico livre de uma ou mais vozes. [...]. A adição de um contracanto também pode ser considerada um dispositivo semicontrapontístico (SCHOENBERG, 2012, p. 85).
Mais do que se debruçar em implicações conceituais acerca dessas duas possibilidades, Schoenberg as apresenta como ferramentas de acompanhamento para o compositor. Embora as duas versem na temática da textura musical, suas presenças se justificam mais pelo viés normativo, isto é, que vem a orientar o compositor sobre as possibilidades de que pode dispor em seu processo compositivo.