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MAPA DO PRIMEIRO PERÍODO DA INDÚSTRIA DE SOFTWARE EM SANTA CATARINA

CONFIGURAÇÃO GEOGRÁFICA QUASE PONTUAL A tarefa de elaborar uma periodização exige o exercício de eleger as

2.2 MAPA DO PRIMEIRO PERÍODO DA INDÚSTRIA DE SOFTWARE EM SANTA CATARINA

O mapa temático que sintetiza o primeiro período da indústria de software catarinense foi elaborado com dados extraídos das entrevistas, da pesquisa bibliográfica, da pesquisa documental nos sítios das empresas pioneiras7 e das instituições de ensino, além de conversas telefônicas e de emails que confirmaram e detalharam as informações disponíveis nos sítios eletrônicos. Infelizmente, não foi possível utilizar dados do Ministério do

7A respeito da utilização das expressões “pioneiros” e “ precursores”, conforme serão empregadas algumas vezes ao longo do texto, é adequado tecer alguns esclarecimentos. Elas serão usadas para referir-se aos empresários que abriram empresas ligadas à indústria de software nos anos iniciais do primeiro período da indústria de software de Santa Catarina. Também serão usados termos semelhantes para referir-se aos municípios que abrigavam tais empresas. Contudo, nesta pesquisa a leitura e a interpretação dos eventos que marcaram a indústria de software apoia-se numa abordagem relacional, na qual os atores e os eventos inserem-se numa construção histórica e, por isso, não são tomados em seu sentido absoluto. Isto significa que estamos de acordo com o pensamento de Lévy (1989, p. 182): A história da informática (como, aliás, talvez qualquer história) deixa-se discernir como uma distribuição indefinida de momentos e de lugares criativos, uma espécie de metades esburacada, desfeita, irregular em que cada nó, cada actor, define em função dos seus fins a topologia da sua própria rede e interpreta à sua maneira tudo o que lhe vem dos nós vizinhos. Cada uma das malhas vivas deste tecido reinterpreta o passado que recebeu dos outros, como se tivesse que fazer as suas próprias escolhas, e projecta um futuro onde as suas opções de prolongam. Mas tanto o futuro como a imagem do passado estão entre as mãos das malhas seguintes, e assim indefinidamente. Nesta visão das coisas, as noções de precursor ou de fundador, tomadas num sentido absoluto, têm pouca pertinência. Em contrapartida, podem discernir-se certas operações da parte dos actores que desejam impor-se como fundadores, ou designando no passado próximo, ou no recente, antepassados prestigiosos de quem se apropriam proclamando-se seus descendentes. Não há ‘causas’ ou ‘factores’ sociais unívocos, mas circunstâncias, ocasiões, às quais pessoas ou grupos singulares conferem significações diversas. (grifo meu)

Trabalho e Emprego (RAIS) porque os relacionados especificamente à indústria de software passaram a ser apurados somente a partir de 1994.

Depois de muitos ensaios, tais informações foram cartografadas para mostrar a distribuição espacial da indústria de software catarinense, revelando sua configuração geográfica.

Nesse sentido, recorre-se ao raciocínio conceitual de Santos (2006) de que para analisar a configuração geográfica é necessário atentar para o conjunto de fixos e fluxos que constituem o espaço (SANTOS, 2006, p. 77):

O espaço é, também e sempre, formado de fixos e de fluxos. Nós temos coisas fixas, fluxos que chegam a essas coisas fixas. Tudo isso, junto, é o espaço. Os fixos nos dão o processo imediato do trabalho. Os fixos são os próprios instrumentos de trabalho e as forças produtivas em geral, incluindo a massa de homens. (…) Os fluxos são o movimento, a circulação e assim eles nos dão, também, a explicação dos fenômenos da distribuição e do consumo.

Partindo desse pensamento, e apoiando-nos nas informações coletadas nas entrevistas, para efeitos desta pesquisa, delimitaram-se as empresas de software – incluindo nesse entendimento os trabalhadores locais que nelas atuam – e as instituições de ensino superior com cursos direcionados para a indústria de software, como os dois fixos fundamentais para apreender a configuração geográfica da indústria de software catarinense. Para Santos (2006), os fixos provocam fluxos, isto é, movimento e circulação (2006, p. 78):

Cada tipo de fixo surge com suas características, que são técnicas e organizacionais. E desse modo a cada tipo de fixo corresponde uma tipologia de fluxos. Um objeto geográfico, um fixo, é um objeto técnico, mas também um objeto social, graças aos fluxos. Fixos e fluxos interagem e se alteram mutuamente.

Para conhecer as interações mútuas que se estabelecem entre os fixos e fluxos que compõem o quadro da indústria de software catarinense, optou-se por elaborar uma tipologia de fluxos para ajudar a explicar a ordem espacial de cada período. No momento da gênese da indústria de software catarinense, teve destaque o fluxo educacional, que, para efeitos da presente pesquisa, refere-se às conexões que se estabelecem entre as instituições de ensino superior com cursos voltados para a indústria de software e a formação de mão de obra para nela atuar.

Conforme será mostrado nos próximos capítulos, os fluxos registrados em cada período variaram, cabendo aqui alguns esclarecimentos sobre os fluxos cartografados relativos aos mapas temáticos dos três períodos. O primeiro é a opção por representar os fluxos que foram reconhecidos durante a realização das entrevistas, ainda que não tenha sido possível capturar a densidade de alguns. É sabido que em alguns deles circulam conteúdos transacionais que permitem profundas análises e abrem espaço para questões como: quais fatores intervêm no processo de escolha do local da instituição para realizar o curso de nível superior?; qual conjunto de variáveis é levado em conta no processo de compra de uma empresa?; ou ainda: quais condicionantes determinam o alcance do mercado consumidor das empresas de software? Questões dessa natureza serão parcialmente discutidas ao longo dos períodos, embora se deva aqui reforçar que a principal intenção é apontar a conexão entre os lugares.

É também fundamental reforçar que se a construção da cartografia se pauta em grande parte por relatos de entrevista, ela não esgota a totalidade de interações espaciais que permeiam a indústria de software catarinense, deixando, assim, espaço para incorporar novos fluxos que poderão ser trabalhados em estudos futuros. A análise dos fixos e fluxos, no que tange não somente ao seu aumento, mas também à sua complexificação, constitui- se em importante indicativo da dinâmica da indústria de software de Santa Catarina, engendrando uma ordem espacial que caracteriza cada um dos três períodos, diferindo-os entre si.

Para guiar a leitura do mapa do primeiro período, deve-se esclarecer que o número de empresas identificadas na legenda deriva de um esforço de aproximação realizado com base nos relatos dos primeiros empresários do setor e refere-se à quantidade estimada de empresas existentes no final do período. Tais informações foram representadas pelo método corocromático qualitativo (MARTINELLI, 2014): as ocorrências que se manifestam em determinada área, neste caso a quantidade de empresas de software, são representadas pela intensidade das cores.

A representação do local e ano de fundação das empresas pioneiras e das instituições de ensino que ofereciam cursos voltados para área de software foi construída usando a variável visual forma em ocorrência pontual. Isto é, foram selecionadas formas – neste caso ícones – relacionadas aos objetos cartografados. Já os fluxos educacionais foram elaborados utilizando linhas como recurso de representação. Sendo assim, as linhas pontilhadas na cor roxa representam o fluxo educacional.

Nesta pesquisa, entende-se por fluxos educacionais as conexões que se estabelecem entre as instituições de ensino superior com cursos voltados

para a indústria de software, indicando também onde se qualificam os trabalhadores da indústria de software que atuam nos diversos municípios.

A combinação de diferentes métodos (pontos, linhas e áreas) para representar qualitativamente a existência, a localização e a extensão de objetos e fenômenos relacionados à indústria de software orienta-se por uma perspectiva criativa dos mapas temáticos. Por perspectiva criativa entende-se a confecção de mapas orientada pelo conjunto de resultados apurados nas pesquisas e entrevistas, trabalhados de modo a oferecer um “retrato” do período, uma “fotografia” que revele a configuração geográfica dessa indústria ao longo dos anos.

Assim sendo, a indicação do método mais apropriado para cada representação se prende, principalmente, ao objetivo do mapa: se ele mostrará um fenômeno estático ou dinâmico; se envolve um nível de raciocínio com vistas a representações de análise ou de síntese; e se, sob o ponto de vista de apreensão, será considerado do tipo exaustivo ou de coleção. Além disso, é preciso ponderar se os dados trabalhados serão de natureza qualitativa ou quantitativa (MARTINELLI, 2014). Seguindo esse pensamento, é comum na literatura a confecção de mapas utilizando apenas um método de representação, como é o caso dos mapas demográficos ou de fluxos, por exemplo. Sem perder de vista a valiosa contribuição que tais mapas oferecem para os estudos geográficos e reconhecendo sua versatilidade, a intenção de expor tais possibilidades objetiva ressalvar a análise e interpretação dos mapas temáticos expostos nesta pesquisa de outros caminhos permitidos pelo cartografia para confeccioná-los. Convém frisar ainda que os mapas temáticos desta pesquisa foram desenvolvidos com o objetivo geral de oferecer um retrato da configuração geográfica de cada período; para tanto, lançou-se mão dos recursos possíveis para cartografar as informações e obter uma resposta visual praticamente instantânea.

Na sequência, o mapa do primeiro período da indústria de software catarinense.

A leitura inicial do mapa evidencia que a distribuição da indústria de software catarinense encontrava-se altamente concentrada em apenas quatro municípios do estado: Joinville, Blumenau, Florianópolis e Criciúma. Além de contarem com significativo número de empresas do setor, esses municípios também dispunham de universidades que ofereciam cursos voltados para a área de software. Criciúma não oferecia cursos específicos para a área nesse primeiro momento, mas Tubarão, município vizinho, contava com o curso de Ciências da Computação, oferecido pelo UNISUL desde 1990. Verifica-se ainda que tais empresas se estabeleceram usando investimentos com capital local, e que os municípios de Blumenau e Florianópolis compartilhavam de algum fluxo de natureza educacional, como os municípios de Criciúma e Tubarão. Ademais, observa-se que os quatro municípios realizavam transações comerciais com empresas situadas na Região Sul e Sudeste do Brasil, usando mão de obra local. Mas o que explica essa configuração geográfica inicial? Quais elementos intervieram para que se estabelecesse a referida ordem espacial naquele momento histórico?

Para buscar essas explicações utiliza-se como ponto de partida o quadro a seguir, elaborado com base no conceito de Santos (2006), segundo o qual cada mudança política, econômica, tecnológica e social produz uma configuração geográfica específica. Por isso, a primeira pergunta que se faz é: quais seriam essas mudanças?

Quadro 06: Principais mudanças no Primeiro Período da Indústria de Software em Santa Catarina

Posteriormente, é possível questionar: afinal, como tais mudanças influenciaram a indústria em análise? Cada uma dessas mudanças mencionadas, embora tratem de aspectos de caráter nacional, foram determinantes para configurar a indústria de software catarinense, como se verá a seguir.

2.3 CONTEXTO POLÍTICO E SEU IMPACTO NO MERCADO DE