DAS INTERAÇÕES ESPACIAIS
3.3 O PROCESSO DE DIVERSIFICAÇÃO DA INDÚSTRIA DE
SOFTWARE CATARINENSE: QUAL O PESO DO
ENTRELAÇAMENTO COM A BASE INDUSTRIAL
PREEXISTENTE?
A intenção deste tópico é mostrar em que medida a diversificação do segmento de software esteve ligada à base industrial preexistente nos municípios: existiria certa “vocação regional” nesse processo? Qual a natureza das relações que se estabeleceram entre as áreas de especialização das empresas de software e o tecido industrial pré-existente? Para conduzir a análise dessa questão, primeiramente resumem-se as principais formas utilizadas para categorizar as empresas de software, com base na literatura especializada. A ideia é mostrar quais aspectos podem ser levados em conta quando se pretende apresentar e descrever as principais diferenças existentes entre as empresas de software. Na sequência, discute-se a relação entre o processo de diversificação e a ordem espacial do período.
3.3.1 Como podem ser caracterizadas e classificadas as empresas de software?
A indústria de software pode ser analisada sob diferentes segmentações e tipologias, que variam de acordo com o enfoque da pesquisa e o objetivo do estudo. Essa diversidade de possibilidades decorre, em grande parte, da heterogeneidade inerente à indústria de software, que engloba desde microempresas que desenvolvem programas muito específicos, para um público restrito, até grandes corporações de capital internacional, que empregam centenas e até milhares de pessoas, ou ainda, empresas de pequeno porte que desenvolvem jogos para celulares que são baixados em diversos países, alcançando a marca de milhões de usuários. Na figura a seguir, um apanhado geral dos distintos critérios utilizados para caracterizar as empresas de software (ROSELINO, 2006; GUTIERREZ, ALEXANDRE, 2004; RIBEIRO, 2001).
Figura 11: Principais critérios utilizados para caracterizar as empresas de software
Para entender a diversidade da indústria de software de modo geral, é possível classificar as empresas com base em diferentes critérios, como, por exemplo: tamanho da empresa, tipo de produto desenvolvido, natureza das transações comerciais predominantes, grau de inovação e mecanismo utilizado para comercializar as soluções, entre outros. Dentre os critérios mais utilizados destacam-se: tipo de mercado, plataforma utilizada, formas de comercialização e modelo de negócio (ROSELINO, 2006; GUTIERREZ, ALEXANDRE, 2004; RIBEIRO, 2001).
A divisão das empresas com base no tipo de mercado para o qual se destina seu software vertical (genérico) e horizontal (específico) é a mais difundida, tanto na literatura comum como na especializada. Campbell- Kelly e Garcia-Swartz (2007) adotam divisão semelhante ao enquadrar as empresas como “empresas de software empresarial” e “empresas de software para o mercado de massa”. Gutierrez e Alexandre (2004) explicam que os softwares horizontais são aqueles que podem ser utilizados por qualquer tipo de usuário de modo geral. Já os verticais estão estreitamente relacionados às atividades desenvolvidas pelo usuário e por isso a construção desse tipo de sistema requer, além de conhecimentos de informática, conhecimentos específicos da atividade ou negócio do usuário. A classificação baseada na plataforma computacional leva em conta o ambiente pré-existente no qual será instalado o software. Diferentes softwares requerem distintas plataformas.
A classificação das empresas fundamentada nas formas de comercialização adotadas para vender os softwares é bastante utilizada, inclusive para coletar dados do Ministério do Trabalho e Emprego – RAIS. As empresas que comercializam os “softwares de prateleira” ou “software produto” são aquelas que transacionam produtos padronizados “totalmente desenvolvidos antes do seu lançamento no mercado” (GUTIERREZ, ALEXANDRE, 2004, p. 13). Por sua natureza, essas empresas acabam firmando fracas relações com seus usuários. Gutierrez e Alexandre (2004, p. 16) explicam: “caracteriza-se como embarcado aquele software que não é percebido nem tratado separadamente do produto ao qual está integrado, seja esse produto uma máquina, um equipamento ou um bem de consumo.” Nesse caso, para o consumidor o objetivo não é comprar o programa em si, mas a conveniência e a funcionalidade de determinado objeto. Nesse conjunto de empresas, estão incluídas aquelas que têm como produto final itens diversos, como televisores ou centrais telefônicas, por exemplo. Mas que, em sua cadeia produtiva, incluem a atividade de desenvolvimento de software. Existem também empresas especializadas no desenvolvimento de softwares embarcados elaborados para serem instalados em equipamentos produzidos por outras empresas.
Por sua vez, empresas especializadas em software customizado são aquelas que elaboram programas em que a maior parte dos módulos é desenvolvida antes de serem lançados no mercado. Contudo, Gutierrez e Alexandre (2004, p. 13) destacam: “embora obedeçam a uma especificação padrão, são feitas adaptações do produto a cada usuário ou instalação em particular.” Por isso, a relação entre o usuário e a empresa é forte. As empresas que atuam no segmento de software sob encomenda são aquelas que – tal como o nome sugere – desenvolvem soluções sob medida para cada cliente. São concebidas para atender as demandas exclusivas de uma empresa e carecem de uma estreita relação entre o cliente e a empresa desenvolvedora, dada a necessidade de compreender os requerimentos de cada operação e as expectativas do usuário (GUTIERREZ, ALEXANDRE; 2004). Ademais, Gutierrez e Alexandre (2004, p. 13) salientam ainda:
A partir do desenvolvimento do novo produto, a empresa de software torna-se apta a criar um produto padronizado para atender a outros clientes com o mesmo tipo de problema, se eles existirem e se não houver venda da propriedade intelectual ao usuário original. (...) Em tese, qualquer programa pode ser desenvolvido sob encomenda, porém sua relação custo/benefício é francamente desfavorável quando já existem soluções no mercado, o que leva o usuário a optar pela padronização sempre que tal substituição seja possível e não haja razões de sigilo envolvidas. No que diz respeito à classificação das empresas de software fundamentada em seus modelos de negócios, Roselino (2006) sustenta que parte relevante das atividades desenvolvidas pelas empresas de software é classificada como serviços em software, pois atende necessidades dos clientes que não podem ser satisfeitas por um software pronto (produto acabado). Nesse contexto, empresas especializadas em serviços de baixo valor agregado são aquelas que executam atividades rotineiras de alimentação de sistemas de informação, especialmente aqueles relacionados com a implantação, manutenção e processamento de banco de dados para terceiros, como lista de assinantes de serviços telefônicos, clientes de seguradoras ou usuários de serviços públicos, bem como atividades de baixo conteúdo tecnológico de manutenção e atualização de sítios de Internet (ROSELINO, 2006, p. 36).
Sob o ponto de vista do modelo de negócio, esse tipo de empresa – pelo baixo conteúdo tecnológico envolvido nos serviços prestados – enfrentam pequenas barreiras para a entrada de novos competidores, e o
determinante fundamental da competitividade é o custo do desenvolvimento que está estreitamente ligado ao custo da mão de obra (ROSELINO, 2006). Por sua vez, as empresas de software enquadradas como de alto valor agregado desempenham tarefas mais complexas no processo de desenvolvimento de uma solução em software, contemplando etapas como design de alto nível, projetos de modelagem da arquitetura de soluções em aplicações de software e projetos de bancos de dados complexos, entre outros. Elas demandam o domínio de processos mais intensamente tecnológicos (ROSELINO, 2006). Com relação à forma de comercialização, nesse tipo de negócio normalmente ocorre a elaboração de software sob encomenda. Pode incluir também empresas de softwares customizados, dependendo do tipo e do grau de complexidade das adaptações que são feitas.
Roselino (2006) alerta que embora a maioria das empresas focadas no desenvolvimento de software sob encomenda (de alto valor agregado) realizem todas as etapas do processo de produção do software – análise, projeto, programação (codificação), testes, implantação e documentação – podem existir variações. Isto porque algumas empresas, por causa de suas estratégias comerciais e sua localização em sistemas produtivos descentralizados, focam suas atividades nas funções mais densamente tecnológicas, sem se envolver nas etapas finais nem no resultado acabado do software propriamente. Confiabilidade no fornecedor e intensa interação com o usuário são aspectos chave desse tipo de negócio.
As empresas que estruturam seu modelo de negócio baseado em software pacote desenvolvem aplicações que são previamente preparadas antes do seu lançamento no mercado, com vistas a atender um amplo conjunto de clientes (MELO, CASTELLO BRANCO, 1997; GUTIERREZ, ALEXANDRE; 2004). Ou seja, são aquelas que seguem a lógica de comercialização do software de “prateleira”, que já se viu aqui. Melo e Castello Branco (1997, p. 2) esclarecem que para tais empresas “a competitividade é definida pela capacidade de desenvolvimento técnico e de comercialização de produtos em massa. É alto o investimento necessário para desenvolver e lançar o produto, e o retorno depende de sua aceitação pelo mercado”. Quanto à inserção no mercado desse tipo de produto, eles podem ser tanto horizontais (soluções de uso universal) ou verticais (voltados para um setor em particular). Entretanto, a elaboração de software produto pressupõe existência de elevado número de consumidores, tendo em vista a necessidade de diluir os custos de desenvolvimento (ROSELINO, 2006). Por exemplo: empresas que desenvolvem sistemas de gestão contábil padrão, que atendem as exigências legais básicas e
operações regulares das empresas. Outro exemplo seriam os programas para emissão de notas fiscais.
Após breve explanação sobre as mais difundidas formas de classificação das empresas de software, verificou-se que os critérios mais apropriados para conduzir a leitura do processo de diferenciação das empresas catarinenses são: o tipo de mercado para o qual se destinam os softwares e as formas de comercialização dos sistemas. Assim, esses aspectos serão usados como eixos condutores da análise. Com base nas entrevistas, constatou-se que entre 1993 e 2004 ocorreu grande expansão das empresas que desenvolvem software empresariais em Santa Catarina. Essas empresas, quanto ao mercado a que se destinam, podem ser enquadradas na categoria dos softwares verticais.
As formas de comercialização adotadas pelas empresas ao longo do período variaram, principalmente entre softwares customizados, sob encomenda e do tipo pacote. Elas serão examinadas porque influenciam a ordem espacial, à medida que engendram os fluxos comerciais. Com base nas informações coletadas nas entrevistas com o empresariado, optou-se por evidenciar se os principais clientes das empresas eram públicos ou privados. Essa preocupação parte das reflexões feitas por Markusen (1996) ao discorrer sobre a possibilidade de os governos interferirem na dinâmica dos processos de aglomeração de empresas nos municípios, atuando como clientes.
Evidentemente, ao longo do período surgiram empresas de diferentes naturezas e que podem escapar ao quadro geral que será apresentado. A intenção do próximo item é mostrar como foi esse processo de diversificação com base nos traços mais marcantes do período.
3.3.2 Diversificação da indústria de software catarinense no Segundo Período: as empresas do tipo ERP, as fábricas de software e o movimento de downsizing
No período de 1993 a 2004 o crescimento do número de empresas de software de Santa Catarina veio acompanhado de relevante diversificação do setor, processo vivenciado nos diferentes municípios catarinenses que cresceram nesse período. Nesse movimento de diferenciação, o aspecto de maior destaque é a propagação de empresas especializadas em software do tipo ERP (Enterprise Resource Planning). Elas se especializaram e passaram a elaborar soluções para variados tipos de mercado, valendo-se de diferentes estratégias de comercialização. Outro ponto nuclear na análise do período é o aumento e amadurecimento das empresas do tipo fábrica de
software. Algumas delas já haviam surgido no período anterior, mas só na década de 1990 alcançariam posição de destaque. Além disso, parte do êxito dessas empresas pode ser explicada pela influência do movimento de downsizing que ocorria na escala nacional.
3.3.2.1 Empresas catarinenses de ERP e o elevado nível de especialização setorial
Historicamente as empresas têm buscado incorporar novas tecnologias para auxiliar na gestão dos seus negócios. A decisão sobre o uso das ferramentas tecnológicas nas empresas mescla-se com as escolhas e com os pensamentos de gestão vigentes: ora os estudos e os conceitos da ciência das organizações “puxam” o desenvolvimento de software, ora o movimento se inverte. No tocante à trajetória do conceito de ERP, é importante compreender que no âmbito da administração das organizações, estudiosos da década de 1980 passavam a indicar a necessidade de coordenar os esforços de gestão de modo integrado, a partir de uma visão que unisse todos os departamentos das indústrias (GONÇALVES, LIMA, 2010).
No entanto, a tecnologia disponível até o final dos anos 80 não contribuía para esta integração. Na maioria das vezes, em uma mesma empresa, vários sistemas eram desenvolvidos internamente para atender aos requisitos específicos de cada unidade de negócio, departamento ou escritório. Desta forma, a informação ficava dividida entre diferentes sistemas, causando problemas de integridade, disponibilidade e confiabilidade das informações, alto custo de manutenção, comprometimento do processo decisório etc. Os Sistemas ERP (Enterprise Resource Planning), ou Sistemas Integrados de Gestão Empresarial, surgiram com a promessa de solucionar estes problemas ao incorporar em um único sistema funcionalidades que suportam as atividades dos diversos processos de negócio das empresas (OLIVEIRA, RAMOS; 2002, p. 1).
Assim Gutierrez e Alexandre (2004, p. 12) definem sistemas de gestão integrados:
É um aplicativo de caráter estratégico para uma empresa por requerer profundas alterações em sua sistemática operacional, automatizando e fundamentando principalmente os processos administrativos, financeiros, de controle de ativos e de fabricação. Todas essas são aplicações de back- office, ou seja, não envolvem interação direta com os clientes da empresa. A construção do ERP é modular,
possibilitando que essa modularidade se estenda à sua implantação.
Em termos gerais, os sistemas de gestão integrados servem para atender diferentes demandas das empresas e em distintos graus de complexidade. Por exemplo: soluções voltadas para sistemas de bibliotecas que informatizam o acervo, permitem aos usuários realizar pesquisas online e enviam e-mail para os usuários informando a data de vencimento da reserva (entre outras funções); na área da saúde, existem ERPs que possibilitam a integração entre diversos elos da cadeia: quando o médico prescreve um medicamento para o paciente internado, automaticamente ocorre sua dispensa e, se necessário, o sistema já envia um alerta para a área de compras informando a disponibilidade em estoque ou inicia um processo de requisição de compra. Permite também a integração completa de hospitais, clínicas, consultórios e operadores de plano de saúde, por exemplo. Pela sua heterogeneidade, esse segmento comporta empresas de diferentes tamanhos e atributos.
O movimento de disseminação das empresas de software na modalidade ERP no período pode ser explicado, em grande parte, por quatro fatores básicos. O primeiro é que, ao longo da década de 1990, já vinha aumentando o uso desse tipo de software em escala nacional, como mostram os estudos de Contador e Nanini (2004); Hypolito e Pamplona (1999); Carvalho Filho (2001), de modo que Santa Catarina, por seu contexto econômico, apresentado no capítulo anterior, tinha um ambiente favorável para o surgimento e a expansão desse tipo de empresa.
O segundo fator que nos ajuda a compreender esse fenômeno é que grande parte das empresas de ERP que surgiram em Santa Catarina no período tiveram como alicerce o conhecimento acumulado em determinados segmentos industriais tradicionais nos municípios; em muitos casos, havia uma expertise que foi transformada em “sistema”.
O relato do empresário de Criciúma expressa uma dessas experiências de conhecimento preteritamente acumulado nas indústrias locais.
Nossa empresa nasceu, de certo modo, da Eliane Revestimentos Cerâmicos. Eu trabalhei lá durante oito anos. E no início dos anos 1990 ela precisava de pessoas para trabalhar com programação e era uma mão de obra difícil de encontrar, por isso ela costumava buscar nos grandes centros, como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. E era uma mão de obra cara. Então, com esse pessoal, ela montou um Centro de Processamento de Dados (CPD). Mas ela precisava criar uma força de trabalho [local]para programação, para desenvolver os sistemas. Então foi feito um concurso interno para selecionar quem iria participar de um curso
de programação, que seria dado pela Unisul. Eu participei do curso e depois passei a trabalhar no centro de processamento de dados. Na época, a Eliane tinha vários segmentos de negócio – transportadora, cerâmica, metalmecânico e agroindústria. O grande objetivo do CPD era atender a parte de cerâmica. Mas eu fui para a unidade de Forquilhinha, para me juntar à equipe que ia desenvolver um sistema para agroindústria, focado em aves e suínos. E isso aconteceu em 1994 e nós estávamos mudando de um sistema que era manual, baseado em formulários e planilhas básicas do Excel para um sistema integrado, que registrava todas as ocorrências. (...) Só que por conta da crise que estava acontecendo no mercado de cerâmicas, a Eliane estava buscando se fortalecer para se manter no mercado e optou por concentrar sua atuação só no segmento de cerâmicas (e com isso, acabou vendendo a parte de agronegócios). (...) Nós voltamos para a unidade de Cocal do Sul para trabalhar na área de cerâmica então. (...) Mas o que aconteceu foi que nós ficamos com um conhecimento de agronegócio muito bom, nós sabíamos que tínhamos produzido alguma coisa que poderia ser aproveitada de outra forma (...).E isso nos estimulou a criar a nossa empresa (informação verbal).
Em Chapecó também aconteceram experiências similares, como confirma o relato a seguir de empresário de uma empresa de software focada na gestão de cooperativas:
Eu trabalhei muito tempo em cooperativa. Primeiro no Rio Grande do Sul e depois em Pinhalzinho. E lá na cooperativa de Pinhalzinho eu era gerente de TI. Junto com uma equipe, reconstruímos o sistema de gestão deles e ele ficou mais moderno, mais funcional. (...) Depois de alguns anos, além de trabalhar na cooperativa eu comecei a trabalhar como consultor de TI para outras cooperativas do estado de Santa Catarina. (...) Depois de passar por 18 cooperativas, percebi que grande parte dos problemas dos clientes, na área de TI, tinha a ver com o software. As soluções usadas não atendiam as necessidades deles. (...) E foi então que eu percebi a oportunidade para criar um software de gestão de cooperativa; veio desse conhecimento e da experiência que eu tinha no agronegócio. (informação verbal)
Tal como essas empresas, várias outras guardam histórias similares em sua origem. E esse perfil de profissional nas décadas de 1990 e 2000 apresentava uma característica que passaria a ser um divisor nas empresas
especializadas em ERP: mais do que conhecedores de tecnologia e de informática, esses empresários tinham como diferencial o profundo conhecimento em determinado segmento de negócio. E foi com base nessa expertise que surgiram muitas das primeiras ERPs. Nos anos seguintes, as competências ligadas aos diferentes segmentos empresariais passariam a ser cada vez mais aclamadas no universo corporativo das empresas de ERP.
Neste aspecto, passa a existir uma dupla transversalidade na indústria de software: ela tanto atravessa diferentes setores econômicos em que a demanda por soluções tecnológicas passa a vigorar nos mais diversos segmentos, como também comporta certa transversalidade no quesito mão de obra, pois à medida que passam a especializar-se em vários segmentos, as empresas de software empresarial criam espaços para contratar profissionais que tenham formação em outras áreas profissionais além daquelas de cunho tecnológico. Vários exemplos dessa natureza foram mencionados ao longo das entrevistas: engenheiros de produção contratados por empresas especializadas em gestão de cadeias de suprimentos; contadores por empresas de software de gestão financeira, entre outros. Expressão dessa mescla de habilidades profissionais requeridas pelas empresas de software é que ao longo das entrevistas com empresários, foi mencionado que várias sociedades começaram com dois sócios: um que entendia bastante de “sistemas” e outro que entendia de um tipo de “negócio”.
Nos primeiros anos do período, as empresas de ERP contavam com um ambiente de negócios que acabou influenciando positivamente o êxito de muitas empresas. Havia, principalmente, duas condições favoráveis no mercado inicial de sistemas de gestão integrados: a primeira é que, de modo geral, tratava-se da primeira experiência de informatização e de implantação de sistemas sob a ótica dos clientes e por isso, de certo modo, essa base inicial de clientes tinha um nível de exigência um pouco menor (em relação aos clientes atuais), pois também estava aprendendo a manusear e tirar proveitos das “novidades tecnológicas”. Disso advém a