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Capítulo III Osman Lins: a arte de escrever

4.3 Alguns precedentes imediatos

4.3.4 Marc Saporta

O francês Marc Saporta publicou, em 1962, o “romance” Composition n. 1396. O livro é constituído por uma caixa na qual há 142 folhas (ou “fichas”) não numeradas, impressas somente de um lado, não encadernadas, mantidas unidas com uma faixa na qual se lê: “Tantos romances quantos são os leitores. A ordem das páginas é casual: misturando-as, para cada um o seu romance”. Já antes, na capa, está escrito: “Embaralhem as páginas como um maço de cartas e leiam”. Pode-se (ou deve-se) considerar parte do “romance” também a face interna da capa posterior, que traz uma espécie de diálogo do qual participam 17 personagens, dizendo cada um uma frase. Junto com as 142 folhas ou “fichas” vem um cartão um pouco menor, impresso em uma cor diferente da cor das folhas (em preto as folhas, em azul o cartão) com as “instruções de uso” que novamente reproduzem o convite a embaralhar as cartas:

“Convida-se o leitor a embaralhar estas páginas como um maço de cartas. Se quiser, pode também erguê-las com a mão esquerda, como se faz na cartomante. Seja como for, a ordem na qual aparecerão então as diversas folhas determinará o destino de X. Em uma vida, de fato, o tempo e a ordem dos eventos contam muito mais do que a natureza dos próprios eventos. Certamente neste quadro há elementos impostos pela história; a participação de um homem à Resistência e a sua presença entre as tropas de ocupação da Alemanha estão ligadas a uma época bem precisa. E assim os fatos que marcaram a sua infância não podem ser apresentados do mesmo modo em que são apresentados os fatos que constituem a sua experiência de adulto.

Mas não é indiferente saber se ele encontrou a amante, Dagmar, antes ou depois do matrimônio; se abusou da pequena Helga quando era adolescente ou homem

396 A versão à qual tivemos acesso foi a tradução em italiano: SAPORTA, M. Composizione n.1. Trad.

maduro; se o furto do qual se tornou culpado foi cometido em nome da Resistência ou em tempos menos turbulentos, se o acidente do qual foi vítima não tem nenhuma relação com o furto – ou com o estupro – ou se aconteceu durante a sua fuga.

Da ordem em que se sucederão os episódios individuais depende também que a história acabe bem ou mal. Uma vida se compõe de muitos elementos. Mas infinito é o número das possíveis combinações.”397

Os módulos de texto são escritos todos no presente, como se fossem memórias de fatos ou cenas “recordadas” ou “descritas” pelo narrador que não procura dar-lhes um sentido (crono)lógico, mas, ao contrário, somente presentificá- las. Por isso o texto de cada ficha é um módulo linear que inicia e acaba sem conexões sintáticas que remetam a um antes ou a um depois; os módulos simplesmente se somam para produzir uma história configurada semanticamente e não sintaticamente, o que exige do leitor uma participação necessariamente ativa. Devido a esta estrutura modular Composition n. 1 é um verdadeiro quebra-cabeças narrativo, inovador em sua forma estrutural absolutamente aberta. Todavia, no que diz respeito à combinatória de Calvino e Lins este “hiper-romance” de Saporta pertence a um filão totalmente diferente398, visto que o jogo proposto ao leitor não segue nenhuma regra que não a de embaralhar as cartas. Isto significa que as combinações possíveis são aleatórias, confiadas totalmente ao acaso, e não a uma lógica399. Segundo os cálculos das possibilidades de combinação ou permutação, o número de configurações seria igual a 269 seguido de 243 zeros.

397 SAPORTA, M. Composizione n. 1, op. cit.

398 Parece que da mesma opinião fossem os membros do OULIPO, já que não obstante o caráter

absolutamente combinatório de Composition n. 1, não aceitaram Saporta como candidato a membro nem mesmo provisório, como se lê na página 190 do OULIPO Compendium (remetemos à versão inglesa: MATTHEWS, H. e BROTCHIE, A. OULIPO Compendium. London: Atlas Press, 2005). É possível que à rejeição tenha contribuído o fato de que o romance de Saporta não se baseia em nenhum jogo matemático-literário, que não responda a nenhuma forma de contrainte nem pressuponha regra alguma de configuração ou lógica que determine ou impeça uma ou algumas sequências; de fato, o jogo se apresenta puramente como paidia e não como ludus, segundo a distinção operada por Caillois. Roger CAILLOIS, no seu Les jeux e les hommes. La masque et le

vertige (Paris: Gallimard, 1967) chama “paidia” o jogo infantil e espontâneo, a brincadeira, muitas vezes sem regras definidas, mas desenvolvido espontaneamente em torno de um tema; e chama “ludus” o jogo como exercício intelectual de tão maior prestígio quanto mais complexo for. Na Itália Stefano Bartezzaghi desenvolveu un estudo muito interessante cujo objetivo era o de aplicar as categorias de Caillois ao âmbito literário; cf. BARTEZZAGHI, S. Immensi ingranaggi. Caillois, il gioco,

la circoscrizione dell’assoluto. Milano: Marcos y Marcos, 2004. Especificamente sobre o ludus

calviniano, cf. também de BARTEZZAGHI, S. “Calvino giocatore: regole e giochi della scrittura nello spazio”, artigo publicado em: http://cav.unibg.it/elephant_castle/web/uploads/saggi/bartezzaghi.pdf.

399 Composition n.1

parece corresponder perfeitamente à definição de “texto ideal” formulada por Roland Barthes em S/Z: uma configuração rizomática formada por lexias “autônomas”, sem início nem final pré-definidos, ao qual se pode ter acesso a partir de qualquer ponto; cf. BARTHES, R. S/Z. Paris: Éditions du Seuil, Collection “Tel Quel”, 1970, p. 11. Trad bras., BARTHES, R. S/Z. Trad. Léa Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992; cf. Nota 425, logo adiante.