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2 CIDADE E LITERATURA

2.2 MARCO POLO E A CIDADE DAS NUVENS

Marco Polo e a Cidade das Nuvens contribui para esta pesquisa porque além de

inspirar-se na obra de Calvino, ela traz em si características que retratam entre outras

cidades, a cidade de Vitória. Essas características expressam-se por meio dos

aspectos geográficos da nossa cidade, de forma que a reconhecemos mesmo que o

autor não a tenha nomeado. Sendo assim, caso o leitor não conheça a cidade de

Vitória, ele terá dificuldades em compreender de qual cidade o autor está se referindo

na obra.

Outro aspecto da obra é a busca pela cidade das Nuvens e o sentido que essa cidade

carrega em si, na capacidade de conduzir-nos a uma reflexão sobre determinados

valores, a partir do convívio dentro das relações que estabelecemos com o outro e

com o meio em que vivemos. Somente a partir desses aspectos mencionados é que

o autor trará o que é favorável na descoberta do sentido que perfaz conhecermos a

sua última cidade visitada, a qual nem estava em sua lista, que é a cidade do Encontro.

Sendo assim, vamos à obra.

Passado um tempo, Marco Polo agora tem uma nova missão, porém não para o

grande Imperador Mongol da China, Kublai Kan, mas sim para seu sucessor na

Dinastia Yuan, Chengzong. Ele possui a tarefa de descobrir a localização exata de

uma certa cidade, a cidade das Nuvens, e em seu percurso tomar nota de todos os

caminhos, paisagens e cidades que ele passar a ter conhecimento (MELO, 2013).

Essa proposta de início estimula a pensar o nosso continente a partir de um olhar

exterior sobre o que nos é conhecido, sendo esse olhar representado pela chegada

do viajante em nossas terras. Também faremos um recorte dando ênfase à leitura que

ele fará da nossa cidade no momento em que a atravessar.

Saindo da China, depois de uma viagem de 7 luas sempre a oeste, o veneziano

chegou a um continente “[...] contornado por praias dos mais variados desenhos,

coberto por densas florestas, e cortado por incontáveis rios” (MELO, 2013, p. 09).

Avistou também as florestas nascidas entre oceanos e rios, e entre elas, mil cidades.

Umas grandes, outras pequenas, ligadas por estradas das mais variadas formas,

podendo ser curtas, longas, retas, sinuosas, fazendo com que ao percorrê-las sempre

se cruzaria com rios d’água turva, plantações e pastos dos mais variados tipos e

tonalidades.

Para representar todas as cidades desse imenso litoral o autor destaca 3 duplas de

cidades irmãs ao dizer que elas “[...] carregam o sangue e a cultura de todas as outras.

São irmãs porque nasceram e cresceram juntas, uma suprindo a outra com o que lhe

faltava, sendo separadas apenas por braços de água” (MELO, 2013, p. 11).

Ao lermos os aspectos da nossa região por meio da obra, numa linguagem em formato

diferente do que usamos corriqueiramente, deparamos com uma reflexão a respeito

do que já é conhecido, e saímos do automatismo que normalmente nos encontramos.

A literatura tem assim a capacidade de fazer refletir sobre o que já conhecemos, mas

por um ângulo diferenciado, ao sintetizar, “[...] por meio dos recursos da ficção, uma

realidade, que tem amplos pontos de contato com que o leitor vive cotidianamente”

(ZILBERMAN, 1985, p. 25). Muitas coisas até já sabemos, mas por colocarmo-nos

numa posição de comodismo, não refletimos a respeito delas, deixando de perguntar

e pensar nos porquês de sua existência, sua origem e suas possíveis relações.

De forma admirável, Marco Polo destaca em sua escrita uma cidade muito conhecida

por nós, mas sem nomear esses espaços. Passamos a reconhecer esses espaços

conforme a leitura passa a ter significado de lugar. De acordo com o que ele vai

mencionando, cada curva, cada ponte, cada morro, cada rua, vamos identificando as

características peculiares tão conhecidas por nós e que saltam aos olhos de todo

morador.

Chega-se a primeira dessa dupla de cidades irmãs, avistando-se ainda em mar grosso, uma montanha coberta por floresta, coroada por um pequeno cume de pedra lisa e aguda, onde as nuvens param a fim de descansarem nos dias mais úmidos. Navega-se menos de meia jornada até se avistar, pouco ao Sul dessa montanha, um conjunto de montanhas menores: uma marcando o centro de uma ilha encaixada no fundo de uma baía rasa; as outras alinhadas a margem Sul desta mesma baía (MELO, 2013, p. 11).

Ao adentrar a baía o viajante delineia uma cidade que se desenvolveu a partir de uma

ilha maior que se uniu a um conjunto de sete ilhas por aterros, onde ruas foram

traçadas e edifícios erguidos (MELO, 2013). E é nesse formato de apresentação que

o autor vai percorrendo caminhos até chegar à Cidade das Nuvens. A princípio uma

cidade lendária, pois os moradores não acreditavam que homens conseguissem

construir algo tão próximo às nuvens, mas persistindo na caminhada conseguiu

realizar sua tarefa e descobriu que a cidade tinha sido rebatizada com o nome de

Cidade das Almas Apodrecidas. Esse fato decorreu porque os homens que lá

moravam deixaram de sonhar, por medo de terem seus pés descolados do chão e,

por isso, o tempo por castigo os petrificou, de forma que o vento os transformou em

poeira e a chuva em lama, sendo esta carregada ao rio e depois ao oceano, ficando

assim perdidos e esquecidos. A Cidade das Nuvens ensina uma lição a respeito da

necessidade de sonhar.

São os sonhos que nos fazem desejar conhecer outros mundos, outras pessoas...

Desejar ter outros sonhos. Sem devaneios a pessoa não exercita poesia, nem amor, nem vontade de se integrar aos outros, o que também a faz ignorar as belezas e as riquezas destas e de quaisquer paisagens. Sem sonho a vida é pobre, medíocre (MELO, 2013, p. 87).

O destino reservou ao viajante conhecer mais uma cidade que não estava em sua

rota, mas que ressignificaria todo o seu aprendizado até ali. Ao ter a oportunidade de

conhecer essa cidade ele entendeu que para a sua construção ela não necessitaria

de nenhum tijolo, nenhum governo, nenhuma lei, nenhuma igreja. Ela se

auto-organizava e autorregulava de acordo com suas necessidades diárias. Não era fixa,

surgia e desaparecia e tornava a surgir, mas não no mesmo lugar. As ruas e avenidas

formadas poderiam ou não ser utilizadas, pois era cada morador que escolhia os

caminhos empregados ao seu bel prazer. As suas casas eram tendas, das mais

coloridas. As pessoas que habitavam essa cidade poderiam ser conhecidas ou não

umas das outras. Nomearam-na como Cidade dos Encontros. Sim, recebeu esse

nome pois o objetivo principal de serem moradores dessa cidade era o encontro.

Uma cidade dentro de uma forma livre de amar, praticando um exercício individual de

sermos pessoas melhores que “optam por construir seus próprios mundos, [...]

ambientes perfeitos para cada um se alimentar da energia de que precisa para viver

em meio ao caos e a violência, mas sem se deixar influenciar por eles” (MELO, 2013,

p. 102). Conforme nosso viajante, uma cidade que não se deixa moldar pela ganância

do homem. E é partindo dessa reflexão que agora vamos pensar nessas formas de

contribuição que tem a Literatura para atentarmos quanto aos fatos cotidianos e que

nos constituem.