• Nenhum resultado encontrado

3 PERCEPÇÃO

3.4 OUTRAS FORMAS DE PERCEBER A CIDADE: ENTRE A ARTE E AS REDES

Outro trabalho do qual a pesquisa pôde beneficiar-se e nos auxiliou a estabelecer

diálogos no curso de formação por meio da arte foi uma exposição que aconteceu no

Sesc Glória, “Cidades Abstratas” de João César de Melo. Podemos conferir as obras

expostas conforme catálogo disposto pelo Sesc Glória (2019) que pode ser acessado

pelo link disponível nas referências desta pesquisa. Três dessas pinturas serão

destacadas pois podem contribuir para pensarmos a cidade na sua materialidade e

subjetividade.

Uma dessas pinturas apresenta-se destacada na figura 17 permitindo transparecer a

parte mais materializada da cidade. Podemos pensar na cidade enquanto estrutura,

são prédios e mais prédios, infinitos asfaltos nas ruas e avenidas, incontáveis postes,

casas, os muros e cercas. É falar do concreto, é pensar na cidade fixada na ausência

das pessoas.

Figura 17- Densidade 12

Fonte:catálogo da exposição cidades abstratas realizada no Sesc Glória

Mas como já sabemos, tão importante quanto a materialidade da cidade, também está

a subjetividade que a compõe. Nas duas outras obras apresentadas nas figuras 18 e

19, marcadas também por uma materialidade, podemos fazer algumas relações que

podem estar subentendidas nessas obras perante as memórias e percepções que se

mostram a partir das paisagens que se formam na cidade.

Figura 18- Convento da Penha Figura 19- Capuaba

Fonte: catálogo da exposição cidades abstratas realizada no Sesc Glória

O artista retrata em uma pintura o convento da Penha e em outra o porto marítimo de

Vitória. Porém, em seu trabalho, ainda não avistamos na paisagem retratada a

imagem das pessoas. Mas, em relação ao primeiro quadro, para nós capixabas, o

sentido da presença humana é principalmente marcado pelo compartilhamento de

memórias, ao trazermos algumas histórias tantas vezes contadas das lendas que

explicam o motivo pelo qual a edificação do convento ter sido construída sobre um

rochedo íngreme e pontiagudo.

A história conta que Frei Pedro Palácios, que era da Ordem dos Franciscanos, veio

da Europa, desembarcou na prainha em Vila Velha e trouxe consigo um quadro de

Nossa Senhora das Alegrias. Na parte plana próximo ao morro há até hoje uma gruta,

e foi lá que o Frei Palácios passou a morar. Reuniam-se ele, índios e moradores da

região e rezavam perante o quadro da santa. Conta a lenda que um dia, ao acordar,

o quadro havia desaparecido e foi encontrado no alto do morro entre duas palmeiras.

Esse fato aconteceu novamente mais duas vezes. Entendendo ele o fato ocorrido

como um sinal, logo foi construída uma capela no alto do morro, que recebeu o nome

de capela Francisco de Assis, onde foi colocado o quadro de Nossa Senhora das

Alegrias. Frei Pedro Palácios mandou trazer de Portugal, dessa vez, uma imagem de

Nossa Senhora, iniciando a obra do convento sobre a rocha no pico do morro e lá

colocou a imagem da santa. O convento então por ser construído sobre um rochedo

em forma de penhasco, entendendo que penha é sinônimo de penhasco, recebeu o

nome de convento da Penha. Sendo assim, a imagem da santa também passou a se

chamar Nossa Senhora da Penha. E assim temos a história de um convento que foi

construído no alto de um penhasco, cercado por uma mata Atlântica, onde

encontramos muitos animais e para o seu acesso temos como uma das opções subir

por uma ladeira de pedras escorregadias, a qual provavelmente foi construída a

muitas mãos, denominada ladeira da Penitência. Nesse santuário Mariano temos um

lugar repleto de história, cultura, arte, arquitetura, onde a natureza impera permeada

de muita fé.

Na outra pintura o artista faz uma releitura dos guindastes que operam no porto no

embarque e desembarque do içamento de cargas. Ele traça um paralelo dessas

máquinas com animais, girafas, que estão posicionadas com certa proximidade aos

navios de forma que, ao mesmo tempo que ele traz o sentido de percepção de uma

maneira lúdica, também não deixa escapar a função do trabalho que essas girafas

realizam. Essa capacidade de percepção ao olharmos para os espaços da cidade e

conseguirmos firmar relações que estabeleçam identificação, faz com que criemos

raízes de forma a preencher nossa história de sentido. Outras percepções que temos

da nossa cidade como a Pedra dos Dois Olhos e também a Pedra da Cebola, entre

outras, já são tão compartilhadas ao ponto de nós capixabas já naturalizarmos o que

vemos, passando a enxergar o sentido figurado que está embutido nessas

percepções. No caso da Pedra dos Dois Olhos, o pico Frei Leopardi, recebe esse

nome por possuir duas cavernas que se assemelham a dois olhos, os quais podem

ser vistos de quase todos os pontos da nossa ilha, e quando não, devido a algumas

alterações, como a altitude que estão ganhando os antigos prédios, inibindo assim

parte da vista que temos. Já em relação à Pedra da Cebola, trata-se de uma formação

rochosa que possui um formato arredondado e com ranhuras, assemelhando-se a

uma cebola, localizada num parque que recebe o apelido de parque Pedra da Cebola.

Estes trabalhos despontam como mais uma possibilidade de compreendermos a

maneira como a subjetividade também compõe o conceito de cidade. Para que uma

cidade possa existir é preciso que exista também a alma da cidade, os homens, o

meio natural e a relação entre eles. É a arte contribuindo na importância de

despertar-nos do que está dado perante despertar-nossos olhos.

Se concordamos que, para que uma cidade exista, é necessário também a presença

das pessoas e das possibilidades que surgem do encontro em que elas se

proporcionam, então, devemos dar ênfase à necessidade da existência de espaços

públicos, uma vez que a convivência nesses lugares irá acentuar a sociabilidade do

homem, pois já sabemos que

O ser humano, por sua origem e natureza, não pode nem existir nem conhecer o desenvolvimento próprio de sua espécie como uma mônada isolada: ele tem, necessariamente, seu prolongamento nos outros; tomado em si, ele não é um ser completo (IVIC, 2010, p. 16).

As crianças encontram-se em espaços livres como praias, praças, e até mesmo em

algumas ruas, logo percebemos uma aproximação entre elas devido uma interação

natural. A possibilidade de conhecer novas pessoas estando em um espaço público

também acontece com os adultos ainda que de forma menos acentuada. Quem já não

contou ou ouviu uma história de alguém que não conhecia durante um passeio na

praça ou de pessoas que estão a desfrutar lado a lado de outras de momentos

ensolarados na praia? Quando pensamos esses mesmos personagens em espaços

privados, o individualismo e o consumismo prevalecem, proporcionando um fator que

dificulta o encontro. Os espaços privados sufocam o encontro e assim perdemos

oportunidades de aprender com o outro e de humanizarmos. Quanto mais nos

individualizamos, menos nos humanizamos. É urgente a permanência, como também

a criação de espaços para esses fins. A cidade deve ser um lugar que nos proporcione

alegrias e trocas na promoção desses encontros.

Uma outra maneira de pensarmos a cidade é pela influência das redes sociais como

uma ferramenta na interação entre as pessoas. Podemos utilizar esses meios de

forma intencional para promover uma valorização dos espaços da cidade e até como

uma tentativa em despertar uma conscientização problematizando algumas questões.

Nessa perspectiva a pesquisa traz em destaque o trabalho que o coletivo Cidade

Quintal realizou e divulgou por meio do endereço no Instagram

12

. O trabalho

desenvolvido por eles colabora com um olhar mais humano para a cidade e estimula

a capacidade que temos de intervir em nosso próprio meio. De acordo com o próprio

Instagram do grupo, o nome Cidade Quintal vem da ideia de um projeto desenvolvido

como um laboratório de práticas urbanas que fazem da cidade nosso quintal.

Dentre os vários trabalhos dessa turma, existe um que chamou a atenção da

pesquisa, por cumprir com esse olhar ampliado de morador ao valorizar as interações,

que permeiam entre a história do bairro com suas paisagens naturais e seus

moradores. Os recursos que fomentaram esse trabalho partiram do edital Arte é

Nossa, da Secretaria Municipal de Cultura de Vitória, e que se dividiu em dois projetos

num bairro de Vitória, Ilha das Caieiras. Eles desenvolveram 10 murais na rua

Felicidade Correia dos Santos que se distribuiu em casas, comércios, escola, praça e

no museu do pescador. Ao todo somaram-se 1000 m

2

de murais. Esse trabalho

dividiu-se em dois projetos: um foi o Pessoas, Percurso e Paisagens com a disposição

de oito murais em locais alternados entre casas e uma escola. Outros dois murais

foram realizados sobre o tema Águas que Sustentam, do projeto Mulheres do Cais.

Esse último trabalho ocorreu na localidade do Museu do pescador conjuntamente à

praça.

No mapa abaixo, conforme a figura 20, podemos visualizar os espaçamentos entre os

murais do primeiro projeto mencionado.

Figura 20– Imagem do bairro Ilha das Caieiras em Vitória

Fonte: Instagram @cidadequintal

Ao pensarem o projeto, primeiramente, eles partiram de uma pergunta que tenta

responder qual a relação dos moradores com o bairro e a importância da

representatividade feminina. A partir dessa premissa os desenhos dos murais foram

desenvolvidos em um mergulho nas histórias do bairro, por meio de muitas conversas

com seus moradores e muito contato visual do entorno, percebendo como a paisagem

natural atravessa a paisagem urbana, que é atravessada pelas tradições locais.

Conseguiram realizar de forma coletiva com a participação de moradores/estudantes,

um resultado que levou uma melhoria na qualidade de vida ao proporcionar um

empoderamento para a comunidade, ao retratar as histórias destacando seus

personagens, de forma tal que os moradores configuram uma parte constitutiva da

paisagem. Podemos conferir esse trabalho nas figuras 21, 22, 23, 24, 25 e 26

destacadas abaixo, como também, acessando ao endereço do Instagram destacado

acima.

Figura 2117– Imagem do bairro Ilha das Caieiras em Vitória

Fonte: Instagram @cidadequintal

Figura 22– Imagem do bairro Ilha das Caieiras em Vitória

Figura 183– Imagem do bairro Ilha das Caieiras em Vitória

Fonte: Instagram @cidadequintal

Figura 24– Imagem do bairro Ilha das Caieiras em Vitória

Figura 195– Imagem do bairro Ilha das Caieiras em Vitória

Fonte: Instagram @cidadequintal

Figura 206– Imagem do bairro Ilha das Caieiras em Vitória

Esse mesmo grupo também foi responsável por um outro projeto que aconteceu na

região da Vila Rubim. A intervenção trouxe um formato mais humanizado ao comércio

que lá funciona, ao retratar por meio de pintura o mapa de Vitória, no espaço em que

tempos atrás houve um incêndio num galpão. Uma nova paisagem passou a ser

configurada no conjunto da pintura do mapa com outros murais realizados em outros

galpões que resistem ao tempo. A arte desenvolvida, como mostra a figura 27, retrata

as relações que acontecem entre o espaço e as pessoas que ali convivem, de forma

a valorizar a história construída a partir dessas relações ao longo do tempo.

Figura 217– Imagem da Vila Rubim

Fonte: Instagram @cidadequintal

Outros dois trabalhos envolvidos com a cidade por meio da rede social/Instagram e

que merecem uma atenção especial são os dois projetos culturais “A partir do

Centro”

13

e o “MoV.Cidade”

14

. A divulgação desses canais é importante como maneira

de incentivar que as pessoas falem mais sobre cidade, principalmente da própria

cidade. Esse é um dos objetivos a se alcançar, fazer com que as pessoas percebam

que estão incluídas no movimento da cidade e o seu próprio movimento altera os

rumos para onde a cidade caminha. Na tentativa de provocar esse sentido nas

pessoas o MoV.Cidade comporta-se como um laboratório de criatividade e

sustentabilidade e a ele se soma o cinema, a poesia, a música, a fotografia, entre

outros. Em destaque na figura 28 uma postagem que conversa diretamente com essa

13 Endereço no Instagram: @apartirdocentro

pesquisa ao referir-se aos espaços da cidade na promoção do encontro.

Figura 28- postagem Instagram

Fonte: acervo @mov.cidade

Quantas vezes você negou um convite de “vamos sair?” com o argumento de estar sem grana?

Muitas pessoas associam diversão somente ao consumo. Shows, teatros, cinemas, bares, cafés e restaurantes naturalmente demandam desembolso, o que é fundamental para mantê-los em funcionamento. Mas os espaços públicos também são um convite ao encontro de pessoas. Praças, parques, praias e calçadas também podem ser opções!

Como você consome sua cidade? (INSTAGRAM, 2020)

Já o projeto A partir do Centro interessa-se na valorização da memória e do futuro e

tem como objetivo tratar de temas urbanos, de forma transversal, tendo como ponto

de partida o centro histórico da cidade de Vitória. Como evento busca recuperar a

capacidade local de produção de ideias, projetos públicos e culturais de transformação

urbana, econômica e social dessa cidade, a partir do Centro. Em suas postagens

também encontraremos histórias contadas pelas memórias dos convidados de como

a cidade significa-lhes. Em destaque na figura 29 um texto postado que chama a

nossa atenção para a invisibilidade que algumas pessoas adquirem ao estarem na

rua. Os invisíveis, texto de Nelson Phelipe de Pina.

Figura 29- postagem do Instagram

Fonte: acervo @apartirdocentro

As ruas estão cheias de gente, mas não conseguimos ver. Essa aglomeração sempre existiu, nós é que nunca vimos ela. Tem gente morando na rua. A calçada vira cama, o papelão vira colchonete, a droga vira cobertor para esquentar a frieza e a dureza dos corações. É a cidade que quase ninguém vê, ou prefere não ver. É o centro que quase ninguém vê, ou prefere não ver. São pessoas que estão no centro, mas vivem às margens. (PINA, INSTAGRAM)

Esses são alguns exemplos que podem inspirar-nos numa reflexão para com o nosso

olhar para as paisagens que se formam na cidade, numa tentativa de um repensar os

caminhos que escolhemos em relação ao valor que colocamos nos lugares que nos

constituem como ser humano.

Um estudo, realizado por Chisté e Sgarbi (2019), problematiza o potencial educativo

da cidade na denominação de cidades educadoras e faz uma escolha por cidades

educativas. Em seu estudo, eles nos alertam quanto aos interesses que possam

distorcer o seu lado emancipador e favorecer o espaço da cidade como meio de

reforçar uma sociedade, a qual busca a produção de lucros ao transformar seus

espaços em mercadoria. Em face disso, é o que percebemos ao constatar que os

investimentos em relação ao planejamento urbano estão mais voltados para uma

circulação de veículos do que de pessoas. Também quando notamos que os espaços

estão tornando-se cada vez mais privados e voltados para uma adequação ao

mercado globalizado, consequentemente dificultando a promoção de espaços onde

ocorra o encontro.

A obra Marcovaldo e os doze passeios em Vitória que nos clarifica o conceito que

dotamos de cidade, pode ser analisada as vistas de uma cidade educativa, pois busca

valorizar o espaço da cidade, pautado em sua memória, como emancipador. Essa

obra foi escrita num momento em que esse espaço estava sob um olhar de

revitalização, como se a cidade estivesse morta e necessitasse reviver. Esse fato

ocorreu no momento em que houve uma diminuição do seu mercado consumidor ao

ser aberto um shopping em uma área a limbo do centro.

Por toda a contribuição que essa obra apresentou no decorrer da pesquisa,

consideramos que ela potencializa os espaços da cidade como educativos. Dessa

forma, ela influenciou nosso olhar ao ensinar a interpretar as paisagens que se

formam diariamente, descolando o nosso olhar contaminado de morador ao

passarmos a buscar um outro olhar carregado de características investigativas por

uma cultura produzida dentro dos espaços.

Entendemos também dentro de uma totalidade mais abrangente que essa obra possui

um poder de promover transformação social, na busca de uma harmonia entre o

homem e o ambiente em que vive. Isso se dá a partir da possibilidade de uma

consciência da realidade social, a qual vivemos e que surge diariamente perante seu

morador, destacada a partir de uma valorização da relação do meio ambiente e o

homem.

Mediante o exposto, Careri orienta que

Caminhar e atravessar os confins tornou-se, [...] o único modo de reconstrução de um fio unitário para os fragmentos de cidades separadas nas quais vivemos. Caminhar tornou-se um instrumento estético e científico que permite reconstruir o mapa em devir das transformações em curso, uma ação cognocitiva, capaz de acolher inclusive aquelas amnésias urbanas que, inconscientemente, apagamos de nossos mapas mentais porque não a reconhecemos como cidades (CARERI, 2017, p. 101-102).

Esse caminhar pode proporcionar uma reconfiguração de olhares limitados. Ao

distanciarmo-nos do que a nós parece uma totalidade, fazermos perguntas sobre o

que já está posto e refletirmos sobre as respostas advindas dessas perguntas que

colocamos, ao reaproximarmo-nos com a liberdade de caminhar por caminhos não

habituais, podemos, a partir destes passos, construir uma nova totalidade agora mais

problematizada e com uma nova perspectiva. A partir de uma nova conscientização e

reflexões podemos dialogar a respeito do que vemos e planejar possíveis