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PARTE III – O PARTIDO DOS TRABALHADORES E A

CAPÍTULO 6 TEÓRICOS PETISTAS E A RELAÇÃO ENTRE

6.1 MARILENA CHAUÍ E O APELO INTERNO DA DEMOCRACIA

Marilena Chauí, filósofa que participou da fundação do PT, expõe algumas de suas principais ideias acerca da democracia e socialismo em dois textos que datam de 1978: “A questão democrática” e “Democracia e socialismo: participando do debate”.

De maneira geral, o que a autora tenta fazer é demonstrar a sua hipótese de que, entre a democracia e o socialismo, há um vínculo interno de tal monta que um só pode existir mediante a existência do outro. Vejamos isso mais de perto.

Discutindo a crítica do conceito de utopia presente na obra de Marx e Engels, Chauí afirma que o socialismo criticado por estes autores é utópico pelo fato de ser parcial. Ou seja, os socialistas utópicos caracterizavam-se por imaginar que uma mudança em “uma das partes da vida social e política possa trazer alterações em todas as outras” (CHAUÍ, 2007, p. 162).

Diante disso, fazendo referência às perspectivas socialistas do século XX, aponta que todas padeceram de um duplo erro utópico. Os socialistas, que imaginavam transformar a sociedade por meio de um igualitarismo político, eram utópicos tanto quanto aqueles que pensam em mudar o mundo apenas pela socialização da propriedade.

No primeiro equívoco utópico, podemos enquadrar os reformismos de várias colorações que estiveram presentes nas formulações teóricas e práticas da esquerda, e especialmente na social- democracia, durante todo o século XX. Já o segundo erro, conforme a caracterização da autora, é característica de todos aqueles que defendem o modelo bolchevique de revolução como sendo universal.

De uma mão, há uma demasiada ênfase na política e, de outra, na economia. Democracia e socialismo foram, nesse sentido, entendidos, pela esquerda, de maneira parcial durante todo século XX. E, para a autora, seria um risco separar abstratamente estes dois conceitos (CHAUÍ, 2007).

E estes conceitos não podem ser teoricamente separados porque “a questão do trabalho envolve não apenas a desigualdade e a divisão econômica das classes, mas também a dominação e a exploração” (CHAUÍ, 2007, p. 168).

Aqui devemos deixar claro alguns pontos que nos ajudarão mais adiante. Podemos inferir, das afirmações da autora, que em sua visão a democracia representa uma “parte” da vida social: a esfera da política. Já o socialismo representa outra “parte”: a esfera econômica. Uma se

expressa na realização da liberdade e outra na realização da igualdade. Em uma sociedade na qual os homens possam realizar-se plenamente, estes dois polos não podem se separar e nenhum deles deve ser priorizado em detrimento de outro. E foi justamente esta priorização que conduziu ao fracasso tanto o “socialismo real” quanto a social- democracia.

Socialismo e democracia possuem, então, um vínculo que não pode ser rompido sob pena de se constituir uma sociedade autoritária ou injusta.

Toda essa discussão nos leva a sugerir que a concepção de socialismo, segundo a qual este se identifica com a igualdade no âmbito da economia, tem como consequência necessária o postulado de que, na URSS e nos países do leste europeu, o socialismo realizou-se efetivamente, no que diz respeito à produção e à distribuição dos bens. Porém, todas estas experiências não obtiveram sucesso pelo fato de que não conseguiram, concomitantemente à socialização da economia, socializar a política.

Chauí afirma, nesse sentido, que “as experiências socialistas já empreendidas evidenciam que a nacionalização, o planejamento econômico e a socialização dos meios de produção através do estado não trazem de modo imediato a socialização do poder político.” (CHAUÍ, 2007, p. 171). E, em outra passagem diz ainda que

[...] a socialização dos meios de produção não traz por si mesma a democracia socialista. Não, como pensam alguns, porque a transformação econômica não gera transformação política, mas porque a expressão „socialização dos meios de produção‟ não carrega consigo, de modo imediato, a exigência de desfazer o abismo entre igualdade e liberdade [...]. (CHAUÍ, 2007, p. 192).

Antes de prosseguirmos, gostaríamos de sugerir uma outra interpretação do problema.

Diante do que foi exposto até aqui, podemos indicar que a autora deixa margem para que interpretemos sua concepção de socialismo como sendo um modo de relação econômica em que os meios de produção são socializados. O socialismo seria então uma organização social sem propriedade privada. Com isso, não seria ilógico afirmar que o socialismo realizou-se, de fato, em alguns países como, por exemplo, a URSS. Ou seja, no campo da economia, o leste europeu

já tinha alcançado as relações socialistas. Faltou-lhe apenas a socialização da política, em outras palavras, a democracia.

Seria, portanto, o problema de tais experiências a não socialização do poder político. Já tentamos argumentar, anteriormente, o equívoco desta compreensão. Importante, agora, é ressaltarmos que esta ideia corresponde a uma interpretação parcial do que ocorreu nos países do bloco soviético, pois não atenta para algo que é fulcral: uma transformação radical só pode ocorrer quando a estrutura fundante da sociedade, as relações de trabalho, muda.

O trabalho alienado continuou sendo uma constante no “socialismo real”. A apropriação privada da produção coletiva continuou existindo nestas sociedades. Por isso, o poder político teve que ser cada vez mais centralizado. A opressão ao trabalhador era uma realidade nestas sociedades e só aumentava na medida em que os países da “cortina de ferro” tinham a necessidade de competir no mercado internacional com as nações capitalistas.

Mas, em nosso ponto de vista, a ideia de socialismo deveria ser analisada a partir de outra linha de raciocínio.

Já apontamos anteriormente e enfatizamos agora que a questão fundamental não é a mera socialização dos meios de produção, o fim da propriedade privada. Para se pensar em um conceito de socialismo deve- se, antes de tudo, considerar a necessidade de superação das relações alienadas de trabalho. Por isso, o elemento central para a formação de uma nova sociabilidade não é simplesmente a coletivização da propriedade, mas sim a instauração do trabalho associado.28

José Chasin, ao argumentar que uma das características mais importantes das relações de capital é a regência do trabalho vivo pelo trabalho morto, indica que

O que caracteriza a transição para além do capital é precisamente a inversão dos termos desta equação: trabalho vivo passa à condição de regente do trabalho morto. Mudança estrutural decisiva que não veio a ocorrer nos processos sofridos pelos países pós-capitalistas. (CHASIN, 1989, p. 15-16).

Dentro deste foco interpretativo, não podemos considerar que, na URSS e nem em qualquer outra nação, o socialismo tenha

efetivamente sido realizado. Também, jamais poderíamos imaginar uma situação na qual trabalho alienado tenha sido superado em uma sociedade, sem que esta se torne, ao mesmo tempo, e necessariamente, uma ordem social na qual os homens disponham de liberdade plena, inclusive abolindo qualquer forma de exercício de poder de uns sobre os outros.

O que ocorreu na URSS e em outros lugares sob sua influência foi o fim, “por decreto”, da propriedade privada, mas a continuidade das relações de capital. Desse modo, “não ocorria, nem poderia estar ocorrendo, uma transição para o socialismo, mas um processo inusitado de formação de capital, mais especificamente, um processo de formação de capital industrial, sob gestão político-estatal-partidária.” (CHASIN, 1989, p. 17).

Em outras palavras: o chamado “socialismo real” foi o modo encontrado pelo capital de se reproduzir, de forma intensa e rápida, em sociedades não industrializadas. Por isso, não é certo que aquelas experiências sejam entendidas, nem mesmo parcialmente, como sendo de caráter socialista.

Gostaríamos, agora, de discutir a concepção de Chauí que acusa de economicismo a formulação de que a liberdade se realiza, necessariamente, na medida em que a igualdade é efetivada. Nesse sentido, afirma que “Bobbio tem toda razão ao criticar o economicismo marxista por aceitar que a democracia política se realiza apenas pela democracia econômica, pois „o autogoverno dos cidadãos não é o autogoverno dos produtores‟” (CHAUÍ, 2007, p. 201).

Se entendermos esta relação economia-política ou igualdade- liberdade de maneira mecânica e unilateral, então, seríamos forçados a concordar com as afirmações de Bobbio e Chauí. Contudo, acreditamos que a realidade se estrutura de uma outra maneira. Analisando a obra de Marx a partir do modelo interpretativo de G. Lukács, podemos indicar que a esfera econômica, ou seja, o conjunto das relações estabelecidas entre os homens e destes com a natureza na produção e reprodução da vida, corresponde à estrutura fundamental do ser social. E esta estrutura fundamental influencia e, também, recebe influências de todos os outros complexos sociais (política, educação, ciência, direito etc.) em uma relação de “determinação reflexiva”.

Isto não significa que nesta ininterrupta interação todos os elementos tenham idêntico poder de determinar os demais. Ao contrário, pensamos junto com Marx e Lukács, que as relações sociais responsáveis pela constante produção e reprodução da vida correspondem ao “momento predominante” da existência social. E,

nesse sentido, representam o fundamento último de toda sociedade. Não há, pois, uma determinação mecânica, de mão única, mas sim um polo da relação que orienta e põe limites no decorrer do processo interativo estabelecido entre os complexos sociais.

Dentro dessa perspectiva, não enxergamos nenhuma contradição em afirmar que, ao serem superadas as relações de exploração e poder no âmbito da estrutura econômica, necessariamente ocorrerá uma transformação igualmente radical nas relações de poder como um todo e, sobretudo, no campo do poder político.

Outra concepção importante da filósofa em destaque é a de que a democracia é, atualmente, antagônica ao capitalismo. Nesta medida, a luta pela democracia representaria a luta pela superação do capital. Esta ideia é comum nas teorias, assim como na orientação prática, de grande parte da esquerda socialista no decorrer do século XX. Reconhece-se, de maneira geral, que a democracia vigente é burguesa, resultado do complexo processo de transição do feudalismo para o capitalismo que, por sua vez, terminou com a burguesia ocupando o lugar de classe dominante. Mas, por outro lado, há a crença que o aprofundamento e radicalização dos direitos democráticos podem conduzir a uma mudança qualitativa da sociedade.

Chauí, por exemplo, afirma que o sistema capitalista tem a necessidade intrínseca de, em sua prática econômica, estender a igualdade e a liberdade abstratas a todos os homens. A atual representação jurídico-política (ou seja, meramente formal) destes direitos garante a reprodução do capital sem, no entanto, ameaçar o sistema em sua totalidade.

Mas, as lutas populares para a realização concreta e ampliação dos direitos à igualdade e à liberdade têm como consequência última a luta pelo fim do próprio capitalismo, tendo em vista que este não pode realizá-las concretamente sob pena de autodestruição. Segundo a autora, apenas o socialismo pode realizar efetivamente a democracia. (CHAUÍ, 2007).

Imaginar que o socialismo, na esfera da economia, pode ocorrer sem que a liberdade o acompanhe de maneira necessária é demonstração de que o conceito marxiano de centralidade ontológica do trabalho na gênese e reprodução do mundo social não foi levado em consideração em toda sua profundidade.

Diante das discussões feitas até agora, podemos concluir que Chauí, ao refletir sobre a passagem do capitalismo ao socialismo, acentua a importância da democracia neste processo. Ela dá prioridade, em suas análises, à ação política que se desenvolveria ainda no interior

da sociedade capitalista. Dessa forma, as lutas populares deveriam se orientar para a conquista de direitos democráticos e, ao acumularem certo número de vitórias, uma mudança qualitativa ocorreria na vida social.

6.2 CARLOS NELSON COUTINHO E O VALOR UNIVERSAL DA