Reiteramos aqui que estamos trabalhando no espa¸co filtrado de probabilidade (Ω,F,{Ft}t≥0,P) satisfazendo as condi¸c˜oes usuais. Come¸caremos com uma defini¸c˜ao.
Defini¸c˜ao 2.43. Dizemos que um tempo de parada τ reduz um processo estoc´astico X quando Xτ1[τ >0] for um martingal adaptado a{Ft∧τ}t≥0.
Antes de come¸car a estudar os martingais locais, ser´a ´util estabelecer dois resultados.
Proposi¸c˜ao 2.44. SejamX um processo estoc´astico adaptado e cont´ınuo `a direita eτ um tempo de parada. Defina Y .
=Xτ ou Y .
=Xτ1[τ >0]. Ent˜aoY ´e um martingal com respeito a{Ft∧τ}t≥0 se, e somente se, Y for um martingal com respeito a {Ft}t≥0.
Demonstra¸c˜ao. Suponha que Y seja um martingal com respeito `a {Ft}t≥0. Note que {Ft∧τ}t≥0 ´e tal que Ft∧τ ⊆ Ft, para todo t ≥ 0. Afirmamos que Y martingal com respeito a qualquer outra filtra¸c˜ao {Gt}t≥0 que satisfa¸ca Gt ⊆Ft, para todo t ≥ 0 e tal que Y seja adaptado a {Gt}t≥0. De fato, fixe 0≤s < tarbitr´arios. Temos queE(Yt||Fs) =Ys´eGs-mensur´avel e integr´avel. Ent˜ao, pela defini¸c˜ao de esperan¸ca condicional, E(Yt||Gs) =E(Yt||Fs) =Ys. Como quer´ıamos.
∗ Veja o teorema2.27na p´agina18.
Reciprocamente, suponha queY seja um martingal com respeito a{Ft∧τ}t≥0. Fixado 0≤s≤t, sabemos∗ que mostrar queE(Yt||Fs) =Ys´e equivalente a mostrar queE Ys1[A]
=E Yt1[A]
para todo A∈Fs. Note que por hip´otese, para todo A∈Fs∧τ, vale que E Ys1[A]
=E Yt1[A]
. Agora sejaA∈Fs arbitr´ario. Considere a decomposi¸c˜ao A= (A∩[τ ≤s])∪(A∩[τ > s]) Como
E Ys1[A]
=E Ys1[A∩[τ≤s]]
+E Ys1[A∩[τ >s]]
e
E Yt1[A]
=E Yt1[A∩[τ≤s]]
+E Yt1[A∩[τ >s]]
basta mostrar que
E Ys1[A∩[τ≤s]]
=E Yt1[A∩[τ≤s]]
(2.5)
e
E Ys1[A∩[τ >s]]
=E Yt1[A∩[τ >s]]
. (2.6)
Para mostrar (2.5), note que se ω ∈A∩[τ ≤s], temos queXt∧τ =Xτ =Xs∧τ e portanto Yt =Ys, donde segue (2.5). Para mostrar (2.5), basta mostrar que A∩[τ > s]∈Fs∧τ e com isso provamos a proposi¸c˜ao. Para mostrar que A∩[τ > s]∈Fs∧τ, temos, pela defini¸c˜ao deFs∧τ que mostrar que para cada r≥0,
N .
=A∩[τ > s]∩[s∧τ ≤r]∈Fr.
De fato, temos que N = A ∩ [τ > s]∩ [s ≤ r]. Caso s > r, ent˜ao N = ∅ ∈ Fr. Caso s ≤ r, ent˜ao [s ≤ r] = Ω e N = A ∩ [s < τ]. Agora, seja h ≥ 0, arbitr´ario. Temos que [s < τ]∩[s∧τ < h] = [s < τ]∩[s < h]. Mas
[s < τ]∩[s < h] = [
q∈Q∩[0,h]
[s < q < τ]∈Fh
e portanto [s < τ]∈Fs∧τ ⊆Fs. Assim,N =A∩[s < τ]∈Fse comos≤r, resulta queN ∈Fr. Proposi¸c˜ao 2.45. Sejaτ um tempo de parada. Se Xτ ´e um martingal ent˜ao τ reduzX. Reciproca-mente, se X0 ´e integr´avel e τ reduz X, ent˜ao Xτ ´e um martingal.
Demonstra¸c˜ao. SejaXτ ´e um martingal. Devemos provar queXτ1[τ >0]tamb´em ´e. De fato,Xτ1[τ >0]
´
e integr´avel (pois Xτ ´e). Agora, fixe 0 ≤ s < t. Como 1[τ >0] ´e limitado e Fs-mensur´avel,
∗ Veja o teoremaC.8na p´agina159.
E Xtτ1[τ >0]||Fs
=1[τ >0]E(Xtτ||Fs) =Xsτ1[τ >0] como quer´ıamos.
Reciprocamente, temos queXtτ =Xtτ1[τ >0]+X01[τ=0].Como, por hip´otese,Xτ1[τ >0]´e martingal e X01[τ=0]´e integr´avel, segue queXτ ´e martingal.
Defini¸c˜ao 2.46. Seja X um processo estoc´astico adaptado e cont´ınuo `a direita. Dizemos que X ´e um martingal local quando existir uma sequˆencia{τn}n≥1 de tempos de parada, tal que
i) τn↑ ∞, P-q.s.
ii) Para cadan≥1, τn reduz X, isto ´e, Xτn1[τn>0] ´e um martingal com respeito a {Ft∧τ}t≥0. Nessas condi¸c˜oes, dizemos que {τn}n≥1 ´e uma sequˆencia redutorapara X.
Observa¸c˜oes: Em vista da proposi¸c˜ao 2.44, a condi¸c˜ao ii) da defini¸c˜ao anterior ´e equivalente a Xτn1[τn>0] ser um martingal com respeito a {Ft}t≥0 e em vista da proposi¸c˜ao 2.45, se X0 for integr´avel, ent˜aoτ reduz Xse e somente seXτ for um martingal. Assim, temos a seguinte defini¸c˜ao alternativa de martingal local.
Defini¸c˜ao 2.47. Seja X um processo estoc´astico adaptado e cont´ınuo `a direita tal que X0 seja integr´avel. Dizemos queX ´e um martingal local quando existir uma sequˆencia {τn}n≥1 de tempos de parada, tal que
i) τn↑ ∞, P-q.s.
ii) Xτn ´e um martingal com respeito a {Ft}t≥0 para cada n≥1.
Observamos que todo martingal ´e um martingal local. Trataremos da rec´ıproca dessa afirma¸c˜ao adiante.
O pr´oximo resultado ser´a ´util na demonstra¸c˜ao de algumas propriedades dos martingais locais que vamos apresentar.
Lema 2.48. Sejam X um processo estoc´astico adaptado e cont´ınuo `a direita e σ ≤ τ tempos de parada. Ent˜ao, se τ reduzX,σ tamb´em reduz X.
Demonstra¸c˜ao. SejaMt .
=Xt∧τ1[τ >0]. Temos queM ´e um martingal e al´em disso, como [σ >0]⊆ [τ >0] podemos escrever 1[σ>0]=1[σ>0]1[τ >0]. Agora,
Xt∧σ1[σ>0]=Xt∧σ1[τ >0]1[σ>0]
=Xt∧στ 1[τ >0]1[σ>0]
=Mtσ1[σ>0].
Pelo corol´ario 2.38,Mσ ´e martingal e portanto, como a demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao 2.45, segue que Mtσ1[σ>0] tamb´em ´e martingal e resulta que σ reduz X.
Proposi¸c˜ao 2.49. Sejam X um processo estoc´astico adaptado e cont´ınuo `a direita, σ ≤ τ tempos de parada e ξ uma vari´avel aleat´oria F0-mensur´avel. Ent˜ao
i) Soma de dois martingais locais ´e martingal local.
ii) ξX ´e martingal local.
iii) Um martingal local parado ´e um martingal local.
Demonstra¸c˜ao. i) Sejam {σn}n≥1 e {τn}n≥1 sequˆencias redutoras para M e N, respectivamente.
Agora, defina ρn=σn∧n. Temos pela proposi¸c˜ao2.16 queρn´e um tempo de parada. Obviamente {ρn}n≥1 ´e crescente e limn→∞ρn = ∞ q.s. Al´em disso, (M+N)ρn = Mρn +Nρn. Pelo lema anterior, temos queρn reduz Me N, ou seja,Mρn1[ρn>0] e Nρn1[ρn>0] s˜ao martingais e portanto a soma tamb´em ´e∗.
ii) Seja{τn}n≥1 uma sequˆencia redutora paraX e defina, para cadan≥1,
αn=
+∞ se|ξ| ≤n, 0 se|ξ|> n.
Note queαn´e um tempo de parada. De fato, sejat≥0 arbitr´ario. Comoτ ´eF0-mensur´avel, resulta que {ω ∈Ω :αn(ω)≤t} ={ω∈Ω :|ξ(ω)|> n} ∈ F0 ⊆ Ft. Pela proposi¸c˜ao 2.16, ρn = τn∧αn ´e um tempo de parada, e obviamenteρn% ∞q.s.Agora,
(ξX)ρn1[ρn>0]=1[|ξ|≤n]ξXρn1[ρn>0].
∗ Veja a proposi¸c˜aoB.9na p´agina156.
Pelo lema anterior,Xρn1[ρn>0]´e um martingal e como1[|ξ|≤n]ξ´e uma vari´avel aleat´oriaF0-mensur´avel e limitada, pelo teorema C.10na p´agina160, segue que para 0< s≤t,
E (ξX)ρn1[ρn>0](t)||Fs
=1[|ξ|≤n]ξE Xρn1[ρn>0](t)||Fs
=1[|ξ|≤n]ξXρn1[ρ>0](s), ou seja, {ρn}n≥1 ´e uma sequˆencia redutora paraξX.
iii) Seja{τn}n≥1 uma sequˆencia redutora paraX. Ent˜ao (Xτ)τn1[τn>0]= Xτn1[τn>0]
τ
.
Mas, pelo corol´ario 2.38, resulta que (Xτ)τn1[τn>0] ´e um martingal.
Proposi¸c˜ao 2.50. Seja X um martingal local. Ent˜ao existe uma sequˆencia redutora {τn}n≥1 para X tal queτn↑ ∞ para cada ω∈Ω eXτn1[τn>0] ´e um martingal uniformemente integr´avel para cada n≥1.
Demonstra¸c˜ao. Seja{ρn}n≥1 uma sequˆencia redutora para Xe sejaN ⊆Ω um conjunto de medida nula tal que ρn(ω) ↑ ∞ para ω ∈Nc. Defina σn .
=n1[N]+ρn1[Nc]. Temos que σn ↑ ∞ para todo ω ∈ Ω e σn = ρn, P-q.s. Como a filtra¸c˜ao {Ft} ´e aumentada, temos que σn tamb´em ´e tempo de parada. Assim, paran≥1,Xtρn1[ρn>0] =Xtσn1[σn>0], P-q.s.para cadat≥0. Segue queXσn1[σn>0]
´
e um martingal, ou seja, {σn}n≥1 reduz X. Agora, defina τn .
= σn∧n. Temos que τn ↑ ∞ para todo ω ∈ Ω. Pelo lema 2.48 temos que {τn}n≥1 ´e redutora para X. Agora fixe n ≥ 1 e defina Y .
=Xσn1[σn>0]. Note que Y ´e martingal. Como martingal parado tamb´em ´e maringal,{Yt∧n}t≥0
´
e um martingal e temos que Yt∧n = E(Yn||Ft) para todo t ≥ 0. Pelo teorema de convergˆencia de Doob, segue que {Yt∧n}t≥0 ´e um martingal uniformemente integr´avel e portanto observando que
Xtτn1[τn>0]=Xt∧nσn 1[τn>0]
=Xt∧nσn 1[σn>0]1[τn>0]
=Yt∧n1[τn>0]
conclu´ımos que
Xtτn1[τn>0] t≥0 ´e martingal uniformemente integr´avel, como quer´ıamos.
Defini¸c˜ao 2.51. Dizemos que um martingal M ´e uniformemente limitado quando existir uma
con-stante positiva K tal que |Mt| ≤K, P-q.s. para todot≥0 .
O pr´oximo resultado mostra que para martingais locais cont´ınuos ´e possivel selecionar uma sequˆencia redutora de forma que o processo truncado seja um martingal uniformemente limitado.
Proposi¸c˜ao 2.52. Sejam X um martingal local cont´ınuo, {ρn}n≥1 uma sequˆencia redutora para X e defina τn = inf{t. ≥ 0 :|Xt| ≥ n}. Ent˜ao {σn}n≥1, definida para cada n ≥1 por σn .
= ρn∧τn ´e uma sequˆencia redutora para X e satisfaz
Xσn(t)1[σn>0]
≤n, (2.7)
ou seja,
Xσn1[σn>0] t ´e uniformemente limitado e em particular uniformemente integr´avel.
Demonstra¸c˜ao. Pela proposi¸c˜ao 2.15, τn ´e um tempo de parada para todo n≥1. Assim {σn}n≥1 ´e uma sequˆencia de tempos de parada tal que σn% ∞, q.s.A continuidade `a esquerda deX garante que|Xσn(t)| ≤nem [τn>0] e portanto em [σn>0]⊆[τn>0]. Assim (2.7) vale e o resultado segue pelo lema2.48.
Nem todo martingal local ´e um martingal. Explicitaremos essa afirma¸c˜ao atrav´es de um exemplo.
Exemplo 2.53. Seja (Ω,F,P) = [0,1],B[0,1], λ
ondeλ´e a medida de Lebesgue restrita ao intervalo [0,1] e considere a filtra¸c˜ao Ft =F para todo t ≥0. Considere tamb´em ξ uma vari´avel aleat´oria n˜ao integravel. Ent˜ao X(t) =ξ obviamente n˜ao ´e martingal, mas ´e um martingal local. De fato,
τn=
+∞ se|X(0)| ≤n, 0 se|X(0)|> n.
´
e uma sequˆencia localizadora paraX.
O pr´oximo objetivo ´e achar uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que um martingal local seja um martingal.
Defini¸c˜ao 2.54. Para cada a > 0, seja Ta a classe de todos os tempos de parada τ : Ω → [0, a].
Dizemos que um processo adaptado e cont´ınuo `a direita ´e da classeDL(Dirichlet - Doob) se a fam´ılia de vari´aveis aleat´orias {Xτ}τ∈T
a for uniformemente integr´avel para cada a >0.
Proposi¸c˜ao 2.55. Um martingal local ´e um martingal se, e somente se, for da classe DL.
Demonstra¸c˜ao. SejaX um martingal (cont´ınuo `a direita) e τ ∈ Ta um tempo de parada arbitr´ario.
Comoτ ≤a, ent˜ao pelo teorema 2.36
X(τ) =E(X(a)||Fτ),
e pelo lema 2.33, segue que a fam´ılia {X(τ) :τ ∈ Ta}´e uniformemente integr´avel.
Reciprocamente, seja X um martingal local da classe DL e{τn}n≥1 uma sequˆencia localizadora paraX. Para cadan≥1, definaYn(t) .
=Xτn(t)1[τn>0]. Como para cadan≥1,Yn´e um martingal, temos, para 0≤s < t,
Yn(s) =E(Yn(t)||Fs).
Agora,Yn(t)−→q.s X(t) eYn(s)−→q.s X(s) para quase todoω ∈Ω. Al´em disso,{Yn(t)}n e{Yn(s)}n s˜ao fam´ılias uniformemente integr´aveis e portanto∗ vale tamb´em que Yn(t) L
1
−→ X(t) e Yn(s) L
1
−→ X(s).
Resulta pelo teoremaC.15que X(s) = lim
n→∞Yn(s) = lim
n→∞E(Yn(t)||Fs) =E(X(t)||Fs), ou seja, X´e um martingal.
Corol´ario 2.56. Seja X um martingal local. Se E supt≤a|Xt|
< ∞, para todo a > 0 ou X for uniformemente limitado, ent˜ao X ´e um martingal.
Demonstra¸c˜ao. De fato, como
0≤ |X(τ)| ≤sup
t≤a
|X(t)| ∀τ ∈ Ta
e como supt≤a|X(t)|´e integr´avel, resulta† que X∈DL.
Provaremos um resultado agora que ser´a ´util no apˆendiceE.
Proposi¸c˜ao 2.57. Seja X um martingal local n˜ao negativo. Ent˜ao X ´e um supermartingal. Al´em disso, X ´e um martingal se, e somente se, tiver esperan¸ca constante.
∗ Veja o corol´arioB.7na p´agina155. † Veja a proposi¸c˜aoB.9na p´agina156, itemiv.
Demonstra¸c˜ao. Como o processo ´e n˜ao negativo, E Xt−
= 0 e portanto, pela defini¸c˜ao 2.25, basta provar que para 0≤s≤t, E(Xt||Fs) ≤Xs. Para isso, considere {τn}n≥1, uma sequˆencia redutora de tempos de parada paraX. Temos queτn↑ ∞, P-q.s.e para cadan≥1,Xτ1[τ >0]´e um martingal.
Agora, fixe n≥1. Temos que
E Xt∧τn1[τn>0]||Fs
=Xs∧τn1[τn>0]
Fazendo n↑ ∞ e usando o lema de Fatou para esperan¸ca condicional∗ temos que E(Xt||Fs) =E
lim inf
n Xt∧τn1[τn>0]||Fs
≤lim inf
n E Xt∧τn1[τn>0]||Fs
= lim inf
n Xs∧τn1[τn>0]
=Xs.
Isso mostra que X´e um supermartingal. Agora, seX for um martingal, segue que tem m´edia con-stante. Recipocramente, suponha queE(Xt) ´e constante para t≥0. Pela propriedade supermartin-gal de X, temos que E(Xt||Fs)≤Xs, P-q.s.para 0≤s≤t. Suponha por contradi¸c˜ao que X n˜ao fosse um martingal, ent˜ao para algum 0≤s≤tter´ıamos que P (E(Xt||Fs)< Xs)>0. Assim, vamos
definir A .
= {ω∈Ω :E(Xt||Fs)< Xs}, B .
= {ω∈Ω :E(Xt||Fs) =Xs} e C .
={ω∈Ω :E(Xt||Fs)> Xs} (note que pelo fato de X ser supermartingal C tem medida nula).
Temos que
E(Xt) =E(E(Xt||Fs))
= Z
A
E(Xt||Fs) dP + Z
B
E(Xt||Fs) dP + Z
C
E(Xt||Fs) dP
<
Z
Ω
XsdP
=E(Xs).
Mas isso ´e absurdo pois por hip´oteseX tinha esperan¸ca constante.
∗ Veja o teoremaC.16na p´agina164.
Varia¸ c˜ ao quadr´ atica
[Upon proving that the best betting strategy for
“Gambler’s Ruin” was to bet all on the first trial.]
It is true that a man who does this is a fool. I have only proved that a man who does anything else is an even bigger fool.
Julian Lowell Coolidge
No que se segue, consideraremos que estamos sob as condi¸c˜oes usuais∗. Seja Mum martingal. A menos queMseja constante, M2 n˜ao ser´a um martingal. Um dos objetivos deste cap´ıtulo ´e mostrar que de modo geral M2 difere de um martingal por ´unico processo crescente, cont´ınuo e nulo na origem. Este processo ser´a chamado devaria¸c˜ao quadr´aticade M.
3.1 Resultados preliminares
Defini¸c˜ao 3.1. Dizemos que um martingal M´e dequadrado integr´avelquandoE M2(t)
<∞, isto
´
e,M(t)∈L2, para todo t≥0.
Observamos que M2 ´e um submartingal. De fato, em primeiro lugar, como M ´e adaptado e x 7→ x2 ´e cont´ınua (e portanto, Borel mensur´avel) segue que M2 tamb´em ´e. Agora, seja s ≤ t.
Temos pela desigualdade de Jensen† que
M2(s) = (E(M(t)||Fs))2 ≤E M2(t)||Fs
.
∗ Veja a defini¸c˜ao2.24na p´agina17. † Veja o teoremaC.13na p´agina162.
33
Exemplo 3.2. O movimento Browniano padr˜ao ´e um martingal de quadrado integr´avel. De fato, sabemos∗ que o processo ´e um martingal. Agora, comoBt∼N(0, t),E |Bt|2
=tpara todot≥0.
A maioria dos resultados a seguir dependem da pr´oxima proposi¸c˜ao que ´e v´alida para martingais de quadrado integr´avel.
Proposi¸c˜ao 3.3. Seja M um martingal de quadrado integr´avel. Ent˜ao E
(Mt−Ms)2||Fa
=E Mt2−Ms2||Fa
, 0≤a≤s≤t Demonstra¸c˜ao. Temos que
E Mt2−2MtMs+Ms2||Fa
=E Mt2−Ms2−2MtMs+ 2Ms2||Fa
=E Mt2−Ms2||Fa
−2E MtMs−Ms2||Fa
=E Mt2−Ms2||Fa
−2E(Ms(Mt−Ms)||Fa)
=E Mt2−Ms2||Fa
−2E(E(Ms(Mt−Ms)||Fs)||Fa).
(3.1)
Na ´ultima igualdade usamos a propriedade da torre†da esperan¸ca condicional. Agora, comoMs∈Fs, Mt−Ms ∈ L1 e pela desigualdade de H¨older, Ms(Mt −Ms) ∈ L1, estamos sob as hip´oteses do teorema C.11e portanto, comoM´e martingal,
E(Ms(Mt−Ms)||Fs) =MsE(Mt−Ms||Fs) = 0.
Desta ´ultima igualdade e de (3.1), provamos o que quer´ıamos.
Lembremos agora do conceito de fun¸c˜oes de varia¸c˜ao limitada.
Defini¸c˜ao 3.4. Seja P: 0 =t0 < t1 < . . . < tn=t uma parti¸c˜ao do intervalo [0, t]. Definimos |P|, o m´odulo da parti¸c˜aoP como o supi|ti+1−ti|. Agora, sejaA:R+→R, definimos
St(P,A) .
=X
i
|A(ti+1)−A(ti)|.
∗ Veja o exemplo2.26na p´agina18. † Veja o teoremaC.11na p´agina161.
Dizemos que A´e de varia¸c˜ao finita quando para cada t≥0, St(A) .
= sup
P
St(P,A)<∞.
Chamamos a fun¸c˜ao t 7→S(A)t de varia¸c˜ao total de A em [0, t]. Quando limt→∞St(A) <∞, dizemos queA´e devaria¸c˜ao limitada. Usaremos as nota¸c˜oes mais curtasSt(P) eSt quandoAestiver impl´ıcito no contexto.
Observamos que a varia¸c˜ao total ´e positiva, crescente e nula em t = 0, fun¸c˜oes mon´otonas s˜ao de varia¸c˜ao finita (em particular, a fun¸c˜ao varia¸c˜ao total ´e de varia¸c˜ao finita) e qualquer fun¸c˜ao de varia¸c˜ao finita pode ser escrita como a diferen¸ca entre duas fun¸c˜oes crescentes. Al´em disso, a fun¸c˜ao varia¸c˜ao total de A´e cont´ınua se e somente seA for cont´ınua. As demonstra¸c˜oes destas observa¸c˜oes podem ser encontradas em livros de an´alise real, por exemplo [28]. Na pr´oxima defini¸c˜ao, ligamos o conceito de varia¸c˜ao finita com processos estoc´asticos.
Defini¸c˜ao 3.5. Dizemos que um processoA´e devaria¸c˜ao finitaquando for adaptado e as traj´etorias t7→A(t, ω) forem finitas, cont´ınuas `a direita e de varia¸c˜ao finita para quase todo ω∈Ω.
O pr´oximo teorema mostra que martingais locais cont´ınuos n˜ao triviais n˜ao s˜ao de varia¸c˜ao finita.
Mais do que apenas uma propriedade interessante desses processos, veremos que este resultado ter´a consequˆencias profundas no desenvolvimento da teoria.
Teorema 3.6 (Teorema de Fisk). Seja Mum martingal local cont´ınuo de varia¸c˜ao finita. Ent˜aoM
´
e constante no tempo, isto ´e,Mt=M0, P-q.s.para cada t≥0.
Demonstra¸c˜ao. Inicialmente, note que {Mt−M0}t≥0 ´e um martingal local. De fato, seja {τn}n≥1 uma sequˆencia localizadora para M. Fixe n ≥ 1, temos que Mτn1[τn>0] ´e um martingal. Em particular, M01[τn>0] = M0τn1[τn>0] ∈ L1. Portanto
Mtτn1[τn>0]−M01[τn>0] t≥0 ´e um martingal.
Temos que{τn}n≥1´e sequˆencia redutora paraM−M(0), o que prova que{Mt−M0}t≥0´e martingal local. Tendo em vista esse fato, podemos, sem perda de generalidade, supor que o martingal local se anula emt= 0 e assim basta provar queMt= 0, P-q.s.para cadat≥0. SejaSt(ω) a varia¸c˜ao total das traj´etorias s 7→ Ms(ω) no intervalo [0, t]. Sabemos tamb´em que a fun¸c˜ao crescente t 7→ St(ω)
´
e cont´ınua e de varia¸c˜ao finita para todo ω ∈ Ω tal que a trajet´oria t 7→ Mt(ω) for cont´ınua e de varia¸c˜ao finita.
Suponha que M ´e um martingal tal que exista K > 0 satisfazendo |St| ≤ K, P-q.s. para todo t ≥ 0. Isso implica que M ´e, para quase todo ω ∈ Ω, uniformemente limitada, de fato, |Mt| =
|Mt−M0| ≤St≤K, P-q.s.para todo t≥0. Agora, fixet > 0 e sejaP: 0 =t0 < t1 < . . . < tn=t uma parti¸c˜ao arbitr´aria do intervalo [0, t]. Usando a proposi¸c˜ao 3.3(com Fa={∅,Ω}) temos
E Mt2
=E Mt2−M02
=E
n
X
j=1
Mt2j−Mt2j−1
=E
n
X
j=1
Mtj −Mtj−12
≤E St· sup
1≤j≤n
|Mtj −Mtj−1|
! .
Agora, fazendo |P| → 0, temos que St·sup1≤j≤n|Mtj −Mtj−1| −→ 0 para todo ω ∈ Ω tal que St(ω)<∞ e s∈[0, t]7→ Mt(ω) ´e cont´ınuo. Assim, por hip´otese, St·sup1≤j≤n|Mtj −Mtj−1| −→0, P-q.s. Al´em disso, como
St·sup1≤j≤n|Mtj −Mtj−1|
≤ 2K2 , P-q.s., o teorema da convergˆencia dominada garante que
E St· sup
1≤j≤n
|Mtj−Mtj−1|
!
−→0.
Assim,E Mt2
= 0 e portantoMt= 0, P-q.s.
De maneira geral, seja Mt um martingal local cont´ınuo. Para cada n ≥ 1, defina τn(ω) .
= inf{t≥0 :St(ω)> n}(usamos a conven¸c˜ao de que inf∅=∞). Pela proposi¸c˜ao 2.13, para cadan≥ 1,τn´e tempo de parada. Como o processo ´e de varia¸c˜ao finita, τn% ∞, P-q.s.Pela proposi¸c˜ao2.49 itemiii,Mτn ´e martingal local eM0τn = 0. Assim, sejaSt(n)o processo varia¸c˜ao total deMτn. Temos que|Mtτn−M0τn|=|Mtτn| ≤ |St(n)| ≤ne assim, vemos queMτn ´e um martingal local uniformemente limitado e portanto, pelo corol´ario 2.56, ´e um martingal. Logo, como no caso anterior, Mtτn = 0, P-q.s. para cada t ≥ 0. Fazendo n ↑ ∞, resulta que Mt = 0, P-q.s. para cada t ≥ 0. Como quer´ıamos.
Uma importante consequˆencia do teorema de Fisk ´e o seguinte
Corol´ario 3.7. SejaXum processo estoc´astico. Ent˜ao existe no m´aximo um ´unico (m´odulo indistin-guibilidade) processo cont´ınuo de varia¸c˜ao finitaA tal queA(0) = 0e {Xt−At}t≥0 ´e um martingal
local.
Demonstra¸c˜ao. Suponha que existissemAeBprocessos de varia¸c˜ao finita tais queA(0) =B(0) = 0 e X−A=M eX−B=Ncom MeNmartingais locais. Ent˜ao,B−A=M−N. ComoM−N
´
e martingal local, e B−A´e de varia¸c˜ao finita, temos que B−A ´e um martingal local cont´ınuo de varia¸c˜ao finita e portanto, pelo teorema anterior, B(t)−A(t) = B(0)−A(0) = 0, P-q.s. para cada t≥0 e portantoA e B s˜ao indistingu´ıveis∗.
Defini¸c˜ao 3.8. Sejam X um processo estoc´astico, 0≤a < b eP:a=t0 < t1 < . . . < tn=b uma parti¸c˜ao de [a, b]. Definimos a vari´avel aleat´oriaQ(P,X) por
Q(P,X)(ω) .
=
n
X
j=1
(X(tj, ω)−X(tj−1, ω))2.
De maneira geral, se P: 0 =t0 < t1< . . . < tn< . . .´e uma parti¸c˜ao de [0,∞) com n´umero finito de pontos em cada intervalo finito, definimos o processo Q(P,X) como
Q(P,X)(t, ω) .
=
k(t)
X
j=1
(X(tj, ω)−X(tj−1, ω))2+ (X(t, ω)−X(tk, ω))2 (3.2)
onde k(t) = max{k≥0 :tk≤t}. Se a parti¸c˜ao P cont´em o ponto t, ent˜ao podemos escrever Q(P,X)(t, ω) .
=
n
X
j=1
(X(tj, ω)−X(tj−1, ω))2
onde n ´e tal que tn = t. Em particular, se P ´e uma parti¸c˜ao de [0, t], podemos pensar em P como uma parti¸c˜ao de [0,∞) que cont´em t. Nesse caso, Q(P,X) =Q(P,X)(t).
Lema 3.9. Sejam M um martingal cont´ınuo e uniformemente limitado e P: 0 = t0 < t1 < . . . <
tn < . . . uma parti¸c˜ao de [0,∞) com n´umero finito de pontos em cada intervalo finito. Ent˜ao o processo M2−Q(P,M) ´e um martingal cont´ınuo.
Demonstra¸c˜ao. A continuidade do processo segue imediatamente da continuidade deM. Da limita¸c˜ao uniforme deM, segue que para cadat≥0,Mt2−Q(P,M)t ∈L1. Resta provar que o processo satisfaz
∗ Veja a proposi¸c˜ao2.3na p´agina6.
a equa¸c˜ao de martingal, isto ´e, para 0 ≤s < t, E
Mt2−Q(P,M)t ||Fs
=Ms2−Q(P,M)s ou, equiva-lentemente, E Mt2−Ms2||Fs
=E
Q(P,M)t −Q(P,M)s ||Fs
. De fato, sejam 0≤s < t arbitr´ario e definam= max{k:tk ≤s}e n= max{k:tk≤t}. Temos que m≤n e
Q(P,M)t −Q(P,M)s =−(Ms−Mtm)2+
n
X
j=m+1
Mtj−Mtj−12
+ (Mt−Mtn)2.
O resultado segue desta ´ultima rela¸c˜ao e da proposi¸c˜ao 3.3, pois
E
Q(P,M)t −Q(P,M)s ||Fs
=E
Mt2m−Ms2 +
n
X
j=m+1
Mt2j−Mt2j−1
+ Mt2−Ms2
||Fs
=E Mt2−Mt2n||Fs
.
3.2 Varia¸c˜ao quadr´atica para martingais cont´ınuos uniformemente limitados