5 MARXISMO E CULTURA
5.1 MARX E SUA IDEOLOGIA
Karl Marx foi um teórico alemão, nascido em 1818, que se dedicou ao desenho de teorias e ideais sobre o socialismo. Marx teria combinado conceitos em um sistema, criando o socialismo científico, que se chama hoje de marxismo (MISES, 2016, p. 23). Bobbio (1998, p. 738) define esse sistema como um conjunto de ideias e teorias sobre concepção de mundo, vida social e política produzido por Karl Marx com a colaboração de Friedrich Engels, que se manifesta de diversas formas, com base nas diversas interpretações dos pensamentos de seus autores. Do exposto, infere-se que o marxismo pode ser entendido, sucintamente, como uma versão teórica de organização social amalgamada pelos preceitos utópicos fundamentais do socialismo e do comunismo, produzindo uma visão (diversificada e mutante) de transformação do mundo pela via revolucionária.
Segundo Pipes (2014, p. 22) o marxismo propõe que o capitalismo inexoravelmente produziria o socialismo, pois a tendência do sistema baseado na exploração do trabalho seria o colapso. A doutrina de Marx, contudo, não é de fácil digestão, como observa Pipes. Os escritos reunidos na magnum opus de Karl Marx,
O Capital, contabilizam mais de mil e quatrocentas páginas de uma leitura densa, técnica e difícil. Poucas pessoas concluíram esse desafio. (Ibidem, p. 20).
O plano de dominação global, por sua vez, encontra nas obras de Karl Marx as ferramentas fundamentais para êxito. Em essência, percebe-se que o Manifesto Comunista, uma obra histórica e proeminente de Marx, afirma que a revolução proletária estabeleceria a ditadura socialista e, a fim de permitir a construção dessa ditadura, três objetivos críticos [já citados, mas oportuno repeti-los] deveriam ser alcançados: eliminar o direito à propriedade privada, dissolver a unidade familiar (raiz de toda a desigualdade) e destruir o ópio do povo, a religião. Depois de derrubados os três pilares em todo o mundo, o Estado totalitário desapareceria abrindo espaço para o comunismo, quando governo algum seria necessário. Neste mundo comunista, “tudo seria paz, doçura e luz, e todos viveriam felizes para sempre.” (ALLEN; ABRAHAM, 2017, p. 28 e 29).
Allen e Abraham (2017, p. 126 e 127) afirmam que o controle de preços e salários é o coração do socialismo, pois seria impossível implementar um governo totalitário e escravizar um povo que goza de liberdade econômica. Controlar preços e salários é controlar pessoas. Os autores apresentam uma prospecção simplificada sobre como
se alcançariam os objetivos globalistas. O primeiro passo é a implementação de medidas de controle econômico e social de naturezas diversas, criando nações socialistas para, na sequência, uni-las e submetê-las a um governo mundial. A estrutura globalista se refere a este supraestado mundial como a “Nova Ordem Mundial”.
Este governo mundial sempre foi um objetivo comunista, o que pode ser confirmado pela proposta de Lênin em 1915, de criar os “Estados Unidos do Mundo” e corroborado em 1936 pelo programa da Internacional Comunista, o qual afirmava que uma ditadura mundial só poderia ser alcançada pela vitória do socialismo em diferentes países, fenômeno após o qual as Repúblicas do Proletariado se uniriam e expandiriam, formando finalmente a União Mundial das Repúblicas Socialistas Soviéticas. (ALLEN; ABRAHAM, 2017 p. 127).
No ano de 1960, Elliot Goodman, professor da Brown University, EUA, lançou a obra O Plano Soviético de Estado Mundial. Nas suas mais de 500 páginas, o autor demonstra, com farta referência de fontes primárias, como o Estado Mundial era um explícito objetivo soviético, como se lê nas palavras de Lenin:
O movimento socialista não pode ser vitorioso dentro da velha estrutura de pátria. Ele [o socialismo] cria novas e mais altas formas de vida humana sob as quais as maiores aspirações e tendências progressistas das massas trabalhadoras de todas as nacionalidades serão amplamente satisfeitas numa unidade internacional, enquanto se destroem as atuais barreiras nacionais. [...] Os Estados Unidos do Mundo é a forma estatal de unificação e liberdade das nações que identificamos com o socialismo. (LENIN, 1875, apud GOODMAN, 1965, grifo nosso).
O próprio Josef Stalin, ditador soviético de 1927 a 1953, por ocasião do congresso de sovietes de 1922, disse: “Hoje é um dia de triunfo para a nova Rússia que [...] reuniu em torno de si os povos das Repúblicas Soviéticas, a fim de uni-los num Estado único, a URSS, protótipo da futura República Socialista Soviética Mundial.” (STALIN 1922, apud GOODMAN, 1965, p. 54). Tal aspiração foi ratificada pela Constituição da URSS de 1924, que previa a fusão de todas as Repúblicas Soviéticas num grande Estado Mundial. (Ibidem).
A ideia de Revolução violenta de modelo marxista-leninista, após diversos fracassos em tentativas de execução em grandes nações europeias, mostrou-se penosa e ineficiente, dando lugar à revolução cultural, que veremos mais adiante, na seção Marxismo Cultural. Os passos dessa nova revolução, a cultural, são lentos, progressivos e, na maioria das vezes, mascarados por falsos objetivos, para obter
simpatia popular. As ações acontecem até mesmo com manobras para viabilizar o aumento de impostos, uma forma “legal” de o governo apropriar-se do patrimônio de sua população. Fazendo relação da tributação com o modus operandi socialista, aborda-se o livro Ação Humana, de Mises (2010, p. 909), o qual afirma que toda forma de confisco de propriedade é uma forma de coerção. Uma coerção exercida exclusivamente pelo Estado por meio do emprego de força repressiva.
Muitos economistas além de Mises afirmam que um estado socialista, por sua própria natureza, corroeria os direitos de seus cidadãos, em decorrência do aparelho repressor e coercitivo de controle absoluto sobre os bens. Este é o caso do economista americano Milton Friedman, o qual, em sua obra Capitalismo e Liberdade, de 1962, afirma que no socialismo, a ausência de uma economia de livre mercado levaria inevitavelmente a um regime político autoritário. Em suma, Friedman afirma que a liberdade econômica é uma prerrogativa para se obter a liberdade política.
As impressões de Milton Friedman também são compartilhadas por Friedrich Hayek, laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 1974. Em seu livro denominado O Caminho da Servidão, de 1944, observa-se que, assim como Friedman, Hayek reputava ao capitalismo a pré-condição para a liberdade florescer em um Estado-Nação. A obra de Hayek tem como tese central que todas as formas de coletivismo, como o socialismo bolchevique ou o nacional-socialismo nazista, levam invariavelmente à tirania e à supressão das liberdades individuais, como pôde ser observado em período posterior à sua obra no regime comunista da União Soviética e em outros países controlados por regimes de esquerda.
Hayek fornece uma articulada fundamentação de que as liberdades econômicas e políticas são vinculadas uma a outra. O autor defende, ainda, que um sistema econômico centralizado nunca conseguiria alcançar a bonança financeira prometida, o que faria com que o governo, passo a passo, concentrasse cada vez mais poder para interferir profundamente na economia. Os repetidos fracassos gerariam “culpados” que só poderiam ser derrotados com mais intervenção e mais poder estatal. Deste modo se desenharia perfeitamente o círculo vicioso que conduz os países fatalmente ao totalitarismo.
É interessante fazer um breve paralelo com o regime chavista na Venezuela, sob as rédeas de Nicolás Maduro, que atravessa exatamente o cenário previsto por Hayek. Como prova da situação, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetou no World Economic Outlook (Panorama Econômico Mundial) de abril de 2019, dados
dramáticos para a economia venezuelana, com inflação de 10.000.000% (dez milhões porcento), desemprego na casa de 44% (quarenta e quatro porcento) e retração do PIB de 25% (vinte e cinco porcento) no ano corrente (2019).
Outro ponto comum entre Hayek e Mises é o fato de ambos terem comprovado tecnicamente que é impossível efetuar cálculos econômicos no sistema socialista, visto que a abolição da propriedade privada dos meios de produção geraria uma economia sem sistema de preço. Já no ano de 1922, Mises apresentou a sua tese por meio do livro Socialismo: uma análise econômica e sociológica. A obra demonstrou e comprovou que o socialismo é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico.
Esta simbiose entre controle econômico e repressão política e social também foi abordada pelo diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras, José Guilherme Merquior, um grande crítico do marxismo. Dentre as suas principais obras, destaca-se O Marxismo Ocidental, de 1986. Essa obra, premiada internacionalmente, foi eleita o livro do ano pelo Financial Times e foi considerada como uma publicação devastadora do comunismo cultural, vindo a receber elogios de diversos críticos nacionais e internacionais. (É REALIZAÇÕES, 2019). Merquior nos apresenta os pensadores e pensamentos de esquerda que não estavam institucionalmente envolvidos com o regime soviético e optaram por desistir dos princípios econômicos marxistas e se concentrar em temas culturais, como fizeram a Escola de Frankfurt e Antonio Gramsci.
De acordo com o diplomata, o socialismo marxista, e muito especialmente o praticado pelos regimes comunistas, sempre refletiu esse menosprezo pelos direitos civis. Merquior apresenta sua ideia sobre liberdade civil e socialismo de modo claro:
Em Lenin, a indiferença de Marx para com a liberdade civil torna-se verdadeira hostilidade aos direitos civis e políticos. Hoje, ninguém mais duvida de que nos regimes comunistas, ninguém consegue, ou tenta, tornar compatíveis socialismo e democracia. (MERQUIOR, 1987).
Ainda dentro do estudo do marxismo, em artigo denominado Socialismo e Liberalismo, de 1987, Merquior afirma que o socialismo, em suas origens ideológicas e intelectuais, era uma teoria econômica, e não política. Foi com Marx que a teoria se politizou e potencializou a sua veia revolucionária. Sobre Marx, Merquior afirma que o alemão e sua doutrina nunca valorizaram os direitos civis e chegavam mesmo a condená-los. Para o diplomata, o marxismo tem o comportamento de uma seita e
sempre refletiu o total menosprezo aos direitos de expressão e ao livre pensar. (MERQUIOR, 1987).
O comportamento anti-humano, intolerante e opressivo do marxismo e de seus seguidores pode ser observado com nitidez e sintetizado nas palavras de Mauro Iasi, integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Palestrando no 2° Congresso Nacional da Central Sindical e Popular (CSP) no ano de 2015, Iasi abordava o avanço do conservadorismo no Brasil, quando recitou de forma adaptada o poema Perguntas a um homem bom, de Bertolt Brecht, para expressar suas ideias sobre o diálogo com pessoas “de direita”:
É assim que nós enfrentaremos os conservadores. E como será o nosso diálogo? [...] alguém tentava argumentar com os trabalhadores que tinha ideias de direita mas era uma pessoa boa [...] Nós sabemos que você é nosso inimigo, mas considerando que você, como afirma, é uma boa pessoa, nós estamos dispostos a oferecer a você o seguinte: um bom paredão, onde vamos colocá-lo na frente de uma boa espingarda, com uma boa bala, e vamos oferecer depois uma boa pá e uma boa cova. Com a direita e o conservadorismo, nenhum diálogo: luta! (PENSADOR DIGITAL, 2015, grifo nosso).
O terror como ferramenta comunista foi perturbadoramente assumido pelo guerrilheiro revolucionário Ernesto Guevara, ou Che Guevara, que transformou Cuba num país socialista ao lado de Fidel Castro em 1959. Em discurso realizado na Assembleia Geral das Nações Unidas em 1964, o assassino afirma ao microfone: “Nosotros tenemos que decir aquí lo que es una verdad conocida y la hemos expresado siempre ante el mundo: fusilamientos, sí, hemos fusilado; fusilamos y seguiremos fusilando mientras sea necesario. ¡Nuestra lucha es una lucha a muerte!”.
(AZEVEDO, 2013).
De fato, um exame atento das obras de Karl Marx já seria o suficiente para perceber que todo o terror e misérias dos regimes comunistas são consequências incontornáveis da própria lógica interna da teoria marxista. Marx, Engels, Lenin e Mao, “em pessoa reconheceram isso inúmeras vezes, enaltecendo o genocídio e a tirania como parteiros da história”. (CARVALHO, 2018, p. 121 e 319). Como disse Christopher Buskirk, no Seminário Globalismo, todos os regimes tiranos retiraram autoridade da igreja e da família, concentrando sobre o Estado o poder absoluto sobre os indivíduos. Os entes do trinômio Estado-Igreja-Família não podem usurpar as autoridades uns dos outros, ao contrário, devem se apoiar mutuamente para promover o bem-estar do povo. (BRASIL, 2019b).