Parte Dois - Cinema, Sistema e Redes
3. CINEMA, SISTEMA E COMPLEXIDADE
4.2 POTENCIAIS EMERGENTES 2: CRIAÇÃO BASEADA EM BANCOS DE DADOS CULTURAIS DIGITALIZADOS
4.2.1 Mas Afinal, Como Reconhecer a Criatividade?
A própria criatividade – não somente a artística, mas também a científica - é um conceito complicado e misterioso tanto filosoficamente quanto epistemologicamente.
A criatividade não é um mero espasmo neural que possa ser medido num eletroencefalograma, como quem mede reflexos autonômicos aplicando o martelo no nervo do joelho. Assim, ao abordar a dificuldade que temos de falar de criatividade em
softwares quando a nossa própria criatividade é tão elusiva a nós mesmos.
Para os estudiosos da semiótica peirciana, a criatividade está ligada a possibilidade de saltos lógicos e cognitivos que não se explicam apenas pela mera apresentação de informações coligadas. Peirce coloca que o processo da Abdução é criativo por que é a única forma com que uma nova ideia por surgir no mundo. Ela é uma predição/hipótese que pode ser testada pela indução e relacionada com a dedução em processo contínuo e contíguo. O processo de abdução possui uma lógica própria, interna, que só depois é colocada de maneira clara através da dedução e da indução.
(BRIOSCHI, 2014). Assim a abdução deveria ser compreendida não apenas como uma forma de experimentação estética ou demarcação científica, mas como algo próprio ao pensamento do dia-a-dia: A ideia que surge aparentemente do nada, mas que na verdade advém da experiência do contato com os fenômenos do mundo.
Existe também a pergunta sobre a natureza da própria criatividade na sua origem. Cecília Salles (2008) fala sobre os Loci de criatividade, expandindo o conceito proposto por Vincent Colapietro (2003). Para ela o Locus, o ponto focal da criatividade não é único, mas uma rede. Ele é constituído pelos engajamentos, dificuldades e conflitos, e é situado espacial, temporalmente e historicamente, e possivelmente em outros aspectos. (SALLES, 2008, p. 160). De maneira interessante, a autora coloca que consciência, engenhosidade e criatividade e outra características consideradas
“criativas” são sempre funções interligadas aos ambientes, redes e culturas que o(s) criador(es) estavam envolvidos naquele momento: a criação é um processo imerso e enredado em redes.
Para Margaret Boden (2014), pesquisadora do campo das ciências cognitivas e da Inteligência Artificial, o conceito de criatividade é escorregadio, já que a palavra é cheia de significados contraditórios. Para tentar resolver esse conundrum, ela define que a uma ideia criativa pode ser reconhecida como sendo nova, surpreendente e/ou valiosa, gerando para cada caso subclassificações da criatividade. Boden propõe três tipos de estrada da criatividade: (i) a criatividade combinatória, que envolve justaposições não- comuns de ideias familiares; (ii) ela também pode ser no qual um primeiro encontro com um fenômeno possível gera uma reorganização exploratória do pensamento para definições mais atualizadas de mundo e (iii) o terceiro tipo é a criatividade chamada transformacional, quando não encaixa nos outros dois modos, mas ainda assim o fenômeno é visto como impossível de aceitar. Segundo Boden, isso permite que
“estruturas fundamentalmente novas sejam geradas as quais eram impossíveis nas
condições anteriores.”(Boden, 2014, Pág 231). Ao explorar essas definições, a autora coloca que a criatividade tem definições problemáticas e frequentemente contraditórias, já que muitas podem ser argumentadas como não existentes nem mesmo em todos os cresce assombrosamente, mas a velocidade de aumento de processamento das máquinas aumenta de acordo com a lei de Moore: um aumento de 100% a cada dezoito meses aproximadamente. Uma das bases da singularidade, propõe Kurzweil, é que a diferença não é de processamento somente, mas também do próprio “software mental.”
Uma expectativa para a singularidade é que os meios não biológicos sejam capazes de simular a riqueza sutileza do pensamento humano. Ao atingir a capacidade de processamento de um único cérebro humano, ou mesmo a inteligência combinada de vilas ou nações inteiras – não vão por sí sí gerar níveis humanos de capacidade. ( e para falar de níveis humanos me refiro todas as formas como os seres humanos são inteligentes, incluindo aí capacidade musical e artística e a capacidade de se mover pelo mundo e responder a emoções). A capacidade de hardware é necessária mas entender a organização e conteúdo desses recursos – o software da inteligência é ainda mais crítico. (KURZWEIL 2006, p. 126).
É interessante que essa diferença exista porque os recentes avanços de modelização de inteligências artificiais têm oferecido interessantes insights justamente como o “software biológico” opera. Ao se pensar em inteligências artificiais, existem gerados pelo software. Caso ocorram similaridades, estes padrões são incluídos e a
máquina gera uma nova recombinação, aumentando a “eficiência” do software em cada geração – que devido à velocidade de processamento, se sucedem com relativa rapidez.
Este modelo de algoritmos genéticos são particularmente interessantes para trabalhar com textos, já que as línguas são também padrões reconhecíveis que podem ser usados para trabalhar mensagens. As possibilidades destes bancos de dados e algoritmos para a criação de narrativas Cinematográficas é que são o nosso objeto de interesse nesse escrito.
Ao pensar os conceitos de criatividade de Margaret Boden, podemos observar que os sistemas de computador ajudam a combater certos mitos da criação do lado humano: muitos atos criativos feitos por pessoas - em particular na roteirização para Cinema, acontecem como processos combinatórios e emergentes, seja entre simples combinações de ideias, como conceitos similares aparecendo em vários ambientes aparentemente não conectados, como acontece no conceito de Coevolução que citamos em outro capítulo. O caso específico do trabalho criativo não existe no vácuo, nem tampouco seus criadores retiram suas obras do puro éter, como já afirmamos antes.
Um artista não é sob esse ponto de vista, um ser isolado, mas alguém inserido e afetado pelo seu tempo e seus contemporâneos.” O tempo e o espaço do objeto em criação são únicos e singulares , porém se alimentam do tempo e espaço que envolve sua produção (SALLES, 2011, p. 58).
Portanto, registros do processo de criação indicam muitas vezes um caminho tortuoso de combinações e interações entre pessoas, artefatos, ferramentas e ideias disponíveis. Mas a possibilidade junção entre estas pessoas e ideais é que parece ser um dos pontos mais cruciais, ajudando a dispersar o conceito da produtividade criativa solitário e genial. Aliás, segundo Steven Johnson (2010), é incrível que o mito do gênio solitário tenha se propagado por tempo, já que a invenção simultânea é historicamente a norma e não a exceção: as inovações vêm dos ambientes que favorecem a combinação e circulação de informações, uma descrição que bate tanto com o cenário atual de redes informacionais contemporânea como com o ambiente onde o Cinema surgiu no fim do século XIX.
Mas podemos argumentar que, se o ato da criação é algo da mente humana, a codificação da expressão é representável por algoritmos e metodologias de análise. Os estudos da área de semiótica de Peirce e Saussure propuseram que os significados podem ser vistos através de combinações sintagmáticas a partir de signos mais simples.
De acordo com Manovich (2000), um cenário similar ocorre quando pensamos no atual cenário de trocas culturais como um banco de dados gigante. Como a cultura contemporânea é centrada no digital, ao menos no nível do arquivo, a informação pode ser remontada e remodelada com certa facilidade. Este quadro acaba por gerar uma
“Cultura de Photoshop” onde a criação se mescla com a recombinação e a bricolagem:
criação se confunde com a recombinação, e se essas recombinações podem ser consideradas criativas em nível humano, elas também são capazes de serem feitas através de outras vias por agentes informáticos autônomos: as Inteligências artificiais. O requisito é um bom código, e acima de tudo, um banco de dados vasto.