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1.2 CINEMA ENQUANTO DISPOSITIVO

1.2.1 Uma Breve Arqueologia dos Dispositivos do Cinema

Olhando para a sua criação no fim do século XIX e início do século XX, observamos um cenário de efervescência tecnológica e comunicacional que podemos relacionar ao cenário atual de uso de mídia, dadas as devidas proporções. É visto como sendo um período de reviravoltas, e citado por vários estudiosos como o fim do período Moderno. É um período onde vários comportamentos contemporâneos emergem, e onde várias formas sociais, culturais e tecnológicas acabam sendo institucionalizadas de maneiras diferentes do que ocorreu antes na história do mundo.

Museus como o Louvre ou o British Museum já possuem a forma contemporânea e estrutura de visitação aberta ao público em geral durante o século

XIX. Os museus se tornam uma ferramenta de conhecimento e espectatorialidade, em oposição aos séculos anteriores, onde ambos eram restritos a alta sociedade e a realeza5. Mas estes museus também proporcionavam um gostinho do que era ver coisas de lugares distantes ou de tempos passados: ofereciam, também, um senso de presença, de imediação à história antiga, com coleções e animais de outros lugares e outras temporalidades. Os museus ofertavam o antigo e o distante aos olhos, um reconhecimento que corta o espaço e, sobretudo, o tempo; formas de ver eras e lugares longínquos que podem inclusive não mais existir. Também existe a questão da propagação de informações através da distância. O século XIX nos deu a popularização do telégrafo como ferramenta de comunicação. De acordo com Friedich Kitter em seu artigo A história dos meios de comunicação (2000, p. 97), “o telégrafo e a telefonia, depois dele, foram responsáveis pela desmaterialização, a transformação de informação antes armazenada de forma sólida e estável (em livros, jornais etc) num“fluxo imaterial de ondas eletromagnéticas.”6

5 http://www.louvre.fr/en/histoirelouvres/history-louvre/periode-5#tabs

6 In: Leão, 2000, pag 99

Esse processo de conversão permitiu não somente um real conceito de

“Nós agora estamos infinitamente mais familiarizados do que nossos antepassados com a ideia das limitadas dimensões da Terra, uma bola perfeita, com oito mil milhas de eixo". Havia também dimensões psicológicas: "uma utilização conhecida da viagem consiste na autoconfiança e na criatividade geral que ela desenvolve", embora o fascínio por lugares estrangeiros pudesse ser partilhado a distância. Guias de viagem e romances sobre países estrangeiros tinham grande circulação — antes e depois dos melhoramentos físicos dos transportes. (BRIGGS e BURKE, 1997, p. 127).

A progressiva mudança das populações europeias do campo para a cidade também foi parte deste cenário. Eram nas cidades que se encontravam estes trabalhos e serviços, um processo que só chegou a sua culminância no fim do século XX e início do século XXI. Diferente do trabalho de agricultura, o trabalho nas cidades era independe das relações com estações, clima e demais. A vida nas futuras-metrópoles possui sua própria repetição, seus próprios ciclos, e acaba por gerar outros rituais, bem diferentes dos da vida campestre. É o que nos explica Clay Shirky em seu livro Cognitive Surplus (2011).

A industrialização não apenas criou novas formas de pensar, ela criou novas formas de viver, porque a realocação da população destruiu hábitos comuns à vida no campo, ao mesmo tempo juntando tantas pessoas que a nova densidade da população também acabou por quebrar os modelos urbanos anteriores também. (SHIRKY, 2011, p.

33).

Mas os modelos urbanos não foram as únicas coisas que quebraram com o fim do século XIX. A industrialização também aperfeiçoou os maquinários dos meios de produção e as técnicas da indústria de serviços, permitindo uma geração de bens de consumo maior do que em séculos anteriores. Como a produção industrial ganhou uma importância que terminaria por eclipsar a produção de alimentos, também houve um aumento da articulação dos movimentos sindicais e a organização dos direitos dos trabalhadores, como apontado no levantamento Recreation And Leisure In Modern Society, de Daniel Mclean e Amy Hurd (2014).

A semana de trabalho média caiu de 69.7 horas por trabalhador em todas as indústrias (incluindo agricultura) em 1860 para 61.7 horas em 1890, e depois para 54.9 horas em 1910. Como consequência, durante a última metade do século XIX, preocupações sobre o aumento do tempo livre começaram a aparecer - incluindo medos sobre os perigos de certas formas de diversão e a questão mais ampla sobre o potencial papel do lazer no século que viria. (HURD e MCLEAN, 2014, p. 66).

Todos estes elementos contribuíram para estabilização de um recurso que até então era mais restrito na vida do cidadão da época: o tempo livre. Pela primeira vez era mais fácil para os residentes das cidades aproveitarem o tempo livre para atividades de lazer. Certamente a classe instruída e mais rica teve mais acesso do que as classes pobres, e isso também pode ser fator no que se concerne a disponibilidade de tempo, mas dificilmente se poderia dizer que o tempo livre era exclusividade dos mais abastados.7

O cidadão do século XIX se ocupava com vários tipos de atividades de lazer.

Circos, exibições de invenções, festivais e feiras, cafés bares e pubs, e o simples ato de andar pela cidade e ver coisas, permitindo a existência dos flaneurs. Também aumentou, portanto, o tempo disponível para experimentos e invenções de todos os tipos, que emergiram neste mesmo período.

7 Esta é outra característica que traremos á tona novamente em capítulos posteriores como uma base necessária para a emergência de potências de criação colaborativa no Cinema da era digital.