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Materiais e sustentabilidade

Nota introdutória

2.2. Protagonismo local e global

2.3.3. Materiais e sustentabilidade

A criação de significados pelo material é bastante evidente em tentativas de associar o material a sustentabilidade dos produtos. Isso faz sentido, num mundo com recursos cada vez mais limitados. Segundo Fuad-Luke (2009) há uma parcela significativa de pessoas que buscam produtos ambientais. Dessa forma, algumas estratégias de design e de comunicação têm sido direcionadas para a comunicação desta qualidade.

Da mesma forma que é importante comunicar que o produto se enquadra numa lógica de consumo consciente, é também necessário que o produto seja de fato sustentável. O material e o processo produtivo interferem fortemente neste objetivo.

Conforme Hasling (2016) o desenvolvimento sustentável ou mais especificamente um design sustentável é inevitável e importante ao design, tanto que a maioria dos programas de ensino tem ou introduz cursos sobre o tema. Segundo a autora, este passo é importante, mas é preciso relacioná-lo aos tópicos “tradicionais” do currículo, como o caso dos materiais.

Nesta investigação, entende-se por sustentabilidade a abordagem do Triple Bottom Line, originalmente concebida por John Elkington em 1994 (Savitz, 2004), que envolve a base económica tradicional em conjunto com a sociedade e o meio ambiente (People, Planet, Profit). Ao examinar a tríade da sustentabilidade proposta por Elkington - proteção ambiental, equilíbrio social e crescimento da economia - abrem-se muitas possibilidades de inferência para os designers no campo da seleção de materiais, embora seja uma tarefa complexa.

Aspectos ambientais

Sobre os aspectos ambientais dos materiais, Ljumberg (2005) explica que os problemas mais críticos são divididos em quatro grupos:

• Excesso de consumo. É gasto um volume imenso de material para produzir energia, embalagem e os próprios produtos. Além disso, mais e mais componentes são misturados aos materiais que demandam transporte e mais gastos energéticos.

• Utilização dos recursos. Há um desperdício de recursos porque pouco do material e da energia requeridos para a produção são usados efetivamente no produto. A maior parte da energia é perdida durante a produção e transporte que inclui desperdício de material e emissões, especialmente para os produtos não reciclados.

• Poluição. É um problema grave da produção industrial e mesmo que todas as companhias reduzissem a zero as emissões neste momento, a terra ainda seria afetada pelos efeitos das emissões por muitos anos.

• Excesso de população. A população mundial ultrapassará dez bilhões de habitantes em 2025. Se há excesso de consumo com a população atual, com a população maior a situação fica ainda pior.

Schumacher (1983) explica que em países menos desenvolvidos esses problemas são agravados porque os sistemas produtivos são provenientes da transferência de tecnologias dos países mais desenvolvidos de forma que a escolha das tecnologias não são pensadas de acordo com as necessidades locais. O autor sugere que o maior recurso para diminuir os problemas ambientais é a educação.

McDonough e Braungart (2014) explicam que os sistemas de produção atuais estão a esgotar os recursos, a intoxicar as pessoas e a contaminar os ecossistemas naturais e urbanos o que se reflete numa crise iminente e necessita de uma alternativa porque está a destruir as bases de sobrevivência. Os autores destacam que os materiais têm períodos de uso mais longos do que as pessoas imaginam e, então, desenvolveram um sistema produtivo no qual se elimina a ideia de lixo e os produtos são criados de forma inteligente desde o início. Nesta concepção, chamada de cradle-to-cradle (do berço ao berço) os materiais biodegradáveis devem voltar de forma segura ao meio-ambiente e os materiais não renováveis devem ser aproveitados continuamente.

Fuad-Luke (2009) relaciona algumas iniciativas no advento dos processos industriais que corroboravam a preocupação ambiental: A oposição do movimento Arts and Crafts (entre 1850 e 1910), entre outras questões, à degradação ambiental provocada pelas práticas industriais; e o discurso modernista (entre 1920 e 1930) que defendia a forma definida pela função de maneira que todo produto fosse executado seguindo um racionalismo construtivo que prezava a qualidade, sem excessos de processos ou de material.

No caso dos materiais locais, a aplicação contribui com a diminuição de gastos energéticos e emissões com transportes de materiais de um local para outro. E, segundo McDonough e Braungart (2014) evita o problema de bio invasão, quando há transferência de materiais de uma região para outra, que introduz espécies invasoras

Aspectos sociais

Sobre os aspectos sociais, Manzini e Vezzoli (2008) explicam que a dimensão social deve contribuir com o bem-estar das pessoas. Nesta dimensão, o designer tem que lidar com formas de erradicar a pobreza, melhorar as condições de trabalho, superar desigualdades, incluir minorias e lidar com a diversidade cultural.

O cultivo, a coleta e a transformação do material local podem ser realizados com o envolvimento da comunidade tendo estes objetivos. Podem ser explorados neste contexto, além do próprio recurso já disponível, o know-how acerca das técnicas construtivas, as habilidades e competências artísticas e culturais desenvolvidas ao longo da história. Quando for o caso podem ser realizadas ações de capacitação e projetos inclusivos direcionados às minorias.

Schumacher (1983) aborda uma lista de questões que podem ser trabalhadas em países menos desenvolvidos para que a equidade social seja alcançada: desenvolvimento regional rural porque assim combate-se a urbanização em excesso e a proliferação de favelas; a criação de pequenas e médias empresas para reverter a desumanização do trabalhador; e a criação de empresas locais, não só em regiões metropolitanas para que as pessoas não precisem se mudar.

Aspectos económicos

Sobre os aspectos económicos, segundo McDonough e Braungart (2014) o uso de materiais locais torna os empreendimentos locais mais rentáveis. Nestes casos, os lucros gerados com o emprego dos materiais e os sistemas produtivos locais permanecem no território de origem e não ficam concentrados no poder de grandes corporações. Além disso, os lucros aumentam porque os bens são construídos sem depender de recursos que aumentam de preço pelo frete ou taxas de importação.

Segundo Schumacher (1983) existem quatro condições essenciais para haver desenvolvimento económico: (1) haver motivação; (2) haver algum know-how; (3) existir algum capital; (4) haver alguma saída (produção adicional requer mercados adicionais).

Nestes critérios, os materiais e as técnicas construtivas locais podem ser vistos como uma alternativa. Keil e Kistmann (2016) falam que o senso de pertença é uma condição humana favorável para o bem estar social. Não possuir este senso desmotiva as pessoas e as faz descrer e desvalorizar seus territórios de origem. Portanto, o senso de pertença é uma condição a ser trabalhada enquanto motivação.

O saber-fazer, as tradições, as técnicas artesanais e as técnicas ancestrais fazem parte do repertório construtivo de uma comunidade local. Embora, seja possível que de uma forma ou de outra a comunidade tenha tido contato com este know how, ações de capacitação são importantes para garantir a qualidade do resultado e o envolvimento humano com a atividade. Os empreendedores que possuem algum capital devem olhar para os recursos locais para aplicar seus investimentos tendo em vista as possibilidades de desenvolvimento sustentável. Devem ser planeadas formas de escoamento da produção que sejam mais vantajosas para o território, considerando a sustentabilidade: turismo, comércio local, mercado externo.