CAPÍTULO 2. MATERIALIDADE DO ESTADO, SELETIVIDADE
2.4. MATERIALIDADE DO ESTADO E SELETIVIDADE ESTRATÉGICA
A materialidade do estado é fundamentalmente uma relação social a partir da qual se objetivam institucionalmente interesses que se confrontam. Nessa perspectiva, a materialidade é produto da interação de agentes sociais oriundos de estratos de classe assim como de agentes públicos que confrontam seus interesses para fazer prevalecer objetivos e implementar ações sob restrições, limites e condições da instititucionalidade, a partir dos quais deverão empreender a movimentação de recursos privados em nome de realizações
públicas para a sociedade. Neste contexto relacional, constroem entendimentos para enfrentar os constrangimentos e lograr a consecução dos objetivos pretendidos, validando simbioticamente, dimensões 'política' do Estado, em relação aos interesses quanto ao que deve prevalecer para reprodução da existência, bem como de natureza 'econômica', no que diz respeito propriamente às consequências materiais que se sedimentam como resultante desse embate.
Socialmente, a construção desta materialidade ocorre na esfera pública, onde os representantes de interesses de classe se apresentam reificados em estamentos portadores de objetivos próprios, categorizados genericamente enquanto governos, administração pública e
sociedade, em razão de das responsabilidades e prerrogativas distintas que detêm no Estado
Democrático de Direito. A Administração Pública reúne o conjunto de membros da
Sociedade que trabalham na gestão do aparelho institucional do Estado, segundo regulações
legais e determinações do Governo, formando o corpo de gestores responsáveis pelo funcionamento das instituições e a viabilização executiva das ações governamentais, o qual se organiza departamentalmente conforme os domínios teleológicos constitucionais e suas respectivas capacidades estatais. O Governo forma o corpo de dirigentes, que exercem a coordenação da Administração Pública e de seu aparelho institucional correspondente por períodos determinados, para conduzir a definição dos modos e sentidos da movimentação social do excedente, constituídos historicamente como representantes legítimos de interesses de classe, via-de-regra, por sufrágio universal.
Tanto Governo e Administração Pública assumem modos e sentidos práticos específicos segundo campos de interesse distintos, especializados para produção de valores de uso considerados socialmente necessários (Executivo), geração de regulações sociais (Legislativo) e verificação do cumprimento dos modos e sentidos estabelecidos socialmente (Judiciário), cada um deles constituído e regulado de forma distinta. Deste modo, temos Governos e
Administrações Públicas conforme o campo de interesse no qual se instalam (Governo
Legislativo, Administração Legislativa etc). Além disto, ambos se desdobram e se organizam em departamentos setoriais, de acordo com a condensação material que historicamente se processou (dirigentes da educação, gestores da educação etc). Por sua vez, as fronteiras entre ambos os agrupamentos de interesse do que seja Governo e Administração Pública, os limites entre dirigentes e gestores, são definidos historicamente conforme os princípios que regem cada sistema e regime político vigente em cada estado-nacional, decantados, em grande parte, pelo Direito Adminsitrativo. Também a Sociedade se articula em campos de interesse
distintos tais como o sindical, partidário, religioso, ecológico, dentre diversos outros, orientados por direitos de cidadania ou mesmo estritamente de classe, constituindo grupos de interesse correlatos.
Em relação à dinâmica de construção da materialidade do estado, cabe, inicialmente, ao Governo Executivo a formulação da proposta de ações governamentais que irá compor o projeto de lei orçamentária, tendo como referência a estabilidade de determinado projeto hegemônico, que seus integrantes representam, e baseado no diagnóstico das possibilidades de movimentação de renda a partir do Estado do ponto de vista legal, financeiro e executivo formulado pela Administração Pública Executiva. Este processo demanda que o Governo processe internamente os diversos interesses corporativos distribuídos pelas vários
departamentos da Administração. Por sua vez, a Sociedade postula diversos interesses, que
seus representantes integrantes do Governo Legislativo irão processar durante a apreciação e aprovação da lei orçamentária, subsidiado pelas validações legais e processuais da
Administração Pública Legislativa. Na sequência, a Administração Pública Executiva será a
responsável pela operacionalização da execução das ações governamentais nos termos do programa de trabalho e das autorizações aprovadas. Durante todo o processo, principalmente o Governo Executivo e sua Administração Pública estarão sujeitos a controles do Estado, seja de seu próprio departamento interno de controle ou do Legislativo ou mesmo do Judiciário, que os obrigarão ao atendimento de exigências cartoriais diversas assim como prestações de contas ex ante e ex post como condição para realização e validação de seus procedimentos e resultados.
Esta rede de interações produz diversos circuitos negociais, estruturados em torno de regulações específicas, que promovem a decantação de determinados interesses em detrimento de outros, prestando-se, assim, à seleção dos sentido e modo que a materialidade do estado irá assumir. De fato, o desenvolvimento de toda formação social ocorre segundo um processo histórico de racionalização41 para além dos valores do mundo-da-vida que irá resultar em sua individuação, expressa justamente em formalizações estruturais sistêmicas de normas e instituições, que irão constranger a conduta dos agentes sociais. Esta seletividade do estado se manifesta em várias dimensões da convivência social42, enquanto "um sistema de filtros, um anteposto ao outro, cujo resultado, ou seja, atos soberanos concretos e processos políticos, é determinado pelas operações cumulativas de seleção deste sistema" (Offe, 1978:151).
No caso da materialidade do estado, podemos dizer que a seletividade se manifesta por meio das condições estabelecidas a partir do arranjo orçamentário para a apropriação e alocação do excedente ao longo do circuito capital-dinheiro, considerando as diversas dimensões negociais em que são formalizadas segundo os termos do direito constitucional, direito administrativo e direito financeiro, assim como de acordo com a própria dinâmica das
capacidades estatais instituídas. Os interesses se distribuem pelos diversos ‘circuitos’ em que
se processa a movimentação do excedente promovida a partir do Estado: desde a apropriação propriamente do excedente = tributação; no momento do seu redirecionamento e redistribuição = orçamento, no momento da confirmação da efetivação do redirecionamento e redistribuição pretendidos = financeiro; quando da efetiva avaliação da movimentação =
controle; quando da gestão das disponibilidiades do excedente = monetário, e na ocasião do
redirecionamento do excedente para atividades mercantis estatais = produção estatal. Em cada um desses circuitos são processados individualizadamente aspectos particulares da condensação material como forma de contributividade, procedimentos alocativos, critérios para prestação de contas etc, que se articulam e se integram, elegendo aspectos de institucionalidade que irão configurar, ao final, a materialidade estatal. Antes de explorarmos como estes circuitos negociais promovem esta seleção de interesses e afetam a condensação material, analisamos a seguir os fundamentos da seletividade do estado.