3.3 A PARÁBOLA DO PATRONO QUE PERDOA DÍVIDAS (MT 18.21-35)
3.3.1 Mateus 18 e o Valor dos Pequeninos: Tema e Contexto Literário
Dessa vez julgamos necessário começar nossa análise de outro modo; vamos tratar, antes de mais nada, do contexto literário que parece ter sido cuidadosamente desenvolvido e que emoldura a nossa perícope no capítulo 18 do evangelho.76 Falando de outro modo, vamos
76 Uwe Wegner usa contexto menor ou contexto imediato para se referir a algo próximo ao que nós aqui
empreender uma breve análise da redação mateana para entender como se relacionam as diferentes unidades textuais que unidas formam o capítulo 18. Para começar, fiquemos cientes de que o capítulo conta com um elemento que lhe dá unidade, que é a sua temática, ideologicamente marcada por uma posição favorável aos “pequeninos”. Na opinião de estudiosos como J. Andrew Overman (1999, p. 187) e Gustavo Gutiérrez (1997, p. 77) esse capítulo concentra instruções sobre a ordem e a disciplina na comunidade de discípulos de Jesus, grupo social que eles imaginavam existir por trás do texto. Para eles todo o capítulo 18 estaria voltado para as relações sociais no interior de uma protoigreja cristã e procurava regular essas relações segundo os padrões condizentes com suas utopias religiosas de caráter igualitário. Através de uma breve leitura das unidades literárias que compõem o capítulo poderemos averiguar a plausibilidade dessas interpretações.
O capítulo começa com a discussão sobre quem é o maior no Reino dos Céus (v. 1-5), questão que Jesus responde com gestos e palavras, usando uma criança como exemplo. Ele diz: “Pois aquele que se diminuir como esta criança, este é o maior no reino dos céus” (v. 4). Essas palavras lidam com aquelas inversões de valores que desfamiliarizam o leitor para depois construir o utópico Reino dos Céus sob novos paradigmas. O personagem “criança” é usado no texto não como símbolo de pureza e inocência (como poderia supor facilmente um leitor moderno a partir de seus próprios modelos socioculturais), mas como exemplo de sujeito socialmente inferior. Os romanos até faziam na linguagem cotidiana comparações entre seus escravos e as crianças, o que evidencia quão desvalorizada socialmente era a classe infantil em geral; eles consideravam os escravos “crianças grandes” e não verdadeiros homens (Veyne, 2009, p. 63). O apelo do discurso mateano é, portanto, para que os que anseiam por boas posições no Reino dos Céus abram mão de suas possíveis posições e privilégios se fazendo pequenos, dependentes, sem direitos ou prestígios, como uma criança qualquer daquele mundo em que viviam. Na sequência (v. 6-11) o evangelho emenda pequenas unidades textuais para falar mais diretamente sobre os “pequeninos”. Ser como uma criança é ser um pequenino em Mateus, e no texto os tais são construídos como seres frágeis, que carecem dos cuidados alheios e que por isso se tornam prioridades do grupo. Numa leitura sociológica, diríamos que o discurso nasce num contexto em que pessoas fragilizadas precisam ser assistidas pelas demais, e tais palavras funcionam como um incentivo àqueles que podem auxiliar. Há também ameaças contra aqueles que fazem os pequeninos tropeçar, o
imediatamente anterior e posterior ao texto [...] em se tratando de textos narrativos, o contexto imediato é constituído pelas histórias diretamente precedentes e posteriores ao texto” (1998, p. 138).
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que dá tons fúnebres ao texto neste ponto e acrescenta um novo modo de argumentação aos imperativos assistencialistas de antes.
A partir do versículo 12 temos a chamada “Parábola da ovelha desgarrada”, em que um homem deixa noventa e nove ovelhas por conta própria e sai em busca de uma única que se perdeu. O objetivo é obviamente afirmar à audiência que Deus dá grande valor àqueles pequeninos que estão se perdendo, se “desgarrando” do grupo. Mateus 18.15-17 dá sequência ao tema da valorização dos pequeninos e considera o caso de um irmão que pecou contra outro e merece alguma repreensão. No texto, mesmo esse irmão sendo um pecador, ele ainda é tratado como parte do grupo e é chamado ao arrependimento de todas as formas possíveis; primeiro individualmente (v. 15), depois por meio dos argumentos de dois ou três “testemunhadores” (v. 16), e por fim através do convite de toda a comunidade (v. 17a). Mas a narrativa vai além e coloca ao leitor a hipótese de que o tal pecador, nem assim, queira mudar de conduta, ficando mesmo impossibilitado de fazer parte daquele grupo que quer seguir normas bem estabelecidas. O exemplo é extremo, no entanto, se tal coisa sucedesse, o leitor deveria saber que o pecador não arrependido não deveria ser afastado e esquecido, antes, o que o texto diz é: “seja para vós como gentio e publicano”77 (v. 17b). Sem dúvida, essa frase deu margem a interpretações equivocadas que legitimaram exclusões e excomunhões nas igrejas cristãs de todas as gerações, porém, seu sentido no evangelho não é excludente. Lemos diversos outros textos em Mateus em que podemos ver como ali Jesus trata bondosamente tanto gentios78 como publicanos79, e descobrimos que a maneira sugerida para lidar com o
77 Texto grego: e;stw soi w[sper o` evqniko.j kai. o` telw,nhj.
78 Encontramos o adjetivo grego evqniko,j (gentio) e suas variações apenas aqui em Mateus 18.17 e em 5.47
e 6.7. Nessas duas últimas o evangelho descreve comportamentos comuns dos gentios, não somente para acusá- los, mas principalmente para exibir um padrão de comportamento que deve ser superado pelos discípulos de Jesus. Como notou Gerd Theissen, no evangelho de Mateus há também referências positivas aos gentios, como quando eles são citados como exemplos que envergonham os judeus em Mateus 11.21-24 e 12.41 (Theissen, 1997, p. 248-249). Neste evangelho os gentios (evqniko,j) ou as nações (e;qnoj) geralmente desconhecem a Lei e o Deus de Israel, mas não são uma classe condenada, cujo destino reserva apenas a ira de Deus; antes, eles são os principais alvos da missão cristã, de onde se fará discípulos para Jesus, conforme lemos em Mateus 28.19.
79 Quanto aos publicanos, devemos lembrar que segundo os pesquisadores provavelmente o termo remeta a uma
classe de pequenos trabalhadores terceirizados da época, pessoas que prestavam serviços não diretamente a Roma, mas a algum arrendatário de maior porte que conquistara o direito de recolher tributos locais e os repassar ao Império (Horsley, 2010, p. 188-189; Wegner, 1998, p. 281-283). Partindo das conclusões desses pesquisadores é comum ver os comentaristas afirmando que os publicanos não eram necessariamente gentios; entre eles haviam muitos judeus que podiam ser considerados traidores por colaborar com o sistema político que os dominava, e também porque se dizia que muitos deles aproveitavam a função para cobrar valores maiores do que o realmente exigido. No entanto, temos que ter cuidado com estas definições padronizadas; em Mateus os publicanos são personagens problemáticos, de má fama pública, mas com os quais Jesus confraterniza. Talvez o exemplo mais significativo seja o do publicano chamado Mateus (Mt 9.9), que é convidado ao itinerantismo do Movimento de Jesus e atende ao convite prontamente, se tornando um dos doze apóstolos (Mt 10.3). Noutra passagem, Jesus come à mesa com publicanos e é acusado por se unir aos tais, pelo que se defende dizendo que
obstinado pecador é mais benéfica do que geralmente se admite (Gutiérrez, 1997, p. 82). Quer dizer que quando alguém peca contra o irmão e não reconhece seu erro mesmo diante da persuasão de toda a comunidade, esse pecador deixa de fazer parte do grupo, mas passa a ser o alvo do amor e da evangelização de todos. Noutras palavras, ele continua sendo procurado, desejado no grupo, e nunca é definitivamente descartado.
Um erro na interpretação da passagem anterior (v. 15-17) acaba conduzindo o leitor a se equivocar também na leitura dos versículos 18 a 20, que tratam do direito da comunidade de ligar e desligar na terra e no céu. Se as duas passagens são lidas sob a ótica do direito à exclusão, então Jesus dá aos seus discípulos o direito de excluir na terra e no céu, de excomungar o pecador e o condenar definitivamente. Porém, quando lemos os versículos sob a ótica do perdão, da valorização do pequenino ou desgarrado como fizemos acima, então o texto muda e passa a impor responsabilidades sobre o leitor. O pecador que se retira devia ser buscado, devia ser alvo de evangelização, devia ser mantido perto pela contínua confraternização; então seria uma responsabilidade da comunidade dos discípulos abrir as portas do Reino, “ligar” os pecadores ao Reino. Assim, em vez de ensinar sobre o direito de excluir o texto seria uma ameaça que fala a respeito do dever de incluir.
Vem então uma nova perícope nos versículos 21 e 22, que quebra, de certa maneira, a sequência narrativa incluindo um diálogo direto entre Pedro e Jesus (Jesus falava aos “discípulos” coletivamente em 18.1) e introduzindo um novo tema no capítulo (Brown, J., 2002, p. 74). O narrador concede a Pedro o direito de fazer perguntas a Jesus, e ele diz: “Senhor, quantas vezes errará contra mim o meu irmão e o perdoarei? Até sete vezes?”. Diante dessas perguntas Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Essa passagem confirma nossa leitura dos textos anteriores, mostra que no conjunto das unidades textuais o tema da valorização do pequenino funciona perfeitamente ligando as perícopes; o tema se desenvolve depois e pede que se cuide dos fracos, que se busque o desgarrado, e que sempre se perdoe o pecador.
Resumindo, o que vimos neste item sobre a estratégia redacional de Mateus 18.1-22 é que o evangelho reúne nesse bloco várias perícopes que giram em torno de temas muito próximos, que resumimos sob o título “O Valor dos Pequeninos”. Feitas essas primeiras observações contextuais, vamos nos voltar com mais atenção para nosso real objeto de estudo,
veio exatamente para essas pessoas, que compara a doentes que necessitam de médicos (Mt 9.10-13). Também em Mateus 11.18-19 lemos sobre a fama de Jesus como amigo dos publicanos, e em 21.31-32 os publicanos, embora ainda considerados classe mal quista na sociedade, surpreendem ao virar a mesa e conseguir seu lugar no Reino de Deus por darem crédito à pregação.
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que é a parábola de Mateus 18.23-35, notando que o evangelho continua tratando do tema anterior, concentrando-se na necessidade de oferecer perdão infinito, mas agora adotando uma linguagem mais marcada por expressões econômicas.
3.3.2 A Introdução da Parábola: O “Homem Rei” como Patrono