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4.2 O DINHEIRO COMO EMPECILHO AO SEGUIMENTO (MT 19.16-22)

4.2.1 O Convite ao Seguimento e Alguns Exemplos

O texto que logo vamos ler faz lembrar passagens anteriores do Evangelho de Mateus, que narram a adesão de novos discípulos ao que poderíamos chamar de Movimento de Jesus. As narrativas que nos contam sobre esses convites de Jesus a potenciais discípulos são bastante seletivas e, em geral, apenas nomes aparentemente importantes são relacionados.

139 O que aqui chamamos de enredo-padrão das narrativas de convite ao seguimento em Mateus não deve ser

entendido como uma tradução da expressão inglesa Masterplot, encontrada nalguns manuais de Narratologia (Abbott, 2002, p. 192; Resseguie, 2005, p. 203). Segundo tais manuais, um Masterplot é um arcabouço estrutural e temático recorrente em diferentes narrativas, os quais adquirem importância cultural e em determinados meios desempenham papéis importantes nas definições de identidade, valores e compreensão da vida. Porém, em nossa menção ao enredo-padrão, seu significado é mais restrito, limitando-se às questões estruturais. Esse uso se aproxima mais da definição de “cena-padrão” fornecida por Robert Alter, que disse que uma cena-padrão é “... um conjunto intrincado de acordos tácitos entre o artista e o público relacionados com a organização interna da obra de arte...” (2007, p. 79). Mas é bom que se diga que também há nos manuais de Narratologia o estudo de certos tipos de enredos padrões que se aproxima da tradicional análise dos gêneros e formas fixas (Wegner, 1998, p. 165-229; Schnelle, 2004, p. 85-98), o que lhes permite diferenciar enredos dos tipos “episódico”, “unificante”, de “resolução”, de “revelação”, entre outros (Marguerat; Bourquin, 2009, p. 71-74; Resseguie, 2005, p. 204). Esta nota tem, portanto, o papel de evitar equívocos demonstrando que estamos cientes das semelhanças e discretas diferenças entre essas abordagens, declarando que nossa escolha pela definição particular de Alter é proposital. Assim fizemos para evitar o comprometimento de nossa análise com algumas dessas escolas já estabelecidas, o que nos forçaria a adotar seus procedimentos e nomenclaturas de maneira mais rígida.

Primeiro temos o chamado de Pedro e André (Mt 4.18-20) e depois o de Tiago e João (4.21- 22), quando Jesus, ainda iniciando seu trabalho na Galileia, mais precisamente em Cafarnaum, chama esses homens que estavam envolvidos profissionalmente com a pesca para andar com ele, distinguindo assim, por meios peripatéticos, os discípulos dos não-discípulos (Brown, J., 2002, p. 99). A atividade desses primeiros seguidores é definida através de uma analogia feita em relação à atividade que eles exerciam antes: agora eles se tornariam “pescadores de homens”.

Uma característica literária importante destas cenas é sua brevidade; a adesão dos personagens que o evangelho sublinha e que o cristianismo posteriormente tornaria notórios é contada de maneira apressada, o que talvez seja proposital. Nos textos, Jesus profere poucas e diretas palavras, como “vinde atrás de mim” (deu/te ovpi,sw mou) (v. 19), e sem mais argumentações encontramos respostas positivas expressas apenas por meio de ações. Para enfatizar a prontidão com que os discípulos aceitaram o chamado, o texto nos convida a imaginar homens calados que agem com imediatismo; usa o advérbio “imediatamente” (euvqe,wj), seguido dos verbos “deixar” (de avfi,hmi) e “seguir” (de avkolouqe,w) (v. 20, 22) para que fique claro que a adesão ao seguimento exige do discípulo total comprometimento, o que implica no completo abandono de todas as suas demais atividades, posses e preocupações. Momentos tão decisivos para a história do Movimento de Jesus não mereciam narrativas mais elaboradas? Isso é o que nós achamos, mas parece que a rapidez dos acontecimentos é intencional e enfatiza a resposta ideal que alguém que é convidado ao seguimento de Jesus deveria dar: resposta positiva e imediata, sem questionamentos ou demonstrações de dúvidas.

Temos outra adesão como essas em Mateus 9.9, texto que por algum motivo a tradição elegeu, fazendo de seu personagem o suposto autor do evangelho. Nessa brevíssima passagem, um homem chamado Mateus aparece envolvido em suas atividades na “coletoria”, aparentemente prestando um serviço indireto (terceirizado) ao Império Romano em suas taxações. Ali mesmo ele é surpreendido pelo convite de Jesus, que diz apenas: “segue-me” (avkolou,qei moi). Surpreendentemente, o texto só diz que o homem “... tendo levantado o seguiu”. Assim, o personagem Mateus passa a ser, neste evangelho e ainda que com algum atraso, um seguidor tão próximo a Jesus quanto os demais que haviam sido chamados no capítulo 4 e cujos nomes são mais relevantes na literatura neotestamentária em geral. Temos então relatos mateanos sobre o chamado de cinco dos doze apóstolos de Jesus, os quais são, no capítulo 10, enviados para anunciar a chegada do Reino na Galileia.

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Nos exemplos das três pequenas perícopes que acima comentamos o autor expõe a resposta que considera ideal da parte de um seguidor, enfatizando a prontidão em abandonar bens, profissão e até família para seguir de perto o mestre peripatético da Galileia. Mas não deixemos passar que há no capítulo 8 de Mateus dois exemplos negativos, contrários àqueles que lemos, posto que nestes casos os personagens acabam por recusar o convite. Em 8.19-20 o Evangelho de Mateus apresenta sua versão do encontro de Jesus com um possível seguidor. A linguagem não é a mesma daquelas narrativas anteriores, Jesus não convida o homem, mas é abordado por aquele que expontaneamente tinha a intenção de segui-lo. Essas mudanças de estilo narrativo condizem com o conteúdo, mas também se explicam a partir da origem distinta da passagem, que dessa vez não é marcana; seu paralelo sinótico está apenas em Lucas 9.57-58, o que nos leva a deduzir, adotando as hipóteses mais seguras sobre a dependência entre os evangelhos sinóticos, que tenha sido recebida da chamada Fonte Q. É muito significativo que quem quer seguir Jesus dessa vez é um sujeito indefinido; em Lucas ele é um “alguém”,140 mas é um “escriba” na versão mateana, designação que neste evangelho já induz o leitor a receber com ressalvas as palavras desse personagem. Convenientemente, o escriba aborda Jesus o chamando de “mestre”, um título que só os adversários de Jesus ou pessoas de fora do círculo dos discípulos usam ao longo do evangelho (Anderson, 1994, p. 118-119; Carter, 2007, p. 559). O escriba afirma que seguiria Jesus por onde ele fosse, mas tamanha boa vontade é refreada por Jesus, que fala sobre uma das dificuldades inerentes ao seu trabalho peripatético, que é a falta de um lar. Nas narrativas de adesão anteriores, detalhes assim não haviam sido oferecidos; Jesus não falou nada sobre a escassez na vida dos seus seguidores, porém, a resposta dos discípulos que imediatamente deixaram tudo o que tinham para trás parece nos dizer que eles aceitaram tais dificuldades sem esboçar dúvidas. Por outro lado, ao “escriba” essa exigência parece ser grande demais, pelo que Jesus faz questão de esclarecer ao possível seguidor as condições daquela adesão. Se estivermos corretos na leitura, as afirmações que temos feito sobre o apreço exacerbado que os “hipócritas” têm pelos bens materiais também se confirmam nessa pequena narrativa de convite ao seguimento.

Na sequência (Mt 8.20-21) o evangelho nos oferece outro exemplo. Agora o “homem” da versão lucana é um “discípulo” em Mateus, e nos perguntamos: discípulo de quem? Warren Carter julga que este seria um discípulo de Jesus, pois ao contrário do escriba que

140 A ausência de qualquer nomeação dos personagens e possíveis seguidores de Jesus em Lucas é, conforme a

sugestão feita por João Leonel na análise que faz de Lucas 9.57-62 a partir da Estética da Recepção, uma característica proposital da narração e não um sinal de pobreza literária (Leonel, 2012, p. 115-120). Pelos mesmos motivos somos levados a supor que a inclusão de nomeações na versão de Mateus também tenha uma intencionalidade bem específica.

chama Jesus de mestre, este se dirige a ele o chamando de “senhor” (Carter, 2007, p. 320). Carter parece entender o título “senhor” como sinal de devoção religiosa, e não leva em conta que toda autoridade no mundo romano poderia receber o mesmo tratamento. Outra comentarista, Margaret Davies, supõe com aparente razão que o tal personagem fora apenas convidado ao seguimento (como deveras acontece em Lucas 9.59), e que por isso ele ainda não poderia ser considerado discípulo de Jesus, mantendo-se do lado externo das fronteiras imaginárias que dividem os discípulos dos não-discípulos (Davies, 2009, p. 78).141

Eis nosso ponto de vista: um discípulo dos rivais de Mateus (escribas e fariseus) demonstra interesse em seguir Jesus em 8.21-22. Isso explica o motivo de o autor de Mateus ter excluído o convite feito ao tal discípulo pelo próprio Jesus, que está presente em Lucas 9.59. Na ótica mateana, Jesus não convidaria um discípulo dos escribas fariseus para seu movimento. Se estivermos corretos, temos outro religioso de tradição farisaica, daqueles que querem servir a Deus e aos senhores terrenos simultaneamente. Estranhamente ele busca se filiar ao Movimento de Jesus, talvez buscando nesse novo senhor um patrono capaz de lhe oferecer proteção. Lemos que o possível seguidor, embora decidido a seguir, pede permissão para primeiro sepultar seu pai, mas esta prioridade supostamente familiar contraria aquele ideal de prontidão e desprendimento que Pedro e os outros haviam demonstrado. Indo mais longe, pode ser que a questão não fosse meramente familiar, mas econômica (em sentido amplo). Podemos supor que o interesse por aguardar a morte do pai oculte o desejo de se tornar um homem verdadeiramente independente, de tomar posse de alguma herança e, mais uma vez, a preocupação econômica e o anseio por uma segurança social vai de encontro com ao ideal peripatético e escatológico dos pobres do seguimento de Jesus. Não estamos impondo uma leitura econômica interessada ao texto, mas nos baseando uma vez mais na cultura Greco-romana, em que tais situações eram absolutamente plausíveis. Um homem, mesmo

141 Consultando o texto grego da 27ª edição de Nestle/Aland juntamente com seu aparato crítico (1993, p. 19),

podemos entender melhor o problema: o texto grego dessa edição diz literalmente: “E outro discípulo [dele] disse a ele...”, sendo que o “dele” (auvtou/) que aparece entre colchetes é também antecedido por um sinal que indica no aparato que este pronome pessoal no caso genitivo é omitido em parte dos testemunhos manuscritos de Mateus, inclusive na própria edição anterior do Novum Testamentum Graece. Ou seja, pela comparação de manuscritos, descobrimos que este “dele”, que parece indicar que o personagem é mesmo um discípulo de Jesus, nem sempre é encontrado nas cópias mais antigas do Evangelho de Mateus, pelo que os especialistas em crítica textual optam por acrescentá-lo ao texto com ressalvas. Embora não sejam muitos, códices antigos e importantes como o Sinaítico, o Vaticano e o minúsculo catalogado como 33 omitem esse pronome. Tudo isso só nos mostra que a indefinição em relação a este “discípulo” é uma questão muito antiga, e não seria nenhum absurdo supor que a inclusão do pronome teria desde muito cedo o propósito de solucionar esta dúvida que nós mesmos levantamos. Optamos por sugerir que este “outro discípulo” talvez seja alguém mais aproximado do escriba anterior do que do grupo de Jesus. Essa leitura obviamente exige que ignoremos o pronome “dele” como se lêssemos Mateus a partir dos códices Sinaítico e Vaticano, mas em termos de coesão de conteúdo é uma opção que nos parece mais satisfatória.

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depois da puberdade, mesmo que se casasse, permanecia sob a autoridade do pai enquanto ele vivesse. Ele não poderia ser um chefe da casa independente, um patrono, de maneira que seguiria como uma espécie de cliente do próprio pai, em muitas situações tendo os direitos limitados como o de um escravo. Sobre isso, Paul Veyne escreveu: “psicologicamente a situação de um adulto com pai vivo é insuportável. Ele não pode fazer um gesto sem o pai: concluir um contrato, libertar um escravo, elaborar seu testamento” (2009, p. 39). No

Satíricon Petrônio critica a religiosidade romana nas palavras do personagem Eumolpo, um

poeta empobrecido e marginalizado, vítima de uma sociedade que anseia por lucros e se esquece das artes. Eumolpo, entre outros exemplos, fala daqueles que até prometem oferendas aos deuses quando os pais morrerem, o que mostra que a expectativa pela morte de um pai, como a que se expressa em Mateus 8.21-22, sempre tinha um significado econômico naquela sociedade:

Quem foi alguma vez a um templo e fez promessa para alcançar a eloquência? Quem fez promessa para atingir a fonte da filosofia? Não se pede sequer boa saúde, física ou mental, mas antes mesmo de tocar o limiar do Capitólio um promete uma oferente se enterrar um pai rico; outro, se cavar um tesouro; outro, se até o fim da vida acumular trinta milhões de sestércios. (Satir, 88, grifo nosso)

No caso de o homem que quer seguir Jesus ser realmente um discípulo dos fariseus, as coisas ainda poderiam ser mais sérias, já que além da controvertida assimilação visível desse grupo aos hábitos gentílicos, é provável que uma família judaica ainda preservasse o direito de primogenitura como traço cultural dos seus antepassados, o que tornaria a expectativa por um testamento paterno ainda maior para um primogênito. Como no exemplo anterior, nossa opinião é a de que este discípulo de fariseu recua diante do desafio de seguir Jesus por razões econômicas. Com a leitura da passagem o leitor do evangelho adquire mais conhecimento a respeito daquilo que se espera de um discípulo de Jesus, assim como conhece as razões pelas quais o evangelho é tão pessimista quanto à religiosidade farisaica.

É verdade que este último exemplo baseado numa lacônica narrativa nos impõe dúvidas, mas no geral, o que vimos é que o Jesus retratado por Mateus é um mestre peripatético que convida pessoas para o seguir num trabalho de ensino e assistencialismo religioso que exige dedicação integral. Por vezes, o carisma desse Jesus atrai pessoas interessadas, mas nem todos se mostram dispostos a abdicar dos seus objetivos pessoais, nem todos são capazes de adotar aquela pobreza voluntária pelos interesses do Reino. Conforme

nossas leituras, o evangelho lida com o convite ao seguimento, com a adesão de novos discípulos, exibindo exemplos positivos e negativos. Os exemplos positivos nos são dados por apóstolos que mediante o convite de Jesus abandonam de imediato todos os seus demais interesses para priorizar o seguimento; entretanto, nos exemplos que interpretamos como negativos, os personagens são um escriba e um possível discípulo dos escribas e fariseus, os quais não são convidados, mas demonstram de si mesmos o interesse no ensino de Jesus. Esses últimos se veem impedidos de se comprometer com o movimento por conta de questões principalmente econômicas; preocupam-se com seus vínculos familiares, com a estabilidade social e econômica que os seguidores de Jesus não possuem. O primeiro desses exemplos negativos seria o de um escriba que não quer perder o conforto e a segurança de sua casa para viver de maneira insegura e peripatética; o segundo não quer trair os laços familiares e abdicar de sua herança para seguir Jesus. Embora os textos não afirmem explicitamente que eles recuaram, a aparente hesitação que inexiste nos textos sobre a adesão dos apóstolos, a apresentação de possíveis impedimentos pelo próprio Jesus e a comparação com o texto que a seguir vamos ler nos levam a adotar essa linha interpretativa.