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3.2 A PARÁBOLA DO REINO E SEU PATRONO IGUALITÁRIO (MT 20.1-16)

3.2.5 O oikodespotes e a Linguagem Econômica de Mateus

Mateus 20.1-16 contou uma história fictícia, a de um homem que contraria a lógica do sistema socioeconômico do Mundo Mediterrâneo que compunha o mundo do autor e dos leitores que ele pretendia atingir (leitores modelo). Aquele homem, mesmo sendo o proprietário de terras produtivas, se importa mais com a carência alheia do que com suas próprias necessidades, agindo em suas relações sociais e econômicas a partir de ideais igualitários. Tudo isso foi contado para que o leitor chegasse à conclusão de que no sonhado Reino dos Céus as desigualdades conhecidas no mundo não existem, gerando uma imagem, um modelo sócio-religioso que pretendia impulsionar os leitores que compartilhavam desse mesmo imaginário a pô-lo em prática desde já.

Para nós que estamos interessados no estudo da linguagem econômica de Mateus essa igualdade é uma novidade relevante, um tema construído em meio a figuras que existem conforme a lógica da reciprocidade, entre patronos e clientes. Em Mateus 20.1-16 encontramos o Reino dos Céus como uma sociedade teocrática regida por leis próprias, de motivação ética e religiosa, onde há igualdade entre súditos. Falar desse Reino igualitário é uma maneira indireta de expressar insatisfação em relação ao modelo social e político concreto, mas mesmo nessa construção imaginária e ideológica a sociedade continua possuindo um tipo de hierarquia elementar, pois os súditos convidados ainda são servos, todos governados por um único patrono, o oikodespotes ou chefe da casa que protagoniza a narrativa. Não temos dúvida de que ao se falar de um reino, está implícita a presença de um monarca; mesmo se tratando de um reino celestial o monarca existe, mas em forma divina. Isso significa que o igualitarismo utópico defendido não se aplica à figura divina, cujo status sempre será incomparavelmente superior. Por isso tudo, é inevitável que o leitor da parábola construa em sua imaginação não apenas o Reino, mas também o próprio Deus a partir dessa leitura; e aí as características do oikodespotes, personagem que é mais comum em Mateus do que em qualquer outro texto do Novo Testamento (Coenen; et. al., 1994, p. 202) são as que mais contribuem. Ou seja, ao falar do Reino dos Céus a parábola também trata do lugar do

próprio Deus como patrono ou senhor desse Reino, e é daí que supomos que esta parábola também contribua com a nossa hipótese de que o Deus de Mateus é um tipo ideal de patrono.

Além de aparecer nas parábolas de Mateus 20.1-16 e de 13.24-30, passagens que já comentamos, em outra parábola do capítulo 21.33-46 (desta vez com paralelos em Marcos 12.1-12 e Lucas 20.9-19) o evangelho nos traz mais informações sobre o uso que faz do

oikodespotes. Nas versões de Marcos (12.1) e Lucas (20.9) o personagem é apresentado

apenas como um “homem”, o que nos dá boas razões para acreditar que foi o autor de Mateus quem incluiu o termo oikodespotes na parábola que herdara da tradição. Nesta o oikodespotes é o próspero dono da vinha que a arrendou e depois se ausentou, mas ele obviamente espera receber no tempo devido os frutos do trabalho dos seus servos na vinha. Lê-se que a vinha, isto é, o “Reino de Deus” (e não Reino dos Céus como Mateus geralmente prefere) estivera sob os cuidados desses servos (sacerdotes e fariseus), mas esse espaço lhes seria tirado quando viesse o oikodespotes, ocasião em que também condenaria os sacerdotes e fariseus (líderes religiosos nacionais, como sempre) por não darem os frutos esperados (Mt 21.43,45).

Finalmente, podemos ver o Evangelho de Mateus falando de um oikodespotes em 24.36ss. O autor fez também neste ponto alguns acréscimos ao texto de Marcos 13, e é exatamente aí que aparece o patrono mateano (v. 43). Aqui, todavia, o patrono claramente não pretende representar Deus. Não se trata de uma parábola, diríamos que estamos diante de um exemplo. O texto pede ao leitor que vigie, que se mantenha alerta para que a vinda do Filho do Homem, que seria repentina e cuja hora era desconhecida, não o surpreendesse. Mateus agora coloca o leitor no lugar do chefe da casa, que só pode ser roubado por um ladrão porque este o surpreende, aparece sem aviso, quando não o esperam. Estamos, portanto, diante de um texto onde o nosso patrono não nos ensina nada diretamente sobre Deus; na verdade, o Filho do Homem está sendo comparado ao ladrão, mas apenas num aspecto, que é o da sua aparição surpreendente. Mesmo assim, o texto mateano não deixa de confirmar algo que já notamos nas demais leituras: o oikodespotes de Mateus é um homem que possui riquezas e que por isso, nesse caso, está constantemente sob o risco de receber as indesejáveis visitas dos ladrões. Enfim, o uso do oikodespotes é uma evidente marca linguística do mundo urbano, da qual o autor de Mateus se apropria fazendo-a uma característica linguística sua e diferenciando assim seu discurso dos demais evangelhos. Lendo os textos mateanos que empregam o substantivo, vemos que ele é mais do que um signo verbal que busca remeter seu leitor a patronos ricos daqueles dias; o oikodespotes é em Mateus (com exceção de Mt 24.43) um símbolo religioso, que pode substituir o uso de “Deus” nas parábolas que são contadas, ou

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algum outro personagem messiânico que lhe corresponda como o Filho do Homem que assume o controle de determinadas ações escatológicas. As parábolas de Mateus, ao usarem o

oikodespotes, estabelecem certo roteiro para a atuação divina: ele sempre é apresentado como

um homem (isto é, alguém do sexo masculino) que possui elevado poder e autoridade; entretanto, essa autoridade não é fundamentada politicamente, mas economicamente. O

oikodespotes simplesmente possui; controla muitos bens e servos. Se estivéssemos falando de

homens comuns e não de Deus, provavelmente seria difícil explicar como o mesmo evangelho que condena o acúmulo de bens agora enaltece um homem rico o elegendo como o protagonista de suas parábolas. A contradição se dissipa quando entendemos que este rico

oikodespotes, em praticamente todas as suas aparições, revela traços do Deus que protagoniza

o imaginário religioso do Evangelho de Mateus.