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Matriz 1 – Representação Tecno-material da cidade

4. ANÁLISE DO PLANO DA ILHA DE ITAPARICA A PARTIR DAS MATRIZES DISCURSIVAS

4.2. ANÁLISE DO CÓDIGO DO MEIO AMBIENTE

4.2.1. Matriz 1 – Representação Tecno-material da cidade

Tabela 10 - Matriz 1 (modelos, temas e indicadores) X Código do Meio Ambiente

Fonte: Henri Acselrad Fonte: Martins e Cândido Análise

MATRIZ MODELO TEMAS / INDICADORES Meio Ambiente

CÓDIGO

1.

REPRESE N TA ÇÃ O CNI CO -M AT ERIAL D A C IDA DE 1. 1. RACIONA L IDADE ECO E NERGÉTIC A

TEMA 1: Consumo - energia e combustível.

INDICADORES: FIC;DIC;DMIC; consumo médio de energia elétrica urbana; tarifa de energia e consumo per capita de diesel, gasolina, GNV e álcool.

-

TEMA 2: Consumo de água.

INDICADORES: Consumo per capita de água (m3/hab), perdas na distribuição de água (percentual), percentual de economias residenciais de água, extensão da rede de abatecimento de água (km), atendimento urbano de água (%), tarifa de água.

-

TEMA 3: Pressão técnica urbana.

INDICADORES: Pressão demográfica, Pressão industrial, Pressão automotiva e Edificações em andamento.

TEMA 4: Distribuição do espaço.

INDICADORES: Razão entre população rural e urbana, Razão entre moradias na zona rural em relação a urbana, Densidade demográfica, Domicílios não ocupados no município, Déficit habitacional, Extensão das unidades de conservação, Assentamentos planejados e Densidade demográfica urbana.

TEMA 5: Produção e destino dos resíduos.

INDICADORES: Resíduos sólidos por tipo per capita, Resíduos sólidos urbanos per capita e Repasse de resíduos sólidos coletados para outro município.

TEMA 6: Tecnologias ecoeficientes.

INDICADORES: Empresas de tecnologias para reciclagem de materiais, Empresas de produção de energias alternativas, Tecnologias para reciclagem patenteadas.

TEMA 7: Base social de apoio.

INDICADORES: Projetos de educação ambiental, Projetos para conscientização ecológica, Projetos comunitários de reciclagem.

1.2. EQUILÍBRIO METABÓLICO

TEMA 8: Equilíbrio Ecológico.

INDICADORES: Déficit ecológico e Pegada ecológica do município. *

-

TEMA 9: Legislação.

INDICADORES: Legislação urbanística e ambiental, Lei de parcelamento do solo, Lei de zoneamento ou equivalente, Legislação municipal de preservação do patrimônio histórico e cultural e Lei municipal que institui o programa de educação ambiental nas escolas.

TEMA 10: Normas / Incentivos / Fóruns.

INDICADORES: Código de Postura do Município, Normas para construção e edificações , Normas para urbanização e regulamentação fundiária, ICMS ecológico e Fóruns previstos no Estatuto da Cidade.

Fonte: Elaboração própria (2017) com base nas Matrizes Discursivas da Sustentabilidade Urbana de Acselrad (2009) e no Modelo Operacional para análise da sustentabilidade urbana de Martins e Cândido (2013).

No Código do Meio Ambiente, são poucos os temas relacionados ao Modelo

Racionalidade Ecoenergética, ítem 1.1 (Tabela 10), que não aparecem na abordagem

normativa deste regulamento. Dos temas sugeridos por Martins e Cândido (2013), apenas os itens (1) Consumo – energia e combustível e (2) Consumo de água não são abordados neste instrumento.

Já os temas (3) Pressão técnica urbana e (4) Distribuição do espaço possuem relação direta com o Macrozoneamento Municipal (Figura 11, pág. 94) e com a definição espacial no território das Unidades de Conservação proposto no Zoneamento (Figura 10, pág. 92). No Art. 102 do Código, estão instituídas as macrozonas “para fins de preservação, conservação ambiental e uso sustentável do território municipal”. São definidas três zonas de interesse ambiental: uma de proteção rigorosa, em que protegem manguezais, parcelas de Mata Atlântica e áreas de altas declividades, outra de proteção semi-rigorosa, que incluem restingas e recursos hídricos importantes, e funcionam como zona de amortecimento para a zona de proteção rigorosa e, por ultimo, a de ocupação controlada, no caso específico dos coqueirais considerados parte da “paisagem cultural” e preservação também do relevo, massa vegetais e sítios notáveis.

Além das macrozonas de interesse ambiental também estão previstos as seguintes macrozonas: a) Macrozonas de Controle e desenvolvimento Urbanístico (MZRDU), onde serão aplicadas as determinações jurídicas estabelecidas no Plano Diretor; b) Macrozonas de Produção (MZP), compreende as áreas de possibilidade de plantio e de criação de gado, estabelecendo domínios sobre técnicas agrícolas, evitando a poluição de rios próximos, queimadas sem controle e grandes desmatamentos de áreas; e c) Macrozona de Proteção do Ecossistema Marinho (MZPEM), área de preservação do ecossistema marinho onde deverá haver fiscalização severa em relação a pesca irregular.

Em relação as Unidades de Conservação o Código prevê, no Art. 104, a criação por parte do município, de nove Unidades, identificadas na Figura 10 (pág. 92), conforme a legislação federal pertinente, e estabelece no Art. 105 que:

“O Município prestará seu apoio e colaboração à gestão das unidades de conservação existentes em seu território ou que venham a ser criadas em qualquer esfera do poder público ou por particulares, em especial, a Área de Proteção Ambiental (APA) Baía de Todos os Santos, criada pelo Decreto Estadual nº7.595 de 05/06/1999. ”

Importante considerar também na análise dos temas em questão a existência das Áreas de Preservação Permanente (APP), reguladas pela Lei nº 12.651/12, e avigorada neste

instrumento, no Art. 106, que especifica o tipo de vegetação enquadrada no dipositivo citado, e cita ainda em parágrafo único que: “Nas áreas de preservação permanente, o manejo deve limitar-se ao mínimo indispensável para atender às necessidades de manutenção da biodiversidade. ”

São considerados áreas de preservação permanente:

I- A vegetação ciliar ao longo dos rios, riachos e demais cursos d’água de qualquer porte, em faixa marginal estabelecida pela legislação federal, desde o seu nível mais alto;

II- Os manguezais; III- As matas de restinga;

IV- Os remanescentes de floresta da Mata Atlântica.

Assim é possivel considerar que, a existência dessas áreas voltadas para a preservação ambiental do ecossistema insular, definidas no macrozoneamento, nas Unidades de Conservação e APP’s, interferem na distribuição do espaço urbano e contribuem para diminuir, em termos espaciais, a pressão técnica que as populações e atividades exercem sobre a base dos recursos ambientais, melhorando assim a racionalidade ecoenergética de uma cidade. A criação de zonas de amortecimento no macrozoneamento proposto por exemplo, contribui, como dito anteriormente, para redução dos impactos antrópicos sobre as zonas de proteção rigorosa. Do mesmo modo, a definição de Unidades de Conservação dentro da mancha urbana, com uma gestão eficiente, pode levar a uma melhor infra estruturação dos espaços já ocupados, priorizando o redimensionamento da rede de energia, se necessário, evitando assim o espraiamento com consequente maior gasto econômico e energético.

Por outro lado, o “engessamento” urbano de espaços verdes pela lei, pode elevar o preço e reduzir a oferta do solo edificável no município, provocando uma certa “expulsão” social das classes menos favorecidas, que terminam por ocupar ilegalmente os espaços protegidos, comprometendo assim a sustentabilidade da cidade. Esses dois aspectos contraditórios, relacionados as áreas verdes protegidas do espaço urbano, requer do planejamento de cidades soluções que vislumbrem o equacionamento entre os problemas ambientas e sociais.

Então, diante do exposto, considerou-se que o Código do Meio Ambiente em questão, no alcance de suas atribuições, apresentou mecanismos com alto potencial de gerar alterações

nos indicadores de sustentabilidade sugeridos por Martins e Cândido (2013), vide Tabela 1 (pág.37).

Outro tema, abordado no Código analisado foi o (5) Produção e destino de resíduos. A Seção IV, do Capítulo III, deste instrumento jurídico trata especificamente de aterros sanitários dispondo, do Art. 76 ao 80, de normas que regulamentam a produção e destino destes resíduos.

Art. 76. Toda instalação de tratamento e/ou disposição de resíduos a ser implantada deverá ser provida de um cinturão verde através de plantio de espécies arbóreas de grande porte e rápido crescimento em solo natural. §1° O cinturão verde deverá ter largura mínima entre 10m (dez metros) a 25m (vinte e cinco metros).

§2º No plano de encerramento dos aterros sanitários deverá estar previsto projeto de recomposição da vegetação para futura implantação de parques ou outros usos compatíveis. [...]

[...] Art. 80. O efluente gasoso gerado nos sistemas de tratamento e/ou disposição de resíduos deverá ser devidamente monitorado, com o objetivo de se verificar se há presença de compostos, em níveis que representem risco para a população próxima.

Apesar de apresentar normas para o destino de resíduos em aterro sanitário, o Código foi considerado, para esta análise, com efetividade média, ou seja, os mecanismos apresentados são capazes de gerar pequena alteração nos indicadores sugeridos na Tabela 10 (pág. 150). Ou seja, o Código não aborda outras formas de produção e destino de resíduos, considera apenas o aterro sanitário, além disso as normas tratam mais especificamente dos aspectos ambientais relacionados a existência de áreas verdes e aos possíveis impactos gerados pela operação deste sistema de tratamento (líquidos percolados e efluentes gasosos). Não trata dos tipos nem da quantidade de resíduos produzidos pelo município como sugere a tabela de indicadores. Este tema com suas particularidades, de acordo com a política municipal de contratação de Planos Setoriais, deve constar no Plano de Saneamento do município.

Sobre o tema (6) Tecnologias ecoeficientes, o Código apresenta como um dos deveres do Poder Executivo, Art. 6º, inciso II: “incorporar a dimensão ambiental e o princípio da ecoeficiência nas atividades e empreendimentos da Administração. ” Em seguida, aborda no inciso IX, do Art. 12, que trata sobre os instrumentos da Política do Meio Ambiente, dentre outros “os incentivos à produção e instalação de equipamentos antipoluidores e a criação ou absorção de tecnologias que promovam a recuperação, preservação, conservação e melhoria

do meio ambiente. ” Essas duas abordagens relacionadas ao tema são apresentadas de forma superficial sem apontar por exemplo, no primeiro caso, como deverá ser incorporado o princípio da ecoeficiência e, no segundo caso, sem apresentar quais serão esses incentivos previstos. Isso acaba por enfraquecer os propósitos almejados.

Apresenta tembém no Art. 81, um discurso genérico sobre o incentivo de soluções tecnológicas voltadas para minimização e/ou reciclagem de resíduos. Assim previsto:

Art. 81. Deverão ser incentivadas e viabilizadas soluções que resultem em minimização, reciclagem e/ou aproveitamento racional de resíduos, tais como os serviços de coleta seletiva e o aproveitamento de tecnologias disponíveis afins.

§1° A minimização de resíduos será estimulada através de programas específicos, otimizando a coleta e visando a redução da quantidade de resíduos no sistema de tratamento e/ou disposição final.

§2º A reciclagem e/ou aproveitamento de embalagens que acondicionaram substâncias ou produtos tóxicos, perigosos e patogênicos estarão sujeitos às normas e legislação pertinentes.

§3º As pilhas ou baterias utilizadas em celulares quando substituídas em lojas e/ou magazines deverão ser devidamente armazenadas e encaminhadas ao fabricante, ficando proibida a venda ou doação a sucateiros e/ou reciclagem de metal.

§4º A administração Pública deverá criar dispositivos inibidores para a utilização de embalagens descartáveis e estímulos para embalagens recicláveis.

Neste artigo o Código incentiva a solução de novas tecnologias voltadas para reciclagem e coleta seletiva dos resíduos, porém transfere para os programas específicos a responsabilidade de definição destas soluções, e para a administração pública a criação de estímulos para a reciclagem. Portanto, considerando todas as abordagens relacionadas ao tema no Código, desviculadas de mescanismos com potencial de alterar a realidade, este foi classificado como efetividade baixa.

Em relação ao tema (7) Base social de apoio, o Código estabelece dentre as suas diretrizes para a proteção e melhoria da qualidade ambiental, no Art. 5º, os seguintes parágrafos relacionados ao tema:

X- O estímulo cultural à adoção de hábitos, costumes, posturas, práticas sociais e econômicas não prejudiciais ao meio ambiente;

XI- o estabelecimento de normas de segurança no tocante ao armazenamento, transporte e manipulação de produtos, materiais e rejeitos perigosos ou potencialmente poluentes; e

XII- a educação sanitária e ambiental, em todos os níveis de ensino em suas escolas públicas.

Atribui à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Art. 10, as seguintes responsabilidades referentes ao assunto em questão: parágrafo IX: “promover, em colaboração com os órgãos competentes programas de educação sanitária e ambiental”, e o parágrafo XII: “definir normas para a coleta, transporte, tratamento e disposição de resíduos sólidos urbanos e industriais, em especial processos que envolvam sua reciclagem.

Estabelece no Art. 37, sobre projetos e programas de educação ambiental, que:

Compete à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, integradamente com a Secretaria Municipal de Educação e a Secretaria Municipal de Saúde, conforme se tratar de assuntos afetos a uma ou outra, a execução de

programas e projetos de educação ambiental, visando um comportamento

comunitário voltado para compatibilizar a preservação e conservação dos recursos naturais e do patrimônio cultural com o desenvolvimento sustentável do município. (Grifo nosso)

Ademais, também fazem referência ao tema num enfoque voltado para projetos de educação ambiental e desenvolvimento de uma “consciência ecológica”, os seguintes art.s:

Art. 38. As escolas de primeiro grau, bem como as demais sujeitas à orientação municipal deverão incorporar em seus currículos escolares o ensino ambiental, proporcionando, aos alunos, visitas às unidades de conservação existentes no território municipal e aulas práticas sobre o plantio de árvores e reconstituição da vegetação natural, assim como a valorização da cultura local, em todas as suas manifestações.

Art. 39. As placas de logradouros públicos deverão conter, sempre, uma mensagem de cunho ambiental, juntamente com a mensagem comercial. Art. 40. A educação ambiental será condição obrigatória a ser importa ao empreendedor nos processos de licenciamento de atividades potencialmente impactantes ao meio ambiente.

Parágrafo único. Faz parte da educação ambiental a valorização das regras de convívio tendentes a manter e melhorar a qualidade de vida nos espaços comuns.

Dentre os três indicadores sugeridos relacionados ao tema, na Tabela 10 (pág. 150), o Código só não contempla projetos comunitários de reciclagem. No entanto, em relação aos projetos voltados para educação ambiental e para conscientização ecológica, considerou-se que o Código dispôs de normas com objetivos claros, definição dos atores responsáveis e com enfoque de obrigatoriedade. O não cumprimento da norma está previsto no Capítulo II, Das Penalidades, do Art. 152 ao 155, como será visto adiante (pág. 165 e 166). Portanto, diante do exposto o Código foi classificado com efetividade alta.

No âmbito do Modelo Equilíbrio Metabólico, ítem 1.2 (Tabela 10, pág. 150), é possível afirmar que, em geral, o instrumento em análise, traz mecanismos capazes de gerar uma pequena alteração nos indicadores recomendados, tendo, portanto, efetividade média em relação a alteração da realidade existente. Esta afirmação levou em consideração que o tema 8) Equilíbrio Ecológico vinculado aos indicadores: déficit ecológico e pegada ecológica, por exemplo, não foram tratados nesse instrumento normativo. O déficit ecológico está associado à relação entre a capacidade de regenaração do recurso natural e seu consumo. Quando a capacidade de regeneração for menor que o consumo, maior o déficit ecológico. Já a pegada ecológica mede o impacto das atividades de produção e consumo da economia sobre a biosfera. Visto estes conceitos pode-se aferir que, o Código do Meio Ambiente analisado, não apresenta normas coercitivas ou mesmo de incentivo que alterem o modo de produção e consumo dos municípios em questão.

Em relação aos outros dois temas 9) Legislação e 10) Normas / incentivos / fóruns o próprio Código do Meio Ambiente junto as demais leis municipais, Código de Obras e instruções normativas respondem aos indicadores sugeridos na Tabela 10. Contudo, vale ressaltar a importância da aplicabilidade e gestão destes instrumentos legais para que os mesmos possam contribuir para o Equilibrio Metabólico das cidades. Normas que não saem do papel não alteram a realidade.