4. ANÁLISE DO PLANO DA ILHA DE ITAPARICA A PARTIR DAS MATRIZES DISCURSIVAS
4.1. ANÁLISE DA LEI DO PLANO DIRETOR ESTRATÉGICO
4.1.2. Matriz 2 A Cidade Como Espaço De Qualidade De Vida
4.1.2.2. Modelo Cidadania
Na análise do Plano em relação ao Modelo da sustentabilidade relacionada à
Cidadania, ítem 2.2 (Tabela 6, pág. 104) o primeiro tema sugerido (15) Participação eleitoral não são pertinentes ao instrumento Plano Diretor Urbano. Já o tema (16) Envolvimento e participação cívica, há três análises distintas a fazer. A primeira em relação ao envolvimento e participação cívica no processo de elaboração do plano, a segunda em relação aos mecanismos criados no plano para dar espaço ao envolvimento e participação cívica nas decisões relativas ao processo de urbanização e gestão ambiental da ilha e, a terceira em relação ao envolvimento e participação cívica atuando diretamente na produção, controle e requalificação do espaço urbano.
Importante ressaltar que a participação no processo de planejamento, descrito mais detalhadamente no Capítulo 3, ítem 3.3, requer uma análise mais profunda e exigiria um estudo específico com foco neste tema. Para esta dissertação, a abordagem foi resumida à análise fática, e não filosófica ou conceitual sobre o tema. Sendo assim, pode-se constatar através dos relatórios do plano de mobilização social, no qual consta oficinas temáticas, reuniões nos bairros (localidades), concurso de redaçao nas escolas públicas além das audiências públicas que, no processo de elaboração do plano da ilha foi aberto espaço para o envolvimento e participação cívica. Entretanto, o tempo dispendido para tal etapa pode ser considerado curto e insuficiente para uma participação efetiva, propiciando apenas um “diagnóstico participativo”, onde as principais demandas foram identificadas nas falas durante as reuniões e nas dinâmicas envolvendo mapas, onde os participantes perceberam o espaço e marcaram ali as suas ideias e anseios como pode ser visto a seguir na Figura 16.
Figura 16 - Cartaz do concurso de redação, parte do plano de mobilização popular
Fonte: Relatório Técnico 02 do Plano Estratégico, vol I, Bahia (2004)
A qualificação dos envolvidos no processo estava abaixo do mínimo necessário (informação sobre as potencialidades e limites do plano diretor), por não ter havido uma fase de capacitação anterior, que envolvesse ao menos as lideranças comunitárias. Entende-se que o processo de participação ficou muito abaixo daquele ideal que preconiza o Estatuto da Cidade, sem levar em consideração a questão da viabilidade desta participação “ideal”.
No corpo da Lei do Plano, o discurso da participação aparece logo no início, Art. 1º, nas Disposições Preliminares, quando:
Fica aprovado e instituído o Plano Diretor de Itaparica, com abrangência municipal, instrumento normativo da politica de desenvolvimento urbano municipal elaborado com a participação da comunidade, a partir do diagnóstico físico-ambiental e dos estudos urbanísticos constantes dos Relatórios do Plano Diretor. (Grifo nosso)
O Plano apresenta ainda como um de seus objetivos, contidos no Art. 3º, inciso VI e X, respectivamente: “a valorização e a defesa do espaço urbano pelos cidadãos; ” e “a modernização institucional e promoção da cidadania competente. ”No entanto, o mesmo não esclarece como nem de que forma tais objetivos poderão ser alcançados, assim como também
não explica o significado do termo “cidadania competente” permitindo com isso várias interpretações sobre este termo.
Seguindo a mesma linha de abordagem, em outro trecho, no Art. 4º, inciso I, o Plano institui como princípio “a promoção do planejamento municipal permanente e contínuo, de caráter técnico e político, onde a participação, a negociação e a cooperação com a comunidade sejam práticas fundamentais. ” Evidencia-se mais uma vez a presença do discurso genérico, porém nesse caso, o Plano apresenta ao longo do corpo da lei alguns mecanismos, tais como Organizações e Conselhos Municipais, evidenciados mais adiante, que contribuem, ainda que não garatam, que tal principio seja posto em prática. Diante do exposto, esse tema foi considerado de efetividade alta, uma vez que os mecanismos apresentados foram considerados capazes de impactar positivamente nos indicadores correlatos.
Quando se trata dos mecanismos criados no Plano para dar espaço ao envolvimento e participação cívica, entra diretamente nos temas (17) Organizações e (18) Conselhos municipais urbanos, que têm seus espaços em todos os conselhos e são protagonistas na Agência de Desenvolvimento, como será visto mais adiante. Para esses temas o Plano apresenta um potencial alto de gerar alteração nos indicadores de sustentabilidade, pois institui ao longo do corpo da Lei a criação de Conselhos e outras Organizações, que possibilitam o exercício da cidadania participativa.
Ratificando o que foi dito acima, a Lei do Plano Diretor estabelece por exemplo no Art. 25, a criação do Sistema Municipal de Planejamento, que tem como um dos fundamentos, inciso I: “a promoção de audiências públicas e debates, com a participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade. ” E, como forma de garantir essa representatividade, institui no Art. 26, incisos I ao VI, a seguinte composição: Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano; Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente; Conselho Municipal de Turismo; Secretaria de Planejamento; Agência de Desenvolvimento de Itaparica; e os órgãos setoriais da administração municipal.
Institui também, no Art. 27 a criação do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano, cujas atribuições são definidas nos seguintes incisos: I -avaliar a execução do Plano Diretor, seus planos específicos, programas e projetos e redirecionar suas diretrizes; II - aprovar os projetos estratégicos e de impacto para o desenvolvimento da Cidade; III - realizar debates sobre planejamento e desenvolvimento urbano; IV - acompanhar a
movimentação e aprovar as contas do Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano e do Fundo Municipal de Habitação, quando instituídos.
No Art. 28, define a sua composição tripartite, formada por representantes: I - do Poder Público; II - de organizações representativas de interesses econômicos, inclusive de profissionais liberais; III - de entidades civis sem finalidade econômica.
Outro mecanismo que contribui para sustentabilidade no âmbito do Modelo da Cidadania, se encontra no Art. 30, que estabelece a criação da Agência de
Desenvolvimento21 da Ilha (soma das agências de desenvolvimento instituídas na Lei do Plano Diretor de cada município: Itaparica e Vera Cruz), com o objetivo de viabilizar a implementação de programas, projetos e ações propostos no Plano Diretor Estratégico, através da mobilização e articulação entre o poder público, iniciativa privada e comunidade.
A Agência de Desenvolvimento, segundo Relatório Técnico 02 do Plano Estratégico – vol. II, tem como missão:
A promoção do desenvolvimento da cidade em seus aspectos sociais, econômicos, culturais e urbanos, com reflexos na melhoria da qualidade de vida da população e no estímulo à cidadania. Trata-se de uma proposta alternativa de prover os municípios de instrumento moderno, com agilidade e flexibilidade para melhorar as condições para o desenvolvimento.
Sobre a ideia da Agência, importante ressaltar que, apesar de bastante interessante quanto conceito e missão, apresenta certo distanciamento em relação a realidade, uma vez que sua operacionalidade pressupõe uma situação ideal de relação intermunicipal, sem conflitos, na qual os interesses políticos, econômicos e sociais são considerados comuns às duas administrações, e a noção de “território único e de todos” sobrepõe divergências nos interesses próprios de cada localidade.
O Plano também estabelece, no Art. 32, a criação do Sistema Municipal de Informações, e prevê vinculado a esse, no Art. 35, o funcionamento de um Balcão de Informações “visando facilitar o acesso dos cidadãos às informações da Cidade e aos serviços da administração pública. ”
Por fim, sobre participação cidadã, consta nas Disposições Finais e Transitórias, Art. 36 que:
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A abordagem conceitual mais detalhada sobre a Agência de Desenvolvimento consta do capítulo 4 desta dissertação.
A elaboração, pelo órgão municipal competente, dos Planos Plurianuais, das Leis de Diretrizes Orçamentárias e dos Orçamentos Anuais, deve refletir obrigatoriamente as diretrizes estabelecidas no Plano Diretor e contar com
intensa participação dos cidadãos através do Sistema de Gestão
Participativa. (Grifo nosso)
Portanto, de uma forma geral é possivel considerar que a Lei do Plano consegue apresentar mecanismos que respondem aos indicadores relacionados à dimensão Cidadania sendo, por conseguinte, considerado a efetividade alta, sem olvidar, no entanto, a importância da real mobilização social em torno do processo de implementação do Plano Diretor.
b) Análise das ações previstas no Plano Estratégico
Já no âmbito do plano estratégico, a Agência de Desenvolvimento assume o papel facilitador das ações relacionadas aos temas sugeridos no Modelo Cidadania.
Os objetivos específicos da Agência previstos no plano estão os seguintes:
O estabelecimento de rede de relações articulando o setor público e a sociedade civil organizada e coordenando ações;
O desenvolvimento de projetos conjuntos e programas de intercâmbio e cooperação com: os municípios vizinhos, em especial; organismos de desenvolvimento urbano nacionais ou internacionais, públicos ou privados; a União, os Estados e demais Municípios;
O estabelecimento de canais de articulação e parcerias com: instituições de fomento das esferas pública e privada, nacionais e internacionais; órgãos governamentais; concessionárias de infra-estrutura; e instituições de capacitação/educação, de prestação de serviços sociais e de apoio a atividades econômicas;
A Coordenação e fiscalização da implantação do Plano Diretor de, bem como realização de revisões;
A elaboração e/ou coordenação de projetos e programas de interesse da Ilha, visando a melhoria das condições de vida, com diversos enfoques educacional, ambiental, social, cultural, espacial urbano (meios de habitação, de trabalho, de circulação e de recreação), etc.;
Enfim, por meio da implementação da Agência de Desenvolvimento se pretende estabelecer o elo entre os principais atores sociais (poder público, iniciativa privada e comunidade) que conduzem o desenvolvimento urbano, e que definem o grau de envolvimento e participação da população em geral e das organizações.
Em relação a participação da população, o próprio Plano Estratégico foi construído a partir das demandas advindas no processo de elaboração do Plano Diretor, que contou com a participação da sociedade civil, representantes de comunidades tradicionais (terreiros,
pescadores, marisqueiros etc), representantes do poder público municipal e ONGs ambientalistas. O processo foi, portanto, tão participativo quanto o do plano diretor, e sofreu das mesmas limitações do mesmo.
Quando se trata dos mecanismos criados no plano para dar espaço ao tema (16) Envolvimento e Participação Cívica, têm-se associação direta com os outros temas (18) Conselhos Municipais Urbanos e (17) Organizações, cujos espaços cidadãos estão garantidos em todos os conselhos e o protagonismo reservado na atuação junto a agência de desenvolvimento.
O Balcão de Informações, exemplo de mecanismo para o Envolvimento e Participação Cívica, está vinculado ao Sistema Municipal de Informações e tem seu funcionamento regulamentado pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano, conforme visto anteriormente no Art. 35 da Lei do Plano Diretor, previsto para estar situado no Espaço do Cidadão, projeto estratégico previsto no plano e locado no Projeto de Cidade (Figura 15, pág. 111).
Quanto as ações do Plano Estratégico (PE), previstas no Anexo 2 do Plano Diretor, que impactam nos indicadores associados à Dimesão Cidadania é possivel citar ainda:
Ítem 2.1 - Criar os locais para abrigar o “Espaço do Cidadão” para ser o
lócus do Sistema Municipal de Planejamento de cada município, promotor
de democratização das informações e das decisões;
Ítem 2.2 – Criar Agência de Desenvolvimento da Ilha (agência unificada); Ítem 2.3 - Criar os Conselhos de Desenvolvimento Urbano e Ambiental; Ítem 2.5 - Agregar voluntários para coordenação e participação em programas específicos;
Item 2.9 - Criar sistema de comunicação social para interação com os cidadãos – sugestões, reclamações, participação em projetos, etc;
Item 2.24 - Estabelecer rede de relações articulando o setor público e a sociedade civil organizada e coordenar ações de planejamento;
Ítem 3.4 - Criar programa de Educação e Fiscalizaçào da atividade Maricultora;
Item 3.5 - Criar oficinas profissionalizantes;
Item 3.6 - Criar Comissão Municipal de Emprego e Renda; Item 3.13 - Criar padarias e hortas comunitárias;
Item 3.25 - Formar oficinas para atuarem junto aos PNEs (excepcionais), com a contratação de profissionais especializados: Psicólogos, fonoaudiólogos, assistente social etc,
Item 3.26 - Promover curso em espaços de convivência (crochê, bordado, pinstura, informática, inglês, artes e etc);
Item 3.27 - Instituir o agente social nas comunidades para promover o acompanhamento às famílias;
Item 3.28 - Promover palestras educativas sobre: drogas/prostituição/saúde; Item 3.29 - Promover cusos de informática para os jovens;
Item 3.30 - Incentivar a prática esportiva e a integração nos diversos bairros e entre eles;
Item 3.31 - Promover encontro com os membros das diversas associações de bairros, incentivo ao esporte comunitário, torneio.
Item 4.2 - Instaurar Fórum de Líderes Locais; Item 4.9 - Fomentar educação ambiental;
Item 4.14 - Criar Programa de Estímulo ao Desenvolvimento dos Projetos Cooperativos em Atividades Turísticas;
Item 4.16 - Montar consórcios de pequenos empreendedores locais para absorção de tecnologia em regime cooperativo para exploração da atividade econômica em parceria com BNH;
Item 4.17 - Estimular a criação de cooperativas para montagem de empresas produtoras de produtos derivados da produção agropecuária local em parceria com BNH;
Item 4.18 - Criar o Centro de Estimulo à Exploração Marisqueira; Item 5.3 - Criar os Conselhos de Patrimonio Histórico;
Item 5.6 - Envolver a comunidade na fiscalização, capacitando o cidadão para entender melhor o seu patrimônio;
Item 6.2 - Envolver a comunidade na fiscalização ambiental, promovendo cursos de capacitação, formando vários fiscais voluntários do meio ambiente;
Item 6.3 - Estruturar e equipar conselho de meio ambiente para que possa atuar de forma efetiva no Município;
Item 6.4 - Criar gerência de meio-ambiente ligada a Secretaria de meio- ambiente, à estrutura da Agência de Desenvolvimento e ao conselho de meio-ambiente;
Item 6.7 - Promover intervenções com o objetivo de atrair o cidadão da ilha para o convívio sustentável com o seu meio-ambiente;
Diante da quantidade e da ambrangência que as ações previstas no PE possuem em resposta aos temas associados a Dimensão Cidadania, considerou-se que o mesmo possui efetividade alta (Tabela 6, pág. 104) por apresentar mecanismos com capacidade de alterar a realidade da Ilha nos aspectos da sustentabilidade vinculados à Cidadania.
4.1.2.3. Modelo Patrimônio