10.7 O Teorema de Decomposi¸ c˜ ao de Jordan e a Forma Canˆ onica de Matrizes
10.7.3 Matrizes Nilpotentes e sua Representa¸c˜ ao Canˆ onica
Os teoremas que estudamos acima nesta se¸c˜ao revelam a importˆancia de matrizes nilpotentes. Um fato relevante ´e que elas podem ser representadas de uma forma especial, denominada forma canˆonica, da qual traremos logo abaixo. Antes, alguma prepara¸c˜ao se faz necess´aria.
Seja N∈Mat (C, n) uma matriz nilpotente de ´ındiceq, ou seja,Nq = 0, masNq−16= 0. Para uso futuro, provemos o seguinte lema:
Lema 10.8 Seja N uma matriz nilpotente de ´ındiceq. Est˜ao existe um vetor v6= 0tal que os q vetores
v, N v, N2v, . . . , Nq−1v , (10.114)
s˜ao linearmente independentes. Fora isso, o subespa¸co q-dimensional Jv, q :=hv, N v, N2v, . . . , Nq−1vi de V gerado
por esses qvetores ´e invariante por N. 2
Prova. Seq= 1, ent˜aoN = 0 e n˜ao h´a nada a provar, pois a afirma¸c˜ao ´e trivialmente verdadeira para qualquerv 6= 0.
Seja ent˜ao q > 1 (em cujo caso N 6= 0, trivialmente). Sabemos, por hip´otese, que a matriz Nq−1 ´e n˜ao-nula. Isso significa que existe pelo menos um vetor v 6= 0 tal que Nq−1v 6= 0. Fixemos um tal vetor. ´E imediato que os vetores N v, N2v, . . . , Nq−1v s˜ao todos n˜ao nulos pois, se tiv´essemos Njv= 0 para algum 1≤j < q−1, ent˜ao, aplicando-se Nq−1−j `a esquerda, ter´ıamosNq−1v= 0, uma contradi¸c˜ao.
Sejam agoraα1, . . . , αq escalares tais que
α1v+α2N v+α3N2v+· · ·+αqNq−1v = 0. (10.115) Aplicando-seNq−1 nessa igualdade e lembrando que Nq = 0, conclu´ımos que α1Nq−1v = 0. ComoNq−1v 6= 0, segue queα1= 0 e, com isso, (10.115) fica
α2N v+α3N2v+· · ·+αqNq−1v = 0. (10.116) Aplicando agoraNq−2 nessa igualdade conclu´ımos queα2= 0. Prosseguindo, conclu´ımos depois deq passos que todos os escalaresαj s˜ao nulos. Isso prova que osqvetores de (10.114) s˜ao linearmente independentes.
Que o subespa¸coJv, qdefinido acima ´e invariante porN ´e evidente pois, para quaisquer escalaresβ1, . . . , βq, tem-se N β1v+β2N v+· · ·+βqNq−1v
= β1N v+β2N2v+· · ·+βq−1Nq−1v ∈ Jv, q.
O seguinte teorema ´e central para o que segue.
Teorema 10.23 SeN´e uma matriz nilpotente de ´ındiceqagindo emV evum vetor com a propriedade queNq−1v6= 0, ent˜ao existe um subespa¸coK de V tal queJv, q∩K={0}, tal que V =Jv, q⊕K e tal queK ´e tamb´em invariante por
N. 2
Prova.28 A prova ´e feita por indu¸c˜ao em q. Note-se que se q= 1, ent˜ao N = 0 e a afirmativa ´e trivial, pois podemos tomar comovqualquer vetor n˜ao-nulo,Jv, q seria o subespa¸co gerado por esseveKo subespa¸co complementar av, que
´e trivialmente invariante porN, poisN = 0.
28Extra´ıda, com modifica¸c˜oes, de [157].
Vamos supor ent˜ao que a afirma¸c˜ao seja v´alida para matrizes nilpotentes de ´ındiceq−1 e provar que a mesma ´e v´alida para matrizes nilpotentes de ´ındiceq. O que desejamos ´e construir um subespa¸coK com as propriedades desejadas, ou seja, tal queV =Jv, q⊕K, sendoK invariante porN.
SejaV0=R(N) o conjunto imagem deN. Sabemos queV0´e um subespa¸co deV e que ´e invariante porN. Fora isso, N ´e nilpotente de ´ındiceq−1 agindo emV0(por quˆe?)
Seja v0=N v∈V0. ´E claro que Nq−2v0=Nq−1v6= 0. Assim, pelo Lema 10.8, o subespa¸co (q−1)-dimensional Jv0, q−1 = hv0, N v0, . . . , Nq−2v0i = hN v, N2v, . . . , Nq−1vi = JN v, q−1,
que ´e um subespa¸co deV0, ´e invariante porN e, da hip´otese indutiva, conclu´ımos que existe um subespa¸coK0deV0 que
´e invariante porN tal queJN v, q−1∩K0={0}e tal queV0=JN v, q−1⊕K0. Seja agoraK1:={x∈V|N x∈K0}. Vamos provar a seguinte afirma¸c˜ao:
I. Todo vetorxdeV pode ser escrito na formax=y+zondey∈Jv, q ez∈K1.
Para provar isso, notemos que para qualquer x∈V vale certamente queN x∈V0. Portanto, como pela hip´otese indutivaV0=JN v, q−1⊕K0, podemos escreverN x=y′+z′, comy′∈JN v, q−1ez′∈K0. Comoy′∈JN v, q−1,y′´e da forma de uma combina¸c˜ao lineary′ =α1N v+· · ·+αq−1Nq−1v=N y, ondey:=α1v+α2N v+· · ·+αq−1Nq−2v
´e um elemento de Jv, q. Logo,z′ =N(x−y). Comoz′ ∈K0, segue quez:=x−y∈K1. Assim, x=y+z, com y∈Jv, q ez∈K1. Isso provouI.
Note que a afirma¸c˜ao feita em I n˜ao significa que V =Jv, q⊕K1, pois os subespa¸cos Jv, q e K1 podem ter uma intersec¸c˜ao n˜ao-trivial. Tem-se, por´em, o seguinte:
II. Jv, q∩K0={0}.
Provemos essa afirma¸c˜ao. Seja x∈Jv, q∩K0. Comox∈Jv, q, x´e da formax=α1v+α2N v+· · ·+αqNq−1v.
Logo N x=α1N v+α2N2v+· · ·+αq−1Nq−1v∈JN v, q−1. Agora, comox∈K0 e, por hip´otese,K0 ´e invariante por N, segue queN x∈K0. Logo, N x∈JN v, q−1∩K0. Todavia, mencionamos acima que JN v, q−1∩K0={0}. Logo, N x = 0, ou seja, 0 = N x = α1N v+α2N2v+· · ·+αq−1Nq−1v. Como os vetores N v, . . . , Nq−1v s˜ao linearmente independentes, conclu´ımos queα1=· · ·αq−1= 0. Logo,x=αqNq−1v. Isso significa quex∈JN v, q−1. Demonstramos, ent˜ao, que se x∈Jv, q∩K0 ent˜aox∈JN v, q−1∩K0 mas, comoJN v, q−1∩K0={0}, segue que x= 0. Isso conclui a prova de II.
III. K0 eJv, q∩K1, s˜ao dois subespa¸cos disjuntos deK1.
A demonstra¸c˜ao ´e muito simples. ´E evidente queJv, q∩K1´e subespa¸co deK1. ComoK0´e invariante pela a¸c˜ao de N, segue que sex∈K0 ent˜aoN x∈K0. Pela defini¸c˜ao, isso diz quex∈K1e conclu´ımos queK0´e um subespa¸co eK1.
QueK0eJv, q∩K1s˜ao subespa¸cos disjuntos, segue do fato que
K0∩(Jv, q∩K1) = K1∩(Jv, q∩K0) II= K1∩ {0}={0}.
A afirma¸c˜ao IIIimplica que K1 = (Jv, q∩K1)⊕K0⊕K0′ para algum subespa¸co K0′ de K1 (n˜ao necessariamente
´
unico). Seja agoraK:=K0⊕K0′. Note queK1= (Jv, q∩K1)⊕K e, portanto,
(Jv, q∩K1)∩K = {0}. (10.117)
Provaremos que esseK possui as propriedades desejadas, ou seja, queV =Jv, q⊕K, sendoK invariante porN. Isso ´e feito em trˆes passos.
1. Jv, qeKs˜ao subespa¸cos disjuntos, ou seja,Jv, q∩K={0}, pois, comoK⊂K1, segue queK=K∩K1e, portanto, Jv, q∩K = Jv, q∩(K∩K1) = (Jv, q∩K1)∩K (10.117)= {0}.
2. Jv, q⊕K cont´em os vetores deJv, q e de (Jv, q∩K1)⊕K=K1. PorI, isso implica queJv, q⊕K=V.
3. K ´e invariante porN, pois o fato queK⊂K1, implica, pela defini¸c˜ao deK1, queN K⊂N K1⊂K0⊂K.
A prova do Teorema 10.23 est´a completa
A principal consequˆencia do Teorema 10.23 ´e a seguinte.
Proposi¸c˜ao 10.32 SejaN ∈Mat (C, n)uma matriz nilpotente de ´ındice q. Ent˜ao, existem 1. um inteiro positivo r, com1≤r≤n,
2. r n´umeros inteiros positivos n≥q1≥q2≥ · · · ≥qr≥1, com q1+· · ·+qr=n, 3. r vetoresv1, . . . , vr satisfazendoNqjvj = 0mas Nqj−1vj 6= 0,j= 1, . . . , r, tais que
V = Jv1, q1⊕ · · · ⊕Jvr, qr .
2
Prova. Se q= 1 ent˜aoN = 0. Basta tomar r=n e escolherv1, . . . , vn uma base qualquer em V. Os qj’s s˜ao todos iguais a 1.
Consideremos ent˜ao q > 1 com N 6= 0. Tomemos q1 = q. Pelo Teorema 10.23, existem um vetor v1 6= 0 e um subespa¸coK1, invariante porN tais que
V = Jv1, q1⊕K1.
Como K1 ´e invariante por N, podemos tamb´em dizer que a matriz N ´e nilpotente quando restrita a K1 (j´a que ´e nilpotente em todoV). Denotemos porq2o ´ındice deN quando restrita aK1. ´E claro que q2≤q=q1.
Assim, podemos aplicar o Teorema 10.23 para a matriz N restrita a K1 e concluir que existe v2 6= 0 em K1 e um subespa¸coK2 deK1, invariante porN, tais que K1=Jv2, q2⊕K2. Note queNq2v2= 0, poisv2∈K1.
Com isso, temos
V = Jv1, q1⊕Jv2, q2⊕K2.
NovamenteK2´e invariante por N e, comoK2´e um subespa¸co deK1. O ´ındice deN emK2ser´aq3≤q2≤q1.
O espa¸co V tem dimens˜ao finita. Assim, a prova se conclu´ı repetindo o procedimento acima um n´umero finitor de vezes. Note queNqjvj= 0, poisNq1v1= 0, evj∈Kj−1 para todoj= 2, . . . , r.
Pela constru¸c˜ao acima, ´e claro que q1+· · ·+qr=n, a dimens˜ao deV, e que osnvetores v1, N v1, . . . , Nq1−1v1, v2, N v2, . . . , Nq2−1v2, . . . , vr, N vr, . . . , Nqr−1vr
s˜ao linearmente independentes e formam uma base em V. Vamos denot´a-los (na ordem em que aparecem acima) por b1, . . . , bn.
Note agora que, pela constru¸c˜ao,N bj =bj+1, para jem cada um dos conjuntos
{1, . . . , q1−1}, {1 +q1, . . . , q1+q2−1}, {1 +q1+q2, . . . , q1+q2+q3−1},
. . . {1 +q1+· · ·+qr−1, . . . , q1+· · ·+qr−1}, (10.118) coml= 0, . . . , r−1, sendo queN bj= 0 para todoj na formaq1+· · ·+ql,l= 1, . . . , r.
E. 10.37 Exerc´ıcio importante para compreender o que segue. Justifique as ´ultimas afirma¸c˜oes. 6
0
0
0
0
0 0
0
0 1
1 1
1
1
1 1
01
N = }2
}
r1
(q − 1) vezes
(q − 1) vezes
(q − 1) vezes
}
Figura 10.5: Forma canˆonica t´ıpica de uma matriz nilpotente N. Os elementos da primeira supradiagonal podem valer 0 ou 1. Todos os demais elementos de matriz s˜ao nulos.
Isso significa que na base b1, . . . , bn os elementos de matriz de N s˜ao todos nulos exceto aqueles na forma Nj, j+1
comj em algum dos conjuntos listados em (10.118), em cujo casoNj, j+1 = 1. Pictoricamente, isso diz-nos que na base b1, . . . , bn a matrizN assume uma forma genericamente ilustrada na Figura 10.5. Essa ´e a denominadaforma canˆonica da matriz nilpotenteN ourepresenta¸c˜ao canˆonica da matriz nilpotenteN, que descrevemos mais detalhadamente no que segue.
Os elementos da diagonal principal s˜ao todos nulos. Os ´unicos elementos n˜ao nulos da matriz podem estar localizados apenas na diagonal imediatamente acima da principal, ou seja, aquela diagonal formada por elementos de matriz do tipo Nj, j+1 com j = 1, . . . , n−1. Chamaremos essa diagonal de primeira supradiagonal. Os elementos da primeira supradiagonal podem ser 0 ou 1, da forma seguinte: a primeira supradiagonal possuir´a r fileiras. As primeiras r−1 fileiras s˜ao formadas porqj elementos,j= 1, . . . , n−1, sendo os primeirosqj−1 elementos iguais a 1 e o ´ultimo igual a 0. A ´ultima fileira ter´a qr−1 elementos iguais a 1. Assim, se qr = 1, o ´ultimo elemento da primeira supradiagonal ser´a nulo, proveniente da (r−1)-´esima fileira (essa ´e a ´unica forma de aparecer um zero no ´ultimo elemento da primeira supradiagonal).
Note que zeros consecutivos podem ocorrer, se tivermos alguns qj’s iguais a 1. Note tamb´em que os elementos da primeira supradiagonal podem ser todos nulos (o que valer´a se r =n, em cujo caso q1 =· · · = rn = 1. Isso s´o pode ocorrer seN = 0 e, nesse caso,q= 1) ou todos iguais a 1 (o que valer´a ser= 1, em cujo casoq1=n).