Leandro Antônio Dariva
5. MECANISMOS PARA O INCREMENTO COMERCIAL ENTRE O ESTADO DE SANTA CATARINA E OS
EMIRADOS ÁRABES UNIDOS
Num cenário profundamente globalizado, a alta concorrência internacional acaba por exigir dos produtores avícolas catarinenses a adoção de mecanismos com vistas à manutenção das suas exporta- ções ao mercado árabe. Nesse sentido, informações precisas a respei- to dos indicadores sociais, políticos, econômicos, culturais, tecnoló- gicos, marcos regulatórios, capacidade de consumo, ciclo de vida dos produtos congêneres, forma de atuação da concorrência local, entre
outros, possibilitam uma melhor inserção internacional, maximizan- do os lucros e reduzindo os riscos. Para tanto, faz-se indispensável uma pesquisa de mercado concentrada, identificando os principais nichos de mercado e possibilidades de expansão.
Nos Emirados Árabes Unidos, a forma liberalizada como é tra- tado o mercado alimentício, principalmente, através da isenção de taxas de importação sobre a carne de frango, somada às altas possibi- lidades de ganho em um segmento que movimenta mais de 3 bilhões de euros anuais, acabam por torná-lo um ambiente extremamente competitivo. (AGÊNCIA DE NOTÍCIAS ÁRABE BRASIL, 2008).
Como consequência, deve haver por parte da empresa catari- nense uma busca crescente pela inovação, diversificação e qualidade de seus produtos, dedicando-se de fato ao mercado local. Para tan- to, além de investimentos produtivos, deve-se dar especial atenção à mão-de-obra, para que esta esteja apta a suprir todos os requisitos indicados pelo importador.
Além disso, a constante capacitação dos profissionais encar- regados das estratégias empresarias com os países árabes, garantirá aos mesmos a habilidade necessária para identificar oportunidades e concretizar intercâmbios comerciais. Por isso, mais do que a simples realização, é importante a presença marcante dos empresários, nos diversos seminários sobre negociações e mercados árabes, promo- vidos no estado pela Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), em parceria com a Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Tais eventos são sempre de grande valia para profissionais engajados em comercializar, de modo correto e eficaz com os impor- tadores dos Emirados Árabes Unidos e região.
Paralelamente, é relevante tomar conhecimento de outros ins- trumentos que se bem utilizados, poderão se tornar um diferencial, contribuindo assim para a ampliação da corrente comercial de carne de frango com o país árabe. E é, justamente, com essa finalidade, que se realizam a promoção comercial, a divulgação de material promo- cional, as rodadas de negócios, as aberturas de escritórios ou repre- sentações comerciais e o auxílio das câmaras de comércio.
A promoção comercial, entendida como a divulgação da ima- gem e dos produtos de uma empresa, com vistas a construir um am- biente favorável à sua atuação, pode ser um dos componentes para o sucesso catarinense na região arábica. Isso porque a promoção pres-
supõe uma gama variada de atividades, dentre elas a participação em eventos internacionais como feiras e missões. (FARO, 2007).
Em relação às feiras, exposições e mostras internacionais, as empresas catarinenses têm à sua disposição uma importante ferra- menta de marketing. Pelo fato de algumas delas serem relativamen- te desconhecidas no mercado emirense, as participações em feiras comerciais são de grande impacto na sua promoção comercial. Isso porque ao mobilizar um grande número de potenciais consumidores em um único espaço, acabam possibilitando o fechamento imediato de negócios. Não obstante, é um evento em que os visitantes podem ser observados como eventuais consumidores, demonstrando sua re- ação ante os produtos expostos. (FARO, 2007).
No tocante às feiras, os EAU são particularmente atraentes. Isso porque são realizados anualmente no país cerca de 600 eventos comer- ciais, dentre eles a principal feira de produtos alimentícios do Oriente Médio: a Gulfood. (CÂMARA ÁRABE NOTÍCIAS, 2008). Organiza- da desde 1987, a feira contou somente em 2008 com cerca de 2,5 mil expositores de 72 países, distribuídos numa área de mais de 60 mil metros quadrados. Além disso, o alto grau de internacionalização do evento gerou a expectativa de contar com a presença de mais de 38 mil visitantes, dos quais, empresários de 140 países, ressaltando sua impor- tância na geração de oportunidades. (ROCHA, 2008).
Outro mecanismo bastante difundido são as missões empre- sariais, ou seja, “as viagens realizadas com o objetivo de promover a aproximação de representantes dos segmentos produtivos dos mer- cados envolvidos nessa iniciativa (o visitante e o visitado)” (FARO, 2007, p. 213). Nesse quesito em particular, o empresariado de Santa Catarina está há muito tempo engajado, tomando como exemplo a iniciativa do governador catarinense Luís Henrique da Silveira em liderar uma missão empresarial aos Emirados Árabes Unidos, no mês de novembro de 2008. Previamente, discutida e elaborada em Floria- nópolis, segundo o embaixador dos Emirados em Brasília, Youssuf Ali Al-Usaimi, a viagem teria como objetivo colocar frente a frente empresários dos dois países e alavancar as oportunidades de negó- cios (ROCHA, 2008).
Outra iniciativa de expansão comercial pode ser desenvolvi- da através da divulgação de materiais promocionais. Nesse quesito, incluem-se itens como “[...] folders, brochuras, catálogos, listas de
produtos, ou, ainda, Cds e DVDs, por se tratar de elementos de fácil obtenção, custo relativamente baixo, e que não enfrentam dificulda- des extremas no seu desenvolvimento e elaboração, podem e devem ser utilizados à exaustão”. (FARO, 2007, p. 211).
Mecanismo, igualmente, importante para alavancar a expor- tação, é a abertura de escritórios e representações comerciais no país foco. Através dessa iniciativa, a empresa pode realizar de maneira mais efetiva sua promoção comercial. Além disso, estando mais próxi- ma dos importadores e do mercado local, facilita-se tanto a prospec- ção de novas oportunidades de negócios, quanto o acompanhamento das tendências do mercado. Segundo Amilcar Lacerda de Almeida, gerente de comércio exterior da Associação Brasileira da Indústria da Alimentação (ABIA), “ter um escritório no local é fundamental para aumentar a exportação”. (DANIEL, 2008).
Na sequência, observa-se a contribuição das rodadas de negó- cios, como forma de promover o conhecimento mútuo das partes en- volvidas na negociação. Geralmente, reuniões previamente agendadas, de curta duração, as rodadas de negócios são as principais responsáveis por colocar frente a frente os potenciais importadores e exportadores. Cada vez mais comuns devido ao baixo custo, são empreendidos inclu- sive com a ajuda de organizações como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). (FARO, 2007).
As empresas catarinenses atuantes no comércio exterior têm ainda o incentivo das Câmaras de Comércio, responsáveis, direta- mente pelo fomento dos intercâmbios comerciais. Sociedades civis sem fins lucrativos são reconhecidas oficialmente pelo país que re- presentam. Nesse contexto de participação ativa no estímulo às tro- cas bilaterais, especificamente, no tocante ao Brasil e os países árabes, que se apresenta a Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB). (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO INDÚSTRIA E COMÉR- CIO EXTERIOR, 2008).
Fundada há mais de 50 anos, a CCAB tem a missão de incre- mentar o intercâmbio econômico e cultural entre as regiões, sendo a única representante dos 22 países da Liga dos Estados Árabes re- conhecida do país. Integrando ainda a União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes, está capacitada a oferecer os serviços mais relevantes ao segmento empresarial, como a coleta de informações sobre hábitos de consumo e de comércio, di-
vulgação do calendário islâmico, consultas comerciais, certificação de documentos, publicidade e embalagens, recebimento de delegações internacionais, e promoção de seminários e palestras, tudo com a fi- nalidade de melhor assessorar empresários árabes e brasileiros. (CÂ- MARA DE COMÉRCIO ÁRABE BRASILEIRA, 2008).
Com efeito, auxilia ainda um dos mecanismos mais eficazes ao setor empresarial brasileiro, desejoso por comercializar com os Emi- rados Árabes: o Centro de Negócio Dubai (CN Dubai).
Fruto de uma parceria entre a Câmara Árabe e a APEX Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), o CN Dubai coloca à disposição dos exportadores, escritórios e servi-
ços administrativos, além de espaços destinados à armazenagem,
com o objetivo de facilitar a operacionalização das vendas, atender à dinâmica da demanda local (estoques), garantir acesso a mercados regionais e reduzir os custos e riscos de internacionalização. (CÂMA- RA DE COMÉRCIO ÁRABE BRASILEIRA, 2008).
Por fim, é importante destacar a atuação do governo brasileiro ao longo dos anos, no sentido de fomentar a participação do país no comércio internacional, principalmente, a partir do Ministério das Re- lações Exteriores (MRE) e do Ministério de Desenvolvimento, Indús- tria e Comércio Exterior (MDIC). Nesse sentido, estão à disposição do empresariado uma grande variedade de sites e instrumentos governa- mentais, que se propõem a auxiliar as atividades de comércio exterior.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A queda do Muro de Berlim significou o predomínio do mo- delo capitalista, desenvolvido a partir da premissa de que a iniciativa privada e o mercado são dois condicionantes para o desenvolvimento de uma nação. O papel do Estado, por sua vez, ao menos interna- mente, passou de indutor do progresso a mero regulador das relações econômicas, ainda que com poderes limitados frente ao capital.
Geralmente, associado à ineficiência administrativa pela tese neoliberal, o que se viu foi a intensificação do intercâmbio interna- cional de bens, capitais, serviços e pessoas, que limitaram ainda mais sua atuação a mero espectador de transações e investimentos inter- nacionais, que, não raras vezes, contribuíram para a vulnerabilidade econômica nacional.
Essa condição deveu-se em grande parte ao alto grau de endi- vidamento dos países em via de desenvolvimento, resultado da aber- tura econômica sem capacidade competitiva. Como consequência, à recorrente busca por financiamentos externos, especialmente, junto ao Fundo Monetário Internacional, atrelavam ainda mais o Estado devedor ao compromisso de “[...] zerar o déficit público, tomar atitu- des claramente de recessão, que, evidentemente, não seriam as mais adequadas para o Terceiro Mundo”. (FARIA, 1997, p. 205)
Contudo, muitos Estados estão recuperando seu papel ativo não somente através da formulação de políticas que visam o aumen- to das exportações nacionais, como também se fazem notar na pros- pecção, consolidação e ampliação de mercados. Atualmente, não só o governo brasileiro, mas também as suas unidades federativas e a iniciativa privada têm trabalhado de forma conjunta e coordenada no intuito de atrair recursos externos.
Nesse sentido, a liberalização econômica possibilitou a inserção das empresas nacionais nos mais distintos mercados, o que seria, pra- ticamente, impossível num ambiente conflituoso e fechado, a qualquer iniciativa alheia a um dos blocos dominantes. Como resultado, os mer- cados árabes passaram a ser mais visíveis, atrativos e viáveis, sugerindo uma maior participação brasileira nas suas relações econômicas.
Com cerca de 60% de sua população estabelecida em áreas ári- das ou semi-áridas, e, portanto, de baixa produtividade, esses países têm a necessidade de importar cerca de 90% de suas demandas por alimentos, sendo muito promissores nesse segmento. Essa necessidade, por sua vez, faz com que o comércio não seja profundamente afetado por recorrentes crises mundiais, uma vez que nesses períodos de in- certeza, os itens alimentícios são sempre os últimos a serem cortados pelos consumidores. O mercado emirense em especial, ao importar, em 2006, itens alimentícios na ordem de US$ 6,2 bilhões, dos quais o Brasil representou parcela de US$ 810,23 milhões desse comércio, acaba de- monstrando o enorme potencial ainda a ser conquistado.
Santa Catarina, por sua vez, no segmento alimentício, abastece esse mercado árabe, principalmente, com a carne de frango, item que compõe a dieta daquela população local. Como consequência, o esta- do tem, no Golfo Arábico a figura dos Emirados Árabes Unidos como tradicional parceiro comercial, cujo destaque tem crescido, especial- mente, a partir de 2003.
Oscilando entre a 24ª e 26ª posição de destino às exportações es- taduais, os Emirados proporcionam uma sinergia comercial, em grande parte, pelo crescimento populacional do país árabe, cuja parcela majo- ritária da população é muçulmana, e por isso, consome diariamente a carne de frango. Paralelamente a tal crescimento populacional, está o alto poder de compra dos nacionais, com renda per capita em torno de aproximadamente US$ 25 mil dólares, ainda em 2005. Tais fatores, num contexto de crescimento sustentável, principalmente, voltado ao turismo como meio de diversificação econômica, fazem deste Estado um ambien- te propício para uma maior participação catarinense em seu mercado.
Responsável pela posição de principal exportador brasileiro de carne de frango em termos de receita, o estado de Santa Catarina mantém com os Emirados Árabes Unidos um intercâmbio comercial oscilante em relação ao produto alimentício. Nesse sentido, a carne de frango na versão congelada, embora tenha variado algumas vezes, reto- mou o crescimento em 2008, alcançando, somente no primeiro semes- tre, valores muito próximos do total obtido em 2007. Já as miudezas de galos e galinhas, mesmo que tenham representados valores e volumes exportados inferiores aos registrados pelo item anterior, ainda assim demonstraram maior estabilidade e a tendência de franca expansão.
De acordo com a pesquisa de mercado “Hábitos de Consumo e Decisão de Compra nos Emirados Árabes Unidos”, elaborada e divul- gada pelo secretário-geral da Pan Arab Research, a carne de frango é a preferência nacional dentre as carnes, compondo o terceiro item de maior consumo semanal (41%). Já dentre as suas versões, prevalece a natural (50%), seguida pela versão congelada (41%) e pela carne já pronta (39%). Essa relativa paridade de escolha entre elas, por sua vez, demonstra a ampla aceitação do consumidor nacional pelas dife- rentes versões da carne, desde que apresentem qualidade. (CÂMARA ÁRABE NOTÍCIAS, 2008). Em razão disso, esse mercado diversifica- do e atrativo deve ser mais bem divulgado.
Levando essas afirmativas em consideração, tem-se, portanto, que em relação ao intuito de identificar se há capacidade importado- ra nos Emirados para ampliar o comércio bilateral do produto sele- cionado, a resposta é positiva, no sentido de haver amplo espaço a ser ocupado pelo produto catarinense.
De modo geral, é importante aprofundar estudos nessa área para que a partir de novas abordagens, os acadêmicos, estudiosos, e
interessados no tema dos Emirados, disseminem, entre os leitores, o propósito de ser um internacionalista, aplicando seu conhecimento para desenvolver, ainda mais, o estado catarinense através da parce- ria, da cooperação, e do diálogo com os países árabes.
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