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Hernanda Tonini

2.2. PROCEDIMENTOS METODÓLOGICOS

Do ponto de vista dos procedimentos técnicos, o presente ar- tigo fez uso de pesquisa bibliográfica no intuito de fundamentar os termos turismo e imagem, além da coleta de dados, objetivando co- nhecer o comportamento do universo pesquisado.

O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questio- nário estruturado com 13 questões, dentre as quais, seis eram fechadas (de múltipla escolha) e sete eram questões abertas. As três primeiras perguntas buscavam informações sócio-econômicas do respondente, as questões quatro a sete relacionavam-se a aspectos gerais do Brasil e as demais eram direcionadas à percepção da imagem do País.

Antes da aplicação definitiva do instrumento, foi realizado um pré-teste para verificar sua eficiência, com amostras intencionais que representassem o “bom julgamento” da população pesquisada (não pro- babilística). A caracterização e a seleção da amostragem pesquisada fo- ram realizadas em um padrão de pessoas consideradas clientes e clien- tes potenciais da Operadora Tucano Viaggi e Ricerca di Willy Fassio6.

Após alguns ajustes, o questionário final foi enviado por en- dereço eletrônico, em maio de 2007, acompanhado de uma carta de apresentação, para uma amostra de 50 pessoas, segundo os mesmos critérios de seleção da amostra. Deste total, 44 pessoas retornaram o instrumento preenchido. Todos os questionários foram enviados por e-mail e demoraram em média dez dias para retornarem respondidos.

Os dados recebidos foram tabulados eletronicamente. Quanto aos métodos e técnicas de análise, utilizou-se o método dedutivo e estatístico. No tratamento das informações, foram utilizadas tanto a forma quantitativa, que permite a identificação expressa em núme- ros, quanto a qualitativa, que permite a percepção da opinião da so- ciedade e a forma como esta encara determinado problema.

6 Operadora italiana que trabalha um nicho de turistas diferenciados, e que tem como lema o “viajar para conhecer”.

3. RESULTADOS

O instrumento aplicado identificou que apenas 19% dos entre- vistados já visitaram o Brasil. O imaginário destes é formado pelas informações que obtiveram antes das viagens, somadas às experiên- cias e memórias vivenciadas no destino. A grande maioria (81%) dos respondentes não conhece o País, embora todos queiram conhecer, possui um imaginário criado através dos recortes temporais e espa- ciais, que entram em contato através da mídia ou de pessoas conheci- das que já estiveram no Brasil.

Do universo dos entrevistados, 53% são do sexo feminino, en- quanto os outros 47% são do sexo masculino, o que demonstra que o resultado da pesquisa foi bastante homogêneo no que diz respeito a esse item. Quanto à faixa etária, 30% dos entrevistados encontram-se na faixa que vai dos 32 aos 45 anos de idade, 26% pertencem à faixa que vai dos 26 aos 31 anos, 23% correspondem à faixa de idade que vai dos 18 aos 25 anos, 19% dos entrevistados possuem entre 46 e 59 anos, e apenas 2% tem mais de 60 anos. Quanto à profissão, a maioria dos entrevistados ocupa cargos gerenciais (21%), são profissionais li- berais (18%) ou são funcionários tanto de empresas públicas quanto privadas (16%). Uma pequena parcela dos respondentes corresponde a operários (5%).

No que tange às motivações, cabe ressaltar que muitos dos respondentes citaram mais de um motivo. Dentre eles, em primei- ro lugar estão as pessoas, ou seja, o povo brasileiro (21%), seguido pela natureza (19%), o fator motivacional relativo à cultura do povo brasileiro (17%), a alegria (14%), a curiosidade em conhecer o Brasil (10%), as contradições sociais (7%), a música (5%) e, por último, cada um com 2% dos votos estão o turismo e o clima (quente).

Dentre os respondentes que visitaram o Brasil, 13 cidades foram citadas. Em primeiro lugar aparece Rio de Janeiro (22%), seguido por São Paulo (18%), em terceiro lugar estão empatadas as cidades de Natal, Recife, Blumenau e Florianópolis (8% cada), seguidas pelas cidades de Manaus, Brasília, Salvador, Camboriú, Curitiba, Maceió e Fortaleza (4% cada). Se pudessem retornar em outra oportunidade, 17% dos entrevistados gostariam de visitar as cidades do Rio de Janeiro e Fortaleza. Em segundo lugar, com 12%, foram indicadas todas as cidades do Brasil, seguidas das outras ci-

dades/regiões citadas, que foram: Sul do Brasil, Salvador, Costa Bra- sileira, Cidades do Interior, Porto Alegre, Florianópolis, São Luiz, Recife e Natal, cada uma com 6%.

Para identificar os possíveis concorrentes do País, os entrevis- tados foram questionados para quais países viajariam ao invés do Brasil. Em primeiro lugar apareceu os Estados Unidos (25%), seguido de Cuba (15%), Caribe e México (11% cada) e Venezuela (9%). Com menores preferências estão Nova Zelândia, Polinésia, Índia e Austrá- lia (cada um com 4%), e por fim Holanda, Argentina e Japão, com 2% do total do universo pesquisado.

Nas questões direcionadas a descobrir o imaginário do Brasil para o turista italiano, o primeiro elemento que se destaca é a pobre- za. Conforme o gráfico a seguir, cada entrevistado citou vários as- pectos que podem ser determinantes na decisão de não viajar para o País, sendo que o elemento negativo mais citado foi a pobreza da população (26%), seguida da falta de segurança (20%). O fator crimi- nalidade foi o terceiro mais indicado (18%), seguido de três aspec- tos que dividem o quarto lugar: as favelas, as desigualdades sociais e econômicas e nada, todos com 6%. O fato de o Brasil ser um País subdesenvolvido, o turismo sexual e a propaganda negativa feita nos países de origem, tiveram cada um 4% dos votos. Por último, com 2%, foi indicada a falta de planejamento.

Figura 01: Quais são os aspectos negativos do Brasil e quais elemen-

Com relação aos motivos para uma viagem ao Brasil, os en- trevistados consideraram que os principais atrativos são a natureza (18%), a Floresta Amazônica (17%), o povo brasileiro (14%), o Car- naval e as praias (12%), o clima e a gastronomia (7%), as mulheres bonitas (6%). Menor destaque para o futebol, os museus e as igrejas, cada um com 4%, 2% e 1%, respectivamente.

Figura 02: Na sua opinião, quais são os atrativos mais significativos

para uma viagem ao Brasil?

Os motivos pelos quais o turista italiano escolhe o Brasil como destino turístico podem ser agrupados em 3 categorias: a natureza, que é o principal motivo apontado pelos entrevistados, unindo os atrativos naturais, Floresta Amazônica, clima e praias, obtendo mais de 50% das indicações. As pessoas, o Carnaval, a gastronomia, os mu- seus, as igrejas e o futebol podem ser reunidos na categoria cultural. O item mulheres bonitas, com apenas 6%, identifica a categoria sexual. O baixo percentual dessa última categoria nos remete à ideia de que a visão do Brasil sexual, construída através das ações de divulgação do País pode estar, finalmente, sendo desfeita. No entanto, o alto índice, obtido pelos atrativos, pessoas e o carnaval pode subentender que os respondentes têm um interesse erótico manifestado por alternativas apresentadas na questão.

Quando questionados sobre a gastronomia brasileira, resultou o seguinte gráfico:

Figura 03: Conhece a diversidade da gastronomia brasileira? Se sim,

cite os prato que conhece.

No gráfico acima, 34% dos entrevistados lembraram o chur- rasco/picanha como parte da gastronomia brasileira, seguido pela feijoada, com 31%, a caipirinha com 11%, a banana frita com 6%, e os demais pratos, açaí, batidas, feijão com arroz, farofa, coxinha de galinha e cerveja “Brahma”, cada um com 3%.

Apesar de fazer parte da cultura da região sul do País, o chur- rasco está tão atrelado ao imaginário do Brasil quanto à feijoada, considerada pelo senso comum como o prato típico mais conhecido pelos estrangeiros, bem como a caipirinha.

Quando questionados sobre o custo de uma viagem ao Brasil, a maioria dos turistas entrevistados considera caro, enquanto uma peque- na parcela avalia como um destino econômico, conforme o gráfico abaixo:

Cabe ressaltar que, durante as entrevistas, os participantes dei- xaram claro que o que encarece a viagem é o valor do bilhete aéreo e não o que se gasta no País.

Quando perguntados sobre a duração ideal de uma viagem ao Brasil, 29% dos entrevistados indicaram um período de vinte dias como ideal. Como segunda opção, os respondentes dividiram-se en- tre 25 e 15 dias, cada um com 20%. Para 16% dos turistas pesqui- sados, o ideal para uma viagem ao Brasil é mais de 30 dias, 13% do total acreditam que 30 dias seriam suficientes, enquanto apenas 2% acreditam que 10 dias seriam o bastante para visitar o País.

No gráfico a seguir pode-se observar que para 37% dos entre- vistados existem quatro estações bem definidas no Brasil, 20% acham que o clima é sempre quente, enquanto 15% acreditam, que em algu- mas regiões, neva no inverno. Do total pesquisado, 28% responderam “outros”, sendo que destes, 37% referem-se a um clima que varia de acordo com a região, empatado com 18%, foi identificada a existência de apenas duas estações, a predominância do clima equatorial, e o ca- lor na costa e um clima mais ameno na região amazônica, e, por fim, com 9%, a presença de 9 meses de calor durante o ano.

Figura 05: Como é o clima no Brasil?

Conforme visto anteriormente (Figura 2), o povo brasileiro foi um dos principais atrativos apontados pelos entrevistados. Aprofun- dando essa visão, os pesquisados foram questionados sobre como é o povo brasileiro com relação à hospitalidade. Nenhum dos respon- dentes vê a recepção no País com pouca hospitalidade. Pelo contrário, 60% consideram as pessoas muito hospitaleiras e 40% as consideram hospitaleiras.

Para concluir a percepção sobre a imagem do Brasil para o tu- rista italiano, os entrevistados foram questionados a respeito da situ- ação sócio-econômica no País. Para a grande maioria (65%), a situa- ção sócio-econômica não é um motivo suficiente para que se deixe de viajar para o Brasil. Para 21% dos entrevistados a situação brasileira é crítica o suficiente para que se deixe de visitá-lo, sendo que todos eles citaram o perigo, a criminalidade e as desigualdades sociais como fatores decisivos. O restante dos pesquisados (14%) não deixariam de visitar o Brasil, porém ficariam atentos aos itinerários e aos destinos escolhidos.

Apesar do fato de que um número considerável de responden- tes não deixaria de viajar para o Brasil devido à situação sócio-eco- nômica, cabe ressaltar que a pobreza foi identificada como o aspecto mais negativo presente no País (Figura 1), sendo o principal motivo para não visitar o destino.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A preocupação com a imagem do Brasil turístico, não é um fato recente. Após anos de ações políticas que vendiam o País como um destino dos “quatro esses” (Sun, Sea, Sand and Sex) (SAVELLI, 2002), entramos agora em uma fase de “arrependimento coletivo” e orgulho ferido. Esse imaginário criado, que por anos foi divulgado por ima- gens direcionadas e aceita, tanto pelos autóctones quanto pelo olhar do turista, hoje já não é mais satisfatória. O turismo no Brasil é mais do que o apelo sensual, porém o imaginário existente nos turistas estrangeiros não pode ser desfeito com um passe de magia.

O turismo existe, enquanto existe o imaginário a respeito de um lugar; quanto mais distante do concreto que é a visita em si, maior será a criação de ideias a respeito destes locais. São essas ideias que cada turista vai formando de determinado destino, baseado nas tra- dições histórico-literárias (como uma ilha, que remete ao imaginário paradisíaco, um lugar desligado do resto do mundo), na mídia, na comunicação social, no sistema educativo; tudo isso filtrado por um sistema cultural externo. Ou seja, a imagem tem sim uma parte sub- jetiva, mas tem também muito do que é concreto que nos circunda; muito das informações recebidas diariamente, tanto de maneira for- mal quanto informal.

Através do questionário e da análise dos dados, pôde-se veri- ficar que ainda são poucos os italianos que já visitaram nosso país, porém todos que ainda não visitaram têm vontade de fazê-lo e des- tacam, como principal atrativo para uma viagem ao Brasil, o povo brasileiro. Essa é uma questão curiosa: os italianos têm uma grande admiração pelo povo brasileiro, pois veem aqui um povo que, ape- sar de todas as dificuldades, desigualdades e problemas, possui uma alegria muito grande. Em outra pergunta semelhante a essa, porém fechada, o atrativo principal para essa viagem passa a ser a natureza.

Dentre as cidades já visitadas, ocupa o primeiro lugar o Rio de Janeiro, mas chama a atenção o fato de que cidades como Blumenau e Florianópolis já aparecem em percentual maior, do que cidades como Salvador.

Quando questionados sobre os aspectos negativos que pode- riam impedir uma viagem ao Brasil, em primeiro lugar, aparece a pobreza e não a falta de segurança, muito embora esta venha na se- quência, com 6 pontos percentuais de diferença. Apesar de a pobreza fazer parte da realidade do País, esse aspecto constrói um imaginário negativo, pois o indivíduo pós-moderno vive na época da estetização, da padronização do belo. Tudo tem que ser bonito, inclusive as tragé- dias (GASTAL, 2005).

Com relação à gastronomia brasileira, a maioria dos italianos conhece apenas o churrasco e a feijoada, enquanto nossa diversidade cultural permite uma gama variada de pratos típicos. Isso denota um grande atrativo turístico em potencial, que não está fazendo parte do imaginário sobre o Brasil.

Quanto ao clima do País, os entrevistados têm informações contraditórias. Poucos sabem, por exemplo, que aqui neva. Alguns acreditam que o clima é muito quente. Isso pode ser tanto positivo quanto negativo, dependendo das preferências do turista com relação às temperaturas. Todos os entrevistados consideram o povo hospita- leiro, sendo que a maioria deles avalia como muito hospitaleiro.

Pode-se considerar que, do universo pesquisado, o turista italia- no possui um imaginário positivo com relação ao Brasil, e aos poucos, o País está deixando para trás, anos de uma imagem atrelada quase que, exclusivamente, ao atrativo sexual, elemento pouco destacado durante os questionários. Em suas pesquisas, BIGNAMI (2002) dividiu o Brasil turístico em 5 categorias: o Brasil paraíso, o Brasil do brasileiro, o país

do Carnaval, o lugar do exótico e do místico e o lugar de sexo fácil. Dessas categorias, os principais elementos resultantes da presente pes- quisa, associados ao imaginário do Brasil para o turista italiano, fazem parte das três primeiras categorias citadas, o que reforça o fato de que as ideias com relação ao País podem estar mudando.

Por fim, para os turistas italianos, o imaginário criado referen- te ao Brasil ao longo dos anos, é de um destino turístico caro, que apesar da pobreza e insegurança, é povoado por pessoas alegres e muito hospitaleiras que compensam seus aspectos negativos, além dos fortes atrativos naturais existentes no País.

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