2.2 Processo de troca e dinheiro
2.2.2 Dinheiro
2.2.2.1 Medida dos valores
Na primeira seção do capítulo 3, Marx apresenta a função do dinheiro como medida
dos valores. A primeira função do dinheiro é a de ser medida universal dos valores, mercadoria
específica que assume a forma de equivalente universal, servindo à expressão dos valores de todas as outras mercadorias.
A primeira função do ouro é de fornecer ao mundo das mercadorias o material de sua expressão de valor ou de representar os valores das mercadorias como grandezas de mesmo denominador, qualitativamente iguais e quantitativamente comparáveis. Desse modo, ele funciona como medida universal dos valores, sendo apenas por meio dessa função que o ouro, a mercadoria-equivalente específica, torna-se, inicialmente, dinheiro. (MARX, CI, p. 169, grifo nosso).
Deve-se reconhecer que as mercadorias não se tornam comensuráveis entre si por meio do dinheiro, mas pelo fato de, como valores, serem todas trabalho humano objetivado. O dinheiro é apenas a mercadoria específica por meio da qual todas as outras mercadorias medem seus valores. “O dinheiro, como medida de valor, é a forma necessária de manifestação da
medida imanente de valor das mercadorias: o tempo de trabalho.” (MARX, CI, p. 169). A
forma-dinheiro ou o preço de uma mercadoria A é representada pela equação: x mercadoria A = y mercadoria-dinheiro. A forma-dinheiro ou o preço das mercadorias é a forma ideal ou representada de expressão de seus valores. Assim, não é necessário que a mercadoria seja realmente trocada por dinheiro para possuir um preço, nem que o ouro exista realmente num ato de troca para exercer a função de medida dos valores, bastando para isso que ele exista como dinheiro ideal. O ouro é o valor de uso por meio do qual se expressam todos os valores, exceto o próprio valor do ouro, que é expresso por meio de todos os demais valores de uso.
O ouro, enquanto dinheiro, é, ao mesmo tempo, medida dos valores (measure of value) e padrão dos preços (standard of value), desempenhando assim dois papeis distintos. Enquanto medida dos valores: i) é a encarnação social do trabalho humano; ii) transforma as diversas mercadorias em preços ou em quantidades representadas de ouro; iii) as mercadorias medem- se como valores; iv) o ouro é produto do trabalho e, portanto, um valor alterável. Enquanto padrão dos preços: i) é um peso metálico estipulado/fixado; ii) mede essas quantidades de ouro; iii) quantidades de ouro medem-se por determinadas quantidades de ouro, por exemplo: 1 quintal = x libras = y onças; iv) há uma fixidez das relações de medida, sendo determinado peso de ouro fixado como unidade de medida. Por um lado, uma alteração do valor do ouro não afeta sua função como padrão dos preços, pois diferentes quantidades ou pesos de ouro permanecem sempre guardando a mesma relação de valor entre si; 1 quintal = x libras = y onças permanece uma relação fixa mesmo que o valor do ouro altere-se. Por outro lado, uma alteração do valor do ouro também não impede sua função como medida dos valores; coeteris paribus, os valores relativos recíprocos entre as demais mercadorias permanecem inalterados, embora todos os valores passem a se expressar em preços de ouro maiores ou menores.
Os preços das mercadorias alteram-se sempre em decorrência de duas causas: alterações de seus valores ou alterações do valor do ouro, a mercadoria-dinheiro.
Tal como na representação do valor de uma mercadoria no valor de uso de uma outra mercadoria qualquer, também na valoração das mercadorias em ouro é pressuposto apenas que, numa época determinada, a produção de uma quantidade determinada de ouro custe uma dada quantidade de trabalho. Quanto ao movimento dos preços das mercadorias em geral, valem as leis da expressão relativa simples do valor que expusemos anteriormente. (MARX, CI, p. 173).
Por diversas razões, as denominações monetárias dos pesos metálicos passam a divergir progressivamente dos nomes originais de suas medidas de peso, entre elas: a introdução de dinheiro estrangeiro em povos pouco desenvolvidos, a substituição do padrão monetário (cobre por prata, prata por ouro etc.) e a falsificação do dinheiro pelos príncipes. Na prática, as mercadorias expressam seus valores pela forma-preço, isto é, pelas denominações monetárias ou contábeis do ouro, e não pela forma-dinheiro, isto é, por suas medidas de peso. “Na
Inglaterra, em vez de se dizer que 1 quarter de trigo é igual a 1 onça de ouro, dir-se-ia que ele é igual a £3, 17 xelins e 10 ½ pence.” (MARX, CI, p. 175). “O preço é a denominação monetária do trabalho objetivado na mercadoria.” (MARX, CI, p. 176).
Marx reconhece, desde já, a possibilidade da incongruência quantitativa entre o preço e a grandeza de valor das mercadorias, ou um desvio do preço em relação ao valor:38
A grandeza de valor da mercadoria expressa, portanto, uma relação necessária – e imanente ao seu processo constitutivo – com o tempo de trabalho social. Com a transformação da grandeza de valor em preço, essa relação necessária aparece como relação de troca entre uma mercadoria e a mercadoria-dinheiro existente fora dela. Nessa relação, porém, é igualmente possível que se expresse a grandeza de valor
da mercadoria, como o mais ou o menos pelo qual ela [é] vendável sob dadas circunstâncias. A possibilidade de uma incongruência quantitativa entre preço e grandeza de valor, ou o desvio do preço em relação à grandeza de valor, reside, portanto, na própria forma-preço. Isso não é nenhum defeito dessa forma, mas, ao contrário, aquilo que faz dela a forma adequada a um modo de produção em que a regra só se pode impor como a lei média do desregramento que se aplica cegamente. (MARX, CI, p. 176-177, grifo nosso).
Além disso, existe também a possibilidade de que a forma-preço abrigue uma
contradição qualitativa, quando coisas que não possuem valor e, portanto, não são mercadorias
(por exemplo: a consciência, a honra, a terra virgem etc.) são compradas com dinheiro e mediante um preço.