• Nenhum resultado encontrado

2.2 Processo de troca e dinheiro

2.2.2 Dinheiro

2.2.2.2 Meio de circulação

Na segunda seção do capítulo 3, Marx apresenta a função do dinheiro como meio de

circulação. Essa seção subdivide-se em três itens, a, b e c.

No item a da segunda seção, Marx aborda a metamorfose das mercadorias. O processo de troca transfere as mercadorias das mãos em que elas não são valores de uso para as mãos em que elas o são, sendo por isso metabolismo do trabalho social. Toda mudança de forma de uma mercadoria consuma-se mediante uma relação antitética na qual duas mercadorias são trocadas: uma mercadoria comum (M) e a mercadoria-dinheiro (D). O processo de troca constitui a antítese externa em que as mercadorias expressam sua antítese imanente ou interna entre valor de uso e valor: M é realmente valor de uso e manifesta idealmente seu valor de troca por meio de D, D é realmente valor de troca e manifesta idealmente seu valor de uso por meio de M. A metamorfose ou mudança de forma da mercadoria dá-se em duas etapas: venda e compra.

38 Trata-se, aqui, da diferença entre valor e preço de mercado, e não da diferença entre valor e preço de produção.

Nos livros I e II de O capital, os preços de mercado das mercadorias gravitam em torno de seus valores, enquanto no livro III, após a transformação de valores em preços de produção, os preços de mercado das mercadorias passam a gravitar em torno de seus preços de produção.

O processo de troca da mercadoria se consuma, portanto, em duas metamorfoses contrapostas e mutuamente complementares: conversão da mercadoria em dinheiro e reconversão do dinheiro em mercadoria. Os momentos da metamorfose das mercadorias são simultaneamente transações dos possuidores de mercadorias – venda, troca da mercadoria por dinheiro; compra, troca do dinheiro por mercadoria –, e a unidade dos dois atos: vender para comprar. (MARX, CI, p. 179).

Trata-se, assim, de um movimento M-D-M, por exemplo: 20 braças de linho – £2 – 1 Bíblia. Ao final do processo de troca, o trocador possui uma outra mercadoria, de valor igual à que possuía inicialmente, mas de diferente utilidade ou valor de uso.

A venda, M-D, constitui a primeira metamorfose da mercadoria, chamada por Marx de “salto mortal”: “O salto que o valor da mercadoria realiza do corpo da mercadoria para o

corpo do ouro, tal como demonstrei em outro lugar, é o salto mortale [salto mortal] da mercadoria.” (MARX, CI, p. 180). Para que a mercadoria seja efetivamente vendida, sendo

transformada em ouro, ela deve constituir valor de uso para algum possuidor de dinheiro, “[...]

de modo que o trabalho nela despendido esteja incorporado numa forma socialmente útil ou se confirme como elo da divisão social do trabalho.” (MARX, CI, p. 180). Quando um produtor

individual despende mais tempo de trabalho na produção de sua mercadoria do que a média de seus concorrentes, ele recebe por sua venda um preço inferior ao que esperaria receber, pois a vende por seu valor, dado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la. Quando uma mercadoria é produzida em excesso, superando a capacidade de absorção da demanda, ela é vendida por um preço inferior ao que equivaleria ao tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, ou então parte da produção não chega a ser vendida. Deve-se reconhecer, portanto, que a transubstanciação da mercadoria em dinheiro, ou sua venda, é contingente e acidental, estando sujeita a insucessos. Além disso, ainda quando de fato ocorra, isto é, mesmo quando a mercadoria é vendável, a venda pode ocorrer com um acréscimo ou uma diminuição anormal da grandeza de valor. Toda venda é, ao mesmo tempo, compra: M- D é sempre D-M. A primeira metamorfose de uma mercadoria é sempre, ao mesmo tempo, a segunda metamorfose contrária de outra mercadoria (exceto no caso do produtor de ouro ou prata, que troca dinheiro por mercadoria sem antes ter necessitado vender qualquer outra mercadoria para obter o dinheiro; nesse caso, o ouro ingressa no mercado em sua fonte de produção, trocando-se por uma mercadoria de mesmo valor, portanto comprando imediatamente após ser produzido, sem ter sido obtido por meio de uma venda). A figura 2.1 abaixo exemplifica a primeira metamorfose da mercadoria (M-D, ou venda):

Figura 2.1: A primeira metamorfose da mercadoria

Fonte: elaboração própria do autor a partir de Marx (CI, p. 183).

A compra, D-M, constitui a segunda e conclusiva metamorfose da mercadoria. O dinheiro “[...] é a mercadoria absolutamente vendável. [...] Se por um lado ele representa

mercadoria vendida, por outro representa mercadorias compráveis.” (MARX, CI, p. 184).

Toda compra, D-M, é, ao mesmo tempo, venda, M-D. A última metamorfose de uma mercadoria é também a primeira metamorfose de outra mercadoria. Cada produtor individual vende uma única mercadoria e compra uma diversidade de outras mercadorias, pois cada produtor produz um único tipo de produto e possui múltiplas necessidades. A figura 2.2 abaixo exemplifica a segunda metamorfose da mercadoria (D-M, ou compra):

Figura 2.2: A segunda metamorfose da mercadoria

Fonte: elaboração própria do autor a partir de Marx (CI, p. 184).

M-D-M, ou vender para comprar, é a metamorfose total da mercadoria. Esta consiste em dois movimentos antitéticos e mutuamente complementares: venda (M-D) e compra (D-M). Todo possuidor de mercadoria, em meio ao processo de troca, exerce ora o papel de vendedor, ora o papel de comprador. Em toda troca, deve haver um confrontamento entre vendedor (possuidor de M) e comprador (possuidor de D). A metamorfose total de uma mercadoria envolve quatro extremos (termos) e três atores (contratantes): “[...] o vendedor do primeiro ato

torna-se comprador no segundo, onde um terceiro possuidor de mercadorias confronta-se com ele como vendedor.” (MARX, CI, p. 185).

O conjunto de todas as metamorfoses das mercadorias, que se entrelaçam umas com as outras, constitui o processo de circulação de mercadorias.

As duas metamorfoses que formam o ciclo de uma mercadoria formam, ao mesmo tempo, as metamorfoses parciais inversas de duas outras mercadorias. [...] O ciclo percorrido pela série de metamorfoses de uma mercadoria se entrelaça inextricavelmente com os ciclos de outras mercadorias. O processo inteiro se

apresenta como circulação de mercadorias. (MARX, CI, p. 185, grifo nosso).

Figura 2.3: A circulação de mercadorias

Fonte: elaboração própria do autor a partir de Marx (CI, p. 185).

A circulação de mercadorias difere da troca direta de produtos. Na circulação, o tecelão pode trocar linho por Bíblia sem que o vendedor de Bíblias, “[...] que prefere o quente ao frio [...]” (MARX, CI, p. 186), troque Bíblia por linho, mas por uma terceira mercadoria, aguardente. “A mercadoria de B substitui a de A, mas A e B não trocam simultaneamente suas

mercadorias.” (MARX, CI, p. 186). Além disso, ao contrário da troca direta, o processo de

circulação não se extingue ao término do ciclo de uma mercadoria. Findo esse ciclo, resta ainda dinheiro nas mãos do último vendedor, que deve gastá-lo na compra de outra mercadoria. Trata- se, portanto, de um processo sem fim.

Marx realiza uma crítica à Lei de Say, não reconhecendo sua validade. O fato de toda venda ser, ao mesmo tempo, uma compra significa apenas, tautologicamente, que o número das vendas efetivamente realizadas é igual ao das compras, mas não que o vendedor leva seu comprador ao mercado ou que todas as mercadorias produzidas são efetivamente vendidas. O possuidor de uma mercadoria pode não conseguir vendê-la, isto é, pode não conseguir transformá-la em ouro, resultando ela em algo inútil. Os possuidores de dinheiro podem retê-lo por um período de tempo indeterminado, não realizando compras. “Ninguém pode vender sem

que outro compre. Mas ninguém precisa comprar apenas pelo fato de ele mesmo ter vendido.”

(MARX, CI, p. 187). O processo de circulação estabelece uma cisão na identidade imediata existente na troca direta de produtos, resultando disso a possibilidade de crises de não- realização:

A circulação rompe as barreiras temporais, locais e individuais da troca de produtos precisamente porque provoca uma cisão na identidade imediata aqui existente entre o dar em troca o próprio produto do trabalho e o receber em troca o produto do trabalho alheio, transformando essa identidade na antítese entre compra e venda. Dizer que esses dois processos independentes e antitéticos formam uma unidade interna significa dizer que sua unidade interna se expressa em antíteses externas. Se, completando-se os dois polos um ao outro, a autonomização externa do internamente dependente avança até certo ponto, a unidade se afirma violentamente por meio de uma crise. A antítese, imanente à mercadoria, entre valor de uso e valor, na forma do trabalho privado que ao mesmo tempo tem de se expressar como trabalho imediatamente social, do trabalho particular e concreto que ao mesmo tempo é tomado apenas como trabalho geral abstrato, da personificação das coisas e coisificação das pessoas – essa contradição imanente adquire nas antíteses da metamorfose da mercadoria suas formas desenvolvidas de movimento. Por isso, tais formas

implicam a possibilidade de crises, mas não mais que sua possibilidade. O desenvolvimento dessa possibilidade em efetividade requer todo um conjunto de relações que ainda não existem no estágio da circulação simples de mercadorias.

(MARX, CI, p. 187, grifo nosso).

A segunda função do dinheiro é, portanto, a de ser meio de circulação. “Como mediador

da circulação de mercadorias, o dinheiro exerce a função de meio de circulação.” (MARX,

CI, p. 188, grifo nosso).

No item b da segunda seção, Marx aborda o curso do dinheiro. A metamorfose total da mercadoria (M-D-M, ou vender para comprar) afasta constantemente o dinheiro, pois tem como ponto de partida e ponto de chegada (objetivo final) a mercadoria. Nesse ciclo, o vendedor obtém o dinheiro apenas para poder tornar-se comprador, livrando-se do mesmo ao final. O dinheiro funciona como meio de compra, realizando o preço da mercadoria, isto é, transferindo- se das mãos do comprador para as do vendedor e fazendo com que a mercadoria transfira-se destas para aquelas. O movimento do dinheiro é unilateral (apenas comprar), mas resulta do movimento bilateral da mercadoria (vender para comprar). Além disso, o dinheiro movimenta- se no sentido contrário ao do movimento das mercadorias. Ao ser trocada por dinheiro, a mercadoria sai da esfera da circulação e entra na esfera do consumo, passando a servir como meio de subsistência ou meio de produção. O dinheiro que funciona como meio de circulação, ao contrário, nunca sai da esfera da circulação, mas transita sempre em seu interior, removendo as mercadorias da mesma. “Por essa razão, embora o movimento do dinheiro seja apenas a

expressão da circulação de mercadorias, é esta última que, ao contrário, aparece simplesmente como resultado do movimento do dinheiro.” (MARX, CI, p. 189).

Isso posto, surge a seguinte questão: quanto dinheiro a esfera da circulação absorve, qual é e o que determina a quantidade de dinheiro em circulação? A resposta dada por Marx é realizada em dois passos.

Em primeiro lugar:

[...] a massa de meios de circulação requerida para o processo de circulação do mundo das mercadorias é determinada de antemão pela soma dos preços das mercadorias. Na verdade, o dinheiro não faz mais do que representar realmente a quantidade de ouro que já está expressa idealmente na soma dos preços das mercadorias. Por isso, é evidente a igualdade dessas duas somas. (MARX, CI, p. 190, grifo nosso).

O primeiro determinante da quantidade de dinheiro é, portanto, a soma dos preços das mercadorias. Toda variação do valor do ouro resulta em variações dos preços das mercadorias e, consequentemente, em variações da quantidade de dinheiro em circulação. Havendo uma queda do valor do ouro, os preços das mercadorias aumentam – mantendo-se constantes os tempos de trabalho socialmente necessários para produzi-las – e, consequentemente, deve-se aumentar a quantidade de dinheiro em circulação; e vice-versa. Quando o valor do ouro varia, ocorre um ajustamento lento e gradual dos preços das mercadorias: as primeiras mercadorias a terem seus preços modificados são aquelas trocadas pelo ouro na fonte de produção deste, isto é, no momento em que ele entra no mercado com seu novo valor; depois, por meio de um processo de contágio, todas as demais mercadorias também têm seus preços modificados, até que se equalizem às proporções de troca determinadas por seus valores. A soma dos preços das mercadorias é determinada por dois fatores: suas quantidades e seus preços individuais. É a soma dos preços das mercadorias a serem realizados que determina a quantidade de dinheiro, e não o contrário: “[...] a quantidade do meio de circulação é determinada pela soma dos preços

das mercadorias a serem realizados.” (MARX, CI, p. 191).

Em segundo lugar, tem-se que uma mesma peça monetária pode percorrer vários cursos sucessivos, realizando os preços de várias mercadorias. Por exemplo, £2 podem realizar a soma de £8 de preços, efetuando quatro compras ou percorrendo quatro cursos. Assim, um segundo determinante da quantidade de dinheiro deve ser levado em consideração, a velocidade de circulação do dinheiro: “[...] o número de cursos que as mesmas peças monetárias percorrem

num dado tempo mede a velocidade da circulação do dinheiro.” (MARX, CI, p. 192, grifo

nosso). As peças monetárias percorrem umas mais, outras menos cursos num mesmo período. Tomadas em conjunto, tem-se um número médio de cursos da peça monetária individual ou a velocidade média de circulação do dinheiro. Quanto maior essa velocidade, menor a quantidade de dinheiro em circulação; e vice-versa.

Considerando os dois fatores em conjunto, tem-se que a quantidade de dinheiro que funciona como meio de circulação é determinada pela soma dos preços das mercadorias,

determinada pelas quantidades e pelos preços das mercadorias individuais (variando positivamente com esta), e pela velocidade de circulação do dinheiro (variando negativamente com esta). Marx expressa a determinação da quantidade de dinheiro por meio da seguinte equação:

Soma dos preços das mercadorias

Número de cursos das mesmas peças monetárias = Quantidade de dinheiro (meio de circulação)

Marx reconhece que pode haver estagnação do processo de circulação das mercadorias causada por uma desaceleração da velocidade de circulação do dinheiro e que, de maneira equivocada, esse resultado é comumente atribuído à escassez de dinheiro.

Outra forma de expressar a lei que determina a quantidade de dinheiro é a seguinte: “[...]

considerando-se uma dada soma de valor das mercadorias e uma dada velocidade média de suas metamorfoses, o volume de dinheiro ou do material do dinheiro em movimento depende de seu próprio valor.” (MARX, CI, p. 196-197).

Enfim, na concepção de Marx, não são os preços das mercadorias que são determinados pela quantidade de dinheiro disponível num país, mas o contrário. Essa é uma ilusão que decorre da “[...] hipótese absurda de que, ao entrarem em circulação, as mercadorias não possuem

preços e o dinheiro não possui valor, de modo que uma parte alíquota do mingau das mercadorias é trocada por uma parte alíquota da montanha de metais.” (MARX, CI, p. 197).39

Por fim, no item c da segunda seção, Marx aborda a moeda e o signo do valor. O dinheiro exerce sua função como meio de circulação por meio de sua figura como moeda. No processo de circulação, as mercadorias confrontam-se com peças ou moedas metálicas cunhadas pelo Estado. Desconsiderando-se detalhes como a senhoriagem, as moedas de ouro e o ouro em barra diferenciam-se apenas por sua fisionomia, podendo o ouro ser constantemente transformado de uma forma em outra. As diferentes moedas nacionais constituem apenas os diferentes uniformes que o ouro veste e manifestam a separação entre as esferas nacionais ou internas da circulação das mercadorias e a esfera universal do mercado mundial, em que o ouro despoja-se desses uniformes.

39 Portanto, apesar de enunciar a equação quantitativa da moeda (EQM), Marx faz uma interpretação da relação de

causalidade existente entre suas variáveis contrária à da teoria quantitativa da moeda (TQM). Para a TQM, a quantidade de moeda determina os preços; para Marx, os preços determinam a quantidade de moeda. Há na literatura um debate sobre a relação entre a concepção de dinheiro de Marx e a teoria quantitativa da moeda; ver por exemplo: Brunhoff (1978) e Campbell (2017).

No processo de circulação, as moedas de ouro sofrem desgaste. Tem-se, assim, uma separação entre seu título de ouro – seu conteúdo nominal, sua existência funcional – e sua substância de ouro – seu conteúdo real, sua existência metálica ou material. O dinheiro deixa de ser equivalente efetivo em valor das mercadorias que realiza, convertendo-se num símbolo ou signo de valor. Além disso, coisas relativamente sem valor, como notas de papel – o papel- moeda emitido pelo Estado e de circulação compulsória –, passam ainda a funcionar como moeda simbólica.

Se o próprio curso do dinheiro separa o conteúdo real da moeda de seu conteúdo nominal, sua existência metálica de sua existência funcional, ele traz consigo, de modo latente, a possibilidade de substituir o dinheiro metálico por moedas de outro material ou por símbolos. (MARX, CI, p. 199).

Nas fichas metálicas, o caráter puramente simbólico ainda se encontra de certo modo escondido. No papel-moeda, ele se mostra com toda evidência. Como se vê, ce n’est

que le premier pas que coûte [difícil é apenas o primeiro passo]. (MARX, CI, p. 200).

Conforme Marx, o papel-moeda emitido pelo Estado deve limitar-se sempre à quantidade de ouro efetivamente requerida pela esfera da circulação, determinada pela soma dos preços das mercadorias e pela velocidade de circulação do dinheiro. Se todo o ouro em circulação é substituído por papel-moeda que passa a representá-lo simbolicamente, e se, em virtude das oscilações da circulação das mercadorias, um volume menor de dinheiro passa a ser requerido pela esfera da circulação, tem-se um excesso de notas relativamente ao ouro que deveria circular. Como resultado, as denominações monetárias das notas de papel devem alterar suas relações com os pesos de ouro que representam. Por exemplo, se o volume de notas for o dobro do volume de ouro requerido pela circulação, cada nota deve representar efetivamente metade de sua denominação monetária em termos de valores reais. “Os mesmos valores que

antes se expressavam no preço de £1 seriam, agora, expressos no preço de £2.” (MARX, CI,

p. 201). Ao considerar o papel-moeda ou o dinheiro como signo de valor, Marx admite, portanto, que os preços das mercadorias são determinados pela quantidade de dinheiro.40

40 Portanto, ao considerar não mais o ouro como mercadoria-dinheiro, mas o papel-moeda como signo de valor,

Marx faz uma interpretação da relação de causalidade existente entre quantidade de moeda e preços semelhante à da TQM, entendendo que a quantidade de moeda determina os preços. Contudo, conforme destaca Campbell (2017), partindo de Brunhoff (1978), ainda que essa seja uma interpretação possível, ela requer que se desconsidere o papel que o entesouramento, discutido adiante, possui na manutenção da relação de troca entre as mercadorias e o dinheiro e na determinação de sua quantidade em circulação. Assim, apenas quando o dinheiro não pode ser entesourado, isto é, no caso do papel-moeda emitido pelo Estado, quando a própria autoridade estatal é questionada em seu papel de guardiã das relações econômicas mercantis, que uma elevação da quantidade de dinheiro conduz a uma elevação dos preços. Se isso acontece, porém, dificilmente se pode dizer que aquilo que circula é de fato dinheiro.

O papel-moeda é signo do ouro ou signo de dinheiro. Sua relação com os valores das mercadorias consiste apenas em que estes estão idealmente expressos nas mesmas quantidades de ouro simbólica e sensivelmente representadas pelo papel. O dinheiro de papel só é signo de valor na medida em que representa quantidades de ouro, que, como todas as outras mercadorias, são também quantidades de valor. (MARX, CI, p. 202).

O ouro só é substituído por um signo ou símbolo de si mesmo, destituído de valor, na medida em que é isolado ou autonomizado em sua função como moeda ou meio de circulação. No processo de circulação, a mera existência simbólica do dinheiro é suficiente para que se processem as metamorfoses das mercadorias. O signo de dinheiro, por sua vez, só tem validade social pelo fato de o papel-moeda ter circulação forçada, em virtude de uma obrigação estatal.

2.2.2.3 Dinheiro

Na terceira seção do capítulo 3, Marx apresenta a função do dinheiro como dinheiro. “A mercadoria que funciona como medida de valor e, desse modo, também como meio de

circulação, seja em seu próprio corpo ou por meio de um representante, é dinheiro.” (MARX,

CI, p. 203, grifo nosso). Esta seção subdivide-se em três itens, a, b e c.

No item a da terceira seção, Marx aborda o entesouramento. Quando a metamorfose da mercadoria é interrompida ao meio, sem que a venda tenha como complemento uma compra subsequente, o dinheiro transforma-se de algo móvel em imóvel, de moeda em dinheiro, formando-se um tesouro. Assim, a primeira metamorfose da mercadoria, M-D, ou venda, transforma-se de um simples meio do metabolismo social num fim em si mesma: a mercadoria