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(01/09/2010)

Ao abrir meus olhos, ainda meio sonolento, reparei que o despertador mostrava exatamente meia noite. Vi que minha esposa não estava ao meu lado, mas imaginei que ela havia trabalhado demais naquela noite e, então, preferiu ficar em um hotel na cidade.

Levantei-me e fui ao banheiro. Algo me incomodava, pois fiquei me perguntando como ela havia se esquecido tão facilmente de que eu não gostava de dormir sozinho. Não suporto solidão, especialmente quando é noite de lua cheia.

Decidi sair do Duplex e ir ao barzinho que ficava próximo dali para comprar cigarros ou tomar goles de uma bebida quente.

Desci as escadas, vagarosamente, como se desejasse vê-la no próximo degrau. Nada. Quase desisti. Lembrei-me de que não havia fechado a porta, então retornei ao quarto. Desci outra vez, porém desci rápido. Não queria encontrar ninguém ali a não ser ela.

Olhei o relógio e fiquei triste. Mesmo tendo demorado tanto neste sobe e desce, não havia passado nem mesmo um minuto.

Continuei a caminhada. Ao atravessar a rua, reparei que nela não havia movimento. Nada. E eu acreditava que em uma capital as pessoas não dormiam!

Ao me aproximar do barzinho, comecei a ter uma faísca de raiva. Tudo estava fechado. Fiquei meio sem ação. Saí caminhando sem direção. Percebi que os outros bares também não estavam abertos. Decidi continuar.

Por algum tempo esqueci que havia prometido a mim mesmo que iria parar de beber, porém pensei em encher a cara com uns drinques em uma boate.

Também fechada! Fui a um ponto de ônibus e pensei em ir à praia. Esperei, esperei muito mesmo e o ônibus não passou.

Continuei andando e por mais que eu andasse não havia ninguém na rua. Achei isso estranho, então tentei ligar para minha esposa.

O celular estava sem área.

Fiquei preocupado e comecei a ir em direção ao bairro que eu morava antes, acreditando que talvez pudesse encontrar um amigo.

Ninguém. Bati na porta da casa de três amigos e nada. Tentei relaxar, todavia estava triste por ter ficado sozinho em casa.

Prossegui em minha caminhada. Olhei mais uma vez para o relógio, ainda era meia noite. Notei que isso não fazia o menor sentido, o tempo não passava, então joguei o relógio fora.

Após algumas horas perambulando, vi que o dia já estava nascendo. A luz do sol veio até mim e me deu certa tranquilidade.

Pensei em tomar um banho de mar.

A água estava muito fria e, por isto, preferi apenas andar um pouco mais. Não via ninguém em nenhuma das partes da praia.

Tudo isto era estranho. Falei comigo mesmo:

― Mas onde estão as pessoas? ― falei em voz alta.

Irritado, comecei a pensar em retornar ao Duplex caminhando, porém não aguentava andar como antes. Meus pés já estavam cansados e doloridos. Respirei fundo e fui ao ponto de ônibus. Nada. Nem ao menos um. Andei mais.

Ao ver que eu havia percorrido todo o trajeto de volta ao Duplex, notei que as ruas permaneciam vazias.

Tudo estava fechado. Olhei em um relógio velho em frente a uma loja e ele mostrava meia noite. Tudo está com defeito? Que é isso? Minha cabeça estava quase explodindo.

Comecei a imaginar muitas coisas: será que todos foram raptados por ETs? Ou foram levados por uma nave espacial? Será que a terra se abriu e todos caíram na cratera? Será que há uma guerra e as pessoas tiveram que fugir rapidamente? Foram arrebatados? Ou deve ser uma “pegadinha” criada por uma emissora de TV? Nada disso, todos sumiram.

Tentei me acalmar e então me lembrei de uma canção do Raul Seixas: “O dia em que a terra parou”. Teria sido isso? Não era uma canção, mas uma Profecia. Talvez o Apocalipse de João?

Ao entrar em meu quarto vi que tudo estava do mesmo jeito.

Eu estava com muito sono. Deitei-me na cama ainda desforrada.

Não demorou para eu pegar no sono. De repente, abri meus olhos e vi que tudo estava sombrio. Dei um grito:

― Socorro!

Ao meu lado, uma luz pequena se ascendeu lentamente e, depois, ficou maior. Tremi na cama ao ver isso. Ouvi uma voz suave que me perguntou:

― Que tem?

― Medo! Onde estão as pessoas do mundo? ― perguntei sem olhar para a luz.

Ficou com medo do escuro? A luz acabou depois da chuva. Você

teve outro pesadelo. Agora, vá dormir que ainda é meia noite.

Lembre-se de que amanhã é dia primeiro e você precisa acordar cedo. Boa noite! Tenta não fazer mais barulho!

A CARTA

(05/09/2010)

Alguns dias depois de noites mal dormidas, estava eu na redação do jornal onde trabalho, quando Williams James mostrou-me a notícia que ele havia escolhido para a manchete:

Havia na cidade uma moça chamada Sara. Uma moça mimada que sempre tinha tudo o que queria e mandava em todos de sua casa. Ela era a personificação da meiguice para os de fora, mas desagradabilíssima para os de casa. Então, em uma manhã de segunda-feira, ela chegou da escola, entrou no quarto, fechou a porta e apagou a luz. As pessoas da casa estranharam esta atitude, pois sempre que ela chegava da escola dava ordens para prepararem seu lanche. Neste dia, ela entrou calada e triste. Entretanto concordaram que era apenas uma coisa da idade. “Estes jovens de hoje andam com os nervos à flor da pele”, pensou sua mãe. Durante três dias, a porta do quarto de Sara permaneceu fechada. Depois de muita insistência, seu pai, o senhor Cláudio, chegou ao auge da preocupação com a filha e resolveu pedir para que ela abrisse a porta – desta vez, de forma desesperadora. Seus esforços foram em vão, a porta não se abriu. Ele, em uma ação agressiva, arrombou a porta e, ao olhar para o teto do quarto da moça, tomou um terrível susto: ela estava pendurada em uma corda. Sara tinha se suicidado. Ela ainda usava as mesmas roupas que tinha regressado da escola três dias antes.

Ao ler isto, não posso negar que aquilo me doeu. Não falei nada. Pedi permissão e saí da sala sem fazer comentários. Meu chefe estranhou aquela atitude, pois sabia que eu estava acostumado a ler e até mesmo a relatar fatos bem mais duros que aquele.

Tentei almoçar – a comida me parecia úmida demais. Nem aceitei o café. Saí dali meio enjoado e sem a menor vontade de retornar ao trabalho naquele dia. Tudo ficou sombrio e desprezível.

Não senti interesse em nada mais pelo restante da tarde. Fui para casa.

Melissa estava sentada como de costume na sacada do Duplex. Ela usava um vestidinho vermelho, com detalhes pretos.

Suas curvas suaves e sua aparência física ainda eram a mesma de outrora. Dez anos casados e nada de filhos. Isto me fez lembrar daquela moça. Sara – este era o nome de uma jovem que teve sua vida interrompida, ceifada!

Eu sentia que precisava esquecer essa história. Olhei para os olhos de minha esposa, que sempre me fizeram feliz. Por muitos momentos eles foram reconfortantes – ainda são.

Melissa me conhecia bem, deve ter percebido meu olhar introspectivo. Ela, no entanto, não me perguntou nada. Olhou para mim insinuante e apontou para o quarto. Eu a segui resignado. Ao aproximar-se da cama, ela começou a tirar o vestido e tocou-me com excitação. Eu deixei a tristeza de lado e a envolvi em um abraço caloroso. Ela tirou o restante da roupa e, antes de deitar, também tirou a minha. Passamos horas e horas nos amando.

Adormeci. Despertei algum tempo depois e vi que a minha amada chorava e soluçava. Não entendi o que se passava com ela.

Foi aí que notei que ela segurava um papel em suas mãos. Pensei que fosse a manchete do jornal ou qualquer outra coisa. Tentei acalmá-la, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Ela não parava de lamentar. Pedi o papel e li o que havia sido escrito e tomei o maior susto ao ler essas palavras:

Melissa você é como uma mãe para mim e por isso eu preciso te escrever essa carta amanhã quando eu voltar para casa eu me matar pois não aguento mais viver assim o meu pai minha madrasta minha tia meus irmãos e irmãs não ligam para mim e acho até que eles nem irão notar minha ausência por um dia inteiro eu te amo professora não chore ore por mim

Sara (02/09/2010)

No documento Sumário ISBN 978-85-463-0494-3 (páginas 36-41)

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